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| Jordi Pallarés, Procesión, 1984 |
O timbre das ferraduras ecoa pelo silêncio
das
mudas paredes da catedral.
Peregrinos
sem nome arrastam
o
mercúrio da dor e enchem
de
orações as mochilas vazias,
compradas
na feira da ladra.
Toca-os
a lepra do cansaço,
o
ranço de tudo o que os habitou,
súbitos
despojos na pressa
da
fome, do frio, do desejo frívolo
de
quem viaja com o mundo às costas
e
espera na encruzilhado do caminho
a
máquina da santidade no azul das ervas.
As
ruas enchem-se de flores de estanho e colchas de água,
passam
procissões, pisam as lajes com pés
de
penumbra em sapatos rotos,
abertos
pela dança do sol na inclemência
do
meio-dia.
Devotos
ajoelham na fragrância da paisagem,
enquanto
as mãos dedilham contas
na
pressa da salvação.
As
palavras soletram-se na humildade
de
um alfabeto raptado à crosta dos símbolos.
Horas
rasgadas pelas promessas nascidas
na
equação da incerteza,
facas
de lâmina sufocada, hirta,
pronta
para o ritual rude da morte.
O
longo caminhar pelos figueirais
abandonados
ao tétano da tarde.
Seguem
homens em cardume,
cantam
contra a espessura da tentação,
erguem
os olhos e tremem
no
frio da abundância, no calor da escassez.
Um
fanal orienta a navegação no porto
do
purgatório, a casa escrita
nas
omissões dos lábios e nos gestos dos dedos.
Ouvem-se
os sinos a dilacerar o alcatrão.
Ao
longe, uma montanha ecoa
o
salitre dos anjos.
São
peixes montanhosos, estonteados
no
ventre do cardume,
deambulam
como ossos nas mandíbulas dos cães,
encastrados
no gesso metálico da dúvida.
Agora,
tomam opiáceos receitados na esquina
do
desejo, na entrada para o templo
do
esquecimento, enorme, com uma boca cerrada
na
tépida vida entalhada na turfa do sexo.
Peregrinam
como se cantassem
e
os dedos rígidos acusam
o
criminoso trazido pela álgebra da ventania,
o
ladrão dos espaços siderais,
o
universo vazio à espera de inquilino,
arrendamento
semestral pago adiantado.
Abril de 2024
















