Olhemos para as eleições presidenciais. Mais
especificamente, para as esquerdas e os seus candidatos, para comentar a
estratégia de hara-kiri em que essas esquerdas parecem ser
especialistas. Suicidar-se com honra, como velhos samurais caídos em desgraça
perante o seu senhor. A única candidatura de esquerda que tem algumas hipóteses
de passar à segunda volta – talvez de ganhar – é a de António José Seguro. É um
candidato vibrante e mobilizador de paixões populares? Não, claro que não. Tem,
porém, virtudes que são adequadas a um inquilino de Belém: é sensato, comedido,
tem uma imagem de honestidade, conhece bem a vida política portuguesa e
europeia, assim como os desafios mundiais, é moderado – uma coisa bem
necessária nestes tempos – e não tem anticorpos na sociedade portuguesa. De
todos os candidatos – de esquerda e de direita – é o que daria o melhor
Presidente para estes tempos.
Não sou adivinho. Escrevo este artigo no primeiro dia de
campanha e, pelo que dizem, é provável que os candidatos das outras esquerdas –
António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto – não desistam para Seguro. Para
os partidos que os promovem, mais importante do que a democracia será erguer a
bandeira partidária, talvez para chegarem ao fim da primeira volta e afirmarem
que tiveram um excelente resultado de 5% ou menos. Ganham ainda um motivo para
verberarem a direita e o populismo, o que lhes incendiará os espíritos e
tranquilizará as consciências. Pode ser que me engane. Pior que Livre, PCP e
BE, porém, é o comportamento dos socialistas. Dá a impressão de que Seguro é um
inimigo e não o candidato do PS. Se há, aqui e ali, apoios institucionais, a
militância eclipsou-se. A mobilização do partido se não é nula, para lá
caminha. Seguro – que foi chefe dos socialistas – parece um estranho numa terra
estranha.
Seria para a democracia portuguesa fundamental que Seguro
fosse eleito. Toda a esquerda devia estar empenhada nisso. Quais as razões?
Para equilibrar os pratos da balança, para que, mais uma vez, os poderes não estejam
todos concentrados na direita. Contudo, há uma razão mais substancial do que
essa: a Constituição. Um presidente moderado e sensato de esquerda poderia
encontrar caminhos para evitar que o PSD se deixe tentar por uma revisão
constitucional negociada toda à direita, que a esquerda parlamentar não conseguirá
impedir. Seguro poderia ser a chave para evitar a completa desfiguração da
Constituição nascida do 25 de Abril. É uma mera possibilidade, talvez pequena,
mas é a única que a esquerda tem para continuar a ter um papel com significado
no país, o que parece não estar interessada.
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