terça-feira, 9 de junho de 2026

Nocturnos 136

Maximilian Neustück, Nächtliches Ständchen in der Gasse eines Städtchens

Movida pelo império de Eros, uma serenata nocturna eleva-se ao coração que a espera. Esquecido o trauma do dia, a noite oferece-se como o horizonte onde a música encontra o seu poder invencível e torna real o que a luz prescrevia como impossível. 

domingo, 7 de junho de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (39)

Amadeo de Souza-Cardoso, título desconhecido, c. 1914  (Gulbenkian)

A cidade tece textos de pez

com a brancura da cinza

e palavras de pedra e sal.

 

Vozes roucas são barcos

na água turva do lago.

Tremem ao vento da tarde.

 

A tristeza cai deslumbrada

sobre o anjo da partida,

hálito salgado, um mar vegetal.

 

[1993]

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A encíclica de Leão XIV


A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. Pelo contrário. Contudo, Leão XIV traça de forma clara os perigos que ela encerra. Perigos para a pessoa: a ilusão de que a IA é humana, o logro de ser moralmente neutra, o enfraquecimento do pensamento crítico, a promoção do isolamento das pessoas e de dependência da IA. Perigos para a comunidade: concentração de poder e novos monopólios, ameaças à dignidade do trabalho e promoção de novas formas de escravatura, utilização da IA em conflitos militares. Perigos para a humanidade: a utilização da IA para ultrapassar a condição humana, segundo as narrativas do transumanismo e do pós-humanismo, onde o homem é visto como um produto a melhorar. 

A reflexão sobre a IA arrasta consigo também uma reflexão política. Leão XIV salvaguarda a importância do Estado para a coesão da sociedade civil e para a harmonização justa da distribuição do produto da actividade humana. Sublinha a importância da democracia política como garantia da participação dos cidadãos e impedimento da monopolização do poder por elites movidas por interesses particulares. Salienta o papel fundamental da política como lugar produtor de regras, avaliações independentes e transparência, que evite que o bem comum seja imposto de cima para baixo por lógicas algorítmicas controladas não democraticamente. Condena a submissão dos Estados e dos actores políticos a uma lógica de Realpolitik, que substitui o diálogo e a negociação entre Estados por um estado permanente de guerra. 

A encíclica papal tem uma dimensão crítica e uma dimensão construtiva. A crítica dirige-se, sem referir nomes ou potências, aos EUA de Trump, à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping. São os principais agentes antidemocráticos e fomentadores de uma ordem internacional baseada na guerra. Por outro lado, a encíclica papal transporta em si um conjunto de valores morais, económicos e políticos que deveriam ser o horizonte das democracias liberais e dos actores políticos democráticos. Deveria ser o chão comum, que nas sociedades livres, uniria, para lá das diferenças, a direita e a esquerda. É de assinalar, assim, que a Igreja Católica se tornou, com o passar do tempo, na grande instituição defensora da democracia e dos direitos civis, políticos e sociais. O que não é pouco num tempo de grande incerteza promovida pelo avanço tecnológico,  pelos interesses das grandes potências e pela avidez das grandes empresas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Lições da final do Jamor


A final da Taça de Portugal em futebol pode servir para uma experiência de pensamento sobre valores morais e políticos. Não se trata do resultado, mas, digamos assim, do apoio dos adeptos do futebol. Com exclusão dos sportinguistas, estou convencido de que a generalidade dos outros tinham o seu coração com o Torreense – mesmo que a razão dos benfiquistas, devido ao cálculo para entrada directa na Liga Europa, os obrigasse a apoiar o Sporting. E não se trata apenas de querer a humilhação de um cube rival, como podia ser o caso de portistas e encarnados, mas de uma opção moral fundada num longínquo arquétipo da nossa cultura, o episódio bíblico do combate entre o pequeno David e o gigante Golias. O Sporting era o Golias presente no Estádio do Jamor, e o Torreense, o David. Nestes casos, o apoio tende, quase unanimemente e excluindo os adeptos do gigante em jogo, para o mais fraco, desejando-se a punição do mais forte, apenas por ser mais forte, independentemente do seu mérito.

Esta pulsão para apoio ao mais fraco é interessante por três motivos. Em primeiro lugar, porque tem o seu fundamento na cultura grega. Apesar de ser profundamente inigualitária, a cultura grega punia a húbris, noção que pode ser traduzida como autoconfiança desmedida, orgulho excessivo, etc. De certo modo, os grandes clubes, devido ao seu poderio económico, são encarnações dessa húbris, a qual perverte o equilíbrio desportivo que deveria reinar entre todas as equipas. Só assim se poderia considerar que as competições desportivas são justas, pois todas as equipas partiriam em igualdade de condições. Em segundo lugar, porque essa pulsão se enraíza na cultura judaico-cristã: no modelo do combate entre David e Golias, e na preferência pelos mais fracos enunciada – embora, nem sempre cumprida – como a orientação do cristianismo.

Por fim, porque neste apoio ao mais fraco há uma leitura política. Se o coração dos homens estivesse orientado para o mérito, todos os adeptos quereriam, à partida, que o melhor vencesse sempre. E por norma os grandes clubes – que o são em virtude das suas vitórias – possuem mais mérito do que os pequenos. Por isso, deveriam receber o apoio esmagador de todos os adeptos do futebol. Não apenas dos seus. Isto significa que a pulsão para apoio ao mais fraco é também uma pulsão igualitária. Ora, apesar de se viver numa sociedade que promove, continuamente, o individualismo e a meritocracia, fundamentos da desigualdade, no coração dos homens reside um sentimento igualitário que se manifesta nas coisas mais inesperadas, como o apoio ao pequeno David-Torreense contra o gigante Golias-Sporting.