![]() |
| Ralph Winwood Robinson, Sweet Spring, 1892 |
Kyrie Eleison
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
A persistência da memória (34)
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
A estranha direita democrática e liberal
sábado, 17 de janeiro de 2026
Meditações melancólicas (98) A indecência da reflexão
![]() |
| Nichol Elliot and Alice Elliot, On the Danube, 1919 |
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
O Silêncio da Terra Sombria (32)
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Ensaio sobre a luz (132)
![]() |
| Céline Laguarde, En Campagne, 1907 |
domingo, 11 de janeiro de 2026
Layla Martínez, Caruncho
Publicado em Espanha em 2021 e em Portugal, pela Antígona,
em 2024, Caruncho (Carcoma) é o romance de estreia de Layla
Martínez. Sobre ele formaram-se de imediato alguns clichés, como o de o
classificar como romance gótico e o de associar o seu estilo ao realismo
mágico. É verdade que há, na obra, a presença do terror e o recurso a uma narrativa
que recorda Juan Rulfo. Contudo, classificar a obra na categoria de romance
gótico é uma forma de a arrumar num canto onde não possa perturbar os
espíritos. O terror que se surpreende não é uma criação imaginária, mas aquele
que está presente no quotidiano, fundamentalmente num quotidiano cujas
fundações são o terror da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e do regime que
dela nasceu e, também, o recalcamento que esse terror sofreu, na transição à
democracia, com o denominado Pacto de Silêncio, um acordo tácito entre os
partidos políticos espanhóis para que o país pudesse modernizar-se política,
social e economicamente. Quanto ao realismo mágico, ele está, de certo modo,
presente — a naturalidade do sobrenatural — mas, mais uma vez, o epíteto esconde
o que há de visceral e terrível no ressentimento social que a obra, como um
poderoso holofote, ilumina.
Uma característica central de Caruncho é o trabalho
sobre o ressentimento social, que manifesta um profundo conflito de classe,
numa Espanha do pós-guerra, entre as elites e as camadas populares. Esse
conflito é encenado numa aldeia sem nome. O rancor das duas protagonistas e
narradoras, uma avó e uma neta, também sem nome, dirige-se à família dos
Jarabos, senhores da aldeia, que surgem como agentes de uma opressão social e
económica, mas também existencial. Não é apenas a servidão que impõem, mas
também a capacidade de trazer a morte a quem os incomoda (os desaparecimentos
de pessoas — entre elas uma mulher, filha de uma das protagonistas e mãe da
outra — que são levadas a dar uma volta e nunca mais retornam), sem que isso
tenha consequências criminais. Este poder de terror dos Jarabos funciona como
uma forma de metonímia, ao tomar um exercício particular como uma parte desse
terror amplo, que foi o Terror Branco, exercido, após a Guerra Civil, pelos
nacionalistas vitoriosos, com um número assombroso, para um país católico, de
150 mil vítimas após o fim da guerra.
Particularmente interessante, neste exercício literário, é o
jogo das denominações. Funciona a dois níveis. Em primeiro lugar, como
reconhecimento social: avó e neta não têm nome, fazem parte de um mundo social
cuja invisibilidade se aprofundou com a vitória nacionalista na guerra e, de
seguida, com o regime do generalíssimo Franco. Os Jarabos são os vitoriosos, as
pessoas da situação. Eles são alguém naquele cosmos social. Por tudo isso, eles
têm nome. É uma modalidade de exprimir a luta de classes: os que têm um nome e
os que o não têm. Em segundo lugar, porém, a denominação tem um valor
invertido: serve para designar os culpados, aqueles que, após a transição à
democracia, deveriam ter sido punidos, mas que o não foram. Atribuir um nome é
um exercício que permite a identificação de quem é percebido como culpado. E,
se a punição não vem pela lei, ela virá por um ajuste secreto de contas. Onde a
lei não actua, emerge a vingança.
A memória é outro elemento central na narrativa de Layla
Martínez. É trabalhada a dois níveis. Por um lado, a memória histórico-social,
aquela que o Pacto de Silêncio quis recalcar. Ora, como se sabe desde Freud, o
recalcamento tende a manifestar-se, trazendo para a luz do dia, de modo
patológico, aquilo que se guarda no inconsciente. Ora, são essas patologias
que, em Espanha, como noutros países ocidentais, estão na base do crescimento
da extrema-direita e dos seus valores, que se pretende enfrentar, através da
rememoração das vítimas da repressão, num processo de anamnese dos
acontecimentos rasurados pela conveniência democrática. O segundo nível é o
intergeracional: a memória como herança. A memória traumática passa de avó para
neta. Não se trata apenas da memória do vivido individualmente, mas também
daquela que é vivida por transmissão familiar. Essa memória é internalizada por
aquela que não viveu os acontecimentos, mas que, de algum modo, fazem parte da
sua história. O romance mostra, de modo muito claro, que a memória do
ressentimento, do rancor, do mal sofrido tem um poder de transmissibilidade
muito mais profundo do que a memória dos acontecimentos felizes, que é
meramente pessoal.
Além de avó e neta, a casa da avó, onde ambas habitam, é
outra das protagonistas do romance. É nela que a avó comunica com o mundo
supranatural, onde mobiliza o poder de santos e santas para os seus ajustes de
contas com a vida; uma casa que, também ela, tem uma origem moralmente soturna,
fundada na exploração sexual de mulheres e símbolo de opressão do elemento
feminino pelo masculino. É concebida como um ser vivo, que tem os seus segredos
— pouco benévolos —, as suas recordações, o seu próprio sofrimento. Tem uma
espécie de vontade autónoma, como se possuísse racionalidade para gerir quem
vive nela e quem, por algum azar, cai dentro dela. Mais do que um espaço de
horror, é o lugar de vingança e de reparação, o espaço onde a justiça
retributiva funciona, desligada dos poderes do Estado e entregue ao confronto
entre classes e indivíduos.
Para além da personificação da casa, da subversão dos símbolos religiosos (a transformação de santos em agentes da vingança) e do anonimato das duas protagonistas, a autora recorre a um conjunto diversificado de estratégias narrativas. A mais importante, pelas suas consequências, é a existência de uma narrativa na primeira pessoa, mas de natureza dual. Avó e neta são ambas narradoras, existindo uma alternância de pontos de vista entre ambas. Para além do reforço do diálogo intergeracional, esta estratégia tem a função de tornar cada uma delas uma narradora pouco credível. E este é um dos elementos fundamentais do romance. Questiona a própria narrativa das protagonistas, as suas crenças e verdades. A sua pouca fiabilidade não elimina as causas do ressentimento e do rancor, mas torna-as um ponto de vista e não uma verdade universal. O que tem, do ponto de vista filosófico, uma consequência central: nos conflitos sociais, não há um ponto de vista universal, mas apenas perspectivas particulares, e cada um age em conformidade com elas. Uma afirmação clara de um relativismo que, sem um ponto de vista universal e objectivo, não abre caminho para o perdão e a reconciliação. Não há qualquer idealização dos debaixo nem diabolização dos de cima. Cada parte está muito longe de ser inocente, pois cada uma usa os poderes que possui para o exercício do mal, seja a dominação, seja a vingança. O relativismo é o que tranquiliza cada parte e justifica os seus actos.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
A esquerda e as presidenciais
domingo, 4 de janeiro de 2026
Nocturnos 134
![]() |
| Rembrandt, A Ronda da Noite |
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Comentários (34)
![]() |
| Adriano de Sousa Lopes, Posto de Socorros Avançado (Gulbenkian) |
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Pier Paolo Pasolini, Mamma Roma
O segundo filme de Pasolini, Mamma Roma, foi
realizado em 1962 e é tido como uma continuação da vaga do neo-realismo
cinematográfico italiano. Se pela pertença social das personagens – o subproletariado
– o filme ainda se possa inscrever nessa corrente, a sua natureza simbólica e a
própria estética – com o recurso a enquadramentos estáticos e frontais, como se
quisesse suspender o tempo e aniquilar o movimento no espaço – apresenta uma
dimensão marcadamente contemplativa, de tonalidade sacra, deixando perceber que
o realizador se estava a afastar dos cânones neo-realistas, exibindo uma
poética simbólica, para encenar não uma epopeia das classes baixas, mas uma
tragédia regida, como nas tragédias gregas, pela mão invisível do destino. O
filme centra-se em duas personagens, Mamma Roma, uma prostituta, e o seu filho
Ettore, a quem ela pretende oferecer uma vida que esteja para além da marginalidade,
uma vida burguesa feita de respeitabilidade.
O filme constrói-se como uma resposta à questão de saber se
é possível fugir do lugar de onde se vem, se o trabalho é suficiente para fazer
funcionar o elevador social, numa Itália que se moderniza, onde os saloios – na
legendagem portuguesa – aspiram a tornarem-se citadinos. A personagem Mamma
Roma representa, na verdade, o padrão de uma mentalidade burguesa, apesar da
sua condição. Com o dinheiro poupado na sua actividade de prostituta e com a
libertação do compromisso com o proxeneta que a explorava, monta uma banca de
venda de legumes num pequeno mercado em Roma. Isso permite-lhe ter uma casa nos
arredores da grande cidade e trazer o filho, um adolescente a entrar na
primeira juventude e que desconhece a actividade da mãe, para a cidade,
sonhando-o como um citadino que pela força do trabalho haveria de singrar na
vida e alcançar a desejada respeitabilidade burguesa, que ela, de certo modo,
sonha também para si.
Contudo, as barreiras sociais são muito menos porosas do que
o desejo da mãe. Mesmo numa época de grandes transformações sociais e de
modernização, a dinâmica social parece libertar os indivíduos dos campos não
para os emancipar, mas para os prender nos subúrbios, onde os pequenos saloios
se transformam em pequenos delinquentes, uma juventude que não estuda e não
trabalha, acorrentada às dinâmicas culturais que se estabelecem naqueles
bairros de classes baixas. Pasolini não torna patente os conflitos de classe
que, muitas vezes, animam a estética neo-realista, mas revela os mecanismos que
estruturam a existência daqueles estratos sociais. Fá-lo de uma forma crua, sem
projectar nelas qualquer papel redentor. Pelo contrário, se a temática da
redenção é abordada é ao nível do indivíduo – em Mamma Roma e na imagem em cruz
do filho no hospital – e não da classe social.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
O Silêncio da Terra Sombria (31)
sábado, 27 de dezembro de 2025
Simulacros e simulações (77)
![]() |
| Paul Gauguin, Trois Tahitiennes sur fond jaune, 1899 |
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Beatitudes (85) Noite de Natal
![]() |
| Isidre Nonell Monturiol, Noche de Navidad, 1909 |
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Em tempo de descristianização
sábado, 20 de dezembro de 2025
Greve vitoriosa, esquerda derrotada
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
O Silêncio da Terra Sombria (30)
![]() |
| Fernando Calhau, Sem Título #80, 2000 (Gulbenkian) |
O coração preso
nas ruas,
cacto erguido
contra a fuligem
matinal da areia.
A vila abre-se
ao orvalho
no ócio da manhã,
nos dedos aéreos
da aurora.
[1993]
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
Branquinho da Fonseca, Porta de Minerva
Publicado em 1947, Porta de Minerva é o único romance
do escritor Branquinho da Fonseca. A obra inscreve-se nos parâmetros do
denominado segundo modernismo português, conhecido também como presencismo,
devido à importância, para o movimento, da revista Presença. As três
figuras centrais deste movimento são José Régio, João Gaspar Simões e o próprio
Branquinho da Fonseca. Esta contextualização fornece uma chave de leitura para Porta
de Minerva, um romance que, de certo modo, representa uma ruptura, em
Portugal, com o romance tradicional proveniente do romantismo, do realismo e do
naturalismo. Opõe-se, também de modo claro, ao neo-realismo que, na altura,
tinha um peso considerável nos meios literários. Se a obra pode ser exemplo de
um conflito estético-literário, esse conflito é, claramente, o que divide
presencistas e neo-realistas, fundamentalmente ao nível do sujeito da acção
narrada. Enquanto os neo-realistas privilegiavam um sujeito social, colectivo,
implicando uma visão politicamente comprometida da literatura, o romance de
Branquinho da Fonseca contém os traços característicos do movimento presencista:
individualismo, psicologismo e exploração da vida interior do eu.
A obra pode considerar-se um romance de formação (Bildungsroman),
ao acompanhar o percurso de Bernardo Cabral desde a sua chegada a Coimbra, para
cursar Direito, até à conclusão do curso. Esses anos de formação universitária
são, mais do que a preparação profissional de um futuro jurista, a formação da
própria subjectividade, que se afirma e conquista uma autonomia intelectual,
não apenas perante as posições daqueles com quem acamaradava na vida coimbrã,
mas também perante o próprio curso de Direito, onde descortinava não uma
preparação para a realização de um qualquer ideal de justiça, mas o exercício
retórico dos docentes, despido de qualquer capacidade de gerar emoção na
subjectividade dos alunos — ou, pelo menos, na do protagonista. Esta ausência
de emoção era a outra face da rigidez burocrática, tanto da Faculdade como da
própria instituição da Justiça. A formação conclui-se num processo de
libertação da própria vida académica, como sintetiza o parágrafo com que se
encerra o romance: «Mas Bernardo ia alheio às divagações do amigo. Atravessou o
jardim da Universidade; pela nobre Porta de Minerva, com o seu arco de pedra
coroado pela deusa antiga, desceu à rua estreita. E, como num regresso
simbólico à pureza primitiva, nu, debaixo da velha capa sacudida pelo vento,
sentia que era, enfim, um homem livre.»
O romance é marcado pelo conflito entre a subjectividade,
que se está a formar em direcção à liberdade, e a instituição, enquanto
representação de forças colectivas que, nela, se depuram e se tornam mais
perigosas para o indivíduo. Não são apenas as instituições Universidade,
Direito e Justiça que são visadas de modo crítico pelo protagonista. Também a
praxe académica, com o seu conjunto de humilhações, subserviências, hierarquias
irracionais e rituais de poder entre os estudantes, é objecto de um olhar crítico
e desconstrutivo. Não do ponto de vista de uma denúncia social ou política, mas
através da ironia e da atitude com que Bernardo Cabral enfrenta os praxistas,
tanto no plano físico como no ideológico. A praxe é pressentida como inimiga de
uma subjectividade que, na sua individualidade, se quer livre. É a negação da
individualidade e a humilhação da subjectividade; é a afirmação do poder da
massa sobre a pessoa. Se há um tema que torna Porta de Minerva, ainda
hoje, uma obra que merece ser lida, é precisamente o da praxe académica e o
conflito entre ela e a autonomia da pessoa.
É também no âmbito da formação da subjectividade que emerge
a relação de Bernardo Cabral com as mulheres. De certo modo, cada uma delas
representa um arquétipo e, ao mesmo tempo, uma ameaça. Elizabeth, idealização
da estrangeira; Kate, a sensualidade madura; Maria Teresa, a amiga de infância
e a possível mulher, na expectativa familiar; e Palmira, a tricana, amante do
seu amigo, mas que se lhe oferece. Todas elas representam oportunidades — mais
eróticas ou mais sociais —, mas que arrastam perigo: pôr em causa a lealdade
devida a um amigo ou conduzir a situações sociais susceptíveis de fazer perigar
a liberdade que Bernardo pretende conquistar com a saída pela Porta de Minerva.
Aqui, o período de formação não se resolve com uma decisão no campo amoroso, mas
pela abertura de possibilidades que o romance deliberadamente não fecha.
É plausível pensar que a obra, no contexto social e cultural
português dos anos quarenta do século passado, tenha parecido, apesar de os
grandes romances modernistas europeus já serem coisa do passado, um romance
menor — não pela sua temática, mas pela construção narrativa. Não existe aquilo
a que se chama plot; não há uma intriga. A obra parece ser composta por
fragmentos ou quadros da vida de Bernardo Cabral, os quais não obedecem à
estrutura tradicional do romance. Contudo, é precisamente essa fragmentação da
narrativa, essa aparência de uma colecção de episódios descosidos entre si, que
torna, do ponto de vista formal, a obra interessante. O romance é um exercício
da memória. Do ponto de vista do narrador, constitui uma extensa analepse da
sua experiência em Coimbra e na vida académica. A memória é fragmentária, tal
como a corrente de consciência e as próprias auto-análises.
Uma das leituras feitas sustenta que Branquinho da Fonseca
é, fundamentalmente, um contista, e que o romance Porta de Minerva não
consegue libertar-se dessa idiossincrasia do autor. No fundo, não passaria de
um conjunto de contos, com a característica de terem todos o mesmo protagonista
e de se situarem no mesmo universo social. Esta avaliação, porém, não tem em
consideração que o modo como a narrativa lida com a temporalidade é plural, e
que a linearidade e a existência de uma intriga não são condições necessárias
para a existência da obra romanesca. A experiência vivida — um dos temas
centrais do presencismo —, filtrada pela subjectividade fragmentária da
memória, é mais importante do que a imposição de um esquema narrativo
construído a priori.
A Porta de Minerva não é, assim, apenas a porta por onde se entra num processo de formação pessoal e por onde se sai para a liberdade dos projectos individuais, ancorados no juízo de uma subjectividade que se foi tornando lúcida; é também a porta por onde se entra em modos narrativos menos marcados pela instituição literária e pela tradição dessa instituição. O talento de Branquinho da Fonseca reside nessa capacidade de sintetizar uma opção estética e uma visão existencial, o que, paradoxalmente, unifica o romance, recontextualizando os fragmentos no âmbito de um projecto estético-literário que emerge, desse modo, como uma totalidade — não a totalidade tradicional da narrativa, mas uma nova totalidade, em que a opção estética e a visão existencial, ancoradas numa longa anamnese, se tornam um todo que interpela o leitor.
sábado, 13 de dezembro de 2025
Beatitudes (84) Solidão e mar
![]() |
| Harry Tolley, On the Lonely Shore, 1894 |
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Perfis 20. O alfaiate
![]() |
| Francesc Català-Roca - Sastreria Carrer Hospital, circa 1950 |
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Cadernos do esquecimento 57 No crepúsculo
![]() |
| Edmond Sacré, Crépuscule D’Hiver, 1903 |
















