sábado, 13 de julho de 2024

A persistência da memória (30)

L. Kleintjes, Veluwe Interior from artist Jan L. Kleintjes’s atelier in Heerde, 1903

A imagem impede o momento vivido de cair no grande dilúvio da ruína, raptando-o para uma ilha perdida num arquipélago mudo. Assim coagulada, a vida torna-se sombra a pairar no mundo. E essa sombra é tecida com os fios da memória, onde se encontram os gestos, os pensamento, as acções realizadas, as omissões. Enquanto a imagem persistir, esse instante de uma existência é eterno, tem a eternidade da imagem que o salvou do oceano do esquecimento.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Máximas (21)

Francesca Woodman, Rome, 1978
Abandonado na noite, o corpo esquece-se de si e repousa no silêncio cantante, onde o espírito se move sobre a ondulação inquieta do sonho.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Simulacros e simulações (65)

Ana Hatherly, Sideral, 2002 (Gulbenkian)

Meditemos nos astros à deriva no universo. São letras desgarradas dentro da grande nuvem das línguas. Por vezes simulam constelações e tornam-se palavras. Outras pensam-se galáxias e são textos habitados por sistemas planetários e misteriosos buracos negros. 

domingo, 7 de julho de 2024

Cânticos lunares (ii)

David de Almeida, Lua, 1999 (Gulbenkian)

Ilumina a Terra a Lua Nova.

Os segredos presos ao depósito

das horas gastas

na rasura das ruas.

 

A voz dos gatos na noite,

telhados abertos à visitação,

à súplica feroz dos anos,

aos dias de júbilo.

 

Sob o candelabro lunar,

holocaustos, hecatombes,

o propiciatório desejo de luz,

fogo orgânico no peito.

 

Quando a noite se manifesta,

vem uma víscera delgada,

ponto de vista informe,

a mágoa sem nome do mundo.

 

A Lua, em paciente trabalho,

inunda a cabeça, debrua

a língua pelo som das sílabas,

ergue-se na sintaxe do rancor.

 

As crianças aprendem

o valor fátuo da noite,

a escuridão viva do medo,

o húmus no carvão dos campos.

 

O silêncio ecoa ferido

pela queda da parra,

pelo crepitar da macieira,

os dedos embutidos na garganta.

 

Em toda a Terra é noite.

Uma escuridão de cães a latir,

a faca presa na mão,

a cega luz na cegueira da Lua.


Abril de 1993 

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A revolta do Estado-Nação

No último quartel do século XX foi-se formando a convicção de que o Estado-Nação estaria em declínio irrevogável. A ideia de Estado-Nação teve o seu momento fundador no Tratado de Westfália (1648). A soberania nacional tornou-se o princípio organizador do sistema internacional. O Estado-Nação foi consolidado pelas Revoluções americana e francesa, bem como pelo impacto do Iluminismo. Três ideias centrais estavam ligadas ao Estado-Nação, a de soberania popular, a de cidadania e a de identidade nacional. Ora, o aprofundamento da integração europeia intensificou a retórica do fim do Estado-Nação e, de forma sub-reptícia, acentuou uma orientação federalista, que se realizaria através de pequenos passos. Não querer ver na evolução da União Europeia uma das causas, talvez a fundamental, do crescimento e afirmação da extrema-direita é enfiar a cabeça na areia.

Houve duas coisas que os europeístas não perceberam. A primeira diz respeito ao peso da soberania popular, da cidadania e da identidade nacional na consciência colectiva das velhas comunidades políticas. Foi o Estado-Nação que as trouxe e isso representou um mecanismo de reconhecimento do homem comum, que passou a ter uma voz e uma identidade política clara. Ora, o aprofundamento da União Europeia foi sentido, em muitas camadas da população europeia, como uma operação de destruição das soberanias e identidades nacionais e da própria voz dos cidadãos.  A segunda questão está ligada à natureza da extrema-direita, a qual foi percepcionada como a continuação da visão reaccionária daqueles que se opuseram aos valores do Estado-Nação, da Revolução francesa e do Iluminismo, por vezes um misto entre nostálgicos do absolutismo monárquico e das ideias totalitárias do século XX.

O que aconteceu foi que parte dessa extrema-direita tomou como seus os valores da soberania e da identidade nacionais, bem como da cidadania nacional. Enquanto os europeístas trocavam esses valores por valores abstractos, sem história nem relação afectiva com as pessoas, como o da soberania, identidade e cidadania europeias, a extrema-direita fez seus esses velhos valores que, um dia, combateu. Depois, teve ao seu lado a evolução do estado do mundo. A globalização, a crise do subprime e das dívidas soberanas, o problema da imigração e a imposição de uma ordem neoliberal foram adjuvantes que confirmaram, aos olhos de parte significativa dos cidadãos, que os velhos valores que lhes tinham dado voz estavam sob ataque. O resultado é o que se está a ver. Em França, a extrema-direita está às portas do poder. O Estado-Nação revoltou-se.

domingo, 30 de junho de 2024

Um poder discricionário

 

A divisão do poder político – legislativo, executivo e judicial - proposta por Montesquieu visava combater o poder absoluto depositado no rei. Pretendia-se proteger os cidadãos da vontade daquele que concentrava em si todo o poder e toda a violência legítima para se fazer obedecer. Esta divisão acabou por estar na base dos regimes democrático-liberais e do Estado de direito. A grande preocupação é defender o poder judicial das interferências do poder executivo. Na nossa constituição, o poder legislativo presta contas ao povo em eleições e ao Presidente da República, que o pode dissolver.  O poder executivo ou presta contas perante o povo em eleições, no caso do Presidente da República, ou perante o poder legislativo, no caso do governo. Só o poder judicial não presta contas perante ninguém que esteja acima dele. 

Há nesta independência do poder judicial uma ingenuidade. As paixões políticas são das mais poderosas e que mais capacidade têm para cegar as pessoas. O poder judicial é composto por seres humanos iguais a todos os outros. Por que razão deveriam eles não estar sujeitos às paixões políticas? Uma coisa é trabalhar num caso de justiça comum, num roubo, num assassinato, onde, em princípio, não se imiscui a paixão política. Outra bem diferente, é trabalhar e julgar em casos onde as convicções políticas de quem aplica a justiça podem enviesar a mera interpretação dos factos. As paixões políticas dos que fazem política são benévolas, pois estão assumidas e são escrutinadas pelo debate público. O mesmo não se passa com as paixões políticas de quem exerce a justiça, pois são tidas como não existentes, embora seja pouco crível que não existam.

O facto de o poder judicial não ter de prestar contas a ninguém fora da esfera judicial pode conduzir a uma subversão dos regimes democráticos, com uma interferência impossível de controlar do poder judicial na esfera dos assuntos do poder político. Aparentemente, é o que está a acontecer, com a contínua divulgação de escutas cuja existência não se percebe e cuja publicação viola o mais elementar sentido de justiça. Como há pessoas que vão para a política porque se julgam salvadores, também haverá quem pense ser salvador a partir do poder judicial. A grande questão é de saber se é possível encontrar um modelo em que o poder judicial preste contas sem correr o risco de ficar subordinado aos outros poderes, ou se haverá sempre uma parte do poder político - neste caso, o judicial – que é arbitrário e que, em última análise, se pode aproximar de um poder absoluto, apesar de não fazer a lei nem de governar. Interpretar a lei pode ser o mais amplo e discricionário dos poderes.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Nocturnos 120

Fernando Calhau, sem título #68, 1978 (Gulbenkian)

Uma ilha de luz move-se no oceano da noite. Ilha inquieta a arder no desejo de outras ilhas, a sonhar arquipélagos luminosos, a guarda avançada que trará o lume do dia, a esperança renascida no coração das trevas.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Cânticos lunares (i)

Hashim Samarchi, A pálida lua, 1967 (Gulbenkian) 

Um astro de cera revolve o ventre,

circunda-o no presságio da luz,

as águas soltas no delírio das marés.

Sob o clarão, a doçura do sangue pulsa,

caos no interior litoral da ordem,

fogo ateado na língua vítrea da lua.

 

Noite dormente, a lividez amarga,

o espinho cravado no rosto lunar.

O uivo silente e curvo desprende-se

da escuridão sideral da eternidade.

Sobre os degraus da casa, desfazem-se

as sombras, bandos de corvos repicam,

cantam no bronze verde-azul do sino.

 

Uma vida de crateras projectadas

no soalho viscoso, nas vísceras da terra.

O ceifeiro lunar inicia, em solidão,

o trabalho lexical, semeia letras de sal

no oceano lavrado da desordem,

sílabas de morte na virtude da língua.

 

Pela luz da lua um homem vem à fala.

A boca é um espelho, escarpa coleante,

o eco do animal roubado ao húmus,

ferido pelas glicínias cruas da noite.

 

Soa o troar da voz astral, feto preso

no sangue das artérias, a borracha

tubular de um oxigénio mineral.

Na luz dos olhos, sucumbe a videira

ao canto incendiado do rouxinol.

 

Esplende a lua uma ciência oculta.

Luz amarela e branca, sazonada

entre as flores da acácia e o odor

do trenó tecido no vidro da história.

A mão na espada dedilha o roteiro,

a secreção incauta no lodo do silêncio.


Abril de 1993

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]


segunda-feira, 24 de junho de 2024

Ensaio sobre a luz (119)

Vítor Fortes, Pintura, 1972 (Gulbenkian)

A luz rompe o sombrio que habita em toda a sombra, abre o campo ao olhar, desvela a matéria do mundo a quem passa. Ao tornar tudo tão transparente, lança uma semente no solo da inquietação, uma dúvida no coração que, perplexo, pergunta: que noite se esconderá na luz que a tudo manifesta? Que invisibilidade habitará nas coisas manifestadas'

sábado, 22 de junho de 2024

O futebol e o radicalismo de direita

Decorre o Europeu de futebol, hora em que o fervor nacionalista se exalta. O futebol, na sua dimensão industrial, foi colonizado por perspectivas ideológicas que fomentam, na consciência dos adeptos, uma visão do mundo muito específica. Essa visão associa três ideias centrais. Por um lado, a ideia de competição. Por outro a ideia de mérito. Por fim, a ideia de pertença à tribo e à nação. Quem defende valores racionais na convivência humana e regimes políticos demo-liberais está espantado e preocupado pela emergência da extrema-direita e da direita radical. Não se interroga, porém, como o desporto de alta competição, no caso da Europa e de parte do mundo, o futebol, foi fundamental para difundir um conjunto de crenças que facilitaram a adesão a essas visões ideológicas. Embora, há décadas, nos campos de futebol, existam sinais claros disso.

A indústria do futebol propaga uma visão da vida que se alinha com o neoliberalismo e o tribalismo nacional. Dois dos elementos centrais dessa indústria são a competição, como se se estivesse num mercado, e o mérito. Só os melhores têm lugar nos sítios onde se é muito bem pago. A relação entre essa visão do futebol de alta competição e as nossas sociedades é tão clara que não vale a pena explicá-la.  Um terceiro elemento da indústria do futebol é a emoção do adepto. Não a emoção estética de um grande golo ou de uma bela jogada, mas o orgulho de derrotar os adversários, de os humilhar, de mostrar que somos ontologicamente superiores, super-homens, enquanto os outros são sub-humanos. Isto manifesta-se no clubismo e, ao nível de selecções, no nacionalismo. O nacionalismo, durante muito tempo na Europa, apenas subsistiu no futebol, onde era cultuado ao extremo.

Apesar de parte da extrema-direita actual se apresentar com programas economicamente antiliberais, outra parte combina o radicalismo libertário na economia com o tribalismo nacionalista. Contudo, mesmo essas direitas que, aparentemente, querem limitar a concorrência do mercado, apenas o fazem em nome da concorrência entre tribos, entre nós e os outros. A progressão dessas direitas extremadas e radicais encontrou, nas consciências das pessoas, uma visão do mundo, formatada, durante décadas, pela indústria do futebol. Parte da população tinha a consciência disponível para acolher aquele tipo de ideologia. Não é um acaso que a liderança portuguesa desses sectores ideológicos tenha vindo do exaltado comentário futebolístico. O futebol é um belo jogo, mas a indústria do futebol, onde pertencem os campeonatos de selecções, não é ideologicamente neutra e, muito menos, pura. Bons jogos.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Beatitudes (70) Melancolia

Mário Eloy, Paisagem, 1930 (Gulbenkian)

Um estado de beatitude pode nascer de uma nuvem de melancolia. Uma paisagem viva desaparecida há muito, um casario nascido do barro do esquecimento, a passagem dos barcos pelo rio da memória. De súbito, um clarão inunda o espírito e a verdade do mundo poisa, melancólica, no ramo do olhar.

sábado, 15 de junho de 2024

Poemas fluviais 5

Karl von Pidoll, River scenery, ca. 1889

Era o primeiro rio que me nascia nas mãos.

Naquele regaço arfava uma rosa-púrpura,

rosa inchada pelos dias,

olhos inclinados entre folhas de loureiro.

Vacilavam as águas presas na indecisão,

os barcos arvoravam bandeiras

de países perdidos pela terra.

 

Como te chamas?

A urze é corrida pelo vento,

círculos ondulam a água deste rio,

cavado na memória,

perdido nos alcatruzes do tempo,

no fundo de uma areia fina,

branca como a palidez da morte.

 

No rosto do rio, risos de mulher.

Rio feminino, fêmea aberta sobre as margens.

Quando a água corre entre o lodo,

abre as longas pernas.

No centro do útero cresce a voz,

o poder intocado pelo medo.

 

O rio procura um nome,

perde-se entre meandros,

perde-se nas orações quebradas

numa língua incógnita.

Tumulto após tumulto, sossega o rio o desejo.

O nome é uma palavra inominável,

o secreto recanto da alma.

 

Sente o rio a noite, as lâmpadas acesas

sobre o bordo dos barcos,

as canções fluviais em surdina.

De que lhe serve uma voz?

Da noite, nasce a aurora,

um cavalo abandonado sobre a terra.

Acende-se o rio nas sílabas de luz,

na fonética imprevisível do dia.

 

Cavaleiros fluviais debruçam-se

na topografia das águas,

traçam mapas no veludo do olhar.

O rio corre entre tábuas,

preso em paredes caiadas, tocadas pelo lodo.

Nas veias, o visco dos séculos,

uma cadeia de fungos,

o bolor cinzelado pelas mãos.

Como chegar ao fundo do rio?

 

Cresce na margem uma habitação silenciosa,

rumor de água pelo moinho,

pesadas mós moem o trigo da melancolia.

O moleiro olha a mulher,

uma agonia sem nome cresce na alma do rio.

A hidra volta todos anos,

traz o recibo de um tributo nunca pago.

 

Sobre a esquina do rio, um cântaro esquecido.

Nas margens, cães e crianças,

vozes de sombra e latidos lunares,

a erva fresca alimenta impérios de insectos,

flores vermelhas voltadas para a colmeia.

No centro da água sopra o vento,

vozes ecoam no álcool das destilarias.

 

Corre um mundo sem tréguas,

uma batalha inédita de peixes e patos.

Arvorado pelo anzol,

um homem de sebo é o dono desse mundo.

Quando da janela deita os olhos entre as águas,

crescem rochas esventradas na saliência do rio.

 

O tecto traz o zinabre da memória,

as águas a corroer paredes e almas,

pássaros esquivos poisados na roupa branca,

um quintal de ervas daninhas,

pedaços de vidro pelo chão.

Deitado na vida, a aguardente corria

pelas margens tocadas pela sombra da tarde.

 

Mulheres gritavam,

entre as silvas ouviam-se guinchos,

ratos especados,

o fio de água entontecendo os choupos,

salgueiros quebrados na margem do corpo.

 

Com as mãos entreteço uma armadilha,

aprisiono o mistério das águas e calo-me.

Um cesto de verga,

a sombra enxertada na luz solar

e todos os dias uma água prisioneira

foge de minhas mãos vazias,

perde-se na torrente do rio que corre.

 

Agosto de 1993

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]




quinta-feira, 13 de junho de 2024

Comentários (20)

Godofredo Ortega Muñoz, Tierras, 1967
há uma terra dentro das palavras
o erro musical.
António Franco Alexandre

Também a terra é música. Tem em si, na poeira e na cinza, no carvão e no ferro, que a constituem, um ritmo e uma harmonia. Onde a vemos imóvel ou revolta, se o vento a impele para fora de si, gera-se um contraponto, como se a imobilidade e a inquietação não pousassem na mesma terra, mas fossem duas melodias de caminhos diferentes que, na sua independência, dançassem, abrindo o caminho para uma fuga, onde a Terra fala, os elemento do mundo a imitam e as perigosas dissonâncias adormecem em braços e lábios consonantes.

terça-feira, 11 de junho de 2024

Máximas (20)

Francis Bacon, Figure in a Landscape, 1956

A lenta lassidão do espírito anuncia o cansaço do corpo e decreta a férrea aniquilação da vontade.

domingo, 9 de junho de 2024

Simulacros e simulações (64)

Júlio Resende, Cabeças de homens, 1946 (Gulbenkian)
Uma lenta aproximação dos homens, onde os hálitos se tocam e os olhares se cruzam, simula uma comunhão que se supõe no fundo de toda a comunidade. Os olhares, porém, logo se afastam e aquilo que parece estar próximo não é mais do que o simulacro de uma conformidade, que esconde a distância infinita que vai de um  a outro eu.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Teixeira de Queiroz e o mundo português

Hoje desconhecido do grande público, Francisco Teixeira de Queiroz foi um dos grandes escritores portugueses dos finais do século XIX e inícios do século XX. A Imprensa Nacional começou, em 2020, a republicar as obras do escritor nascido em Arcos-de-Valdevez, que chegou a ser deputado e Ministro dos Negócios Estrangeiros na Primeira República. Teixeira de Queiroz inscreve-se na mesma corrente literária, ou nas mesmas correntes, de Eça, o realismo e o naturalismo. Escreveu, com um título influenciado por Balzac, duas grandes séries de romances e narrativas, uma designada Comédia do Campo e outra Comédia Burguesa. São retratos da vida portuguesa no final do século XIX, embora a segunda se situe, essencialmente, no universo lisboeta, que vivia, na época, a transição, nas relações de poder, da aristocracia para a burguesia.

“A primeira vez que Salústio Nogueira entrou na Câmara dos Deputados, como eleito do povo, foi sob o patrocínio de uma senhora, D. Josefa Lencastre, que, num baile de caridade, no Clube, disse ao ministro da Guerra: Tenho um grande favor a pedir-lhe, general.” Assim começa o segundo romance da Comédia Burguesa, com o título O Salústio Nogueira – Estudo de política contemporânea. A conversa entre a jovem e bela D. Josefa e o ministro da Guerra prossegue, com ela a manipular o delíquio amoroso que habitava o coração do militar. Chegado o momento, ela diz: “Então aí vai o meu pedido: eu quero que o senhor me faça um deputado.” Ao que o General respondeu: “Ora adeus! ... Era isso?! Deputados! ... Faço-lhe dois ... Faço-lhe vinte de uma vez, se Vossa Excelência mo pedir.” E acrescentou: “Faço-lhe um ministro aqui de pronto.

Será o Portugal político do século XXI tão diferente daquele que Teixeira de Queiroz descreve? Não temos Rei, as famílias aristocráticas – D. Josefa Lencastre era sobrinha da Viscondessa de Águas Santas – são uma relíquia e os generais de hoje estão, por enquanto, mais distantes da política. Será, porém, o método de produção de deputados e até de ministros tão diferente? Teixeira de Queiroz, em meia dúzia de linhas, mostra-nos a íntima relação entre eros e poder, o sistema de cunhas que domina a vida social portuguesa e a força que sustenta, no nosso país, aquilo que antigamente se dava o nome de videirinhos. Tudo isto continua vivo e de boa saúde, embora com outros protagonistas. Não somos nórdicos e a nossa cultura ancestral é esta. A literatura serve para muitas coisas. Uma delas é mostrar aquilo que um povo é. Teixeira de Queiroz é um dos que o fez com talento. Merece que se volte a ele.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Poemas fluviais 4

Ignacio Zuloaga y Zabaleta, Paisaje, 1939-1940

Um rio cresce em castelo inexpugnável,

império de lodo sobre o barro,

serpente de geometria variável

a arder no fogo branco de toda a água.

 

Quando pelas manhãs o mundo estremece,

a luz fluvial estreita no seu abraço

a erva fresca, o salgueiro debruçado,

aberto no solstício das margens.

 

Um rio de pescadores sonâmbulos,

acordado pela noite,

pelo correr das gerações, os peixes lívidos

deitados no chão da barcaça.

 

Destilado na tristeza, cresce incógnito,

a alma desolada entre pomares,

grávido de vozes inúteis, sem sol, sem sal

sem uma janela aberta para o mar.

 

Um rio é uma paixão soterrada na memória,

cântico saturado pela resina do tempo,

cuidado por uma lavoura arcaica,

pela bênção de púrpura da estrela da tarde.

 

Cisnes e sombras cruzam as águas

e no rasto da recordação abre-se um sulco,

a constelação embriagada

sobre o instante apresado pela voz.

 

Julho de 1993

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

segunda-feira, 3 de junho de 2024

O progresso moral da humanidade (18)

A história tem uma dupla face. Por um lado, oculta aquilo que, sendo favorável, não deixa de ser terrível. Depois, com a passagem do tempo acaba por propor um ajuste de contas em diferido. As guerras não são exercícios de santidade ou, sequer, de probidade moral. Os do nosso lado não são diferentes dos do lado inimigo. Mulheres franceses começam a romper o silêncio que caiu sobre as violações cometidas não por alemães, mas por soldados americanos em França (aqui). O ajuste de contas diferido, em relação aos vitoriosos da segunda Guerra Mundial, já tinha começado há muito com os russos. Chegou agora a vez dos americanos. Tende-se a ver nos vitoriosos, se eles são do nosso lado, um catálogo de virtudes morais. É bom proclamar que o inimigo não é apenas politicamente perigoso, como moralmente vil, enquanto o nosso lado é politicamente adequado e moralmente acima de qualquer suspeita. Isso anima as hostes. Depois, o tempo encarrega-se de mostrar que a vileza moral se encontra bem distribuída por todos os lados. 

sábado, 1 de junho de 2024

A esquerda e a indignação

No mundo ocidental – e fora dele o caso é pior – a esquerda política encontra-se em retrocesso. As causas são diversas. Uma delas reside no facto de a esquerda – seria melhor dizer as esquerdas – ter trocado a política pela moral e ter desenvolvido uma cultura de indignação. Um exemplo foi a reacção no parlamento dos partidos de esquerda à intervenção de André Ventura, em que este considerava os turcos como não sendo um exemplo de povo trabalhador. Os partidos da esquerda não reagem politicamente ao conteúdo da intervenção de Ventura, que se referia à construção do novo aeroporto, mas, impelidos por um reflexo pavloviano, centram-se na imoralidade das palavras do líder do Chega. A partir desta reacção moral, a extrema-direita cavalgou a onda, aproveitou para solidificar apoios, enquanto a esquerda se envolveu em debates morais e, de modo absurdo, em meditações sobre a limitação da liberdade de expressão.

A moralidade na esquerda manifesta-se, por norma, sob a forma da indignação. Por exemplo, a questão colocada por Alexandra Leitão, do PS, aquando do episódio dos turcos, ao Presidente da Assembleia da República, transpira de indignação. Contudo, teria sido melhor que a sua intervenção, caso quisesse falar das considerações sobre os turcos, lembrasse que a Turquia é uma aliada de Portugal, no âmbito da NATO, e não é patriótico estar a desconsiderar, na Assembleia da República, um povo com o qual estabelecemos uma aliança de defesa, acrescentando que não devemos tratar os outros como não gostamos que nos tratem a nós, recordando o episódio de um certo comissário holandês e o que ele disse dos povos do Sul da Europa. Seria uma intervenção política e colocaria o líder do Chega numa situação mais difícil.

Não é que a direita e, em particular, a extrema-direita não recorra às emoções e à indignação. Contudo, quando o faz, consegue capitalizar apoios. O mesmo não se está a passar à esquerda. O recurso à moralidade e à indignação não lhe tem sido favorável, pois aquilo que emociona e indigna a esquerda deixou de ter poder para penetrar no eleitorado. O espírito do tempo não lhe é propício. Por isso, deveria ser mais racional nas reacções, não se comportar segundo os princípios do reflexo condicionado de Pavlov, e não se indignar sempre que a extrema-direita quer que ela se indigne, bastando a esta uma expressão provocatória para tirar proveito da reacção indignada da esquerda, capitalizar apoios, afirmar a sua agenda e ridicularizar a esquerda. Nos dias de hoje, é necessário, à esquerda, muita inteligência e a indignação não ajuda ao uso dessa inteligência.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Nocturnos 119

José Manuel Espiga Pinto, Bailado espirais, 1977 (Gulbenkian)

A noite dança nas espirais do tempo. Ergue-se como um pássaro solitário e poisa ao de leve sobre a caruma das cidades. Todo o seu corpo é ritmo e, no timbre da sua voz, ressoa o mistério do mundo, o tumulto das primeiras horas em que o universo nasceu, para que noite e dia se sucedessem para júbilo e tristeza dos homens a vir.