quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Beatitudes (40) Tempestades de neve

Ansel Adams, Oaks in Storm, Yosemite Valley, Winter, 1937

Quando se sonha com tempestades de neve, a terra coberta por um algodão branco e as árvores tocadas por uma floração feita de flocos água e nuvens de frio, o corpo recorda as horas em que, resguardado no lar, se envolve no calor da lareira e no silêncio que abre o coração às longas peregrinações pelo jardim ameno dos dias auspiciosos.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A insânia tribal

Francisco de Goya, Que Locura!

Há qualquer de malsão no ar. Não se trata apenas do famigerado vírus que não pára de se expandir e de se entregar às mais impúdicas metamorfoses. Ele ocupa, é verdade, o primeiro plano, mas sob ele movimentam-se coros de indignados preocupadíssimos com identidades. O que parece entusiasmar as claques é a questão dos brancos e dos pretos ou dos castanhos, dos homo e dos hétero ou dos trans e de não sei mais quantas identidades tribais. É com isto que se perde tempo e se incendeiam as redes sociais.

Em vez de se cuidar da democracia liberal, aquele regime em que todos são iguais perante a lei, em que esta governa os próprios governantes, onde estes podem ser despedidos por vontade popular, em que cada um pode dizer o que lhe apetecer e fazer o que bem entender da sua vida, entusiasmamo-nos com aquilo que abre o caminho para a desigualdade perante a lei, para os regimes onde os governantes estão acima dela e governam enquanto lhes apetecer, em que a palavra pode ser censurada e os comportamentos privados significativamente controlados.

Tudo isto em nome de identidades ficcionais, de grupos maioritários e minoritários que se pensam como tribos arcaicas. Tudo isto acompanhado por uma grande gritaria, como se cada grupo achasse que possui os monopólios da verdade e da dor e como tal tem uma legitimidade acrescida para vituperar a tribo inimiga. Tudo isto fundado num profundo desprezo pela singularidade de cada pessoa e pela natureza individual das acções – boas ou más – cometidas. Insânia, dir-se-á, embora a palavra possa não ter a força suficiente para dar sentido à tragédia que pode estar a fermentar neste caldo cultural. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Simulacros e simulações (14)

Eugène Atget, Avenue des Gobelins, 1925
Manequins são emanações de um país cujo dialecto desconhecemos. Imitam os homens para por eles seres imitados, mas nunca os olham dentro dos olhos. Ensimesmados, julgam-se a verdadeira humanidade. Enfrentam a indiscrição e nunca se entregam a confidências. Não choram, não riem, não os atinge a culpa silenciosa do sentimento.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A Garrafa Vazia 47

Oskar Kokoschka, Cavaleiro errante, 1915
Tivesse eu o talento
e o tempo,
e de Aquiles, a ira,
e de Orlando, a fúria,
haveria de cantar.

Saiu-me por arte
a falta de engenho
e cheguei tão tarde
que outros
antes as cantaram.

Para herói de alfurja
chego-me eu.
Pego na garrafa vazia
e estremeço
encardido de carvão.

Dezembro de 2020

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Nocturnos 52

Eugène Carrière, Place Clichy, Nuit, 1899-1900

Contra a noite luminosa ergue-se uma outra feita de sombras e figuras sem contorno, puros esboços movidos pelo combustível da cegueira. Um grito, uma palavra resignada, o restolhar de répteis pelo chão. Alguém fechas as pálpebras e caminha sonâmbulo pela praça da escuridão.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Perfis 15. O varredor de ruas

Wolf Suschitzky, Street Cleaner, Westminster, London,1937
Não têm fim as folhas mortas, pensa o varredor. O vento é o pior, diz sem emoção, esquecido do tempo em que havia sentimentos a borbulhar na sua consciência. Ele varre, junta as folhas em pequenos montes, com a pá deposita-as no carro, mas logo, como Sísifo, terá de recomeçar a tarefa, pois o arvoredo não se cansa de deixar cair as folhas exaustas para dentro do Inverno. Um dia sonhou com o seu lugar no mundo, imaginou-se rei, homem rico, como aqueles que por vezes via nos jornais velhos, amarfanhados pelos cantos da rua. Abria-os e olhava ávido as fotografias. Talvez os seus sonhos fossem mais modestos e, como muitos rapazes, se visse como polícia a perseguir os malvados do mundo, ou, então, como bombeiro a salvar uma bela rapariga das chamas, com quem haveria de casar. Porventura nem isso, pois até no mundo onírico a desigualdade impera. Nem toda a gente sonha com as mesmas coisas, nem da mesma maneira. O varredor não terá sonhado o suficiente e a vida colocou-o agarrado ao carro onde deposita as folhas secas caídas pelos passeios, que outros precisam de pisar sem o temor de escorregar nalguma folha morta. Sob a capa da névoa há mais folhas caídas à sua espera, e essa é a única certeza que tem. Varre-as, amontoa-as, empurra-as para a pá e deposita-as, sem acrimónia nem lassidão, no carro que há-de ficar cheio. O corpo inclinado, o olhar dirigido para o chão, a vida vergada ao destino. Empurra o carro, mas não olha em frente, pois tudo o que o rodeia está coberto pelo nevoeiro. Também a sua vida está recoberta de uma névoa densa. O passado engolido num desvão da memória, o futuro preso ao carro que empurra e onde deposita, sem descuido, as folhas mortas em que se transformou a sua vida.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A pandemia, o Estado e os portugueses

Se se observar o comportamento dos portugueses perante a pandemia, talvez seja possível ter um vislumbre daquilo que somos e de como gostamos de ser governados. Obviamente que não nos comportamos todas da mesma forma e não gostamos todos de ser governados da mesma maneira. No entanto, pode-se argumentar que temos mais inclinação para certas coisas do que para outras. Tanto no primeiro confinamento como no actual, o comportamento dos portugueses tem sido exemplar e os resultados são óptimos na contenção do perigo. Quando, porém, os portugueses ficaram entregues à sua responsabilidade, quando o enfrentamento da pandemia dependeu da autonomia de cada um, os resultados foram catastróficos. Portugal passou de um caso exemplar para a situação de país, proporcionalmente, com mais contágios em todo o mundo.

Quando é que as decisões políticas foram eficazes? Quando foram drásticas e impostas pela força. Isso aconteceu no primeiro confinamento e está a acontecer no actual. Quando é que as decisões políticas foram ineficazes? Quando se entendeu confiar no comportamento razoável dos portugueses, em vez de se exercer uma autoridade muito clara. A catástrofe do mês de Janeiro deveu-se a uma errada interpretação política – a começar no governo e no Presidente da República – do comportamento de parte significativa dos portugueses, o que conduziu a consequências terríveis. Confiar que parte dos cidadãos iria comportar-se racionalmente no Natal, sem que houvesse qualquer proibição e ameaça, foi um acto de grande irresponsabilidade política tanto do governo como do Presidente da República, bem como dos partidos representados na Assembleia.

O que diz isto sobre os portugueses, ou parte significativa deles? Diz que estão muito dependentes da autoridade do Estado. Diz que gostam pouco da autonomia individual, quando esta implica responsabilidade pessoal. Quando a autoridade do Estado se exerce de forma clara e ameaçadora, os portugueses obedecem. Quando o Estado apela a comportamentos racionais dos cidadãos, sem exercer autoridade, parte significativa das pessoas comporta-se de forma perigosa e irracional. Este é um problema estrutural na nossa sociedade, a ausência de um comportamento liberal. Um comportamento liberal significa aqui que os indivíduos agem razoavelmente sem necessitarem da ameaça do Estado. Usam a sua liberdade para se conter e evitar situações perigosas. Enquanto parte dos portugueses dispensar este comportamento liberal, o Estado será um pai – ora benevolente, ora ríspido – que lhe ditará como se deve comportar. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Descrições fenomenológicas 64. Paisagem de silêncio

Robert Ryman, Regis, 1977

Imóveis, as águas do rio repousam da sua caminhada para a foz. Esquecem a nascente e o caminho que fizeram. Retemperam as forças para o que falta. Da sua imobilidade nascem reflexos de nove ciprestes que se erguem na margem. Um terá secado. Uma ilusão, leva o espectador a pensar na existência de um duplo renque daquelas árvores, o que se alteia em direcção aos céus e o outro que se abisma nas águas em direcção ao centro da terra. Estranha linha divisória, habitada por segredos que ninguém desvenda. O horizonte está coberto por uma névoa de onde nasce uma luz cansada pela esforço de romper o véu. Não se vêem animais, nem homens, apenas a paisagem despida na sua geometria, o encanto das águas pousadas sobre a quietude da terra, os ciprestes alinhados como uma coluna militar, o céu perdido numa mancha sonâmbula de cinza. Sobre tudo isto cai o silêncio e o visitante hesita em entrar nesse mundo, não vá acordar os elementos, raptá-los do sossego em que adormeceram e entregá-los à mácula do alvoroço. Do céu cai uma gota de água, depois outra e outra, no rio nascem círculos concêntricos, que ondulam até se pacificarem e fundirem no magma líquido, restabelecendo-se a ordem primitiva. De súbito, um pássaro poisa no cipreste morto. Canta. Um barco movido a remos sulca a água. O barqueiro move os braços e as pernas, enquanto a pequena embarcação desliza, o murmúrio das águas se fecha sobre si mesmo e a paz se restabelece no momento em que o pássaro levanta voo e o visitante desaparece tragado pela neblina.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A Garrafa Vazia 46

Edvard Munch, Melancolia, 1894-5
Trôpego, caminho
aos tropeções.
Os pés enrolam-se
na corda de sebo
em que a vida
se prende.

O corpo inclina-se
para a maré
vazia,
e dos lábios caem
sílabas,
se a saliva escorre
pelos cantos da boca.

Dezembro de 2020

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Simulacros e simulações (13)

Ralph Gibson, Tabletop still life, 1974
A mesa sem ninguém, um prato e um copo, a toalha de papel levantada num canto. Tudo isso é uma metáfora astuciosa onde se esconde a alusão da fome que ali se há-de descobrir e saciar. Antes da fome ser fome, ela é a simulação de uma necessidade, e nesta encontra o caminho que a fará sentar naquela mesa, diante da tristeza que inunda aquele prato e aquele copo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Nocturnos 51

Bill Brandt, The Adelphi, 1939
Essa estranha noite onde sibilas extasiadas profetizam as dores do mundo abre-se ao indiscreto olhar da Lua. O pálido clarão semeia sombras e nelas escondem-se os fantasmas que dormem na caverna do coração dos homens.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Beatitudes (39) Utopia à beira-mar

António Carneiro, Praia da Figueira da Foz, 1921

Esse tempo em que as praias se regiam ainda por um princípio de justa distância seria propício para nelas ver um lugar de beatitude. Uma visão de um mundo utópico no qual os homens não tivessem de obedecer aos ditames da estrita necessidade e pudessem entregar-se ao devaneio luminoso do Sol, escutando o murmúrio musical do mar.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Peter Handke, A angústia do guarda-redes antes do penalty

Publicado em 1970, o romance A angústia do guarda-redes antes do penalty é uma das obras mais conhecidas do escritor austríaco Peter Handke, Nobel da literatura em 2019. O leitor de imediato sente a possibilidade de carrear alguns pontos genealógicos que se configuram elos de uma corrente que levam ao romance de Handke. Kafka e Ungar, Broch e Musil, mas ainda Camus, de O Estrangeiro, ou Sartre, de A Náusea. A obra faz parte de uma paisagem pesada que parte da literatura europeia foi construindo, num jogo de espelhos, com a realidade dessa Europa que, no século XX, orgulhosa da sua civilização material, não teve a contenção necessária para evitar duas guerras mundiais e um número desmedido de patifarias. Uma paisagem devastada de homens sem qualidades. A ausência de qualidades é também a ausência de qualificativos. Os homens são substâncias nas quais a essência se despiu dos acidentes, para falar à maneira de Aristóteles.

Assim como, na Metamorfose, de Kafka, Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, acorda uma manhã transformado num insecto gigante, também é subitamente que Joseph Bloch, um mecânico, se vê despedido da empresa onde trabalha. Não é claro, todavia, se ele foi efectivamente despedido ou se julgou tê-lo sido. Esse é, na narrativa, o primeiro sinal de uma desvinculação ontológica entre o sujeito e a realidade social, na qual se inclui a sua própria realidade de ser social. A referência à doutrina de Aristóteles pode não ser despropositada. Desvincular-se dos acidentes – das qualidades que não constituem o cerne da identidade – deixa os homens reduzidos à sua essência, mas estranhamente a perda do acidental produz uma profunda alienação, em vez de glorificar aquilo que é. O que conduziu Bloch a esse estado não se sabe. Duas qualidades acidentais são referidas, mas ele, no tempo da narrativa, já as perdeu. A de ser um mecânico e, também, a de ter sido um guarda-redes conhecido de uma equipa de futebol, também ela conhecida. Durante a narrativa, contudo, ele já está despido dessas qualidades. Perdido o emprego, Bloch entregou-se à pura errância, a deambular por Viena, primeiro, e depois numa outra cidade, na fronteira sul do país.

Desqualificação e errância são sintomas do estranhamento, da alienação. Um descomprometimento emerge na atitude do antigo guarda-redes. Descompromisso com os lugares, as pessoas, com os próprios actos, sentimentos e situação existencial. Nessa errância, comete um homicídio. Não porque tivesse motivo algum para o cometer. Aconteceu estrangular uma rapariga que trabalhava na bilheteira de um cinema, com quem tinha ido para a cama. No seu acto não houve qualquer finalidade ou motivo. Dir-se-ia que não foi uma acção, mas um mero acontecimento, idêntico a uma avalanche ou a um raio. Esse evento não teve qualquer ressonância interior. Reduzido à sua pura essência, Joseph Bloch não apenas perdeu os acidentes como não o move qualquer objectivo. É isto que transforma os seus actos em puros processos naturais. O estranhamento do mundo social, dos jogos de linguagem e das convenções rituais conduz à pura naturalização do indivíduo.

A própria personagem, por vezes, chega a uma consciência próxima do seu estado. Quando suspeita que certos jogos de linguagem – frases ou conversas – não são sérios, não passarão de uma brincadeira. O mesmo se passa com certos acontecimentos ocorridos nas interacções sociais. Esta desconfiança para com a seriedade da vida social ou da linguagem é um sinal da desvinculação com todo o mundo ritualizado da cultura humana, com os seus jogos linguísticos e representações sociais. Nada daquilo pode ser sério. A autenticidade de um ser puramente natural está aquém do jogo e da representação teatral. Como se sabe, jogo e representação são elementos estruturantes da vida em sociedade, fundamentos do que se convencionou chamar cultura. Joseph Bloch não transcende o social e o cultural na imersão mística no mundo do espírito, mas retorna ao estado de natureza. O romance pode ser lido como uma experiência mental ou, melhor, um ensaio sobre o que seria um homem que decaísse do estado social para o estado natural. O estado natural não é um lugar de emancipação, mas de degradação. Toda a queda se inscreve num movimento de degradação, e a história de Joseph Bloch é também a história de uma queda.

Cair na natureza é também cair fora da história. Isso explica – talvez mais do que o suposto experimentalismo do autor – o tipo de narrativa escolhido por Handke. Sem intriga e sem desenlace. Por exemplo, o leitor percebe que a polícia começa a aproximar-se do assassino da rapariga da bilheteira, mas isso não tem qualquer impacto no romance nem no destino de Bloch. Na natureza não há acções e não há história, apenas acontecimentos. A narrativa tenta ser uma descrição exaustiva de acontecimentos, mesmo que estes tenham aparência de acções humanas. Isto conduz ao papel do narrador. Se há um romance em que se sente a presença obsessiva do narrador é neste. Narrado na terceira pessoa, A angústia do guarda-redes antes do penalty é um exercício literário de registo minucioso de ocorrências, como se o narrador omnisciente redefinisse a natureza dessa omnisciência. Ele é omnisciente não porque sabe o desenrolar e o desenlace da história que está a contar, mas porque regista de forma hiperbólica a factualidade. No universo narrado – um universo natural e não um mundo humano – não há uma história para contar, mas factos para registar, numa espécie de relatório descritivo de um narrador obsessivo com a exactidão do que acontece.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

A Garrafa Vazia 45

Amadeo de Souza-Cardoso, título desconhecido, 1913
O vinho avinagrou
na vertigem
da garrafa esquecida.

A gangrena cresce
por dentro
dos gânglios da vida.

Bebo o vinagre
na esponja
da necrose que sou.

Dezembro de 2020

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Nocturnos 50

Berenice Abbott, Multiple Exposure of Swinging Ball, 1958–61

O gotejar da luz irrompe pelas trevas da noite eterna. Como as contas de um colar, as gotas de luz rodopiam em torno de um centro, e na velocidade que as move há uma ameaça de escuridão e a súbita promessa de um relâmpago.