segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Nocturnos 93

António Carneiro, Nocturno, 1911

Ver a fugaz paisagem pelo orifício lunar é somar mistério ao mistério. As casas pairam presas à sonolência a que se entrega a vida exausta. Uma rua pontilhada de luzes esconde-se por dentro do silêncio. Restam as águas que levam no seu rumorejar a graça descida dos céus e o enigma oracular da escuridão da noite.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Jogos com a liberdade


1. Contestação de regimes autoritários. Apesar do fascínio que as soluções autoritárias têm sobre parte dos eleitorados europeus, tem-se assistido, nas últimas semanas, a forte contestação de duas das maiores tiranias existentes no globo. A política de COVID zero adoptada pelo regime chinês estará a quebrar o apoio popular que este tem recebido. A China é, nos dias de hoje, um regime distópico, fundado numa vigilância social inimaginável pelos ocidentais. Há, contudo, muita gente a arriscar a vida em protestos. Por seu turno, o regime teocrático iraniano, depois do assassinato de uma jovem, sofre uma contestação de grande envergadura. A forma como as mulheres são tratadas é a motivação que está na base das exigências democráticas. Não é plausível que qualquer dos regimes caia, mas apesar do controlo social neles existentes, as pessoas não deixam de aspirar à liberdade.

2. Perigo presidencialista (1). A abertura de um processo de revisão constitucional traz com ele a manifestação de um desejo, de certos sectores políticos, de pôr em causa o regime político português. Num primeiro momento, visa-se, com o aumento tanto da duração do mandato do Presidente da República como dos seus poderes, virar o regime para o presidencialismo. Uma espécie de nostalgia do sidonismo da primeira República. Num segundo momento, pretende-se a completa subversão da Constituição e a destruição do regime de democracia liberal nascido com o texto constitucional de 1976, para levar o país, de forma paulatina, em direcção a um regime autoritário. Não é plausível que isso aconteça no processo de revisão agora aberto, mas não deixa de ser sintomática a existência de projectos para subverter a Constituição e destruir a liberdade.

3. Perigo presidencialista (2). Apesar do Vice-Almirante Gouveia e Melo afirmar que não pretende entrar na vida política, percebe-se a existência, em largas camadas do eleitorado, de uma disponibilidade para apoiar a sua candidatura à Presidência da República. Esse eleitorado quer Gouveia e Melo por ele ser um competente homem de acção. Ora, do ponto de vista constitucional, os Presidentes da República têm pouco poder de acção. A situação apresenta duas vertentes desagradáveis. Por um lado, mais uma vez, a nostalgia do sidonismo ou o desejo de um homem forte. Por outro, caso Gouveia e Melo concorra e seja eleito, a possibilidade de um conflito persistente entre um Presidente, que será eleito para agir, e as regras constitucionais que concentram parte substancial da acção política no governo e no parlamento. Um conflito que poderá dilacerar o regime democrático e destruir as liberdades.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Direitos humanos, é melhor esquecer


A necessidade de comentar qualquer evento coloca, muitas vezes, Marcelo Rebelo de Sousa em terreno escorregadio, onde tenta equilibrar-se não sem dificuldade. Esta poderia ser uma explicação para a extraordinária afirmação: “O Qatar não respeita os direitos humanos. Toda a construção dos estádios e tal, mas, enfim esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na equipa.” Uma outra explicação poderia ser que a paixão futebolística é de tal modo avassaladora que cega a própria razão. Parece que os altos dignitários nacionais sofrem todos dessa cegueira, são todos apaixonados pelo futebol. Deverá, porém, a paixão sobrepor-se à razão? Ou haverá uma razão política que se oculta na paixão futebolística?

O futebol é um desporto que exerce enorme fascínio sobre os cidadãos. Nele existem duas características que marcam as sociedades actuais. Por um lado, representa, ao seu mais alto nível, uma exemplificação das sociedades de mercado alicerçadas no mérito dos concorrentes. O futebol é um exemplo da meritocracia que o pensamento liberal julga dever ser uma característica central das relações humanas. Tudo no futebol é concorrência e ganham os que tiverem mais mérito. Esta faceta liberal do futebol, todavia, combina-se com uma outra muito pouco liberal, o tribalismo. Este tribalismo tem duas facetas. O tribalismo clubista, onde as tribos de diversas cores se defrontam, e tribalismo nacionalista. Em alguns países este tribalismo é o único lugar onde o nacionalismo se manifesta. Noutros, será uma ostentação da patologia nacionalista reinante.

Esta combinação de meritocracia liberal e de tribalismo nacional não é apolítica. Pelo contrário. Marcelo Rebelo de Sousa – assim como Augusto Santos Silva e António Costa – agem por interesse político. O futebol mobiliza demasiadas paixões, para que os políticos tenham coragem de afirmar aquilo que deveriam afirmar: que o futebol, na sua organização internacional, deve ser penalizado pela escolha feita. Os agentes políticos democráticos deveriam não só excluir a sua presença nos jogos, como terem uma atitude crítica sobre a realização do Mundial nas circunstâncias que se conhecem. Contudo, o interesse político local, a necessidade de não perturbar os eleitores com coisas desagradáveis e de confrontá-los com o irracional da sua paixão, leva a que um Presidente de um país democrático diga, sem pudor, “enfim esqueçamos isto”. Para que a bola role sem perturbação, há que limpar a memória. Talvez mesmo formatar o disco onde estão guardados os direitos humanos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Meditações melancólicas (89) A perfeição do passado

William Henry Fox Talbot, Oxford High Street, 1845
Um dos efeitos mais poderosos da passagem do tempo é o de tornar o passado numa coisa perfeita. Aquilo que no presente nos incomoda não encontra paralelo no tempo que passou, nesses momentos que não se viveram, mas que surgem perante a consciência despidos de contrariedades. A memória, mesmo a colectiva, tende a rasurar tudo o que foi contratempo, desventura, dor lancinante. Resta aquilo que parece bom, destilando no coração uma doce melancolia, um desejo de se transportar para essas horas em que tudo era perfeito. Esta ilusão é o território onde a consciência exausta encontra um lugar para, submersa na fantasia, descansar da dureza da realidade, da imperfeição dos dias, da maldade que a vida sempre mistura no labor de cada hora.

sábado, 26 de novembro de 2022

Simulacros e simulações (41)

André Kertész, Distortion #51, 1933
Toda a distorção é já o esboço de um simulacro, a ocorrência da diluição das fronteiras que contêm cada coisa em si mesma, o trabalho silencioso para que de uma aparência nasça outra, no infinito jogo de simulações, aquilo que num outro tempo se terá chamado metamorfoses.

sábado, 19 de novembro de 2022

A resistência das democracias

A democracia liberal tem vindo a ser submetida a um conjunto de desafios que, não poucas vezes, parecem pôr em causa a sua capacidade de, num futuro próximo, resistir à avalancha de tiranias que existem um pouco por todo o lado. Sempre que há eleições, teme-se que as forças inimigas das liberdades democráticas as ganhem e se dê início a um processo de descaracterização, primeiro, e de destruição, depois, dos regimes democráticos. Dito em linguagem popular, sempre que há eleições os defensores da democracia liberal – tanto na direita como na esquerda – andam com o credo na boca. Há razões para isso. Vejam-se as derivas iliberais na Índia, na Turquia e, dentro da casa comum da União Europeia, da Polónia e da Hungria. Teme-se que o mesmo possa suceder, na sequência das últimas eleições, em Itália.

Contudo, poderá haver lugar para uma visão menos negra do futuro dos regimes democráticos. No Brasil e nos EUA, as instituições políticas deram provas de suportar bem o teste de stress a que democracia foi submetida. A derrota de Bolsonaro, no Brasil, e o resultado decepcionante dos republicanos pró Trump, nas eleições intermédias nos EUA, mostraram que as instituições democráticas talvez tenham mais vigor do que se pensa. O caso do Brasil é interessante. É uma democracia recente, onde um Presidente assumidamente defensor da ditadura foi eleito, mas que, apesar de tudo, não conseguiu subverter o sistema democrático para se perpetuar no poder. Também o facto de nos EUA não ter havido uma maré trumpiana vitoriosa mostra que a funda tradição democrática americana possui alicerces mais sólidos do que se suspeitava.

Numa entrevista ao Público de domingo passado, Kerry Brown, professor de Estudos Chineses no King’s College, de Londres, e autor de um livro sobre Xi Jinping, o líder chinês, sublinhava que as autoridades chinesas crêem que as potências ocidentais estão em decadência. A crença no declínio do Ocidente e a crença no declínio das democracias liberais, não sendo a mesma coisa, irmanaram-se no decorrer da história dos séculos XX e XXI. Também as potências do eixo, aquando da segunda guerra mundial, com Hitler à cabeça, estavam convencidas da decadência das democracias. É assim plausível pensar que a retórica, tanto dos amigos como dos inimigos, acerca da decadência ocidental e das democracias faça parte do metabolismo político e cultural que permite a esse Ocidente e a esses regimes democráticos regenerarem-se, recriando-se e reinventando-se. As democracias, julgo, continuam em acentuado perigo, mas talvez possuam mais poderes para enfrentar as adversidades do que se pensava.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Nocturnos 92

André Kertész, Paris by night, 1929
A noite é uma mulher que caminha levada pelo segredo que esconde no ventre. Descansa sob a luz pública, para poder contemplar com demora as sombras que se desenham na terra. Depois, tomada pela palidez, segue o seu caminho até que a aurora descubra o que em si se esconde.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

A persistência da memória (18)

Theodor and Oskar Hofmeister, Gebet, 1910

Talvez a oração seja o exercício de uma reminiscência, o trabalho secreto e silencioso de descer ao fundo de si mesmo, para o encontro com o inominável. Com o decorrer dos anos, os homens foram-se esquecendo de que também há para eles um caminho interior. Tudo é agora pura exterioridade. Não há caminhos senão aqueles que os olhos podem ver e se neles encontram o desconhecido, logo tratam de colocar-lhe um nome, para o domar e, ao domesticá-lo, o poderem dominar. Por vezes, uma súbita nostalgia acomete-os, como se no fundo de si persistisse a memória delida daquilo que não tem nome, nem figura, nem pode ser domado. Então, sentem que lhes falta alguma coisa, que há um caminho a trilhar, mas é já demasiado tarde para o descobrir.

domingo, 13 de novembro de 2022

Um salvador da consciência de classe


A substituição de Jerónimo de Sousa por Paulo Raimundo como secretário-geral do Partido Comunista Português gerou, como seria de esperar, um conjunto significativo de exercícios hermenêuticos e proféticos. Constatou-se que o Partido Comunista era um Partido Comunista, profetizou-se, mais uma vez, o seu desaparecimento, contrapôs-se o modelo de escolha das lideranças do PCP ao dos outros partidos políticos da democracia portuguesa. Houve artigos que desconstruíram a narrativa de que o operário Jerónimo de Sousa seria substituído por outro operário, Paulo Raimundo, manifestando que este é funcionário político desde os 19 anos e que as suas limitadas experiências do mundo do trabalho seriam irrelevantes para demonstrar a condição de classe do novo secretário-geral. Terá a sua origem em famílias pobres, aliás como parte significativa da população, mas isso não faz dele um proletário, como aqueles que nos tempos da transição à democracia existiam nas grandes, médias e pequenas empresas industriais do país.

A construção narrativa, por parte do PCP, de Paulo Raimundo como operário não deixa, todavia, de ser um exercício interessante e revelador. É uma mensagem para dentro do partido, para mostrar a fidelidade à sua tradição – e todas as tradições têm muito de imaginado, como o mostrou Eric Hobsbawm, um historiador marxista – e aos seus princípios. É, também, uma mensagem para fora do partido, uma tentativa desesperada de dar um sentido positivo e de esperança à condição operária ou, como o PCP gosta de dizer, dos trabalhadores. Por que razão se está perante uma tentativa desesperada? Porque a percepção da condição operária – ou de trabalhador – mudou radicalmente, em Portugal, desde os anos setenta do século passado aos nossos dias. Não foi apenas o peso demográfico do operariado que se alterou substancialmente, mas a sua própria consciência de classe.

Em 1974, os operários ainda tinham uma representação positiva da sua função na história do mundo. Apesar dessa representação ser já anacrónica no plano europeu, em Portugal ainda era possível que parte substancial das classes operárias se visse como portadora de um novo mundo, onde a justiça seria alicerçada na igualdade e no fim da chamada exploração capitalista. Ser operário era, naqueles dias, um motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, de esperança. Assumir essas crenças significava ter consciência de classe, ter consciência de possuir um papel decisivo na história. O desenvolvimento da história do mundo e de Portugal erodiu completamente estas crenças. A consciência de classe dos operários ainda existentes será hoje em dia algo quase residual. Poucos acreditarão na narrativa marxista sobre o seu papel na transformação do mundo. Perderam as ilusões ideológicas sobre o seu papel histórico. Eles sabem que não são agentes históricos e têm a difusa consciência de serem pacientes, aqueles que sofrem os efeitos dessa história.

Uma das declarações mais estranhas, embora das mais reveladoras, é aquela que afirmava que o PCP escolhia Paulo Raimundo para travar o Chega (ver aqui). Porquê o Chega? Morta a consciência de classe, desaparecida a crença no papel do operariado na história do mundo, resta a situação de se ver como operário, mal pago, num mundo pleno de seduções. Ser operário deixou de ser motivo de orgulho revolucionário, mas, num tempo de escolarização democratizada, sinal de que se falhou na vida, de que as coisas não correram bem nos estudos ou que não se fizeram as escolhas correctas, de que a existência se encontra limitada pela função que se desempenha. Este sentimento de uma falência pessoal não conduz à consciência revolucionária, mas à indiferença resignada e, em muitos casos, a uma consciência ressentida perante as elites. Este não é um fenómeno português. Existe um pouco por todo o mundo ocidental. Veja-se o apoio das classes operárias brancas a Trump ou, em França, a transição directa do voto das classes operárias do Partido Comunista Francês para a extrema-direita.

A escolha do anónimo Paulo Raimundo, reconstruído biograficamente como operário, é uma tentativa de dizer que no PCP ainda não são as elites que mandam, que aquele é o partido dos que perderam na concorrência existencial, dos que são vítimas da sociedade de mercado. Uma tentativa de salvar a boa consciência operária. Ora, o problema é que o Chega é mais atractivo para aqueles que sofrem com a história do mundo, para os que no lugar de uma consciência de classe revolucionária possuem uma consciência ressentida relativamente ao seu lugar na sociedade. Os operários de hoje, na sua generalidade, não querem ser agentes da revolução, querem deixar de ser operários, para poderem fruir mais completamente da sua existência. Revoltam-se, eventualmente, mas não são revolucionários. Não querem outro mundo, querem ter um lugar melhor neste ou, em caso de desespero, que este mundo rebente nas mãos de aventureiros, para punição dos pecados das elites, vistas como avaras e corruptas. Os actuais operários – os trabalhadores, na linguagem do PCP –  não têm consciência de classe, têm consciência de si, da sua individualidade e da vida estreita em que essa individualidade está mergulhada. O Comité Central do PCP atribuiu a Paulo Raimundo, como se de um Atlas se tratasse, o papel soteriológico de salvar a consciência de classe.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Simulacros e simulações (40)

Paul Almasy, Nuns, Paris, 1950
Quem olha pergunta se no simulacro do silêncio não se manifestará uma simulação da vida. Quem é olhado, porém, pensará que abandonou toda a simulação, para que a vida deixasse de ser um simulacro e se tornasse presença viva e real. Entre a pergunta de uns e o pensamento de outros haverá um hiato que nenhuma simulação poderá unir num simulacro de acordo ou sequer de comunicação.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

O progresso moral da humanidade (9)

Lee Miller, Charred bones, Buchenwald, Germany, april 1945
O desprezo com que parte da espécie humana trata o mundo circundante e os outros animais não é uma situação de excepção em relação a si mesma. Dois séculos de Luzes, século e meio após a publicação de O que é o Iluminismo, de Immanuel Kant, e todas as boas intenções foram incapazes de evitar os campos de concentração, os fornos crematórios, todo um cortejo de inomináveis sevícias. O choque tremendo da descoberta da natureza dos campos de concentração não parece ser suficiente para evitar que novas edições - por agora em escala menos industrial - venham à luz do dia. O progresso moral da humanidade não tem de enfrentar apenas a maldade que habita o coração dos homens. Tem de enfrentar também aquilo que todo o progresso implica. E aquilo que o progresso implica é o esquecimento das situações vividas, a destruição das memórias reais. O tempo acabará por destruir os traços que horrorizaram as consciências e isso abrirá o caminho para que o horrível surja de novo, mesmo que seja segundo outras aparências. Também o horrível tem mil máscaras.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Declinação da Sombra 7

António Saúde, Dia de trovoada, 1906

Um brusco bater de asas,
o uivo distante do cão.

Universos de barro e pó,

o som das folhas caídas,

mãos e musgos,

a noite estremecida

no negro trono de rainha.

 

Desprendia-se da macieira

um odor azul,

a cinza sobre a terra,

a paisagem de cal.

 

Na estrada, passava quem ia,

cobria-se a casa de pano:

a seda, o linho,

o algodão em árido ardil.

 

Assim fiavam as fiandeiras,

o tempo

de suas mãos desabava,

um brusco bater de asas,

uma sombra

ao sol do meio-dia.

 

Da árvore, a folha desce.

Nela, uiva o cão,

o grito da tarde

suspende-se, logo cai.

 

(1998)

sábado, 5 de novembro de 2022

O principal conflito político

Durante muito tempo, a clivagem direita – esquerda estruturou a vida política. Orientava as opções do Estado e os votos dos eleitores. Essa clivagem que começou, em França, como uma querela entre os defensores do Absolutismo e os dos interesses de uma burguesia ascendente desejosa de os fazer valer politicamente, foi tomando novos sentidos. O mais significativo era o que opunha as classes triunfantes com o liberalismo e as classes trabalhadoras. Jogava-se fundamentalmente no terreno da justiça distributiva, sobre aquilo que nos rendimentos deveria caber ao capital e ao trabalho, havendo todo um espectro de distribuições, que iam de uma quase escravatura até à abolição da propriedade privada dos meios de produção. No meio destes dois marcos havia, e há, gradações distributivas muito diversas.

Hoje em dia, a clivagem direita – esquerda deixou de ser estruturante da vida política. Não é que tenha acabado. Ela persiste. Contudo, uma outra clivagem sobrepôs-se à que era dominante. Está ligada à tensão entre regimes democráticos e regimes autoritários. Não é que esse conflito não existisse há muito. Existia, mas não apresentava os aspectos dramáticos que ostenta nos tempos que correm. A avaliação das situações depende das expectativas. Ora, nas democracias surgiu, a partir da Queda do Muro de Berlim, uma crença de que o mundo caminharia, mais depressa ou mais devagar, para regimes democráticos, tal como são concebidos no Ocidente. A terceira vaga de democratizações, iniciada em Portugal, com o 25 de Abril, iria alastrar-se a todo o planeta, numa espécie de globalização da democracia.

Um conjunto de acontecimentos traumáticos vieram abalar essa confiança num devir democrático do mundo. A evolução política da Rússia, o falhanço democrático das Primaveras Árabes, a rigidez autoritária da China que, em momento algum, deu sinais de se aproximar de uma democracia, a evolução do nacionalismo indiano, tudo isto é uma má notícia. Assim como são más notícias a força do bolsonarismo no Brasil, do trumpismo nos EUA e, também, a evolução da Turquia e de alguns regimes da União Europeia, como o húngaro ou o polaco, ou o peso da extrema-direita em muitos países europeus. Isto para não falar do Irão, Venezuela, Coreia do Norte, Cuba, Afeganistão, a generalidade do mundo árabe. A vaga de democratizações nascida em 1974 encontra-se em refluxo. A intensa luta entre democracias e regimes autoritárias tornou-se o principal foco de conflito que atravessa o mundo e que organiza todos os outros, mesmo os referentes à justiça distributiva.


quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Nocturnos 91

Cleora Clark Wheeler, Evening, 1922
A transparência dos dias desagua na assombração das noite. Então, tudo se torna esboço, desejo, promessa em busca da coerência dos contornos ou da fixidez das fronteiras. Se as estrelas brilham ou se a Lua, virginal e inquieta, derrama a sua luz sobre a Terra, os animais adormecem protegidos pelo murmúrio das árvores batidas pela floração do vento.
 

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Não a religião, mas as redes sociais


Não é a religião, mas as redes sociais que estão a destruir a herança do Iluminismo. Este foi um movimento multifacetado cujo momento central é o século XVIII. Trazia uma visão do mundo baseada na razão e na crença de que, sendo o homem um animal racional, todos deveriam orientar a vida pelos ditames da razão. O Iluminismo foi um movimento de libertação dos indivíduos dos preconceitos, da tradição e da tutela de príncipes e pastores. Não sendo um movimento ateísta, as Luzes questionavam a aceitação acrítica de dogmas e, fundamentalmente, o facto de a religião, através dos seus agentes, exercer um poder sobre a consciência dos indivíduos, mantendo-os numa espécie de menoridade. A influência do Iluminismo prolongou-se, com diversas vicissitudes, até aos nossos dias, embora sempre contestado.

A herança das Luzes, no que tem de melhor, sublinha a autonomia dos indivíduos, o poder de dirigirem por si a sua existência. A religião, com a sua estrutura de controlo das consciências individuais, foi vista como a principal ameaça aos valores Iluministas. Hoje, em dia, quando se observa uma forte degradação desse legado do século XVIII, constata-se, não sem perplexidade, que as igrejas cristãs se adaptaram, com mais ou menos entusiasmo, aos valores do Iluminismo, muitos deles originados no próprio cristianismo e secularizados pelas Luzes. É nas redes sociais e nos comportamentos que estas permitem ou suscitam que parece estar um dos principais factores de ameaça aos melhores valores Iluministas. Dois exemplos.

A noção de seguidor, um dos elementos centrais da vivência nas redes, é um exemplo de negação do ideal da autonomia dos indivíduos. A crença Iluminista é que cada um apenas deve seguir, de modo imparcial, a sua razão. Como seres racionais, é uma degradação ser seguidor seja do que for e de quem for, a não ser da razão. As redes desocultaram e passaram a explorar até à saciedade o desejo de ser seguidor, de adoptar alguém como pastor que indica um caminho. Um segundo exemplo é o do debate. Segundo os valores Iluministas, o debate público deve ser ele mesmo orientado não pelos preconceitos, nem pelos afectos ou sentimentos de cada um, mas por valores racionais de compromisso com a verdade. Ora, o debate nas redes sociais é o contrário de tudo isso. Uma gritaria exaltada, irracional, avessa à verdade. Uma afirmação de preconceitos de uns contra os preconceitos de outros. Com tudo isto, não é apenas a herança das Luzes que está a ser destruída, mas as próprias comunidades e as regras de uma convivência sã num mundo plural.

domingo, 30 de outubro de 2022

Ford Madox Ford, Some Do Not

O romance Some Do Not, publicado em 1924, é o primeiro da tetralogia Parade’s End, de Ford Madox Ford, um dos mais importantes escritores modernistas ingleses. Aparentemente, a tetralogia teria como objecto a primeira guerra mundial. É reconhecidamente um dos grandes monumentos literários provenientes da experiência traumática desse acontecimento que levou à morte uma geração de jovens europeus. Contudo, pelo menos no primeiro romance, a guerra é um assunto distante, que por vezes aflora não nela mesma, mas nas consciências das personagens. O que está em jogo, na trama narrativa, será quase um exercício filosófico, não porque o romance tenha um carácter especulativo e aborde problemas teóricos, mas porque é, na verdade, uma experiência de pensamento, como o são a Alegoria da Caverna, de Platão, ou a Hipótese do Génio Maligno, de Descartes. Não tem, todavia, finalidade de construção conceptual, como as referidas experiências, mas existencial. Apesar de marcadamente orientada para a captura da vida no seu fluir, esta experiência de pensamento não deixa de partilhar com as referidas uma preocupação com a distinção entre aparência e realidade, um cuidado com a verdade. Trata-se de transplantar um homem do século XVIII, Christopher Tietjens para as primeiras décadas do século XX. Não que se esteja perante um romance de ficção científica, em que se faz acordar alguém nascido num passado já remoto num tempo presente. O caso é outro. Christopher Tietjens, o último tory, é um homem cujos valores se pautam pela solidez moral dos gentlemen século XVIII. Pertence a uma família de ricos terratenentes, chegada a Inglaterra com Guilherme de Orange, em finais do século XVII, na sequência da Revolução Gloriosa.

O romance divide-se em duas partes. Na primeira, centra-se num fim-de-semana que vai ter importantes consequências tanto para Christopher como para o seu amigo Vincent Macmaster, um escocês, pertencente a famílias pobres. Ambos foram colegas de faculdade e trabalham agora como estatísticos para o governo de Inglaterra, embora o escocês tenha pretensões em transformar-se em crítico de arte, tendo acabado de publicar um pequeno livro sobre o pintor Dante Gabriel Rossetti, um dos fundadores da Irmandade Pré-Rafaelita, um movimento artístico do século XIX. O primeiro parágrafo da obra é um retrato do mundo ordenado anterior à primeira grande guerra: Os dois jovens – ambos pertenciam ao funcionalismo público inglês – iam sentados numa carruagem de comboio perfeitamente equipada. As correias de couro das janelas eram virginalmente novas; os espelhos debaixo dos porta-bagagens estavam tão imaculados como se tivessem reflectido muito poucas coisas, o tapete acolchoado, de formas regulares, mas luxuosas, era escarlate e amarelo, com pequenos e intrincados motivos de dragão, desenhado por um geómetra de Colónia. O compartimento cheirava leve e higienicamente a verniz; o comboio circulava com tanta suavidade – recordou Tietjens ter pensado – quanto a dos títulos do tesouro da coroa britânica. Viajava depressa, mas se tivesse balançado ou saltado ao passar sobre as juntas dos carris, salvo na curva de Tonbridge ou na mudança de agulhas em Ashford, onde eram permitidas essas excentricidades, Tietjens estava seguro de que Macmaster teria escrito à companhia. Talvez mesmo ao Times. É este mundo de uma ordem geométrica e de uma moral rigorosa que se encontra já em diluição.

É no campo da sexualidade que emerge a dissolução dos valores e da velha ordem do império britânico. Tietjens mostra a Macmaster uma carta de Sylvia Tietjens, uma católica, que tinha trocado o marido, o próprio Christopher, por um major, do qual se fartou em pouco tempo. Pedia para regressar a casa. Durante o fim-de-semana, Macmaster conhece Mrs. Duchemin, também ela escocesa, mulher de um clérigo enlouquecido, proprietário de quadros pré-rafaelitas, com a qual inicia um caso que conduzirá ao casamento, no dia a seguir ao óbito do senhor Duchemin. Também Christopher trava conhecimento com a jovem sufragista Valentina Wannop, filha de um casal amigo do pai, e com a qual estabelecerá uma relação amorosa, mas nunca consumada durante o tempo desta primeira narrativa. É neste ambiente, já marcadamente sexualizado, que Christopher vai pôr à prova os seus sólidos princípios de cavalheiro, tanto na aceitação do retorno da mulher, como na preocupação com a reputação dela. Um cavalheiro não se divorcia. Se a mulher quiser o divórcio, concedê-lo-á, mas não dará qualquer passo que possa prejudicar a imagem da mulher, uma rica e, aparentemente, frívola socialite, sexualmente promíscua, que o odeia. Têm um filho, um acaso, embora não seja claro se Christopher é ou não o pai da criança, embora as provas existentes sejam fortes a favor da sua paternidade. Graham Greene considera que Sylvia possui o pior carácter do romance moderno.

À hipersexualização do ambiente, pois a promiscuidade da mulher é apenas um sintoma do espírito do tempo, responde Christopher com o seu desejo de ser um santo anglicano. À libertinagem reinante, responde: Eu defendo a monogamia e a castidade. E que não se fale mais nisso. Não é, todavia, esta defesa da castidade e da monogamia que leva a que a mulher, Sylvia, o odeie. É o facto de ele ser tão sólido e de estar de tal maneira fundado nos seus valores de pertença a uma velha família terratenente que a deixam fora dela. Ainda por cima, ele é servido por uma superior inteligência, com capacidade de não apenas deslindar os enigmas do presente como de prever o futuro, não por possuir qualquer dom profético, mas pela capacidade de cálculos das consequências das coisas que ocorrem. Esta segurança torna-o, num primeiro momento, insuportável para a mulher. Contudo, na segunda parte do romance, passada já bem dentro da grande guerra, quando Tietjens está em casa, depois de uma recuperação de um ferimento de guerra, no qual perdeu parte substancial da memória, de tal como modo que se obriga a ler a enciclopédia britânica, como modo de recuperação da informação perdida, o autor torna manifesto que, apesar de alimentar uma espécie de conspiração contra a honra do marido – e honra aqui tem a ver com as contas em ordem e um comportamento sexual exemplar –, Sylvia está apaixonada por Christopher, na verdade o único homem verdadeiramente substancial que conhece, ela que tem um lato conhecimento dos homens na intimidade.

É a desadequação entre o sentimento manifesto e o sentimento real de Sylvia ou, ainda de uma forma mais clara, entre a imagem que foi criada à volta de Christopher, de um homem devasso, valdevinos, com filhos ilegítimos, à beira da falência, por ser um gastador inveterado, coisa acreditada pelo próprio pai, e a sua realidade de homem moralmente imaculado, contido nas despesas, um cavalheiro em todos os sentidos da palavra. Assim como o ódio de Sylvia esconde uma intensa paixão pelo marido, também a má reputação mascara a verdade de alguém que vive segundo exigentes preceitos de rectidão, de tal modo que o amor que se acendeu entre ele e Valentina permanece por consumar. Entre a aparência e a realidade vai uma longa distância. A verdade é uma outra coisa que não aquilo que é manifesto. Ora, é a solidez, deste último tory, ancorada no passado, num romântico feudalismo, como notou Julian Barnes, que lhe permite, sem exaltações, viver num mundo marcado pela duplicidade, pela mentira, pela libertinagem e pela dissolução daqueles valores sólidos que fizeram da Inglaterra a primeira potência mundial e que se manifestavam inclusive na suavidade com que os comboios circulavam. É ainda essa solidez moral que leva Christopher a voltar para a frente de combate, enquanto facilmente poderia ficar em segurança numa repartição em Londres. Some Do Not significa, na prática, que nem todos são iguais, nem todos se dobram ao espírito do tempo. Por isso, o primeiro romance termina com a partida de Tietjens para França, para a frente de combate.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Beatitudes (55) Leveza e inconstância

António Carneiro, Praia com barcos, 1911

Aquilo que torna as pessoas felizes ao longo dos anos - por vezes, na mesma hora - é muito diferente e, não poucas vezes, contraditório, que mais vale reter a felicidade através de colecções de imagens. Por exemplo, aquela que junta barcos e praia. Não qualquer barco, mas os que são movido pelo embate do vento nas velas. A inconstância das águas do mar e a leveza dos veleiros combinam-se para nos devolver uma imagem da beatitude, com tudo o que esta tem de leve e inconstante.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Declinação da Sombra 6

Claude Monet, Haystack in Winter, Giverny, 1891

O súbito desmoronar das terras,

as águas inquietas

na ilha do Inverno,
a noite bebida

na luz lacustre do orvalho.

Se ainda florisse uma frase,

a entoação de um nome,
camélias abertas

para a seda dos dedos,

a súbita sombra dos cedros.

Inverno, os dias suspensos

sobre a casa de colmo.

O adobe do tempo cintila

no grande fogo

desfolhado na seiva da terra.

 

Caminhos, veios de mármore,

a geada suspensa

do calcário dos cabelos.

Um cântico ergue-se

no murmúrio da chuva.

(1998)

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Cadernos do esquecimento 48 Ir ao cinema

Francesc Català-Roca, Sesión nocturna, 1950
Não é que as pessoas, nas grandes cidades, não frequentem sessões da noite ou da tarde de cinema. Quem ainda vai às salas fá-lo. Na província, na pequena província onde existia sala de cinema, as sessões eram, em outros tempos, todas elas nocturnas, com excepção da sessão de domingo à tarde. A ida ao cinema, tinha nesses dias, um carácter ritual, como se se estivesse a instituir uma tradição. Uma impossibilidade, pois o cinema é um acontecimento essencialmente moderno, sujeito aos imperativos da rápida alteração de comportamentos, submetidos ao ritmos bipolar da inovação e da obsolescência. As coisas depressa passam de moda, que é uma forma de ficarem obsoletas ainda antes de o estarem realmente. Os rituais ligados ao cinema, ao contrário dos dias de hoje, acordavam-se, com algum rigor, à estratificação social existente. O primeiro balcão, a primeira plateia, o segundo balcão, a segundo plateia, todas essas compartimentações se acordavam com uma magreza geral de rendimentos, e frequentar um primeiro balcão era uma forma de diferenciação social em comunidades relativamente pequenas, ciosamente guardada por quem estava no topo da escala. Hoje, as salas democratizaram-se. Nos estúdios, reina uma ordem democrática, onde impera a igualdade, pois seria risível encontrar diferenciação social no simples acto de ir ver um filme.

sábado, 22 de outubro de 2022

Um descalabro


O Público do passado domingo trazia um artigo sobre um dos problemas fundamentais para o país. Os estudantes que entram no ensino superior estão a deixar vazios cursos que são estratégicos para o nosso futuro. Segundo responsáveis pelo sector, referidos pelo jornal, isso dever-se-á às dificuldades sentidas perante a Matemática e a fuga à Física. O problema que se deve colocar é por que razão a Matemática e Física continuam a meter medo. O principal foco de explicação deve ser encontrado no sistema de ensino português e na revolução que vem a decorrer desde que os socialistas, em 2015, chegaram ao poder, e cujo timoneiro é o ministro João Costa.

A partir do início dos anos dois mil tinha-se percebido que algumas das ideias mais generosas e emblemáticas da chamada Reforma Roberto Carneiro não funcionavam. Vários governos, de diferentes orientações, começaram a centrar-se no que era fundamental, as aprendizagens consolidadas e na necessidade de prestações de provas, que tornasse evidente se essas aprendizagens eram ou não feitas. Para além dos exames do ensino secundário, já existentes, foram introduzidas as provas finais do 9.º ano, em Português e Matemática, e, num segundo momento, provas finais, nas mesmas áreas disciplinares, nos 4.º e 6.º anos. O sistema de ensino tinha encontrado um objectivo claro. A expectativa seria a de um paulatino alargamento das disciplinas em que os alunos viessem a ser chamados a prestar provas, e com eles as escolas e os seus projectos educativos.

O que se passou foi exactamente o contrário. As provas do 4.º e 6.º anos desapareceram. As do 9.º estiveram suspensas durante a pandemia e nada garante que não desapareçam. Os próprios exames nacionais parecem deslizar para se tornarem apenas provas de ingresso no ensino superior. Depois, as provas de exame apresentam critérios de classificação cada vez menos exigentes. Um exemplo na disciplina que lecciono. Em 2015, num exame de Filosofia uma questão de escolha-múltipla valia 5 pontos. Um texto argumentativo, a mais alta competência trabalhada na disciplina, valia 30 pontos. Em 2022, as questões de escolha-múltipla valiam 11 pontos e o texto argumentativo, 14. Isto diz tudo. As escolas são hoje em dia barcos à deriva, onde o saber disciplinar é desvalorizado, onde aquilo que é marginal se tornou importante. O tempo, sempre escasso para o ensino das disciplinas, é ocupado com actividades que pouco ou nada acrescentam na formação dos alunos. Não admira que as novas gerações, assim preparadas para o que é fácil, fujam da Matemática e da Física, fujam de tudo o que é difícil.