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sábado, 19 de março de 2016

Realidade deformada

Matthias Grunewald - The Entombment from Isenheim Altarpiece (1512-16)

Foi devido a W. G. Sebald que olhei com atenção para a obra de Matthias Grunewald. Na sua primeira obra publicada, Do Natural- um poema elementar, Sebald propõe uma deambulação poética (ou talvez uma investigação policial) em forma de tríptico, na qual Grunewald constitui a primeira parte. O meu interesse por este pintor da transição dos séculos XV para o XVI deve-se ao facto de ele, juntamente com Brüghel, o Velho, El Greco, Goya e até Van Gogh, ser apontado como um dos precursores do Expressionismo.

Como se sabe, o Expressionismo é uma reacção ao Naturalismo e ao Impressionismo, à pretensa natureza descrita - ou positiva - destes. O Expressionismo propõe uma visão marcadamente subjectiva da realidade, uma glorificação da vida interior que se expressa na arte. O fascínio que fui adquirindo pela pintura expressionista não é menor do que aquele que sempre senti pela pintura impressionista, aquela que o Expressionismo pretendia superar, se é que esta palavra tão ao gosto da dialéctica hegeliana, faz sentido em arte.

A expressão dos sentimentos do artista faz-se através de processos de deformação da realidade. E é isto que me interessa. A deformação da realidade era uma forma de expressão da subjectividade, que se diferenciava das objectividades da descrição naturalista ou da impressão dos impressionistas, propondo uma visão quase incomensurável com o real. A questão, porém, é que hoje em dia a realidade apresenta-se objectivamente deformada. A deformação deixou de ser uma expressão de uma subjectividade dilacerada em busca de uma expressão. A deformação já não pode ser lida como a intromissão da subjectividade na descrição do mundo. Ela tornou-se na descrição objectiva da realidade, de uma realidade cuja natureza é a deformação, como se Impressionismo e Expressionismo se tivessem casado no espírito do mundo.

domingo, 6 de março de 2016

Olhares excêntricos

Max Ernst - The Eye of Silence (1933-34)

O falhanço total do marxismo [...] e o dramático desmembramento da União Soviética são apenas os precursores do colapso do liberalismo ocidental, a principal corrente da modernidade. Longe de ser alternativa ao marxismo e a ideologia reinante do fim da história, o liberalismo será a peça seguinte do dominó que cairá. [Takeshi Umehara]

Nós, ocidentais, deixamo-nos envolver demasiado nas nossas querelas particulares como se fossem a única coisa existente à face da terra. Ainda hoje somos vítimas dessa cisão que constitui a modernidade: liberalismo e socialismo. O que compreendemos quando lemos as palavras de Umehara, ou quando o mundo islâmico rejeita os nossos valores? O que compreendemos neste momento em que a crise do euro conjugada com a crise dos refugiados parece estar a iniciar aquilo que poderá ser a derrocada entrevista pelo pensador japonês? Continuamos, cada vez mais perplexos, agarrados à necessidade de fazer triunfar ou o nosso pequeno liberalismo ou o nosso irrequieto socialismo. A divisão entre liberalismo e marxismo ocultou uma outra, muito mais funda e estrutural: tradição e modernidade. A nós, ocidentais, a palavra tradição repugna-nos, mas aos outros? Aos outros, parece que não. Enquanto tudo parece desagregar-se, continuamos como aqueles jogadores de xadrez que, enquanto a guerra os envolvia, nem davam por ela, de tão concentrados no jogo. A cada um as suas pedras, brancas para uns, pretas para outros. Mesmo que, de fora, gritem que tudo cai, nem damos por isso. É preciso que sobre as nossas antigas tradições se erga o estandarte da modernidade, seja o do liberalismo, seja o do socialismo. Mesmo que isso signifique o fim do que somos. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A Europa e o Islão

Jorge Colaço - Batalha de Ourique

Existe um problema interno ao mundo islâmico, por razões de ordem religiosa, guerras terríveis entre xiitas e sunitas. E ao mesmo tempo uma consciência muito aguda de que o Ocidente representado pela Europa está em declínio, sentem a nossa fraqueza enquanto potência mundial e jogam o jogo que sempre se jogou na Humanidade, os mais poderosos, ricos, os mais empreendedores, os mais guerreiros, os mais violentos, têm tendência a impor a sua lei. (Eduardo Lourenço, ver aqui)

Por fim alguém disse claramente o que há para dizer. No mundo muçulmano há não só a consciência do declínio da Europa como a ambição de impor a essa Europa a cosmovisão islâmica. Este é o principal problema que afecta a Europa e não o défice estrutural dos países do Sul ou mesmo as desigualdades sociais. Tanto um como as outras são importantes, mas, perante uma civilização que, apesar de científica e tecnologicamente atrasada, tem um forte dinamismo demográfico, riqueza material e ambição de conquista, as questões do declínio ocidental e da sua crescente impotência são absolutamente decisivas a médio e a longo prazo.

O declínio europeu - esse declínio que constitui uma janela de oportunidade para o avanço do Islão - é marcado pela decadência demográfica, pelos sentimentos de exclusão nacionalista, os quais pululam na Europa e arrastam consigo conflitos entre os países europeus, e pela destruição do pacto social interclassista proveniente da segunda grande guerra, destruição motivada pela incidência crescente da ideologia liberal nas decisões europeias. Estes factores, porém, são apenas o resultado de um outro factor que, devido às nossas crenças modernas e iluministas, deixámos de ver: a decadência do cristianismo no terreno social da Europa.


O problema do declínio da Europa é, em primeiro lugar, uma questão religiosa, resulta do contínuo apagamento de um dos pilares - juntamente com a antiguidade grego-latina e a ciência moderna - que forma a nossa cultura, isto é, o cristianismo. E é o vazio deixado por este que está a abrir profundas brechas na Europa, por onde entram não apenas ideologias destruidoras dos consensos sociais  e nacionais necessários como as pretensões daqueles que querem substituir o vazio deixado pelo cristianismo pela submissão a uma outra religião. O pior de tudo isto é que muitos europeus - onde se encontra uma parte substancial de uma classe política leviana entretida com as dívidas, as regras, a mercearia - não reconhece o problema e aqueles que o reconhecem estão longe, muito longe de saber lidar com ele.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A língua e a ortografia

Javier Rodríguez Quesada - Degradación I

Com efeito, toda a degradação individual ou nacional é imediatamente anunciada por uma degradação rigorosamente proporcional na linguagem. (Joseph de Maistre)

Perante o acordo ortográfico de 1990, bem como diante da reforma ortográfica de 1911, pergunto-me, muitas vezes, sobre o que havia, na antiga ortografia, que causasse tamanha repulsa e tão grande furor reformista. Tanto em 1911 como em 1990 há uma simplificação da forma de escrever o português. Estas simplificações, todavia, não são mais do que meras degradações da língua e da linguagem. O grande inimigo dos simplificadores ortográficos é o passado, a sua espessura, as camadas sedimentares que se foram depositando nos vocábulos. A destruição - isto é, a simplificação - volta-se contra a presença visível da antiguidade clássica na língua. Essa presença torna-se visível - é preciso não esquecer que uma língua não tem apenas uma componente sonora, tem também uma componente gráfica - nas consoantes mudas ou que se encontram num processo de emudecimento. São elas que, na sua aparente inutilidade, lembram ao utilizador da língua as suas raízes ancestrais, a sua ligação com um passado que nos constituiu e nos instituiu. Rasurar a visibilidade do grego e do latim no português é como rasgar as fotografias dos nossos avós, apenas porque a morte os emudeceu. Esta rasura, porém, não é apenas a degradação da língua e da linguagem. Ela é, seguindo a lição de Joseph de Maistre, o sinal de uma degradação ontológica do todo nacional. Onde podemos nós encontrar essa degradação? Na simplificação. Simplificar significa destruir a complexidade, tornar tudo mais fácil, menos exigente, menos rigoroso. O que as elites políticas aprovaram em 1911 (já preparado no século XIX) e em 1990 não foi outra senão a confissão da sua descrença na capacidade dos portugueses para lidar com a complexidade, com o exigente e com o difícil. Aprovaram um programa de degradação nacional, o qual cresceu por todo lado e a tudo colonizou.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Sobre o sacrifício

Corrado Giaquinto - O Sacrifício de Ifigénia

Um perigo idêntico, numa leitura acrítica de Maistre, seria acreditar que a irracionalidade social e a violência simbólica, que tanto o interessaram, pertencem ao passado e que podem ser ignoradas com segurança. O seu trabalho ilumina uma classe de factos políticos e sociais geralmente ignorados pela tradição, a que ele se opôs, do pensamento político inspirada pelo Iluminismo. (Owen Bradley)

Joseph de Maistre é um autor, apesar de relativamente desconhecido, muito importante para compreender o mundo em que vivemos. Não por ter sido um reaccionário que, com uma prosa brilhante e anunciadora do Romantismo, se opôs à Revolução Francesa, mas porque pensou naquilo que o Iluminismo, um seu inimigo de estimação, recalcou. Um dos temas que prendeu a atenção reflexiva de Maistre foi o sacrifício. Nele cruzam-se a irracionalidade social e a violência simbólica. Qual a importância de pensar o sacrifício nos dias de hoje? 

Dois motivos nos conduzem para essa necessidade. Em primeiro lugar, a ambivalência do discurso económico e político que, ao mesmo tempo, apela ao consumo e à maximização dos prazeres como motor dos mercados e, por outro lado, impõe políticas de austeridade que exigem práticas sacrificiais que diminuem o consumo e impõem uma minimização do princípio de prazer. A situação cai directamente nas categorias da irracionalidade social (exigências contraditórias) e da violência simbólica (as austeridadess que o corpo deve sofrer para refrear a busca de prazer). 

Em segundo lugar, a reflexão de Maistre sobre o sacrifício pode ajudar-nos a compreender aquilo que para nós, ocidentais, é motivo de preocupação e escândalo. Traduzo um pequeno excerto de uma entrevista de Pierre Hassner, um investigador frnacês de Relações Internacionais, na edição de 2016 do Bilan du Monde, editado pelo Le Monde: Com efeito, tudo o que faz a complexidade e a dificuldade do mundo é que há pessoas que pensam sinceramente ganhar o paraíso e fazer triunfar a «verdadeira religião» sacrificando a sua vida para matar os «infiéis». O terrorismo islâmico trouxe para a primeira linha política a problemática sacrificial. É esta problemática - que o Iluminismo recalcou pensando que a luz da razão dissolvia a irracionalidade sacrificial - que está na base da complexidade da situação geopolítica internacional. 

Tanto a situação económico-financeira internacional como a situação geopolítica são marcadas pela desordem, uma desordem introduzida pela desmedida dos homens. O sacrifício (deixo de lado a teoria da reversibilidade, a qual ajudaria explicar a vitimização dos sacrificados) é uma forma de contrabalançar estar desmedida e este excesso. O que está em jogo não é utilizar Maistre para legitimar os sacrifícios que ocorrem. O que está em questão é pensar, na sua economia profunda, o significado social desses sacrifícios e encontrar novos caminhos, tanto na ordem económico-social como na ordem geopolítica. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Voltar à menoridade

Milton Avery - Summer Reader (1950)

Os EUA são pródigos em movimentos estranhos. Este é mais um. Jovens universitários estão a pedir que os protejam do conteúdo de certos livros que consideram perigosos. Estes livros, em geral, são as grandes obras de literatura (ler aqui). A tese que é arguida pela psiquiatra Manuela Correia, no artigo do Público, é o da infantilização da sociedade. É verdade, as sociedades ocidentais, com a norte-americana em destaque, estão cada vez mais infantilizadas. 

Há, todavia, neste tipo de movimento, dois sinais muito preocupantes. Em primeiro lugar, o facto da cultura superior - no caso, a grande literatura - se tornar ameaçadora para os universitários. Isto aponta para aquilo que a Universidade se está a tornar - ou pode vir a tornar - sob as exigências dos alunos, hoje, segundo a cartilha económico-política em vigor, vistos como clientes. E os clientes, como se sabe, têm sempre razão.

Em segundo lugar, esta comportamento reflecte o crescimento da intolerância. Esta atitude, embora menos espectacular, não é qualitativamente diferente dos ataques ao património cultural perpetrados pelo dito Estado Islâmico. Também os militantes deste se queriam proteger - a eles e à humanidade - daquilo que consideram um perigo. A ameaça ao Iluminismo - naquilo que ele tem de mais positivo e criador - não vem só de fora do Ocidente. Também aqui as forças obscuras operam para fazer voltar o homem ao estado de menoridade.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O fim da história

Marcus Stone - The End of the Story (1900)

Um acaso fez-me voltar a este quadro de Marcus Stone. O que me prende nele não é a figura feminina por si mesma, não é a descrição ostensiva de um ambiente social, não é, tão pouco, a silenciosa concentração na leitura de quem anseia por chegar ao fim da história. A tradução portuguesa do título do quadro, The End of the Story, permite uma contaminação entre o fim de um romance e o fim da História. E é esta contaminação que me devolve ao quadro, à mulher que lê e anseia por chegar ao fim da narrativa. Enquanto lê, deixa descair o braço esquerdo e permite que a mão acaricie um gato. É esta displicência que me fascina e me leva a imaginar o outro fim da História. O melhor que pode acontecer, quando a História está a acabar, é estarmos sentados e, despreocupadamente, acariciarmos um gato, até que tudo esteja consumado. Como no fim de um romance, outro poderá ser lido, também outra História virá, mesmo que nela já não tenhamos lugar. E uma coisa parece adquirida. Não faltarão gatos a solicitar a displicência de uma carícia.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Europa, Europa

François Boucher - O Rapto de Europa

Talvez a Europa tenha já começado a abandonar os valores que ergueu no pós-guerra. Talvez um deus, em forma de touro (esse símbolo de uma natureza impetuosa), a tenha já tomado e a arraste para perda. Talvez. Seja como for, ainda há motivos para querermos ser europeus e ter nisso orgulho. Por exemplo, é bom na Europa não se executarem pessoas que estão há 36 anos no corredor da morte, como aconteceu agora no estado da Geórgia, nos EUA. Não o fazer é sintoma de ter valores com os quais vale a pena viver. É bom na Europa não se condenar, por delito de pensamento, um poeta à morte, primeiro, e, perante a indignação internacional, a oito anos de cadeia, 800 chicotadas e a renegar o seu próprio pensamento, como aconteceu agora na Arábia Saudita. Não condenar ninguém pelo que pensa é sinal de ter valores com os quais vale a pena viver. Se a Europa soçobrar na tormenta que a atravessa, quem, no nosso pobre planeta, erguerá os valores pelos quais a vida vale a pena ser vivida?

sábado, 23 de janeiro de 2016

Em louvor da abulia

Franz Josef Kline - Tragedy (1961)

Em Syllogismes de l’Amertume, Cioran, num dos seus aforismos, diz: “Os abúlicos, porque deixam as ideias sem as alterar, deveriam ser os únicos a ter acesso a elas. Quando os atarefados se apropriam delas, a doce confusão quotidiana organiza-se como tragédia.”

O mundo moderno, fundamentalmente o mundo pós-Marx, tornou-se o imenso palco de uma tragédia desmesurada. Na retaguarda dessa tragédia está a força do pensamento. Aqui o termo força deve ser compreendido no sentido de violência. Pensar é o exercício de uma violência, como o notou Heidegger, de uma violência muito específica: reduzir o mundo real e concreto na sua multiplicidade de formas ao mundo asséptico e organizado das relações entre conceitos. Um conceito não é uma coisa, apenas uma representação. Que haverá de mais violento do que esta redução das coisas a puras representações mentais?

Este supremo exercício da violência é subtil, o mais das vezes só alguns – a quem dão o equívoco nome de filósofos – dão por ele. Imaginemos que estamos perante um terramoto. A terra torce e abana, mas talvez a vida ainda possa continuar. A tragédia vem depois, com as réplicas e o possível maremoto. Quando os homens querem levar à prática os seus conceitos (esses terramotos originários) a tragédia começa, pois a realidade está muito para além desses conceitos.

Porque falei em Marx? Por causa das suas 11 teses ad Feuerbach. Não passam de um repositório de apelos ao crime. Não me estou apenas a referir à célebre 11.ª tese, “Os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes modos; do que se trata é de o transformar.” Observe-se a 2.ª tese, “É na prática onde o homem deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade, o poder, a terrenalidade do seu pensamento.” Está aqui tudo: a violência, a tragédia, a coacção infinita sobre a vida e o homem. Marx tinha uma fixação na filosofia de Hegel. Mas esta, um poderoso exercício intelectual, uma redução do existente ao lógico, não tinha repercussões práticas. Na sua juventude, Marx julgou dever realizar a filosofia, fazer com que a realidade se adequasse a ela. A tragédia e a decepção que foi a experiência comunista começou aqui. A doce confusão, la douce pagaille, no dizer de Cioran, tornou-se no mundo planificado e sobrevigiado até descambar no goulag. Realizar a filosofia só pode levar à maior das tragédias.

Mas se falei de Marx, não foi por causa do marxismo, mas de uma nova forma de violência conceptual que se abate sobre o mundo, um mundo onde os inimigos de Marx triunfaram. A vida quotidiana, aquela onde os homens vivem la douce pagaille, é cada vez mais colonizada pelo pensamento, pelos conceitos, pelos esquemas abstractos. As sociedades pós-modernas ou tardo-capitalistas, na linguagem de Habermas, foram colonizadas por esta infinita necessidade de controlo da vida prática pelos conceitos teóricos. As ciências sociais e humanas, com destaque para a economia, a sociologia e as chamadas «ciências da educação», constituem-se como novas formas de opressão do quotidiano dos homens. Não pelo seu aspecto científico enquanto tal, mas pela obsessão daqueles que as utilizam no mundo quotidiano para vergar o real aos conceitos e às prescrições derivadas desses campos teóricos. Uma violência sem fim cai sobre os cidadãos, sob a forma do discurso mole da avaliação, da organização e da eficiência. Onde deveria prontificar a fluidez vital, os contactos informais, a responsabilidade e a liberdade individuais, ganha preponderância o colectivo - não se confunda com o comunitário -, os mecanismos abstractos, a coacção inominável. As ciências sociais, económicas, educacionais e afins são o suporte do crime, o lugar de onde os bandoleiros disparam sobre os inocentes.

A razão emancipou-se do corpo, individual e social, onde estava ancorada, e num delírio sem fim está a tornar a vida dos homens numa tragédia. O inferno é o delírio da razão autónoma, do racionalismo sem razoabilidade. O mundo foi tomado pelos atarefados de Cioran, os quais, sem qualquer pudor, estão apostados em transformar cada canto da vida num indizível gulag. O pior é que esses atarefados, sempre dispostos a manejar umas ideias e uns conceitos e a pô-los em prática, vivem ao nosso lado, conhecemo-los, falamos com eles. Mas não nos iludamos, eles não são nossos amigos. Emprenhados pelo delírio da razão técnica, exaltados pela glória que imaginam que os espera, destruirão quem quer que seja que se oponha ao seu desígnio de tornar o mundo racional, de violentarem a vida em nome do esquematismo abstracto que um dia, numa qualquer universidade – outro local cada vez mais suspeito – lhe sopraram.

Mas então a filosofia não será um crime? Não, os filósofos sabem que a filosofia não passa de um jogo, uma forma secundária de literatura. Os filósofos não se imaginam a transformar o mundo das ideias em realidade através da prática. No fundo, Marx nunca foi um filósofo. Os filósofos, apesar de encheram a boca com a razão, sabem muito bem quais os seus limites e não têm ilusões sobre a realização prática da filosofia. Não são abúlicos, mas levam uma vida inteira para se tornarem abúlicos. A filosofia é o exercício de domesticação das veleidades da vontade, isto é, da razão prática. É por isso que ela é um amor à sabedoria. Será sabedoria quando o filósofo for tomado pelo silêncio, pelo grande silêncio. (averomundo, 2007/05/25)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O perigo de jogar Xadrez

Lucas van Leyden - The Game of Chess (1508)

Afinal o Xadrez é uma coisa perigosíssima para a alma e nalguns sítios ainda mais para o corpo. Esta estapafúrdia fatwa (decreto religioso) do grande mufti da Arábia Saudita, xeque Abdulaziz al-Sheikh, contra o jogo de Xadrez, estabelece um ponto de união entre sunitas e xiitas, pois também o líder dos xiitas iraquinos, Ali al-Sistani, considera que é proibido jogar Xadrez. A atitude espontânea de um ocidental é sorrir e não levar a sério este tipo de coisas. Elas são contudo reveladoras da incomensurabilidade entre o Islão e o Ocidente.  É insuportável para um ocidental que alguém regule a sua vida, como se ele não possuísse livre-arbítrio e, na prática, estivesse eternamente na menoridade. 

O que está em jogo no conflito de valores entre o Ocidente e o Islão é só uma coisa: a liberdade do indivíduo. A possibilidade de cada um fazer o que quer da sua vida, desde que isso não afronte os direitos dos outros. Se há uma coisa que devemos, ainda hoje, ao Iluminismo, e a qual devemos lutar por conservar, é a saída da menoridade, o direito de governar a nossa vida como muito bem entendermos, sem ter de prestar contas a ninguém. Proibir o jogo de Xadrez não é uma mera anedota. É o sinal de uma cultura que, quem ama a liberdade, deve considerar intolerável. E não, não sou etnocêntrico. A liberdade que quero para mim, admito - e desejo - que seja querida por qualquer outro, seja ocidental, muçulmano, taoista ou hindu. Há valores que são superiores a outros, aqueles que podem ser partilhados por qualquer um.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Da vida civilizada

Francisco de Goya y Lucientes - Cruel lástima!

Na sobrevivência cada qual é inimigo do outro, e quando medida por esse triunfo elementar (o de sobreviver), toda a dor é insignificante. (Elias Canetti, Massa e Poder)

A vida civilizada que, até aqui, nos tem sido dada a viver faz-nos esquecer, com demasiada facilidade, que a civilização não é um dado adquirido. A qualquer momento a queda no não civilizado é uma possibilidade que nunca deixa de assombrar a vida. A decisão fundamental - no sentido de um fundamento que escore o edifício da civilização - que pode afastar a queda na barbárie reside em evitar que a massa humana se aproxime perigosamente do limiar onde a luta pela sobrevivência é central. No fundamento de uma vida civilizada não está nem a educação nem a cultura, mas uma vida material que permita aos seres humanos afastarem do seu horizonte de preocupações a luta pela sobrevivência, essa luta onde qualquer dor é insignificante. Já que estamos a entrar num ano novo, seria bom que, Europa fora, não se esquecesse que aquilo que é ainda uma vida civilizada assenta no afastamento para longe desse fantasma, do retorno desse fantasma.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Modernização e resistência

Mario Sironi - Composizione futurista (1911)

Um aspecto pouco focado nos acontecimentos de Paris, da passada sexta-feira, prende-se com a sua relação com os processos de hiper-modernização pelos quais passa o mundo. Para além da querela entre modernos e pós-modernos, convém salientar que estamos a assistir, devido à revolução tecnológica em curso, à elevação ao paroxismo de algumas características centrais da modernidade. Hoje em dia, as sociedades ocidentais - e muitas outras - são marcadas por um hiper-individualismo, por uma mobilização de pessoas e matérias-primas ilimitada, por um ritmo de vida marcado pela velocidade da luz e, como consequência, a contínua destruição de todos os laços comunitários, desde a família às próprias comunidades políticas, religiosas e sociais.

Quando o subjectivismo moderno se tornou, a partir da Revolução Industrial, um individualismo feroz, a grande reacção dá-se na emergência dos movimentos socialistas, anarquistas e comunistas, todos eles marcados por uma estranha combinação entre a nostalgia das massas proletárias pela sociedade anterior, marcada pela ordem clara, segura e imutável onde estava atribuído a cada um o seu lugar, e um sobre-iluminismo dos intelectuais que viam na ascensão da burguesia um passo decisivo, mas a superar, no caminho de uma nova ordem onde todos voltassem a encontrar um lugar seguro. De certa maneira, a reacção à modernização, nesta fase (séculos XIX e XX), foi o resultado de um compromisso entre o mundo antigo de uma tradição vinda da Idade Média (a memória nostálgica das massas deserdadas devido à Lei dos Cercados) e uma elite Iluminista que não se revê na visão individualista e burguesa do Iluminismo.

O desenvolvimento dos processos de modernização (poderemos falar de hiper-modernização) acabou por mostrar os limites desta primeira reacção, o que ficou simbolizado pela Queda do Muro de Berlim. Aquilo que parecia, contudo, a libertação dos processos de modernização ilimitada (ou de hiper-modernização ilimitada) de todos os constrangimentos e obstáculos acabou por gerar um novo antagonismo, no qual, com excepção do uso da tecnologia, foi evacuada qualquer ligação ao Iluminismo e à modernidade. Esta nova reacção - que se manifesta nos fundamentalismos religiosos, entre os quais o islamismo radical é o mais activo e espectacular - não propugna já um compromisso entre as antigas formas de vida comunitária e a modernidade. Pelo contrário, ela pretende pura e simplesmente retornar a uma tradição comunitarista, de onde sejam banidos todos os valores resultantes da modernidade: individualismo, laicismo do Estado, autonomia moral dos indivíduos, liberdade de opinião, de crença religiosa, de perspectiva política, igualdade entre géneros, respeito pelas orientações sexuais diversas, etc.

Aquilo que parece desenhar-se, se olharmos a história do mundo a partir do Renascimento ou do início da Modernidade, é que o desenvolvimento dos processos de modernização são cada vez mais rápidos e intensos, e, nessa crescente rapidez e intensidade, destruidores das formas tradicionais de vida, mesmo que estas sejam muito recentes e geradas pela própria modernização. Esta dinâmica interior à modernização (esta revolução permanente que lhe está na base)  gera aquilo que lhe resiste. E o que lhe resiste afasta-se cada vez mais dessa própria modernização. O radicalismo fundamentalista religioso, com a sua aspiração ao retorno a uma tradição pura, é a consequência dos actuais processos de hiper-modernização, como em tempos o anarquismo e o comunismo o foram em relação à modernização introduzida pela Revolução Industrial inglesa. Se assim for, poderemos esperar que a continuação da intensificação dos actuais processos hiper-modernizadores vá gerar formas de reacção ainda mais voltadas para o passado, formas ainda mais mostruosas, mas que têm de ser lidas como imagens especulares invertidas dos processos de modernização. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Hipótese excêntrica

Xaime Quessada - La guerra (1967)

Se fizermos um mapa dos conflitos que assolam o nosso pobre planeta, o que é que descobrimos? Comum a todas eles é a presença do Islão. Que saída poderá haver para uma civilização biologicamente pujante mas culturalmente falhada? Não vejo outra senão a guerra. A guerra que o Islão traz consigo não deriva tanto da religião como da biologia. Há sempre a possibilidade de interpretar os factos de uma maneira mais ousada, digamos: a natureza revolta-se contra uma cultura que a tem aniquilado e está disposta a pôr o planeta a ferro e fogo. O Islão seria não a voz de Deus, mas a dessa natureza rebelada contra a humanidade. Quantas vezes são as hipóteses excêntricas que iluminam o nosso caminho? (averomundo, 2007/11/04)

domingo, 1 de novembro de 2015

A tirania da mediocridade

Tom Wesselmann - TV Still Life (1965)

Toda a minha vida vivi rodeado de jornais e de informação. Quando nasci havia a imprensa escrita e as emissoras de rádio. A RTP dava os primeiros passos em Portugal. A televisão cresceu comigo, diversificou-se, secundarizou jornais e rádio, viu chegar a internet e o mundo da comunicação e da informação digitais. Os meios de comunicação foram aumentando e o ruído dessa informação cresceu à minha volta. Sempre fui condescendente e, por vezes, surpreendo-me com um espírito de coleccionador de inutilidades.

Na universidade aprendi que Hegel teria dito, talvez no início do século XIX, que a leitura matinal do jornal é a oração da manhã do homem moderno. Estaríamos perante uma meditação sobre os caminhos do espírito do mundo. As possibilidades de oração, de lá para cá, como referi em cima, multiplicaram-se. Há anos que não compro um jornal de papel, mas tenho quatro assinaturas de jornais em versão on-line. O problema é que, passadas tantas décadas de esforçada oração ao espírito do mundo, o deus a que a informação presta culto, descobri há muito, não é mais do que um ídolo, um ídolo com pés de barro.

Nos últimos tempos, uma voz obscura fala dentro de mim. Não fala, murmura. O murmúrio que oiço diz-me que é tempo de frugalidade e que não há maior frugalidade que a pura abstinência. Abstinência significa aqui libertar-se da tirania da informação, emancipar-se do culto do ídolo mundano. O ruído constante da esfera pública não é apenas um sinal da crescente – e ao que parece imparável – poluição espiritual do homem. É o exercício sistemático de uma ditadura. A ditadura dos media, a qual deve ser entendida como a tirania da mediocridade. A mediocridade que impõe as suas regras e lança um véu escuro sobre o olhar dos homens.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O pós-Ocidente

Shen Zhou - Branche de néflier

Assim, em última análise, o «post» da pós-Modernidade revela-se como o «post» de uma idade pós-ocidental que ainda se busca a si própria. É um «depois» que sacode as grades do presente e dá expressão a uma claustrofobia dos tempos do fim. (Peter Sloterdijk, A Mobilização Infinita, p. 218)

Quando Peter Sloterdijk escreveu estas palavras ainda o muro de Berlim não tinha caído. Eram, porém, já claros os indícios de que o Ocidente deixara de ser o centro da história. O período que vai de 1917 a 1989, devido à pressão exercida pela ideologia marxista, em vigor numa parte substancial do planeta, tem uma natureza equívoca. Equivocidade essa intensificada pelo facto de o comunismo pretender ser uma saída da história e o socialismo real pretender ser uma história que quer deixar de o ser. Ora esta relação conturbada do marxismo com a história, essa perspectiva pré-moderna e pagã que foge à linearidade mortal da história, foi, após a queda do muro e de imediato, abraçada pelo liberalismo triunfante, que não via, nem vê, nada para além da sua própria vitória e a submissão do mundo à utopia do mercado livre.

Aquilo que se passou de 89 para cá, apenas confirmou a intuição irónica de Sloterdijk. Mesmo que os EUA ainda sejam, e por muitos anos, a principal potência militar do mundo, a verdade é que vivemos claramente numa «claustrofobia dos tempos do fim», vivemos, ao mesmo tempo, no aurora de um mundo que não conhecemos, que não sabemos designar. Mas o ponteiro da história volta-se decididamente para Oriente. O domínio dos EUA representa apenas o tempo da agonia do Ocidente.

Mas o que será esse pós-Ocidente? Não pode ser outra coisa senão o Oriente. Aqui há duas alternativas. Ou o Oriente que triunfa se funda nas tradições de razoabilidade que, da China à Índia, passando pelo Japão, sempre existiram, ou o Oriente é o Médio-Oriente e a tradição do Islão. A herança ocidental, pois é já disto que se trata, apesar de ser constituída por uma parte substancial recebida do Islão, parece ser melhor recebida e trabalhada no Extremo-Oriente. Nestas últimas décadas, as culturas orientais têm dado provas de uma grande capacidade plástica para, sem alterar os seus valores fundamentais, absorverem a cultura ocidental.

Seja como for, a verdade é que entre a Europa e esse mítico Oriente há uma barreira, o mundo inquieto do Islão. O que é perturbante não é a possibilidade de a nossa civilização não sobreviver. Sobreviverá nesse Oriente extremo. O que é perturbante é imaginar que a Europa possa não sobreviver, apesar da sua cultura se ter propagado e entranhado, em parte, no Oriente. A demografia, o cansaço, a velhice não auguram nada de bom perante vizinhos tão jovens e irrequietos. (averomundo, 2008/01/21)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sobre a modernidade

Remedios Varo - Modernidad (1936)

Há um assunto que me interessa particularmente que é o da modernidade e do seu hipotético fim. O que quero eu dizer com isto? Que o processo civilizacional que começou no pós-renascimento, com a filosofia cartesiana e a ciência moderna, que ganhou substância no pensamento do iluminismo, nomeadamente com Kant, que encontrou na revolução industrial a sua energia, que supôs, tanto na versão liberal como na marxista, uma emancipação racional, ainda que diferenciada, do homem, pode ter chegado a um ocaso. Há sintomas desse ocaso? Há. Tanto o individualismo, nascido do subjectivismo cartesiano e do liberalismo empirista de Locke, como a ciência e a economia apresentam sinais de profundas contradições.

Por exemplo, o crescimento dos direitos e da afirmação dos indivíduos está a conduzir a situações em que os indivíduos libertados da tutela social se encontram agora abandonados e nesse sentimento de abandono cresce um outro sentimento: o de uma vida desprovida de sentido e, por isso, irracional.

Por seu turno, a economia nascida com a revolução industrial gerou um conjunto de contradições (não apenas as sociais e económicas analisadas por Marx), nomeadamente uma contradição naquilo que foi considerado como um stock de matérias-primas para o homem, isto é, a natureza. O desenvolvimento indefinido da economia implica a existência de um stock infinito sempre disponível. Ora a natureza, esse fundamento material da economia, nem é infinita, nem parece disposta a aceitar sem vingança a sua redução a um mero stock à disposição do capricho do homem.

Por fim, a própria ciência apresenta também contradições interessantes. A ciência é uma actividade de investigação racional da realidade. No entanto, a sua afirmação e expansão foi feita sempre na base de um programa ideológico: a ciência seria um auxiliar libertador e emancipador do homem das tutelas que a ignorância e a servidão à natureza impunham. Ora as ciências empírico-analíticas, como por exemplo a Física, a Química e a Biologia, libertaram um conhecimento tal que ele pôs à disposição um poder que, a cada momento, parece querer abater-se e esmagar o próprio homem. Mas não são apenas as ciências empírico-analíticas que levantam este problema. Também as ciências humanas e sociais, nomeadamente a sociologia e a psicologia, têm contribuído para o crescimento das formas de dominação e de esmagamento do homem. O carácter emancipatório que alimentou a legitimação da actividade científica é hoje absolutamente problemático.

Em todos estes processos, todos de carácter racional, há uma coisa em comum: a razão a dado momento do devir dos processos mostra um fundo irracional. Esta irracionalidade não é a mesma que habitaria os sentimentos de fé medievais ou outro tipo de superstições. É uma irracionalidade gerada pelos próprios mecanismos da razão, de uma razão que, ao mesmo tempo, se fragmenta (razão científica, razão económica, razão social, razão psicológica) e se absolutiza. As contradições apontadas atrás, são apenas encarnações de uma contradição que habita os processos racionais e a própria razão.

Vale ainda a pena olhar para o fenómeno no âmbito da política. A experiência do socialismo, já consumada, mostrou o mesmo fenómeno: a emancipação do homem gerou sociedades onde a liberdade foi aniquilada, como se a emancipação não implicasse, na sua natureza, a própria liberdade. Mas a experiência pela qual agora passamos, a do liberalismo, não é diferente da do socialismo real: a consideração liberal de que todos os homens são seres racionais e se movem por interesses racionais está a mostrar também os seus limites extremos: o interesse racional de alguns é que outros não sejam considerados homens, isto é, que sejam escravos e logo não possuam interesses racionais. Assim como a lógica emancipatória do socialismo acabou, ao eliminar a liberdade, na contradição consigo mesma, também a lógica do liberalismo, ao não limitar o interesse, está a criar condições para uma efectiva eliminação da liberdade e uma desrealização do homem enquanto ser racional (aliás, muito desta análise foi feita por Marx).

Para concluir, o conjunto de contradições que foram geradas pelos tempos modernos, contradições que se agudizam continuamente, apontam claramente para o ocaso da modernidade. Também os conceitos que utilizámos para viver e pensar essa realidade ainda viva estão moribundos. Penso que o conceito de socialismo está morto e o mesmo começa a passar-se com o de liberalismo. Aquilo que talvez seja o mais difícil é a criação de novos conceitos, não conceitos que expliquem o que se passou, mas conceitos que captem o caminho a seguir, que lancem as bases do que se há-de desenvolver. Por exemplo, como pensar a política após a morte do socialismo e do liberalismo? Como conjugar o ideal de liberdade, da tradição liberal, com o ideal de justiça social, da tradição socialista? 

Neste âmbito, a minha perspectiva é a do abandono da submissão da política à economia, submissão presente tanto nos liberais como em Marx. Há que fazer implodir o conceito de economia-política. Avanço uma tese, provavelmente sem qualquer originalidade: o carácter distópico do socialismo real e do liberalismo reside na submissão dos imperativos políticos aos imperativos económicos. Mas isto é ainda e só uma tese sobre o passado histórico. Não é o conceito vivo que permite pensar aquilo que, por não ter sido pensado, dá que pensar. (averomundo, 2008/01/24)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Os deuses obscuros

Max Ernst - Os deuses obscuros (1957)

O obscurecimento de Deus trazido pelo Iluminismo, visto a partir da nossa experiência de hoje, tem um curioso resultado. A luz da razão - essa luz que dá nome ao Iluminismo - concentra-se no mundo material, na conhecimento da matéria e na organização da sociedade. O foco, com o passar do tempo, tornou-se cada vez mais forte e poderoso. Onde ele se concentra, nada fica como está. Conhecimento e organização social, ainda que de formas diferentes embora concomitantes, passam continuamente por alterações umas vezes mais reformistas, outras mais revolucionárias, mas em ambos os casos a luz traz a impermanência e a alteração contínuas.

A focalização da luz nestas áreas veio a criar, à volta delas, espaços de obscuridade. Estes espaços não são o lugar do Deus que o Iluminismo afastou e que fez o homem abandonar. Esta obscuridade, que se infiltra nos interstícios  do mundo material e da vida social, é o lugar onde emergem os deuses obscuros que povoam os sonhos, mas não tanto a consciência, dos homens de hoje. Estes deuses obscuros, fundidos à obscuridade gerada pela focalização da luz da razão, tomam os homens de assalto sem que estes tenham a possibilidade de lhes resistir ou, tão pouco, tomar conhecimento desses assaltos. Prestam-lhes culto pensando que é a si mesmos que cultuam. Na verdade, toda a vida contemporânea está organizada como um grande ritual em honra desses deuses obscuros que não reconhecemos mas a quem amamos e obedecemos.

domingo, 18 de outubro de 2015

Destruir o outro

Joan Ponç - Suite Toros (1953)

O clima pós-eleitoral em Portugal, com o grau inusitado de intolerância que tem vindo à luz do dia, é apenas o sintoma de uma doença que alastra por todo o planeta. De há uns anos para cá, tem sido clara a ascendência de ideias e práticas que, em vez de buscarem compromissos, são pautadas pelo desejo cego de aniquilar moral ou fisicamente o outro. A queda do Muro de Berlim, que pôs fim a um período de intolerância controlada, não deu lugar a uma situação mais tolerante e menos perigosa. Alguns exemplos bastam para percebermos que aquilo que agora se manifesta em Portugal, suscitado por resultados eleitorais equívocos, é apenas o reflexo de uma doença que corrói as entranhas da humanidade.

O exemplo mais flagrante é o do fanatismo religioso proveniente do Islão. Não é o único fanatismo religioso, mas é aquele que mais vítimas faz e que tem um programa claro de amedrontamento e de liquidação do outro. O regime chinês também não se caracteriza pela brandura com que trata os opositores. Muitos regimes africanos seguem, de forma mais irracional, o padrão chinês. Na América Latina, do Brasil à Venezuela, a intolerância política cresce todos os dias. Nos EUA, onde havia uma longa tradição de compromisso entre republicanos e democratas, há muito que se vive em grande tensão, com os republicanos a liquidarem, sempre que podem, as iniciativas dos democratas. A própria União Europeia, através de um conjunto de tratados e de organismos não democraticamente validados, aniquilou a possibilidade de alternativas políticas, o que, apesar da aparente brandura, não passa de uma forma refinada de intolerância política, que por vezes se manifesta com extrema brutalidade como no caso da Grécia. Para não falar de outros casos, como a Hungria ou a Rússia.

Parece haver por toda a parte uma necessidade de destruir o outro. Destruir as suas ideias políticas, a sua visão moral do mundo, as suas crenças religiosas. Estão-se a formar grandes conglomerados unidimensionais que lutam por impor, num mundo globalizado, a sua visão do mundo, como se o pensar e o viver de outra forma fosse uma afronta impossível de suportar. Não é que não existam contra-exemplos, como o do actual Papa e de muitas outras figuras religiosas, políticas, do campo da cultura, etc. ou dos movimentos de acolhimento de refugiados que emergiram agora na Europa, mas a energia da intolerância parece crescer todos os dias, alimentada por um desejo de triunfo e esmagamento que parece ser infinito. A continuarmos assim, o prognóstico não é lá muito animador. E não faço ideia como será possível, não digo sequer acabar com este desejo de aniquilação do outro, mas reverter a situação, tornar as posições de tolerância mais dinâmicas e as de intolerância menos enérgicas. E temo que ninguém saiba como domar o touro da intolerância.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A flauta mágica

Max Pechstein - Flute Playing in the Country (1908)

Para Schopenhaeur, o velho filósofo pessimista que via com horror as desgraças da vida humana, a moral teria o seu fundamento na simpatia viva e ardente pelo outro, a qual se deveria traduzir em compaixão. Ora Schopenhauer gostava de tocar flauta após as refeições. Nietzsche, o mais intempestivo dos pensadores alemães, não lhe perdoou tão estranha combinação e questionou aquele pessimismo que permitia não só que se tocasse flauta após o jantar, como se afirmasse o respeito pela dor dos outros. Para Nietzsche aquela era uma moral decadente, pois as épocas fortes e as civilizações avançadas não conheciam nem a piedade nem o amor ao próximo, tudo prova de uma fraqueza desprezível.

Vivemos uma época em que o horror se banalizou de tal forma que já não gera nem pessimismo nem despeito, apenas indiferença. Os meios de comunicação social de massas, de tanto repetir e explorar a dor, a miséria e a impotência dos homens perante a morte e a injustiça, conseguiram adormecer aqueles sentimentos de simpatia e piedade pelo sofrer dos outros, pelo desconsolo com que a vida sobre eles se abate. Esta indiferença é um primeiro passo para o inevitável desprezo com que os fortes olharão os fracos, com que os vitoriosos despojarão os derrotados. Nietzsche parece triunfar.

Contudo não é uma moral criadora de novos valores, não é um super-homem que se desenha no horizonte. O que vemos são as velhas formas de opressão e humilhação, o que vemos é o desdém pela sorte do próximo, o que vemos são manobras de criação de vítimas e bodes expiatórios. Da moral dos vitoriosos da vida não é o super-homem que nasce, mas sim o infra-homem, aquele velho macaco do qual descendemos. Por isso, prefiro imaginar o velho Schopenhauer sentado no quarto, após um belo jantar, a tocar flauta. Talvez seja a flauta mágica que abre os nossos corações aos frágeis sentimentos de piedade e compaixão pelos homens, por esses nossos irmãos e companheiros de aventura no deserto desconsolado em que a rapina dos fortes está a transformar a Terra. (Jornal Torrejano, Outubro de 2007)

sábado, 19 de setembro de 2015

O futurismo italiano e o Estado Islâmico

Filippo Tommaso Marinetti - The Founding and Manifesto of Futurism

(9) Nós queremos glorificar a guerra, - a única higiene do mundo, - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas Ideias que matam e o desprezo pela mulher.

(10) Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as cobardias oportunistas e utilitárias. 

(Filippo Tommaso Marinetti, “Manifeste du Futurisme”. Le Figaro, 55e Année — 3e Série — No 51, Samedi 20 Février 1909)

E se o núcleo ideológico mais profundo do auto-designado Estado Islâmico (Daesh) fosse ocidental? Ou se ele resultasse de uma miscelânea de ideias provenientes daqui e dali, mas que os ocidentais com o seu poder de teorização, devido à longa tradição da filosofia e da ciência, tivessem cristalizado numa teoria marcada pelo desprezo pela vida, pela história, pelas mulheres, pela cultura e pela benevolência? O leitor poderá achar a ideia estapafúrdia, mas a verdade é que o futurismo italiano antecipou não só o fascismo mas todos os movimentos que têm no seu cerne o desprezo pelos seres humanos, e por tudo aquilo que foi produzido por eles e se tornou história.

Argumentar-se-á que os jovens futuristas italianos, com o exuberante Marinetti à cabeça, queriam romper um dado establishment cultural existente em Itália. Precisavam de provocar para poder afirmar-se. Isso é verdade, mas também não deixa de ser verdade a componente ideológica que os animava. Leiam-se os dois pontos citados, apenas exemplos do conteúdo do Manifesto do Futurismo, e descobrem-se os elementos centrais: a guerra, o militarismo, a destruição, o prazer pelas ideias que matam, o desprezo pelas mulheres, a demolição das instituições culturais (museus, bibliotecas). A única diferença que encontramos entre as ideias futuristas do início do século XX e as dos combatentes do Estado Islâmico é que os primeiros falam de patriotismo e estes de califado. Uma aculturação pura e simples a uma outra linguagem e a uma outra tradição.

Há mais pontos de contacto entre os jovens futuristas de há cem anos e os actuais guerrilheiros islâmicos. O fascínio pelo movimento, pela velocidade e pela tecnologia. Os jovens artistas italianos do futurismo estavam siderados pela velocidade do automóvel, os jovens guerrilheiros do Daesh estão seduzidos pela velocidade da luz, o ideal da comunicação através da internet. Diferentes os dispositivos, o fascínio é o mesmo. O que une futuristas italianos e fundamentalistas islâmicos é ainda o ideal de uma completa e total mobilização. Este conceito é central para perceber que a ideologia do Daesh é ainda, apesar das roupagens islâmicas, um produto do Ocidente, da modernidade ocidental. Esta só é compreensível pela ideia de mobilização. Mobilização de recursos, mobilização de ideias, mobilização de pessoas. A modernidade ocidental é o locus da mobilização contínua. E é isso que está presente no terror político, no terror que vai desde o terror de Robespierre, na Revolução Francesa, ao terror do Daesh, passando pelo terror de Hitler, Mussolini, Estaline ou, mais perto no tempo, no terror das ditaduras sul-americanas, cujo símbolo máximo foi o general Augusto Pinochet.

A questão que pode surgir é se a modernidade ocidental, com o seu ideal de mobilização contínua, é apenas o produto da cultura ocidental de origem cristã e greco-latina. Talvez seja, mas nela não deixa de haver, aqui e ali, um fascínio por outras culturas. O que é surpreendente nesta associação entre os futuristas das primeiras décadas do século XX italiano - e europeu - e os terroristas do Daesh não é apenas a identidade ideológica que os une. O texto do manifesto começa, antes do manifesto propriamente dito, com a descrição do cenário emocional exaltado que produziu a proclamação. Vale a pena traduzir o primeiro parágrafo: Velámos toda a noite – os meus amigos e eu – sob as lâmpadas da mesquita com cúpulas de cobre, ornadas como as nossas almas, porque como elas tinham corações eléctricos. Mergulhados na nossa preguiça nativa, sobre tapetes persas, discutimos até aos limites extremos da lógica, enchendo o papel de escritos dementes. Toda esta referência a elementos do mundo muçulmano - feita, por certo, por motivações estéticas - parece a semente que, ao germinar, vai permitir que dois universos, aparentemente tão diferentes e afastados no tempo e no espaço, possam partilhar uma visão comum do mundo. Uma visão demente do mundo, acrescento.