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| Louis Malatier, Au Temps de la Vieille Chanson, 1895 |
Kyrie Eleison
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Cadernos do esquecimento 61 Uma fresta estreita
domingo, 25 de outubro de 2026
Tiranias democráticas
Uma das marcas políticas dos nossos dias é a alteração do modo como a extrema-direita chega ao poder. Durante décadas, essa chegada fazia-se através de golpes de Estado e a instauração de ditaduras militares. A América Latina era o exemplo mais notório dessa modalidade de tomada de poder. Hoje, nessa mesma América Latina, estamos a ver outra coisa. A extrema-direita chega à governação através de eleições, por norma, livres e justas. Isto tem um significado político claro: as populações, e entre elas, as mais pobres, inclinam-se para essas soluções. Acreditava-se existir uma incompatibilidade entre esses sectores radicais e a democracia. Essa crença, constatamo-lo agora, é falsa. A incompatibilidade dessas direitas será com a interpretação liberal da democracia, que na verdade é uma forma de a limitar.
Nas democracias liberais, uma maioria absoluta não permite ao governo fazer tudo o que lhe apetece. Por um lado, os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos estão constitucionalmente defendidos, não podendo ser postos em causa por qualquer governo, por maioritário que seja. Por outro, o Estado está submetido ao direito. Ninguém está acima da lei. Os governantes eleitos têm de se lhe submeter, assim como o próprio funcionamento do Estado. A democracia, na vertente liberal, é uma tentativa de evitar os perigos que, desde Platão, se conhecem nos regimes de democracia pura: a demagogia no poder e a tirania da maioria como caminho para um despotismo de um salvador.
Existirá um perigo real para as democracias liberais com a eleição democrática de governantes da extrema-direita? Existe um perigo efectivo. Esse perigo é o do desaparecimento da natureza liberal das democracias actuais. No poder, essas forças tendem, em nome do voto democrático, eliminar direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, assim como a subtrair a acção dos governantes e do próprio Estado ao império da lei. Não tenhamos ilusões. É nesse projecto que os cidadãos – maioritariamente, das classes desfavorecidas – estão a votar. Por norma, depois da segunda Guerra Mundial, as ditaduras vinham por golpes de Estado. Hoje, elas instalam-se com base na escolha democrática. O que as torna ainda mais perigosas. Uma ditadura militar tinha uma aura de ilegitimidade. Hoje, porém, as tiranias existentes e em vias de se instalar apresentam-se com a legitimidade do voto maioritário, com o apoio de parte substancial do eleitorado. Podemos dizer que são democracias puras ou iliberais. Na verdade, são um caminho directo para a tirania.
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Raiz da Permanência 8
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| Joaquim Rodrigo, Vau-Praia, 1982 (Gulbenkian) |
Trazem as palavras enredadas na vertigem do coração,
cestos
de sílabas colhidas na vinha
da
memória, em pomares sulfatados pelo cobre
do
esquecimento.
As
frases dançam no vento promíscuo da cidade,
abrem-se
à inclemência da Primavera,
rasgam
avenidas na nostalgia de um texto
tecido
no crepitar do trânsito da tarde.
Um
uivo estremece o alfabeto das ruas,
desfaz
a sintaxe que soldava as acções
e
compunha histórias contadas de casa em casa
por
aedos vestidos pela seda do cansaço.
O
fervilhar das noites iluminado pelo fogo
do
sentido, uma semântica crua
crestada
pelo vigor de um sol cinematográfico
perdido
no vazio da sala de jantar.
O
silêncio soletra-se ainda nas palavras caídas
de
um velho coração, murmúrios
vindos
na traineira do tempo, um rumorejo
de
creolina no crude do desejo.
Nas
praias, os destroços do naufrágio das línguas.
Homens
correm despidos pelas marés,
são
lobos mudos, alcateias de sombra,
um
bando estrídulo perdido na casa da mudez.
Julho de 2025
domingo, 4 de outubro de 2026
Cinismo e humilhação
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
O bode expiatório
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
A persistência da memória (38)
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| James Leon Williams, Far From the Madding Crowd, 1890 |
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Diálogos aporéticos (14) - O corvo
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| Philippe Halsman, Alfred Hitchcock, at the time of the filming of his movie The Birds, 1962 |
- Meu Deus, pareces um filósofo a meditar o livre-arbítrio.
- Cala-te! Que sabes tu de
meditação?
- E por que razão não haveria de
saber?
- Não passas de um corvo. Negro,
horrível, assustador.
- Concedo-te duas coisas. Sou um
corvo e sou negro, como todos os corvos. Quanto a ser horrível e assustador, é
uma opinião tua. Vale o que vale. Para nós corvos, vale zero.
- Claro, devem achar-se a espécie mais
bela da criação.
- Nós, corvos negros, não achamos
nem deixamos de achar. Nós sabemos e sabemos que, em toda a criação, não há
espécie que se nos compare em beleza.
- Presunção, meu caro amigo.
- Não sou teu amigo. Apenas um
conhecido e por motivos comerciais.
- Isso sim. Nisso tens razão.
Pertences à espécie mais interesseira que existe ao de cima deste planeta.
- Vocês humanos nunca se olham ao
espelho. Preferem meditar sobre o livre-arbítrio, em vez de encarar a
realidade.
- E o que é a realidade?
- A minha ou a tua?
- A minha claro, ou julgas que
quero saber da realidade de bípedes com penas negras?
- A tua realidade? É de quem perdeu
o tino há muito e passa o dia a falar com um corvo.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Perfis 23. A sonhadora
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| Baron Adolph de Meyer, Träumerei, 1896 |
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Beatitudes (88) Caminhos da floresta
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| Léon Keusters, Landschaftsstudie, 1891 |
domingo, 20 de setembro de 2026
Raiz da Permanência 7
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| Frantisek Kupka, Gouache, 1921 |
Descido
da cruz e entregue ao sepulcro, o dia
ficou
turvo na queda da noite, sem margem
para
erguer a voz e ressoar
como
sino embalado pelo ângelus.
Dia
morto em louvor do porvir,
sepultado
na madeira da memória,
pronto
para o grés do esquecimento.
Os
dias são flocos de neve tocados
pela
candeia da miséria.
Derretem
assobiados pela prosódia do vento,
formam
um lago de memórias,
de
onde a água do tempo se evapora,
formando
nuvens tóxicas
em
céu de terebentina e sal-gema.
Pobre
exército a desfilar na parada, o dia
oferece
o coração às balas inimigas,
cai
trespassado pelo livor do vazio,
morre
no rubor do nada.
Rosa
desfolhada no friso da passagem,
entrega-se
na cruz
do
instante, no sepulcro da eternidade.
Abril de 2024
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Educação, PISA e cultura escolar
Contudo, há que relativizar esta
culpa. O problema surge no tempo de Cavaco Silva, com a reforma Roberto
Carneiro. É aqui que penetra em força, no campo político ligado à Educação, a
ideologia educativa da OCDE, que foi seguida pela generalidade dos ministros da
Educação do PS e do PSD, com excepção de Nuno Crato. Diga-se, em abono de
verdade, que o actual ministro não alterou nada de essencial do que vinha de
João Costa. Os resultados desta ideologia são devastadores. Em primeiro lugar,
destruiu a autoridade dos professores, mostrando-os como culpados de tudo o que
alunos não sabem nem fazem. Em segundo lugar, minimizou a necessidade de os
alunos serem responsabilizados e de prestarem provas externas durante todo o
percurso escolar. Por fim, criou uma confusão nos currículos, criando áreas
difusas, que ninguém sabe o que fazer com elas, desvalorizando a aquisição de
conhecimento em prol do desenvolvimento de hipotéticas competências gerais, que
ninguém sabe como desenvolver.
O problema fundamental, porém, é
outro, que a ideologia educativa da OCDE mascarou. Existe em Portugal, e em
muitos países ocidentais, uma cultura adversa à escolaridade. Há uma frase que
resume essa cultura: as aulas são uma seca. Esta perspectiva não nasceu
com os telemóveis, os ecrãs e o digital. Estes apenas a intensificaram. Mais,
essa atitude vem de casa, das famílias e da sociedade. É uma cultura adversa ao
trabalho rigoroso, ao esforço e à disciplina. A escola, manietada pelo
Ministério da Educação, nunca teve qualquer hipótese de lidar com ela. Se
Portugal quer enfrentar o problema, então tem de enfrentar esta visão social
inimiga da aprendizagem. Quem achar que não é assim, veja os resultados do
PISA. No topo estão China, Singapura, Taiwan, Japão, Coreia. Países onde a
escola é um lugar de disciplina, esforço e superação.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Prosa dos dias (36) Uma poesia violenta
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| John Gutmann, Kids Reading Comics, San Francisco, 1938 |
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Ensaio sobre a luz (139)
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| Nicanor Piñole, Fábrica de Moreda |
sábado, 12 de setembro de 2026
Nocturnos 139
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| Frits Thaulow, Night, 1880 |
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Comentários (38)
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| Jean-Auguste Dominique Ingres, Bonaparte as First Consul, 1804 |
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Simulacros e simulações (81)
domingo, 6 de setembro de 2026
Raiz da Permanência 6
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| Caspar David Friedrich, Abbey in an Oak Forest, 1809-1810 |
A natureza flutua no horizonte das coisas perdidas.
Correm
arautos para anunciar o cravo
da
recompensa, a rosa de aço
pregada
no polietileno das nuvens.
Ama-se
a natureza como se ama
uma
criança desconhecida, sem nome.
Ama-se
a natureza nas tardes de domingo,
sem
a cisterna do futebol.
Ama-se
a natureza na compunção do pecado,
sem
a sêmola do arrependimento.
Os
amantes naturais perdem o seu amor
no
labirinto da natureza, nos meandros dos rios,
no
cume oscilante da montanha.
Confiam
na anunciação de um profeta da pureza,
na
devolução da esponja da potência
perdida
na natureza turva da vida,
na
proa dos sonhos de azoto e púrpura.
O
dedilhar de um piano incendia as fontes da floresta.
Pássaros
erguem-se em suas asas
de
ébano e voam para longe.
Fogem
da inflamação da natureza, do ar
irrespirável
na turbação do fogo. Fogem.
Então,
a floresta abre o espasmo do ventre
ao
coriscar do lume.
As
mãos cedem ao pântano da cinza,
caem
no rancor da pendência
contra
o caos da sintaxe natural do mundo.
Abril de 2024





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