quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Um olhar sobre as eleições concelhias


Há dias, um médico prescreveu-me um conjunto de exames e, como se pretendesse explicar-me a razão, disse que não praticava uma medicina intuitiva (a que é feita de diagnósticos baseados nas aparências sintomáticas), mas que lidava com resultados empíricos, uma medicina científica. Como se sabe, também esta pode cometer erros, embora em muito menor escala do que a intuitiva. O que se passa na medicina passa-se também na política. Mesmo quando há sondagens feitas com rigor, os eleitores podem determinar um resultado inesperado (veja-se o caso de Lisboa). Muito mais equívoca é a situação quando não existem sondagens e as percepções que se têm são meramente intuitivas.

Antes das últimas eleições autárquicas, pensava que os resultados do PS e da lista de António Rodrigues (AR) estariam muito mais próximos, não descartando a possibilidade de este retornar à presidência do município. Pensava que ele teria uma maior capacidade de penetração no eleitorado socialista, assim como no da direita concelhia. Pensava ainda que o BE e a CDU seriam menos afectados pela candidatura de AR que o PSD-CDS. Estas crenças baseadas na intuição revelaram-se todas completamente erradas. AR não teve qualquer capacidade de penetrar no eleitorado de direita. Esta, no seu conjunto (com Chega e IL), alcançou mais 389 votos do que em 2017. Também não teve capacidade para dividir o eleitorado socialista. O PS perdeu um pouco menos de mil votos (11,2%) em relação a 2017. Onde AR teve capacidade de penetrar fundo foi nos eleitorados do BE e CDU. O BE perdeu 1303 votos (52,2%) e a CDU, 558 votos (34,7%). A soma dos votos perdidos pelo PS, BE e CDU perfaz, quase na totalidade, a votação obtida por AR.

Estes resultados tornam patente, em primeiro lugar, que grande parte do eleitorado está contente com a governação socialista do município e que sufraga o seu programa para os próximos 4 anos. Em segundo lugar, a direita concelhia, apesar de mais dividida, conseguiu estancar a perda continua de eleitorado. Em terceiro lugar, a figura política de António Rodrigues é muito menos atractiva do que se imaginava. Em quarto lugar, o eleitorado deu uma nota negativa muito forte às políticas autárquicas do BE e da CDU, dispensando a sua presença no executivo e reduzindo-a na Assembleia Municipal. Do ponto de vista puramente político, não da gestão do município, os próximos quatro anos colocam alguns problemas interessantes. Como vão os socialistas gerir a substituição de Pedro Ferreira? Terá o PSD uma oportunidade para reaver uma câmara perdida há muito? A perda de votos de BE e CDU foi conjuntural, efeito de AR, ou será estrutural?

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Virtudes Militares


Quando se fala em virtudes militares, a primeira em que se pensa é a da coragem. O exercício da guerra exige-a. No entanto, não é a única virtude que a instituição militar cultiva. Além dela, há um conjunto de valores inerentes às Forças Armadas e que seriam de grande utilidade à comunidade, caso elas transbordassem para a sociedade civil. Os portugueses – entre eles, e com razões acrescidas, os governantes – estão orgulhosos da forma como o processo de vacinação contra a COVID-19 tem decorrido, estando vacinada praticamente toda a população vacinável. Pouca gente terá dúvidas de que o êxito deste processo se deve, em grande medida, à liderança de um militar, o Vice-Almirante Gouveia e Melo, que pegou num processo onde se vislumbravam já derrapagens e oportunismos vários.

Liderar a vacinação em massa da população não exigirá a coragem requerida pelos campos de batalha, mas necessita de outras virtudes existentes na instituição militar. Disciplina, organização, rigor, definição de objectivos realistas, espírito de missão e, acima de tudo, espírito de serviço à comunidade. Quem observa o processo de vacinação fica com a nítida impressão de que o líder da task-force possuía todas essas virtudes, as quais são trabalhadas e desenvolvidas pela instituição militar. Levou-as para o terreno, liderando o processo como se ele fosse uma batalha decisiva contra um inimigo astuto e cruel. Num tempo em que os valores correntes na sociedade são os do interesse pessoal e da sobreposição deste aos interesses da comunidade, é reconfortante ver a acção de alguém que evidencia como valor supremo o espírito de serviço.

Como em todo os lugares, também nas Forças Armadas haverá gente venal, que tenta tirar partido pessoal do lugar onde se encontra, por vezes infringindo a própria lei. O ethos da instituição, porém, não é esse, mas o de servir a comunidade até ao sacrifício supremo, se for esse o caso. Muitas vezes, isso é esquecido. O exemplo do processo de vacinação deveria acordar a sociedade portuguesa não para o desejo de ser governada por militares – o que envergonharia militares e civis – mas para o bem que seria a comunidade deixar-se contaminar pelas virtudes militares exibidas por Gouveia e Melo. Repito-as, disciplina, organização, rigor, definição de objectivos realistas, espírito de missão e espírito de serviço. Tornariam a sociedade mais forte e os indivíduos mais capazes e mais exigentes consigo e com aqueles que governam. É possível – ou provável –, porém, que não se tire qualquer lição do exemplo que tem sido dado a todos. Infelizmente.

sábado, 25 de setembro de 2021

A disciplina de Ciência Política


Na retórica dos decisores políticos, no âmbito da Educação, nunca falta uma hiperbólica referência à educação cívica dos alunos, assim como a lamentação contínua sobre a indiferença de muitos jovens pela política ou, noutras circunstâncias, o queixume pelas opções radicais. Uma das estratégias que o actual governo tem seguido é a de invadir o espaço curricular dos outros saberes para transmitir aquilo que denomina de educação para a cidadania. Uma estratégia que provoca imenso ruído nas escolas, claramente megalómana e que, não poucas vezes, parece raiar a catequização para certas formas de compreender a realidade.

Desde o ano lectivo de 2016/17, apenas com uma interrupção no ano passado, tenho feito uma experiência, enquanto professor, muito interessante. Lecciono a disciplina de opção, no 12.º ano, de Ciência Política. Tem um programa muito bem elaborado, que foca os principais temas do funcionamento da política de forma objectiva e sem fazer catequese ideológica. Em Ciência Política, o professor ajuda os alunos a olhar o fenómeno político de forma ampla e distanciada. Não para os manter afastados da cidadania e da política, mas para lhes dar uma compreensão profunda desse mundo e, assim, torná-los cidadãos mais competentes e, caso o decidam, actores políticos com uma preparação mais elevada. Se os Ministérios da Educação dos diversos governos estivessem realmente interessados numa formação cívica não catequética dos alunos, teriam na Ciência Política, tornando-a obrigatória no 12.º ano, um instrumento de alta qualidade.

Haveria, contudo, que ter em consideração alguns aspectos essenciais. Em primeiro lugar, a garantia contínua da cientificidade do programa, sem permitir que ele se tornasse catequese partidária. Se queremos formar cidadãos e jovens políticos, então há que ensinar-lhe a olhar objectivamente a política. Em segundo lugar, tornar a disciplina não em mais uma que está sujeita a exame e aos rituais tradicionais de avaliação e transmissão de conhecimento, mas num lugar de novas experiências pedagógicas, onde os alunos desempenhassem um papel importante na forma como se trabalha o currículo e como este é ligado à realidade. Em terceiro lugar, uma séria formação dos professores capazes de leccionar a disciplina. Formação técnico-pedagógica, formação científica, formação política e formação ética. A disciplina de Ciência Política, no 12.º ano, altura em que os alunos estão a atingir a maioridade, seria um instrumento curricular poderoso na formação cívica das novas gerações. Objectiva e sem catequese ideológica.

sábado, 11 de setembro de 2021

Qual o perigo da direita populista?


Quando se fala do perigo da direita populista ou radical, já com representação nacional, estamos a falar de quê? Que perigo para a democracia essas forças representam? Uma tentação, em certos sectores da esquerda, é de falar em retorno ao fascismo. Apesar de se poderem encontrar fascistas nessas áreas, a acusação tem pouco impacto e, na verdade, não ajuda a compreender o perigo que essas forças representam, nem as suas ambições, nem o ideal que as rege. 

O que torna a democracia liberal um regime virtuoso é o facto de o poder estar dividido e de todos os responsáveis políticos estarem submetidos à lei. O poder democrático está divido em legislativo, executivo e judicial. Apesar de haver uma relação de proximidade entre os poderes legislativo e executivo, a questão central está na completa independência do poder judicial. Nenhum governante tem capacidade para perseguir por motivos políticos um opositor ou qualquer outra pessoa – onde se inclui o leitor – utilizando o poder judicial. 

Se queremos perceber o que pretendem estes movimentos da direita radical, o primeiro sítio para onde devemos olhar é para o Absolutismo, onde o Rei concentrava nas suas mãos todos os poderes. A democracia e o Estado de direito nasceram contra o Absolutismo. Não é que estes movimentos sejam monárquicos, mas pretendem concentrar nas mãos do líder todos esses poderes, através de um processo de desgaste contínuo das instituições democráticas. Este é o ideal regulador de todos os movimentos populistas, à direita e à esquerda. 

Se o Absolutismo político é uma realidade distante, encontramos exemplos de como certos regimes políticos actuais aniquilaram ou reduziram drasticamente a divisão de poderes que permite aos cidadãos viver em paz e sem medo. Rússia, China, Irão, Venezuela, Coreia do Norte, Turquia, etc. Os problemas que têm surgido com a Polónia e a Hungria estão relacionados com tentativas de submeter o poder judicial ao executivo. Os ataques de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal pertencem à mesma estratégia. 

Quando em Portugal se fala em pôr fim ao regime ou se louva um putativa IV República é disto que se trata. Encaminhar o país para uma situação em que o detentor do poder político consiga dominar os poderes legislativos e judiciais, em que o líder esteja acima da lei. Sempre que isto acontece, existem perseguições, violência, eliminação de direitos civis e políticos. Instaura-se uma ditadura, mesmo que haja um simulacro de democracia. Os defensores desses movimentos deveriam estudar o que lhes pode acontecer. Uma das coisas que os tiranos mais gostam é de eliminar quem os ajudou a chegar ao poder.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

E alterar drasticamente o estilo de vida?


O conjunto de catástrofes naturais dos últimos tempos tem trazido, mais uma vez, para o debate público a questão das alterações climáticas de origem antropogénica. Uma das estratégias dos beneficiários do actual modo de vida foi lançar a dúvida sobre se a acção humana tem um papel central na degradação do clima e do ambiente da Terra. A dúvida transformou-se em negacionismo e tudo isto se politizou, criando dois campos em conflito. Seria ilusório, porém, pensar que o grande trunfo dos que querem manter o actual modo de vida da espécie humana se encontra nos negacionistas e na politização do problema. Encontra-se em todos nós, com graus diferenciados de responsabilidade.

As alterações climáticas e a degradação ambiental devidas à acção humana estão directamente ligadas ao estilo de vida que se tornou prevalecente no mundo. Se olharmos para os países ricos, nenhum partido que queira ganhar eleições se propõe baixar o nível de vida dos cidadãos, diminuir a riqueza produzida, tornar as pessoas menos aptas a consumir. Pelo contrário, aquilo em que os cidadãos votam é no crescimento económico, no aumento dos rendimentos individuais, na democratização plena dos consumos. Ninguém vota sequer numa democratização do empobrecimento, que afectaria todas as classes sociais. Quanto aos países pobres, os seus cidadãos desejam copiar os dos países ricos e assim consumir segundo o desejo de cada um. Todas as promessas governamentais de combate às alterações climáticas são falsas. Os governos não têm capacidade para fazer aquilo que ninguém quer: alterar drasticamente o estilo de vida.

Há ainda um outro problema. Expressa-se na seguinte proposição: as alterações climáticas são inevitáveis, muitas zonas da Terra podem tornar-se inabitáveis ou com condições de vida muito rigorosas, então há que tomar posse dos lugares onde a vida humana poderá ainda ser vivida sem grandes incómodos. Este tipo de pensamento nunca é expresso. Contudo, ele dirige já a acção de muitos seres humanos, fundamentalmente das classes privilegiadas e com maior responsabilidade no aquecimento global. Iremos assistir a uma intensificação da luta de classes, não no sentido da tradição marxista, mas de uma forma muito mais radical. Não se trata agora de uma disputa sobre meios de produção e rendimentos, mas de uma autêntica guerra sobre os melhores lugares para viver, aqueles que estarão mais abrigados dos efeitos destrutivos das alterações climáticas, deixando para os perdedores os lugares onde a vida será cada vez mais infernal. Estamos a caminhar para tornar as distopias ficcionais em realidade viva.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A Garrafa Vazia 68

Francisco Bayeu y Subías, Ángel, 1775
As vísceras revolvem-se
na fímbria da vida.
O álcool destilado
na valeta,
o sexo suado
preso ao anjo da morte.

Agosto de 2021

sábado, 28 de agosto de 2021

Afeganistão e Thánatos


Afeganistão (1). Nas imagens chegam do Afeganistão, desde as que mostram a facilidade com que os talibans se apoderaram do país até às do desespero de quem procura sair, há qualquer coisa que deveria fazer corar de vergonha os ocidentais. Não tanto a derrota militar, mas o abandono a que estão votados todos aqueles que, aproveitando a intervenção americana, pretenderam construir um país fora das garras do radicalismo islâmico. Perder é uma coisa, trair e abandonar os amigos, mesmo em política, onde os imperativos éticos se subordinam à vantagem política, é outra.

Afeganistão (2). Também deveriam corar de vergonha os que vêem uma derrota do imperialismo a saída dos americanos do Afeganistão. É tomar a nuvem por Juno. A derrota americana não é apenas a derrota americana. É uma derrota de todos aqueles que acham que política e religião devem estar separadas, de todos aqueles que defendem que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens e que não as olham como seres humanos de segunda que necessitam de uma tutela masculina. É uma derrota dos que julgam que cada um deve fazer o que bem entende da sua vida, desde que isso não ponha em causa direitos de terceiros.

Thánatos (1). Esta palavra grega significa morte. Sigmund Freud utiliza-a, na teoria psicanalítica, para designar – ao lado de Éros, a pulsão para a vida – a pulsão para a morte, para a destruição. Quando se observa as imagens dos protestos em França ou nos Países Baixos, também em outros lugares, contra as medidas de combate à pandemia, percebe-se muito claramente que, por detrás das reivindicações de liberdade e da denúncia delirante de putativas conspirações, o que fala é a pulsão de morte e de destruição que habita o inconsciente humano. Quando se vêem aquelas manifestações ou quando se ouvem os negacionistas, não é Éros que fala, é Thánatos.

Thánatos (2). Catástrofes naturais sempre aconteceram, mas o que se está a passar ultrapassa o que seria a acção normal da natureza. A negação do papel humano nas alterações climáticas e a omissão ao seu combate, é ainda Thánatos, a pulsão para a morte, que se manifesta. Não se pense que essa pulsão, nas questões climáticas, é apenas dos negacionistas e dos que têm interesses económicos em que tudo continue como está. Thánatos habita cada um de nós e manifesta-se mesmo naqueles que estão conscientes do problema e do dever de combater essas alterações. Poucos, muito poucos, são os que estão dispostos a abandonar o tipo de vida que produz continuamente a degradação do clima.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Beatitudes (47) Serenidade de Outono

Jan Schüler, Autumn evening on the Rhine, 2019

A certa altura, no decurso do Verão, o corpo sonha com o paraíso. Exausto pela roda do calor, trespassado pelas deambulações da multidão, aquele que sonha espera a hora em que o Outono se apresente com a justa medida que todas as coisas devem ostentar. Sabe-se que a serenidade é a antecâmara do tempestuoso, mas é nela que o coração encontra a beatitude.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Nocturnos 66

Harry Callahan, Chicago, 1958

Diz-se a noite caiu, como se ela fosse um objecto arremessado do alto sobre a planície luminosa do dia. O melhor será dizer a noite envolveu lentamente o dia, até se cerrar sobre ele, fazendo desaparecer por dentro do seu abraço.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Os talibãs no carrocel

Francisco Díaz de León, Carrousel, 1930

No Público de hoje, António Guerreiro explora a natureza icónica das imagens dos talibans a ocupar o palácio presidencial, salientando aquela em que os guerrilheiros surgem armados e dispostos à volta da secretária de trabalho do Presidente em fuga, a sua natureza inquietante ou, para ser mais preciso, a sua inquietante estranheza. Todas as imagens que nos chegam do Afeganistão têm, contudo, um poder enorme de suscitar, para além dessa inquietante estranheza, um sentimento de má consciência. Muitas delas terão sido captadas com essa intenção, mas não seriam necessárias. Bastariam aquelas que nos chegam e são emanações espontâneas de consciências ingénuas.

Há, contudo, um conjunto de imagens, com não menos poder icónico e capacidade explicativa, a que não se tem dado o relevo que merecem. São filmagens de combatentes talibans em Cabul, num parque de diversões, andando em carrinhos de choque e em carroceis. Homens barbudos, militarmente competentes e vencedores, ameaçadores para tudo o que se lhe opõe e às suas crenças. No entanto, eles estão ali, no momento da vitória, como crianças e jovens adolescentes. Essas imagens convocam, de imediato, por oposição, um célebre texto de Kant, O que é o Iluminismo?

Vale a pena citar o primeiro parágrafo do texto de Kant: “Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.”

Aqueles guerrilheiros eufóricos no parque de diversões da capital afegã, homens de coragem física e capacidade militar, no fundo não passam de menores. A sua menoridade reside na falta de coragem para se servirem do seu próprio entendimento sem a condução de outrem, de um chefe supremo, de um grande líder, ou de qualquer outra figura que dê corpo à necessidade de um mestre e senhor.

A inquietante estranheza que sente António Guerreiro perante as imagens do palácio presidencial é bem mais nítida e ameaçadora, para nós, ocidentais, nas imagens de combatentes infantilizados num parque de diversões. Porquê? Em primeiro lugar, porque também em nós, ocidentais, existe uma nostalgia da infância e da adolescência, desses tempos paradisíacos de menoridade. Em segundo lugar, porque o peso da liberdade e da responsabilidade individuais é, muitas vezes, excessivo para aquilo que podemos suportar. Em terceiro lugar, porque entre nós o desejo de retorno a um tempo de menoridade se manifesta cada vez com mais força. Foi ele que elegeu Trump e Bolsonaro, é ele que faz crescer as intenções de voto em Ventura, é ele que alimenta o apoio aos partidos populistas na Europa, é ele que levou ao poder personalidades anti-iluministas, na Polónia ou na Hungria.

A inquietante estranheza nasce porque, no fundo de nós, existe uma inclinação para obedecer ao mestre e, como meninos obedientes e bem-comportados, poderemos ir à feira, ao carrocel e aos carros-de-choque. No íntimo dos ocidentais, na sua consciência dilacerada, defrontam-se a má-consciência pelo abandono a que os afegãos – principalmente as afegãs – tocadas pelo Iluminismo foram votados e essa inclinação para a menoridade e para a servidão voluntária.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A Garrafa Vazia 67

Ernst Ludwig Kirchner, Prostituta che si offre, 1914

Sombras secretas
aproximam-se,
fendem a rua,
o passo incerto.

Putas ociosas
buscam na noite
o silêncio
do último cliente.

Agosto de 2021

domingo, 15 de agosto de 2021

O Vice-Almirante das vacinas

Enrico Baj, sem título, 1964
Se eu fosse de direita e tivesse nela oportunidade de aconselhamento, diria aos meus correligionários para aguardarem um pouco (a paciência é uma virtude), esperarem o fim da época da vacinação e contratarem, no defeso, o Vice-Almirante Gouveia e Melo para líder. Seria uma transferência estrondosa de alguém com uma acentuada inclinação para chegar à vitória em batalhas difíceis, pois isto de vacinar uns milhões de portugueses, sem barafunda, não é coisa fácil. Em vez de se encantarem com os esganiçamentos do rapaz do Chega, aquele que está em tirocínio para pastor evangélico, rodeado de pessoas que não gostaríamos que fossem amigas dos nossos filhos, deveriam procurar cativar o militar que dirige os batalhões de enfermeiros a partir do seu camuflado de combate.

O episódio de ontem (ver aqui) confirmou a minha intuição de há tempos. Toda a sua acção e as palavras que disse são uma lição de política. Perante os manifestantes ululantes, em vez de procurar outra porta passou pelo meio deles (em política, a virtude da coragem é muito apreciada pelos eleitores), depois afirmou que o perigo vem do negacionismo e do obscurantismo, uma afirmação clara de que se mantém na tradição Iluminista (o que não sendo particularmente apreciado por amplas camadas da nossa direita, ser-lhes-ia muito vantajoso, pois dar-lhes-ia um ar de modernidade e conquistaria votos à esquerda). Acrescentou que vivemos em democracia e que todos têm direito de emitir as suas opiniões (uma defesa da liberdade de expressão que poderia enriquecer a experiência dessa mesma direita, muitas vezes vacilante nesse item, e também com possibilidade de atrair votos de gente de esquerda) e concluiu com uma defesa da ordem, negando aos manifestantes o direito de empurrar pessoas e impedirem de elas se deslocarem (ora, a ordem é uma das coisas que direita diz gostar, embora isso tenha dias).

Estamos, assim, perante um conservador iluminista, amante da democracia. Ainda por cima tem tido a capacidade de dirigir a máquina da vacinação, levando com disciplina a bom porto a missão de que foi encarregado. Se a direita quiser voltar para o poder e dar um contributo sério para o país, o melhor é deixar-se de procurar pequenos salvadores histéricos ou rapazes e raparigas que gostam de brincar ao liberalismo, e escolher um homem, ainda por cima muito apreciado pelas senhoras de vários escalões etários, com um nome imensamente adequado a líder da direita. O ‘e’ de Gouveia e Melo faz toda a diferença. Liderada por ele, nem as artes de António Costa, nem as aberturas das outras esquerdas para o manterem no poder resistiriam. E, estou convencido, nessa altura o nosso Vice-Almirante trocaria o camuflado por fato civil e, caso necessário, haveria de andar de camisa com o colarinho desapertado. Para ele não há missões impossíveis. O que me vale é que não sou de direita e, portanto, não tenho conselhos a dar-lhe.

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Alterações climáticas e o pathos do apocalipse

Yoriyasu Masuda, Caos, 1994
Talvez, como sugeria, no Público, João Miguel Tavares (JMT), só as catástrofes tenham poder de levar os homens a pararem o comportamento que está na base das alterações climáticas. O autor refere que a questão é posta, por norma, em termos de vontade política, mas que o problema é mais complexo, pois enraizar-se-ia na psicologia humana. Os seres humanos – muitos deles – já perceberam que as alterações climáticas são, muitas delas, da responsabilidade humana, mas que ainda não sofreram o suficiente com elas para se sentirem constrangidos a mudarem os comportamentos.

Aristóteles talvez seja mais fecundo do que o psicologismo a que recorre JMT. Refere, o filósofo grego, que o hábito é uma segunda natureza. Seria esta natureza que explicaria os comportamentos que JMT atribui à psicologia humana. No entanto, o problema coloca-se a jusante do hábito, no processo da sua formação. Podemos formar hábitos viciosos ou hábitos virtuosos, o que conduzirá a um carácter vicioso ou virtuoso. O que tem isto a ver com as alterações climáticas e a resistência à mudança de comportamentos?

Durante muitos e muitos anos, o poder económico com a colaboração do poder político exerceram uma verdadeira educação dos hábitos das pessoas. Ter grande iniciativa, exceder-se e ter poder económico para consumir são pilares da educação que, de forma massiva, há mais de um século é difundida. Foram propagandeados como virtuosos. Mais, continuam a ser propagandeados como virtuosos, tanto pelos governos como pelos agentes económicos. 

Os hábitos da espécie humana não são coisas que caem dos céus aos trambolhões. São o resultado de uma educação. Antes de ser uma questão psicológica, as questões comportamentais perante as alterações climáticas são políticas e sociais, devido ao peso que as ideologias políticas, os interesses económicos e as concepções sociais difundidas amplamente possuem na educação e na formação de hábitos. Em última análise, trata-se mesmo de uma questão de vontade política, de uma vontade que escolheu - e escolhe - mostrar como virtuoso aquilo que é vicioso. 

Quando não se quer compreender que o egoísmo oculto na propaganda da iniciativa, o ir para lá da justa medida que se esconde na cultura do ultrapassar-se continuamente e a delapidação presente no consumo são valores negativos e os responsáveis pela situação a que se chegou, então, como acontece com o texto de JMT, resta o pathos do apelo ao apocalipse. Os seres humanos precisam de catástrofes para aprenderem. Uma apologia do dilúvio universal. Resta saber quem será o Noé da história.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Simulacros e simulações (27)

Elliott Erwitt, NY, 1975
Com o desenvolvimento da Aeronáutica, da Inteligência Artificial e da hibridação entre homem e máquina, essa consumação do mecanicismo da modernidade, chegará o momento em que não se saberá se a máquina simula a ave, ou se esta é um simulacro daquela.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Nocturnos 65

Nina Leen, Chinese Dancer, not dated
Não há luz que apague a noite que devora o coração. As asas soltam-se, mas a ave não tem o poder do voo. Os braços abrem-se, não há, porém, a quem abraçar. O riso afoga-se num mar de melancolia e o corpo despido reveste-se da mais densa treva. Só o silêncio progride por dentro da noite.