domingo, 12 de abril de 2020

Ensaio sobre a luz (81)

Wolf Suschitzky, Sunday morning, Oldham, 1946
A luz ressurecta ilumina a manhã de domingo. Nela um homem caminha pelas ruas vazias, vê a sua sombra projectada no empedrado que cobre o chão e confia, na ingenuidade dos tempos amenos, que tudo é como sempre foi, como se a luz iluminasse apenas a certeza que nasce dos velhos hábitos.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

François Ozon, Frantz


No filme de 2018, o cineasta francês explora os dramas pessoais trazidos pela primeira Grande Guerra, tendo por pano de fundo o nacionalismo que desencadeara o conflito e que, terminado este, não declinara, apesar da extraordinária carnificina a que tinha conduzido. Frantz é um jovem soldado alemão morto por um soldado francês, Adrien, tão jovem quanto ele. Ambos partilhavam um destino ambíguo. Eram pacifistas e foram levados para a guerra pela pressão do ambiente social e da própria família, pela coacção de um nacionalismo agressivo que habitava o espírito da época. É a hipersensibilidade de Adrien, um violinista da Orquestra de Paris e filho família, que desencadeia a trama narrativa, ao sentir necessidade de se fazer perdoar pela família do alemão que matou numa trincheira. É aqui, nesse instante onde a vida e a morte de dois soldados se decidiram, que está a raiz de toda a equivocidade que percorre o filme.

O soldado francês em vez de considerar o alemão como um inimigo abatido, deixa-o transformar-se, aos seus olhos, numa pessoa a quem assassinou. Na trincheira, perante o alemão morto, dá-se uma metamorfose na consciência de Adrien. De inimigo e ameaça real à sua existência, o alemão transforma-se num outro eu a quem Adrien tirou a vida. A alteração do estatuto ontológico de Frantz na consciência do francês tem um efeito perturbador. Encontra nos bolsos do morto o rasto duma vida agora sem continuação, uma carta a enviar à namorada. Acabada a guerra, o confronto com a morte do outro não deixa de o abalar e, como forma de catarse, decide partir para a terra de Frantz com o objectivo de pedir perdão. Um dos elementos fundamentais na construção da personagem de Adrien é a ambiguidade das suas motivações, nunca ficando claro aquilo que o move, se a dor dos outros – pais e namorada de Frantz – se a sua consciência infeliz, incapaz de lidar com o facto de a guerra ser o lugar onde as pessoas matam para não morrer, onde não há conciliação possível no momento do combate.

A relação que Adrien acaba por estabelecer tanto com os pais de Frantz como com Ann, a namorada, acaba por se tornar, também ela, equívoca. A fragilidade moral do francês arrasta-o para uma história falsa e através dela ganha a confiança e a amizade dos pais do soldado alemão. Quando Ann descobre a verdade é ela que impede a sua revelação aos que deveriam ter sido seus sogros. Alimenta uma versão edulcorada da realidade devido a um suposto direito de mentir por amor à humanidade, para parafrasear o título de um célebre texto de Kant. A partir daí, o equívoco e a mentira entrelaçam-se, passando Adrien a ser visto como um possível noivo de Ann e substituto de Frantz. A viagem que Ann faz a França, para consumar essa substituição de Frantz por Adrien, é um exercício de descoberta. A descoberta, por Ann, da pusilanimidade do francês, da sua situação de comprometido apenas por convenção familiar, e, também, a descoberta de si mesma, da sua força e da própria vida que renasce dentro dela. O filme de Ozon é uma reflexão sobre a ambiguidade das motivações e o problema da verdade e da mentira morais, em que Adrien se afunda na mentira a si ao desejar expor a verdade e em que Ann, apesar de manter uma ficção para os sogros, descobre a sua força e a sua própria verdade, libertando-se do passado e da guerra.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Casa Esquecida 9

Nicolas de Staël, Desnudo acostado, 1955

Um corpo desliza na falésia doutro.
As mãos correm musgos e sedas,
líquenes polvilhados de cal,
a tília a transbordar de silêncios.

Um cântico nasce-te nos dedos.
Ecoa como um fruto desfolhado
na mágoa vesperal da boca,
na sombra da sombra ao meio-dia.

(1981)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ensaio sobre a luz (80)

René Burri, Former Summer Palace. Dead lotus flowers on the Kunming Lake. Beijing, China, 1964
Raios de sol descem difusos sobre as águas, fazem das árvores fantasmas perdidos no mundo, iluminam a geometria dos lótus abandonados ao cansaço da morte. O tempo suspende a viagem e uma vida ressurecta aguarda a hora em que a clara luz triunfe sobre a melancolia da névoa e a tristeza da cinza.

sábado, 4 de abril de 2020

Uma comunidade de seres racionais


A senhora Thatcher terá escrito, num livro de memórias sobre o tempo em que foi primeira-ministra, que “não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”. A sobranceria e a pesporrência com que a frase foi multiplicada pareciam ter a força suficiente para fazer de um desabafo meramente ideológico uma verdade inquestionada. Aparentemente, a frase visava atingir as ideias socialistas. Na verdade, põe em questão toda uma longa tradição, a tradição ocidental, que se reconhece na palavra de Aristóteles de que o homem é um animal político, isto é, um animal que vive em comunidade. Paradoxalmente, é neste momento tenebroso, em que parte da população se vê obrigada a proteger-se da vida em comum, que se torna manifesta a razão de Aristóteles e a desrazão da senhora Thatcher e dos ultraliberais.

Somos indivíduos, mas o que nos vale isso se estamos separados da comunidade? Estamos a descobrir que o que dá sentido às nossas vidas não são apenas os projectos individuais, os sucessos, o contentamento por termos atingidos os objectivos. Sem uma comunidade real que nos dê o fundo da nossa existência e que, em última instância, seja o objectivo dos nossos esforços, a nossa individualidade é risível. Mais, sem uma comunidade real que responda enquanto comunidade, seremos sempre muito mais frágeis e vulneráveis. Não sabemos, nesta hora, se a resposta que a comunidade está a dar à pandemia será coroada pelo êxito que todos desejamos, mas parece claro que, se cada um agisse em conformidade com o seu ser individual, a desgraça seria indescritível. A esperança nasce da resposta colectiva assumida por cada um de nós.

Isto não significa que os indivíduos não existam ou que devam estar subjugados à comunidade, como aconteceu nas diversas experiências totalitárias que marcaram o século XX. Em sociedades complexas como aquelas em que vivemos, toda a vida deve ser a busca de uma harmonização entre os interesses comuns, os interesses da sociedade tomada como um todo, e os interesses individuais. Ambos são importante e ambos merecem respeito. O que devemos evitar é que os herdeiros ideológicos da senhora Thatcher destruam os laços comunitários. O que devemos evitar é que novas utopias colectivistas, como os nacionalismos, destruam a autonomia individual. Aquilo que o actual estado sanitário mostra é que precisamos de ser uma comunidade de indivíduos autónomos, capazes de cuidar de si e da comunidade. A actual pandemia terá muitas coisas para nos ensinar. A importância de uma comunidade de seres racionais não será a menor dessas coisas.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Razão e Ciência


De súbito, calou-se todo o argumentário anticientífico sobre as vacinas. Perante a pandemia associada ao COVID 19, anseia-se que a ciência responda com brevidade e encontre uma vacine que possa ajudar a humanidade a viver com o novo perigo. Os movimentos anticientíficos têm crescido nos últimos tempos e são uma ameaça real à vida dos seres humanos. Enquanto as coisas ficam em patetices como a terra plana, é possível rir. Quando, porém, tocam em assuntos relacionados com a vida e a morte, não há riso que valha. Nestes movimentos contra a ciência podem existir, entre outras, motivações associadas a um regresso a uma imaginária pureza da ordem natural e motivações religiosas, que vêem na ciência uma afronta ao divino ou que julgam que uma fé profunda bastará para lidar com os males do mundo.

A ordem natural como medida daquilo que é correcto ou incorrecto fazer é uma perspectiva muito em voga nos círculos new age. Assenta na negação dos perigos que a própria natureza esconde para os seres humanos e faz uma leitura da humanidade como sendo apenas uma espécie entre outras. Foi o facto, porém, do homem ter tido a capacidade de se distanciar da natureza e ter criado um mundo artificial a partir dessa natureza que tornou possível a persistência da humanidade sobre a Terra. Desse mundo artificial fazem parte as técnicas, os saberes científicos, os valores e as próprias religiões. Tudo isso foi uma estratégia de afirmação e defesa da humanidade perante uma natureza muito longe de lhe ser benévola.

Certas correntes religiosas julgam que os homens apenas devem confiar na fé, mesmo em assuntos que não se relacionem com questões de religião. A ciência seria então um desafio à ordem e à vontade divinas. No entanto, nem todas as religiões têm esta perigosa posição e a Igreja Católica, por exemplo, há muito que descobriu, ou sempre soube, que fé e razão se devem conjugar e que as descobertas científicas, produtos da razão natural dos homens, devem ser tidas em consideração. Considera mesmo como pecado grave os homens desprezarem a informação científica, aventurando-se na existência sem a tomar em consideração. Pecado pois, ao desprezar o conhecimento trazido pela razão dada ao homem por Deus, estão a desafiá-Lo a provar a sua omnipotência para os salvar daquilo em que estão metidos.

Nesta hora terrível que estamos a viver, é tempo de perceber que não devemos desprezar o que a razão e a ciência produzem para ajudar a humanidade a habitar com mais segurança este planeta. Todo o fanatismo – naturalista ou fideísta – é um perigo para a existência da humanidade.

[A minha crónica de Abril em A Barca]

terça-feira, 31 de março de 2020

Ensaio sobre a luz (79)

Robert Frank, Mallorca, 1950
A vida sóbria, despida de excessos, talvez do necessário, reverbera quando incansável a luz do sol se encontra com a brancura desmedida da cal.

domingo, 29 de março de 2020

A Casa Esquecida 8

Manuel Gil Pérez, Formas dinámicas espaciales, 1957

Oiço uma música de água no algeroz,
o som arcaico nos sulcos da memória,
dor doendo na placenta do coração.
É uma casa de cantaria sobre o sul,
a esmeralda enterrando-se na carne,
o fremir das planícies ao moverem-se
de incêndio em incêndio, esse amor
soletrado no sulco do meu sangue.

(1981)

sexta-feira, 27 de março de 2020

Desejo de pastor

Loomis Dean, The grand strip of Las Vegas lighting up, 1952
No Público de hoje, António Guerreiro dedica um artigo, A epidemia do tédio, à situação de isolamento em que se encontra parte da população. O que me interessa no artigo não é tanto o tédio que nasce do confinamento ou deste ser um confinamento no tempo, mas uma passagem sobre a vocação pastoril dos media naquilo que diz respeito à cultura. É verdade que a comunicação social tem abundado em sugestões e indicações sobre coisas a ler, ver e ouvir para matar o tempo. O que me interessa é a oposição que o autor faz entre essa vocação de pastores, assumida pelos órgãos de comunicação social, e o ousa saber! kantiano, imagem do espírito crítico e do Iluminismo.

Talvez tenha existido um momento em que alguém possa ter pensado numa humanidade constituída por indivíduos que, ao ousar saber, desenvolveriam o seu espírito crítico e com as luzes da sua razão haveriam de gerir, firmes na singularidade conquistada e livres do rebanho, a sua vida, sem que alguém os pastoreasse, dizendo-lhes o que fazer e como viver. O que talvez tenha acontecido, porém, é que a generalidade dos que fecharam os ouvidos ao pastor e abandonaram o rebanho se tresmalhou e voga agora na mais pura errância. A singularização do ser humano terá produzido muito menos espíritos críticos do que espíritos errantes, verdadeiramente alienados, mais alienados, aliás, do que quando, na sua menoridade inquestionada, se entregavam nas mãos dos pastores.

O facto dos media assumirem a função do pastorado é apenas um sinal sobre o desejo que há, na generalidade daqueles que andam perdidos, em encontrar pastores que os protejam de si mesmos. No campo político, o desejo do pastor elegeu, em países como os EUA ou o Brasil, gente que nenhum espírito crítico formado na escola das Luzes pode aceitar ou consegue compreender. São pastores loucos? São, mas são pastores e, por isso, preferíveis aos políticos formados na escola crítica do Iluminismo. Mesmo na Europa o anseio por pastores cresce paulatinamente, enquanto a confiança nos espíritos críticos vai diminuindo. Depois, os exemplos vindos dos estados autoritários, onde pastores de mão firme regulam o rebanho, começam a ser olhados com benevolência. Há muito que a discussão sobre a emancipação entre liberais e socialistas terá perdido sentido. A questão é se a ideia de emancipação nascida nas luzes se adapta à humanidade, se esta pela sua natureza não estará, enquanto for humanidade, confinada a ser um rebanho, cuja sorte depende dos pastores que lhe calha.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Sonhos numa noite de Verão 20

Charles Clifford, Cathedral, Torre del Oro and Guadalquivir River, Seville, Spain, 1862
Ouvia o rumorejar das águas ao serem sulcadas pelo casco, um barulho ao longe, uma promessa de irrealidade que a consciência não conseguia fixar. O calor da noite não desmentia o Verão feroz que assola aquelas paragens. Como uma memória muito antiga, assaltava-me o nome do rio. Guadalquivir, Guadalquivir. Sentia o peso da história e as vezes que ali naveguei. Depois, as águas incendiaram-se e em pleno rio as embarcações combatiam-se, com um zelo inesperado e um poder de fogo improvável para barcos daquela dimensão. O meu foi atingido e vi-me a nadar num leito em chamas. Acordei ao chegar à margem, um raio de sol entrava no quarto e da janela do hotel via as águas serenas do Guadalquivir a deslizarem na paz da manhã.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Uma nova semântica

George Platt Lynes, Crossed Arms, 1941
Nunca foi tão importante para aqueles que estão, de algum modo, no teatro de operações do combate à pandemia que os outros se mantenham em casa. Para estes, estar de braços cruzados é uma forma de acção, a mais importante das acções. Cruzar os braços e lavar as mãos tornaram-se sinais com sentidos opostos aos que estávamos habituados. Os tempos são tão extraordinárias que a própria semântica está a ser abalada e invertida. Cruzam-se os braços e lavam-se as mãos não se porque se seja indiferente, mas porque não se é. Ao cruzarem-se os braços não se desiste, mas persiste-se, à espera que a velha semântica recupere os seus direitos e restabeleça os sinais na antiga ordem de significação. 

sábado, 21 de março de 2020

Três efeitos virais


POLÍTICA E ECONOMIA. De um momento para o outro todo um modo de compreender a política se alterou. Por influência das duas principais constelações ideológicas nascidas do Iluminismo – o liberalismo e o marxismo – a política tinha, paulatinamente, sucumbido aos imperativos da economia. Sem ameaças no horizonte, os homens pensam nos seus interesses, nos negócios que promovem ou na escassez de que se sentem vítimas na distribuição do bolo produtivo. Na verdade, as eleições ganhavam-se ou perdiam-se devido às conjunturas económicas e a qualidade das políticas tinha como núcleo central a economia. Agora, ninguém pensa na economia, na distribuição de rendimentos, seja no que for. Toda a gente reza para que a gestão política seja eficaz na oposição à ameaça viral. Primeiro vem a política, depois a economia, como deveria acontecer sempre. Quanto tempo vamos levar para esquecer esta dura lição?

HOBBES E LOCKE. Duas narrativas modernas alimentam as explicações do laço político que une as pessoas em comunidades dotados de Estado. Por um lado, a de Thomas Hobbes. Os homens associam-se num Estado, fundamentalmente, para poderem viver em segurança, sacrificando a esta tudo. Por outro, a de John Locke. O Estado existe para defender os nossos direitos naturais e assegurar uma arbitragem justa nos conflitos. Enquanto a vida corre sem problemas, a explicação de Locke parece imbatível. O que o coronavírus mostra, porém, é outra coisa. A segurança hobbesiana em primeiro lugar. Não que, neste momento, estejamos à beira da guerra de todos contra todos, mas estamos em guerra com uma ameaça em que todos podem ser os seus portadores. Todos somos suspeitos e, de certa maneira, lobos uns dos outros, apesar da solidariedade inegável que tem percorrido o país.

DEMOCRACIA E AUTORITARISMO. O que se está a passar é um teste de stress para todos os regimes políticos que têm de lidar com a situação. As democracias, pela sua própria natureza, são mais atreitas a problemas se este combate à insegurança sanitária correr mal. A Itália parece perdida, muitos dos países europeus apresentam sintomas de confusão e as duas mais sólidas democracias liberais não têm à sua frente nem um Churchill nem um Roosevelt. É possível que os regimes democráticos estejam num combate decisivo pela sua própria vida, eles que estão já infectadas pelo vírus do autoritarismo. Para além da tragédia humana, haveria uma outra tragédia civilizacional se a política voltasse ao primeiro lugar, mas assente na herança de Hobbes e no despedimento da democracia política por maus serviços.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A Casa Esquecida 7

Fernando Lerín, Sin título, 1984

As batalhas vêm na orfandade da hora,
ornadas a vento e terra, os exércitos
cobertos de suor, o bruaá do combate,
o sangue a cerzir o contorno das faces.

Trincheiras de urze na lavanda da noite,
o vendaval dos dias, o amor hidráulico
a cambalear por campos de sargaço,
arqueado ao peso plúmbeo das paredes.

(1981)

terça-feira, 17 de março de 2020

Beatitudes (23) Trivialidades

Artur Pastor, Cais das Colunas, Lisboa, 1950-69
De súbito, descobre-se a maior das beatitudes no que há de mais trivial. Ir à rua, apanhar sol, olhar as águas, sentir a brisa a deslizar na pele, falar com amigos e estranhos, como se nada estivesse em suspenso e a realidade não se tivesse tornado num espaço doméstico de concentração. 

domingo, 15 de março de 2020

O homem do saco

Francesc Català-Roca, El hombre del saco, 1950
Nos países ibéricos e nos seus prolongamentos sul-americanos desenvolveu-se uma mitologia em torno do homem do saco ou do velho do saco. Este teria a missão de apanhar crianças mal educadas e desobedientes e levá-las com os mais indizíveis propósitos. Hoje precisávamos dessa figura tenebrosa e solitária, não para recolher meninos mal educados e desobedientes, já nos habituámos a eles, mas para apanhar aquilo que nos atormenta. Se ele com o seu saco pudesse recolher o que Pandora deixou fugir da sua caixa, todos ficaríamos gratos e ele poderia mesmo transformar a sua imagem infernal numa de querubim celeste.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Nocturnos 9

André Kertész, Melancholic Tulip, 1939
Tomada pelo pavor da noite, dobrada pelo medo das trevas, a túlipa inclina-se melancólica sobre a sua própria morte, esperando a luz da madrugada que, ao vencer os terrores da escuridão, lhe devolverá a vida.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Descrições fenomenológicas 50. A oblata

Modesto Llamas Rojamaril, ¿Hacia dónde?, 1998
Atravessado por longas rachas, o estuque luta ainda por se manter pegado à parede. Nele, manchas de humidade desenham mapas de países extravagantes, terras lendárias levadas para os confins dos oceanos, continentes inteiros engolidos pelo sopro do esquecimento, atlântidas suspensas na imaginação de filósofos ainda tocados por êxtases e delírios. O rodapé alto, talvez de uns vinte centímetros, apresenta o rebordo superior desbastado pelo caruncho e a ruína desce, cavando pequenos vales e lagos minúsculos, em direcção ao soalho, também ele tomado por um destino irremediável. Aqui florestas de folhas secas agitam-se se o vento entra pela janela desconjuntada. Vêem-se já pequenos montes de caliça, restos do estuque caído tecto, onde ainda se percebem os traços das figuras que o decoravam. Encostada à parede, uma mulher inclina o corpo para a frente. Os cabelos caem-lhe, a blusa abre-se e os seios brancos saltam e ficam suspensos do peito. Ela fica em posição instável, mas não se endireita. Parece olhar fixamente para o ventre oculto sob uma roupa que contrasta com o ambiente. Os braços abrem-se em arco e toda aquela figuração parece ser uma performance, um happening infeliz de uma artista tomada pela vertigem que se escondo dentro do corpo. Oblíquo, um feixe de luz desenha uma barra cintilante que une a mão direita à perna esquerda, ateando a saia. Os pés nus, de unhas pintadas num vermelho vívido, assentam sobre as folhas mortas e parecem fazer um esforça desmedido para evitar a queda do corpo para a frente. Passados longos minutos, a mulher ergue lentamente o tronco, enquanto une os braço ao corpo e encosta a cabeça à parede. Tem os olhos fechados, respira sem sofreguidão e os mamilos parecem querer perfurar a roupa. O rosto é agora plenamente visível e há nele pequenos reflexos de luz, um brilho trazido pela beleza, uma vontade imperiosa de reinar sobre o mundo. Toda ela estremece, abre os olhos e, pisando as folhas mortas no soalho, dirige-se para a porta, também em ruína, para sair do palco onde imaginou o altar em que se entregava em oblação aos olhos de quem a quisesse ver.

segunda-feira, 9 de março de 2020

A Casa Esquecida 6

Gerardo Rueda, Verde, 1961

São dias de maré. As planícies a arder na loucura,
o veredicto trazido pela cambraia das estações.
Inútil a cara sobre o lençol, os músculos abertos
para a praia juncada pelas algas do esquecimento.
Como será a luz das tuas mãos na luz de Setembro?

O coração estará longe, perdido na poalha do dia,
entre aniversários, amigos de copo na mão, gente
sem a urgência de chegar ou partir, sem a ânsia
de uma carta ou das canções que te ouvia
se cantavas debaixo de um céu de cinza e gaivotas.

Esqueço-me da verdade no desvario da sombra
que há nos cabelos ao caírem-te pelos ombros.
Esqueço-me do vinho a transbordar no copo vazio
de um corpo ferido pela harmonia de outro.
Esqueço-me do mar no sonho dos teus segredos.

(1981)

sábado, 7 de março de 2020

Um vírus abre uma fresta


Nos acontecimentos ligados à emergência do coronavírus, podemos dizer que há duas realidades ligadas acidentalmente. A primeira diz respeito à eventual pandemia, à facilidade do contágio que proporciona um mundo aberto e no qual toda gente viaja para todo o lado. Ligam-se a ela todas as preocupações profilácticas, as medidas de tratamento, a procura de vacinas, etc. No entanto, com a propagação do vírus e o combate à epidemia, uma outra realidade emergiu. Já diversas vezes sublinhado, um dos efeitos colaterais mais interessantes da emergência da doença é a drástica diminuição da poluição na China. O modo habitual de vida foi suspenso e as medidas para evitar o contágio vieram mostrar alguma coisa de que estávamos esquecidos.

A questão central nem será a da qualidade ambiental, mas a do próprio modo de vida em que o mundo se precipitou, marcado pela intensa mobilidade das pessoas e a sua contínua mobilização produtiva e consumidora. O fenómeno do novo nomadismo, estudado há muito na Sociologia, recebe um constante incremento pelo aumento da velocidade dos transportes e pela diminuição contínua do seu custo. Seja por turismo ou por trabalho, demasiada gente move-se todos os dias entre as diversas partes do mundo. Esta mobilidade de grandes massas está escorada na mobilização cada vez mais intensa das pessoas para a produção, onde produzem cada vez mais e a ritmos sempre mais frenéticos, e no consumo, o qual acompanha em crescimento e ritmo a produção. A vida dos seres humanos, na época em que vivemos, parece então circunscrita por uma santíssima trindade. Produção, consumo e viagem, que faz de espírito santo.

O coronavírus abriu uma fresta – na China, em Itália, por exemplo – que permite olhar para um outro mundo onde a produção e o consumo se tornaram mais lentos e a viagem foi colocada em suspenso. A fresta aberta permite que se veja o que há de insensato no modo vida para o qual nos arrastamos e deixamos arrastar. Poluição que desaparece dos céus, cidades que se tornam humanas pela ausência da massa de turistas, consumos que diminuem, produções que se descobrem supérfluas. É evidente que a fresta não vai durar para sempre e mal ela se feche, voltaremos ao mesmo. Produziremos mais, consumiremos mais e viajaremos sem descanso, até ao próximo acidente. Há muito que os homens deixaram de ter mão na máquina infernal que montaram. Talvez a fresta acidental seja um aviso e um convite à mudança de vida, mas é muito duvidoso que oiçamos o aviso e aceitemos o convite.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Ensaio sobre a luz (78)

Philippe Halsman, Jean Cocteau. “Dream of a Poet”. USA, New York City, 1949
Sempre que uma dada luz mostra certas coisas, esconde outras. Então é preciso tornar-se cego para que outra luz desça e ilumine aquilo que a primeira esconde. Logo é imperioso cegar a própria cegueira, para que uma nova luz mostre o que as anteriores ocultaram. Não há fim para aquilo que espera ser visto.