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| Moita Macedo, sem título, s/d (Gulbenkian) |
O grande rio é pequeno como as pálpebras
dos
teus olhos cravados no sepulcro
do
Tejo: as águas secas, ilhas de areia
rodeadas
de ervas, os cardos a despontar
num
Verão esquecido por Deus
no
ventrículo do deserto.
O
grande rio já não desce da aurora da
nascente
para
morrer no ardor da foz.
É
uma cobra monstruosa perdida no silêncio,
coberta
com a pele dos mitos,
o
saibro viscoso com que se reveste o leito
e
o espanto se afoga em terra firme.
O
grande rio, estrada para o infinito do oceano,
a
via dos ébrios em busca de Deus,
ou
de álcool, ou de água oxigenada, ou de borboletas,
ou
da tristeza sem fim que mora solitária
no
permanganato de sódio,
a
disjunção lógica que uma margem da outra separa.
O
grande rio perdeu a torrente do vocabulário,
emudeceu,
sem força na língua e nos lábios
para
soletrar a oração pela sua sorte,
para
sibilar palavras sagradas e chamar peixes
para
morrerem na angústia das redes,
para
aclamar suicidas exaustos de segundas-feiras.
Agosto de 2025








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