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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Nocturnos 137

Wassily Kandinsky, Night, 1907

A noite é uma mãe temerosa e cuida da sua filha como qualquer mãe. A filha cresce no silêncio nocturno e no desejo de luz. Ao receber o nome de Aurora, o coração treme e a mão desenha no horizonte a morte daquela mãe que tanto a amou.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Nocturnos 136

Maximilian Neustück, Nächtliches Ständchen in der Gasse eines Städtchens

Movida pelo império de Eros, uma serenata nocturna eleva-se ao coração que a espera. Esquecido o trauma do dia, a noite oferece-se como o horizonte onde a música encontra o seu poder invencível e torna real o que a luz prescrevia como impossível. 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Nocturnos 135

William A. Fraser, Moonlight, Central Park, 1897
O luar semeia o parque de pequenas luas, astros feitos de névoa, fabricados em filamentos de mercúrio, prontos para saltar sobre a escuridão e dar à noite pequenos frutos luminosos, sem nome, secretos, como se fossem laranjas não nascidas ou figos abandonados nos braços das figueiras.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Nocturnos 134

Rembrandt, A Ronda da Noite

A noite é um palco onde se desenrolam estranhas formas de comédia humana. Milicianos dispostos ao combate tomam conta dos recantos escuros, e uma luz vinda de não se sabe de onde ilumina as personagens, como se os quisesse assinalar aos poderes que na noite gerem a contabilidade obsessiva da Terra.

sábado, 29 de novembro de 2025

Nocturnos 133

Fernando Calhau, The Island of the Dead segundo Arnold Böcklin, 1993

Não há crepúsculos ao cair da noite, nem a anunciação da aurora, pois, na ilha dos mortos, a própria luz está morta. Trevas eternas são a casa onde os que deixaram a vida habitam. Caminham nelas em silêncio, mas sem o azedume do ressentimento nem a ira da revolta. Quando estão cansados de caminhar e se sentam perante o mar negro, pensam na luz e interrogam-se sobre se um dia ela voltar à ilha não os tornará mais cegos que a escuridão. Depois, levantam-se e elevam um cântico à noite eterna que a tudo envolve.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Nocturnos 132

Artur Bual, Hoje VI, 1965 (Gulbenkian)
É um trabalho demorado aquele onde a noite se gera. Envolta em nuvens de poeira, germina como um planta, com demora e presa nos interstícios do casulo onde se guarda. Depois, eclode e derrama o leite negro sobre o mundo, tingindo cidades e campos com a floração das trevas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Nocturnos 131

Paul Cézanne, Château Noir, 1903-1904
A noite abriga-se na escuridão. Envolta em trevas, avança sobre a casa abandonada, a casa que se perdeu na negra luz do oblívio, como um móvel velho e sem préstimo que se deita fora. Assim suspensa, dança sobre o telhado carcomido pelo tempo e com o seu véu de seda cobre-a para a proteger dos rudes exércitos do futuro.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Nocturnos 130

Peter von Hess, Nächtliche Rast in einem Kirchdorf (Städel Museum, Frankfurt am Main)
A noite acolhe os viajantes e oferece-lhes um lugar para esquecerem os tormentos que lhes invadem as almas, as fantasias que a imaginação nunca esquece de atear, como uma fogueira que incendeia a razão, os perigos que se escondem nas trevas do coração de cada um. 

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Nocturnos 129

William Hogarth, A Noite, 1738
Não é a escuridão que faz a essência da noite, mas antes as sombras que as delidas iluminações humanas projectam sobre o mundo. Movem-se no silêncio e fluem como água de um rio sereno, onde, na aparente placidez, se escondem as ameaças mais perigosas.

domingo, 13 de abril de 2025

Nocturnos 128

Piet Mondrian, Landschap bij nacht, 1907-1908

A noite é uma paisagem dolorosa a dançar na solidão, o rasto do silêncio quando foge do ruído, a leitura de um livro de onde as palavras foram roubadas. Nela, dança-se na ignorância do mundo. O corpo move-se errante, em busca das estrelas para com elas tecer constelações e ocupar as horas. Até que, por um secreto desígnio, chegue a aurora e a dor se suspenda nos dedos afiados do dia.

domingo, 2 de março de 2025

Nocturnos 127

Joseph Vernet, La nuit; un port de mer au clair de lune, 1771

A noite é um vício rasgado nas águas do mar, a intolerável abundância da escuridão dilacerada pela cornucópia lunar, uma borboleta rutilante a crescer no arquipélago, onde pequenos deuses se confundem com homens e mulheres sem rosto. A noite é um harém abandonado, uma floração que secou antes do raiar azul do âmbar da aurora.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Nocturnos 126

Egon Schiele, Durch Europa bei Nacht, 1906

Viajar durante a noite é trazer a escuridão da terra para dentro de si mesmo. Na ausência da luz, a paisagem tornada uma impressão difusa e sem contornos cresce no peito, lateja no coração, pulsa como um mistério indecifrável no interior do pensamento, contaminando a imaginação com os terrores arcaicos que submergiam os homens ao cair da noite.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Nocturnos 125

Frits Thaulow, Noite

A noite que encerra todas as noites é a que abre cada uma à grande viagem no navio do silêncio. Suspensa sob o mundo, é uma rosa a florescer no coração da Terra. Presa no cume da montanha, é um pássaro a voar sobre os frutos de Dezembro. Rasgada na linha do horizonte, é a promessa inscrita na música das esferas celestes.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Nocturnos 124

Jorge Molder, Face laveé d'oubli..., 1984 (Gulbenkian)

As noites germinam no antro do esquecimento. Chegam cantantes dos porões do dia, trazendo veludos obscuros com que ocultam o Sol e semeiam, entre os incautos, as alucinações mais terríveis. Depois, cansam-se e partem para longe, sem deixar endereço. Nunca voltam.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Nocturnos 123

David de Almeida, sem título, 1984 (Gulbenkian)

A noite desce do alto da sua loucura, paira abscôndita num lugar sem nome, treme na perturbação de vir à existência e entra pela porta do mundo, para trazer a fantasia da escuridão a quem definha no cansaço das coisas iluminadas ou entristece na cegueira trazida pelo tumulto de uma luz excessiva.

domingo, 15 de setembro de 2024

Nocturnos 122

Henry Moore, 14. Moonlight Fall, 1973 (Gulbenkian)

Quase cegos, os deuses da noite suplicam por luz. Então, a Lua derrama os raios que, como um Prometeu astral, roubou ao Sol e derrama-os por campos e cidades, para que essas divindades nocturnas não se deixem tomar pelo desespero e não enlouqueçam os sonhos dos homens.

sábado, 3 de agosto de 2024

Nocturnos 121

Ferdinand Fellner, Night, Open Field, c. 1830

Os cavalos da noite correm pelos campos abertos do Verão. Ao longe, ouve-se o relinchar dos animais e o vozear inquieto dos cavaleiros. Então, a cortina do horizonte rasga-se para que cavalos e cavaleiros por ela entrem, enquanto a aurora nasce trazendo no regaço o mistério luminoso da manhã.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Nocturnos 120

Fernando Calhau, sem título #68, 1978 (Gulbenkian)

Uma ilha de luz move-se no oceano da noite. Ilha inquieta a arder no desejo de outras ilhas, a sonhar arquipélagos luminosos, a guarda avançada que trará o lume do dia, a esperança renascida no coração das trevas.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Nocturnos 119

José Manuel Espiga Pinto, Bailado espirais, 1977 (Gulbenkian)

A noite dança nas espirais do tempo. Ergue-se como um pássaro solitário e poisa ao de leve sobre a caruma das cidades. Todo o seu corpo é ritmo e, no timbre da sua voz, ressoa o mistério do mundo, o tumulto das primeiras horas em que o universo nasceu, para que noite e dia se sucedessem para júbilo e tristeza dos homens a vir.

sábado, 11 de maio de 2024

Nocturnos 118

Jonas Umbach, Nächtliche Szene in zwei Grotten mit antiken Sarkophagen

A noite é uma gruta onde a morte se abriga para meditar sobre a sua tarefa sem fim. Esconde-se do júbilo da vida e tece as armadilhas que, incansável, lança no caminho daqueles que foram trazido à existência e deverão retornar, cedo ou tarde, a esse lugar de onde, incógnitos, partiram.