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| Piet Mondrian, De boerderij Weltevreden bij Duivendrecht, 1905 |
Pegas na maçã
e o corpo incendeia-se.
Nas margens do rio,
fogo, erva seca,
o silêncio da morte.
A cidade devastada,
expulsa do paraíso.
[1993]
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| C. A. Northrop, The Helmsman, 1890 |
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| Darío de Regoyos y Valdés, El puente del Arenal |
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| Edward Hopper, Light at Two Lights, 1927 |
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| Maximilian Neustück, Nächtliches Ständchen in der Gasse eines Städtchens |
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| Amadeo de Souza-Cardoso, título desconhecido, c. 1914 (Gulbenkian) |
com a brancura da cinza
e palavras de pedra e sal.
Vozes roucas são barcos
na água turva do lago.
Tremem ao vento da tarde.
A tristeza cai deslumbrada
sobre o anjo da partida,
hálito salgado, um mar vegetal.
[1993]
Um suspiro de alívio. Há muito que a União Europeia
não recebia uma boa notícia. Teve-a no domingo com a derrota, nas eleições
húngaras, de Viktor Orbán. Mais do que a vitória de Péter Magyar, o importante
foi a derrota de um claro opositor ao projecto europeu, amigo de dois grande
inimigos da União Europeia, Putin e Trump. Contudo, só o tempo dirá se o novo
governante da Hungria irá reverter os elementos iliberais criados por Orbán e
qual é o seu empenho no projecto comum. O mais plausível é que tente
compatibilizar a integração na União com
o nacionalismo húngaro, sublinhando, no caso da imigração, a preeminência dos
direitos do cidadão, que são uma legitimação da exclusão dos não húngaros,
sobre os direitos humanos, que prescrevem uma perspectiva mais inclusiva do
estrangeiro.
Uma decadência grotesca. É um espectáculo
extraordinário aquele a que assistimos em directo: a decadência da maior
potência económica e militar. O mais interessante é que os eleitores americanos
não foram enganados. Foram eles que escolheram Trump e sabiam perfeitamente
quem ele era e é. Conheciam o seu narcisismo, a sua incompetência política, a
sua falta de gravidade. Sabiam também que se iria rodear de gente tão pouco
competente e tão pouco racional quanto ele. Uma das democracias mais sólidas do
planeta suicida-se em directo. Imagine-se o que pensarão os inimigos dos EUA,
para não falar dos amigos. Uma comédia grotesca encenada com actores de
terceira categoria, que continua a encantar parte significativa dos eleitores
americanos. É bom não esquecer este encantamento, até porque nos pode calhar em
sorte um espectáculo semelhante.
Por outro lado, não se sabe como as unidades políticas podem
evoluir. Neste momento, parece haver uma tendência para o reforço dos
Estados-Nação. Contudo, estas tendências são epocais e vão-se alterando. Num
contexto diferente, sempre possível, com o reforço de perspectivas
regionalistas, não é impossível que a unidade nacional possa vir a ser
desafiada, com movimentos, fomentados por elites políticas regionais, de
autonomia e mesmo de fuga para casamentos transfronteiriços. Aquilo que é uma
boa ideia em teoria, manda a prudência política evitar que se torne realidade.
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| Heinrich Kuhn, Landscape with Windmill, 1898 |
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| Rudolph Eickemeyer Jr., The Vesper Bell, 1901 |
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| Manuel Filipe, Guerra, 1945 |
As recentes ameaças de Donald Trump aos países europeus que recusem participar numa aventura militar no estreito de Ormuz são um
sinal eloquente da fragilidade dos Estados Unidos, sob o comando do actual Presidente.
A acção militar contra o Irão já tinha todos os ingredientes de uma opereta. Perigosa,
letal, mas mesmo assim uma opereta bufa. Desde as declarações de Trump às de
Rubio e culminando nas de Peter Hegseth, tudo isso mostra que se está, como nesse
tipo de espectáculo musical, perante um enredo absurdo: a narrativa
está repleta de mal-entendidos, de personagens caricatas e de situações
improváveis.
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| Adriano Sousa Lopes, Os telhados de Montmartre à noite (Gulbenkian) |
Na periferia dos cardos,
oiço a ruína soletrar
um louvor da candura.
Na periferia do medo,
oiço o mundo verter
o calcário do cansaço.
Na periferia do espanto,
oiço a ave de Minerva
ferida ao anoitecer.
[1993]