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| Pierre Bonnard, La Place de Clichy, 1912 |
Ergue-te, ó ave de rapina.
No gargarejo das ruas.
Na carcoma dos lares.
No vómito das praças.
Esvoaça, ó ave de rapina,
presa no trilha da infâmia.
Espera-te, sob a muralha,
o vesperal esgoto do rio.
[1993]
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| Guillermo Pérez Villalta, El rumor del tiempo, 1984 |
Não percas tempo! O dia é breve E passa depressa a hora da juventude. Ganha coragem e parte... Georg Trakl Os primeiros três versos do poema Apelo, de Georg Trakl, contêm três actos de linguagem directivos e dois representativos. O poeta começa por ordenar Não percas tempo! Este imperativo, por si só, não faz sentido. Preciso de uma justificação. Aí, o poema oferece duas: O dia é breve e E passa depressa a hora da juventude. Não se deve perder tempo, pois a vida é breve e o tempo é veloz na sua passagem. Justificado o imperativo, seguem-se outros dois: Ganha coragem é o primeiro, aquele que ordena reunir as condições para o cumprimento do segundo: parte. Estas formas imperativas, com as justificações que o poeta mobiliza, funcionam como um processo de ocultação. Escondem uma pergunta. Não a pergunta: partir para onde? Ocultam antes a pergunta decisiva: partir, por que razão? Tenha-se ou não coragem de partir, o tempo será perdido. Ficar ou partir não altera a brevidade do dia e a rápida passagem da hora da juventude. Que diferença fará ficar ou partir? Ficar responde ao preconceito sedentário, mas partir não é mais do que encarnar o preconceito do nómada. Em ambos os casos, a decisão tem o seu impulso num preconceito, em algo que não chegou por completo ao pensamento e que provavelmente nunca chegará, pois são obscuras as razões que nos levam a ficar ou a partir. |
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| William A. Fraser, Moonlight, Central Park, 1897 |
O fim da História significa que se assume uma ordem
internacional hobbesiana. Volta-se, ao nível internacional, a um estado de
natureza, onde não existe qualquer árbitro acima das potências que possa
decidir os conflitos. Significa que se está numa guerra contínua – umas vezes,
através da política, outras vezes, das armas – de todos contra todos, em
conformidade com o poder de cada um. Significa que a ideia, de Thomas Hobbes,
de que o homem é o lobo do homem, se torna a regra directora do comportamento
das potências, e que pode ser reescrita: os países são os lobos dos países. O
caso do conflito entre Rússia e Ucrânia é não apenas um exemplo, mas o início
de um recomeço de uma ordem internacional, onde potências maiores tentarão
devorar potências menores, agindo em conformidade com os seus interesses. Também
esse é o caso da acção dos EUA na Venezuela, transformada em protectorado
americano.
O que é a História? Retome-se a interpretação que Walter Benjamin faz do quadro Angelus Novus, de Paul Klee. Do paraíso, sopra um vento tempestuoso em direcção ao futuro. O anjo é arrastado e o olha para o passado. E o que vê? Vê a História, isto é, uma catástrofe contínua que acumula ruína sobre ruína. As férias da História, de que falou Merz, foi o brevíssimo tempo em que se acreditou no avanço civilizacional, no aperfeiçoamento da humanidade, na melhoria contínua. Voltar à História é retornar ao ciclo de violência, destruição, opressão e sofrimento dos homens. A proclamação de Merz não nos trouxe nada de agradável. Lembrou-nos que a paz e o progresso humano são acontecimentos felizes, fruto da fortuna, mas não lei universal. A violência e a dor fazem parte da condição humana na Terra, a qual, em parte pela culpa do próprio homem, não é um paraíso, mas, demasiadas vezes, uma visão do inferno.
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| Egon Schiele, Agonía, 1912 |
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| Henry Abercrombie Roome, A Lake in the Alps, 1892 |
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| Francisco de Goya, Aníbal contemplando Italia, 1791 |
Após a demissão da ministra da Administração Interna, Maria
Lúcia Amaral, têm surgido, um pouco por todo o lado, comentários que se podem
sintetizar numa expressão: erro de casting. O uso desta expressão por agentes
políticos e comentadores é, já por si, revelador de um problema estrutural que
atravessa as sociedades ocidentais. Escolher ministros não é escolher actores
para actuarem num cenário ficcional de uma série televisiva, num filme ou,
mesmo, numa peça de teatro. Por vezes, o uso de expressões metafóricas ilumina
o que se quer compreender; mas, outras vezes, como é o caso, essas expressões
obscurecem a compreensão dos fenómenos. O problema não reside no facto de a
ex-ministra ser uma má actriz. Reside noutro lado, do qual ela não terá
consciência e de que não será a primeira culpada.
O problema reside na compreensão da natureza do político,
problema que se tem vindo a agravar nos últimos séculos. Esse agravamento
manifesta-se, por exemplo, na escolha de pessoas sem perfil político para
funções essencialmente políticas. Quais são as áreas políticas essenciais? São
quatro: 1. Negócios Estrangeiros; 2. Defesa; 3. Justiça; 4. Interior
(Administração Interna). Ora, já a designação do Ministério — a substituição da
tradicional designação de Interior por Administração Interna — revela um equívoco,
de que Maria Lúcia Amaral foi vítima. A função não é administrativa, mas
política. Todas as áreas políticas acima referidas incluem funções de
administração, mas isso é apenas um suporte das decisões políticas estruturais,
as quais devem ser coordenadas por um primeiro-ministro, de modo a garantir a
consonância da acção política governativa.
O que a acção política visa, em primeira e em última
instâncias, é a persistência da comunidade política no tempo. No caso,
assegurar que Portugal tenha um futuro. Isso faz-se, por um lado, pela relação
com a exterioridade geopolítica, num mundo que, muitas vezes, pode ser
descrito, de modo hobbesiano, como um lugar de guerra de todos contra todos.
Assim, há que ter atenção aos potenciais inimigos, aos amigos e aliados. Estas
funções políticas devem encontrar-se nas pastas dos Negócios Estrangeiros e da
Defesa. Por outro lado, e com igual importância, existe a segurança interna e a
paz pública — duas funções políticas que cabem às pastas da Justiça e do
Interior (Administração Interna). Ora, para estas quatro pastas são necessários
ministros politicamente fortes. Fortes em dois sentidos: autoridade política e
pensamento político estruturado sobre a área e a sua relação com o desiderato
da política. Coisa que muitas vezes não acontece, como no caso da ex-ministra.
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| Michel Larionov, Calle con farolas, 1910 |
Os ramos sufocam em silêncio,
presos em árvores de calcário.
Letras ígneas de cansaço brotam,
folhas arrebatadas pelo Outono.
Um alfabeto de malefícios brama
na esquiva escuridão das ruas.
E o bolor acende a vela
vagarosa
no livro azedado no ardor da
aurora.
[1993]
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| Ralph Winwood Robinson, Sweet Spring, 1892 |