segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Educado e honesto


As palavras usadas por Cavaco Silva para manifestar o seu apoio a António José Seguro são, na sua adjectivação banal, um sinal do quão baixa se tornou a vida política portuguesa com a emergência em força da direita radical e populista. O que separa os campos políticos e leva as pessoas a fazer uma escolha já não são as velhas querelas entre esquerda e direita, socialismo e liberalismo, mais Estado e menos Estado. Resta a escolha entre um candidato educado e honesto e outro que, por contraponto, parecer não o ser. Contudo, não devemos interpretar as palavras do antigo Presidente da República como se elas fossem aplicadas a características pessoais e não políticas. O que está em jogo não é educação e a honestidade pessoais de António José Seguro e de André Ventura, das quais não há razões para duvidar, mas sim a sua educação e honestidade políticas. 

Referir que António José Seguro é educado significa que ele possui a gravitas necessária a um homem de Estado. Sabe comportar-se dentro das instituições nacionais e internacionais, que respeita essas instituições, bem como os que pensam de modo diferente dele, como o mostrou ao longo da sua vida política. Educação é a gravidade que um político, na sua acção, deve ostentar para a defesa do país que representa. Por contraponto, podemos deduzir que a André Ventura lhe falta a gravidade política, que não respeita as instituições nacionais e, muito menos, os adversários políticos. O comportamento do seu partido na Assembleia da República e a sua constante gritaria, seja em debate, seja sozinho, nas inúmeras oportunidades que a comunicação social lhe dá, são uma cabal demonstração de que lhe falta, ao contrário de António José Seguro, a educação política necessária a um homem de Estado. 

A honestidade sublinhada por Cavaco Silva deve ser interpretada como fiabilidade política. Se olharmos para o comportamento de ambos os candidatos, percebemos a preferência do antigo líder do PSD. António José Seguro, claramente, põe o país e as instituições democráticas acima da sua visão ideológica. É um parceiro responsável, fiável e adulto. Está na política para reforçar as instituições e o país. Ventura, por seu lado, não é um parceiro fiável para nenhum quadrante político democrático. Não apenas usa as instituições para as subverter, como enche a boca com Portugal apenas como mera retórica populista, de interesse partidário. Seria um desastre – de que não estamos livres – se um candidato pouco fiável politicamente chegasse à mais alta magistratura do país. Sim, Cavaco Silva, tem razão: a gravidade e a fiabilidade de um homem de Estado são essenciais.

sábado, 31 de janeiro de 2026

O clima e a resistência

Oskar Kokoschka, La Tempestad, 1913

A tempestade que atingiu o país e que quase devastou a cidade de Leiria, para além de deixar estragos graves em muitos sítios, é um episódio que, apesar das diferenças, se pode juntar aos fogos do ano de 2017. É plausível pensar que estes fenómenos fazem parte de uma alteração do clima, alteração essa induzida pela acção humana. Conter as alterações climáticas através de decisões políticas é uma fantasia: as potências decisivas não querem saber do que se passa com o clima; algumas negam o impacto humano, ao mesmo tempo que fomentam acções que apressarão a catástrofe climática.

É neste quadro que a sociedade e os governos que ainda possuem um módico de sensatez terão de actuar e de reorganizar a vida das comunidades. A finalidade em Portugal já não será apenas de combater essas alterações — não está na nossa mão, embora devamos cumprir os compromissos assumidos —, mas a de reorganizar a vida tendo em conta que estes fenómenos extremos se irão repetir com cada vez maior frequência e violência. Esta previsão das catástrofes é uma questão política de primeira importância, mas não apenas política: diz respeito à sociedade civil e a cada cidadão. A sobrevivência nas circunstâncias que nos esperam exige um esforço concertado e empenhado de todos, não apenas dos políticos. Há que organizar a resistência

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Máximas (26)

C. A. Deul, Jr., Aan Het Spinnewiel, 1905
A História é um fio que se puxa do novelo do passado e que ameça partir em cada instante de um presente.
 

domingo, 25 de janeiro de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (33)

Eduardo Gruber, ¿Cáctus?, 1996

O verme da vingança

grava-se na ânsia

rude dos dias.

 

Sem luz no horizonte.

Sem sede na boca.

 

Só a inércia da íris

aberta ao vento

vindo virgem do futuro.

 

[1993]

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Primeira volta das Presidenciais


As eleições de domingo, apesar de faltar ainda uma volta, têm vencedores e derrotados claros. Vencedores:

António José Seguro. A sua vitória e votação, bem acima do expectável, tem um único protagonista: ele mesmo. Não teve apoio da esquerda, o próprio partido mal o aceitou, havendo muitos socialistas – militantes e eleitores – que se deixaram encantar pelo almirante das vacinas. Segurou traçou um rumo baseado na moderação, na seriedade e na sensatez. Quase um terço dos eleitores apreciaram o rumo. Ainda não é Presidente.

André Ventura. Teve uma vitória, menos expressiva do que desejaria, mas ainda assim uma vitória, fundamentalmente na direita. Vai apresentar-se como o grande condottiero do campo não socialista e espremer até mais não poder o PSD. A ideia é destruir este. Se o país tiver um módico de sensatez não terá hipóteses de ser eleito. Contudo, não é seguro que a sensatez abunde, neste momento, em Portugal.

Derrotados

Mendes, Montenegro e governo. A votação de Marques Mendes é uma humilhação para ele e para a sua área política. Partiu para eleições como Presidente e saiu como uma irrelevância política. A derrota prosseguiu depois do anúncio dos resultados, ao não verem qualquer diferença entre Seguro e Ventura, embora se saiba que Ventura como Presidente é um golpe mortal no PSD.

Gouveia e Melo. Imaginou que, mesmo sendo analfabeto político, os portugueses ficariam fascinados com a gestão das vacinas, a sua altura e as nuances autoritárias. Julgou-se Presidente, mas os eleitores foram sensatos.

Cotrim de Figueiredo. A certa altura da campanha, Cotrim de Figueiredo pensou que chegaria à segunda volta e teria todas as hipóteses de se tornar presidente. No fim, apesar da votação bem acima da que é habitual no seu partido, serviu apenas para fragilizar o PSD, Montenegro e o governo. Parece que também para ele é indiferente Seguro ou Ventura.

Bloco, PCP e Livre. Se o objectivo de apresentação de candidatos presidenciais era confirmar a irrelevância do bloco político à esquerda do PS, então alcançaram uma grande vitória. São desde domingo mais irrelevantes do que eram antes destas eleições. Tiveram uma oportunidade para esconder a degradação da sua imagem perante os eleitores, mas recusaram-na. No boletim de voto, os eleitores mal deram por Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, todos remetidos para o campo do folclore político.

Vamos ter agora mais três semanas até que o país decida se escolha a sensatez, a democracia liberal ou se se vai lançar numa aventura trumpiana de tonalidade paroquial.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A persistência da memória (34)

Ralph Winwood Robinson, Sweet Spring, 1892

Um céu feito com a febre das nuvens e o feno da melancolia junta-se ao velho moinho de vento. Olham surpresos o par que passa com o seu aroma doce a Primavera. Calam-se e, como voyeurs, acompanham a encenação do amor, não sabendo, nem um nem outro, se aqueles actores representam uma histórica com um final feliz, uma comédia de costumes, uma tragédia sem nome. Para onde irão, pergunta o céu a si mesmo. Como se o escutasse, o moinho pede para que não entrem nele e façam ali a Primavera seguir o seu curso. A idade não lhe permite contemplar o borboletear do amor. O par, porém, segue em frente, por uma daqueles caminhos que não levam a lado algum, mas que são os únicos que, perante o círculo puro do amor, merecem ser percorridos para se tornarem memoráveis. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A estranha direita democrática e liberal


No tempo de Sá Carneiro, o PPD (actualmente, PSD) dizia-se um partido de centro-esquerda. Hoje, porém, não sabe se é melhor os seus eleitores votarem num moderadíssimo candidato de centro-esquerda, António José Seguro, ou num candidato da direita radical populista e iliberal, André Ventura. Há muitos décadas que passou ao PSD a sua inclinação inicial imposta por Sá Carneiro e muitos que, com ele, fundaram o PPD. Mas parece que não foi só a inclinação para o centro-esquerda que lhe passou. A própria inclinação para a democracia liberal aparenta ser, cada vez mais, coisa do passado.

Outro caso interessante é o de João Cotrim de Figueiredo. Nunca se apresentou como de centro-esquerda, mas como liberal. Ora, no momento em que se trata de escolher entre um defensor claro da democracia liberal, António José Seguro, e um defensor do iliberalismo, André Ventura, o liberal Cotrim de Figueiredo acha  tudo igual, não recomenda voto em nenhum lado. Tanto lhe faz um presidente politicamente liberal ou iliberal.

Esta é, infelizmente, a natureza da direita portuguesa. Tem problemas com a democracia e com o liberalismo político. Gosta do liberalismo dos mercados, mas está desconfortável no liberalismo político. Claro que há muita gente na direita democrática que sabe muito bem por que razão a democracia liberal é importante e o único regime em que se pode viver decentemente, mas, provavelmente, são excepções e não a regra. Se um dia, que talvez não seja distante, for preciso defender a democracia liberal, o mais provável é que as figuras mais importantes da direita democrática não mexam um dedo. 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Meditações melancólicas (98) A indecência da reflexão

Nichol Elliot and Alice Elliot, On the Danube, 1919

Como o título destas meditações, também o dia de hoje é melancólico. São-no todos os que antecedem os actos eleitorais. Não porque fosse motivo de júbilo a continuação da campanha eleitoral, com todas aquelas tristes encenações e vãos comentários, mas pelo atestado de menoridade que o Estado continua a passar aos portugueses. Um dia de reflexão, mas apenas na consciência imaculada de cada um, que no dia de hoje olhará para dentro de si e, descontente com o que vê, se porá a meditar a quem irá amanhã entregar o seu voto, caso decida fazê-lo. Não sei - para dizer a verdade, nunca me interessei em saber - como se passa noutros países, se também os respectivos eleitores têm um dia dedicado à reflexão no íntimo da consciência. Isso, porém, é irrelevante. Onde isso aconteça, como é o caso de Portugal, os eleitores são tomados por idiotas, como se fossem incapazes de discernir, no meio da propaganda, aquilo que a inclinação lhes diz para fazer. Poder-se-á objectar que o dia de hoje é um dia de decência sem que as pessoas sejam sujeitas ao efeito da propaganda. Ora, uma decência que é imposta pela lei não é uma decência, mas apenas um exercício de menoridade. Uma indecência.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (32)

Camille Pissarro, Pont Boieldieu, Rouen, 1896

Uma lâmpada obscura

desce pelas sombras

do Inverno.

 

Ilumina as manhãs

no calcário

da paisagem.

 

Rompe a raiva inscrita

na cinza do céu,

no voo dos pássaros.

 

[1993]

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ensaio sobre a luz (132)

Céline Laguarde, En Campagne, 1907
Uma luz difusa cai sobre a aldeia. A vida fruste, as casas envelhecidas pelas auroras, o carro da lavoura esquecido à beira do caminho, a sombra silenciosa que acompanha a mulher que procura um destino. Tudo isso constrói uma paisagem eterna que o tempo apagará do coração dos homens, mas que persistirá incorruptível no éter até ao fim dos tempos.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Layla Martínez, Caruncho


Publicado em Espanha em 2021 e em Portugal, pela Antígona, em 2024, Caruncho (Carcoma) é o romance de estreia de Layla Martínez. Sobre ele formaram-se de imediato alguns clichés, como o de o classificar como romance gótico e o de associar o seu estilo ao realismo mágico. É verdade que há, na obra, a presença do terror e o recurso a uma narrativa que recorda Juan Rulfo. Contudo, classificar a obra na categoria de romance gótico é uma forma de a arrumar num canto onde não possa perturbar os espíritos. O terror que se surpreende não é uma criação imaginária, mas aquele que está presente no quotidiano, fundamentalmente num quotidiano cujas fundações são o terror da Guerra Civil espanhola (1936-1939) e do regime que dela nasceu e, também, o recalcamento que esse terror sofreu, na transição à democracia, com o denominado Pacto de Silêncio, um acordo tácito entre os partidos políticos espanhóis para que o país pudesse modernizar-se política, social e economicamente. Quanto ao realismo mágico, ele está, de certo modo, presente — a naturalidade do sobrenatural — mas, mais uma vez, o epíteto esconde o que há de visceral e terrível no ressentimento social que a obra, como um poderoso holofote, ilumina.

Uma característica central de Caruncho é o trabalho sobre o ressentimento social, que manifesta um profundo conflito de classe, numa Espanha do pós-guerra, entre as elites e as camadas populares. Esse conflito é encenado numa aldeia sem nome. O rancor das duas protagonistas e narradoras, uma avó e uma neta, também sem nome, dirige-se à família dos Jarabos, senhores da aldeia, que surgem como agentes de uma opressão social e económica, mas também existencial. Não é apenas a servidão que impõem, mas também a capacidade de trazer a morte a quem os incomoda (os desaparecimentos de pessoas — entre elas uma mulher, filha de uma das protagonistas e mãe da outra — que são levadas a dar uma volta e nunca mais retornam), sem que isso tenha consequências criminais. Este poder de terror dos Jarabos funciona como uma forma de metonímia, ao tomar um exercício particular como uma parte desse terror amplo, que foi o Terror Branco, exercido, após a Guerra Civil, pelos nacionalistas vitoriosos, com um número assombroso, para um país católico, de 150 mil vítimas após o fim da guerra.

Particularmente interessante, neste exercício literário, é o jogo das denominações. Funciona a dois níveis. Em primeiro lugar, como reconhecimento social: avó e neta não têm nome, fazem parte de um mundo social cuja invisibilidade se aprofundou com a vitória nacionalista na guerra e, de seguida, com o regime do generalíssimo Franco. Os Jarabos são os vitoriosos, as pessoas da situação. Eles são alguém naquele cosmos social. Por tudo isso, eles têm nome. É uma modalidade de exprimir a luta de classes: os que têm um nome e os que o não têm. Em segundo lugar, porém, a denominação tem um valor invertido: serve para designar os culpados, aqueles que, após a transição à democracia, deveriam ter sido punidos, mas que o não foram. Atribuir um nome é um exercício que permite a identificação de quem é percebido como culpado. E, se a punição não vem pela lei, ela virá por um ajuste secreto de contas. Onde a lei não actua, emerge a vingança.

A memória é outro elemento central na narrativa de Layla Martínez. É trabalhada a dois níveis. Por um lado, a memória histórico-social, aquela que o Pacto de Silêncio quis recalcar. Ora, como se sabe desde Freud, o recalcamento tende a manifestar-se, trazendo para a luz do dia, de modo patológico, aquilo que se guarda no inconsciente. Ora, são essas patologias que, em Espanha, como noutros países ocidentais, estão na base do crescimento da extrema-direita e dos seus valores, que se pretende enfrentar, através da rememoração das vítimas da repressão, num processo de anamnese dos acontecimentos rasurados pela conveniência democrática. O segundo nível é o intergeracional: a memória como herança. A memória traumática passa de avó para neta. Não se trata apenas da memória do vivido individualmente, mas também daquela que é vivida por transmissão familiar. Essa memória é internalizada por aquela que não viveu os acontecimentos, mas que, de algum modo, fazem parte da sua história. O romance mostra, de modo muito claro, que a memória do ressentimento, do rancor, do mal sofrido tem um poder de transmissibilidade muito mais profundo do que a memória dos acontecimentos felizes, que é meramente pessoal.

Além de avó e neta, a casa da avó, onde ambas habitam, é outra das protagonistas do romance. É nela que a avó comunica com o mundo supranatural, onde mobiliza o poder de santos e santas para os seus ajustes de contas com a vida; uma casa que, também ela, tem uma origem moralmente soturna, fundada na exploração sexual de mulheres e símbolo de opressão do elemento feminino pelo masculino. É concebida como um ser vivo, que tem os seus segredos — pouco benévolos —, as suas recordações, o seu próprio sofrimento. Tem uma espécie de vontade autónoma, como se possuísse racionalidade para gerir quem vive nela e quem, por algum azar, cai dentro dela. Mais do que um espaço de horror, é o lugar de vingança e de reparação, o espaço onde a justiça retributiva funciona, desligada dos poderes do Estado e entregue ao confronto entre classes e indivíduos.

Para além da personificação da casa, da subversão dos símbolos religiosos (a transformação de santos em agentes da vingança) e do anonimato das duas protagonistas, a autora recorre a um conjunto diversificado de estratégias narrativas. A mais importante, pelas suas consequências, é a existência de uma narrativa na primeira pessoa, mas de natureza dual. Avó e neta são ambas narradoras, existindo uma alternância de pontos de vista entre ambas. Para além do reforço do diálogo intergeracional, esta estratégia tem a função de tornar cada uma delas uma narradora pouco credível. E este é um dos elementos fundamentais do romance. Questiona a própria narrativa das protagonistas, as suas crenças e verdades. A sua pouca fiabilidade não elimina as causas do ressentimento e do rancor, mas torna-as um ponto de vista e não uma verdade universal. O que tem, do ponto de vista filosófico, uma consequência central: nos conflitos sociais, não há um ponto de vista universal, mas apenas perspectivas particulares, e cada um age em conformidade com elas. Uma afirmação clara de um relativismo que, sem um ponto de vista universal e objectivo, não abre caminho para o perdão e a reconciliação. Não há qualquer idealização dos debaixo nem diabolização dos de cima. Cada parte está muito longe de ser inocente, pois cada uma usa os poderes que possui para o exercício do mal, seja a dominação, seja a vingança. O relativismo é o que tranquiliza cada parte e justifica os seus actos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A esquerda e as presidenciais


Olhemos para as eleições presidenciais. Mais especificamente, para as esquerdas e os seus candidatos, para comentar a estratégia de hara-kiri em que essas esquerdas parecem ser especialistas. Suicidar-se com honra, como velhos samurais caídos em desgraça perante o seu senhor. A única candidatura de esquerda que tem algumas hipóteses de passar à segunda volta – talvez de ganhar – é a de António José Seguro. É um candidato vibrante e mobilizador de paixões populares? Não, claro que não. Tem, porém, virtudes que são adequadas a um inquilino de Belém: é sensato, comedido, tem uma imagem de honestidade, conhece bem a vida política portuguesa e europeia, assim como os desafios mundiais, é moderado – uma coisa bem necessária nestes tempos – e não tem anticorpos na sociedade portuguesa. De todos os candidatos – de esquerda e de direita – é o que daria o melhor Presidente para estes tempos. 

Não sou adivinho. Escrevo este artigo no primeiro dia de campanha e, pelo que dizem, é provável que os candidatos das outras esquerdas – António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto – não desistam para Seguro. Para os partidos que os promovem, mais importante do que a democracia será erguer a bandeira partidária, talvez para chegarem ao fim da primeira volta e afirmarem que tiveram um excelente resultado de 5% ou menos. Ganham ainda um motivo para verberarem a direita e o populismo, o que lhes incendiará os espíritos e tranquilizará as consciências. Pode ser que me engane. Pior que Livre, PCP e BE, porém, é o comportamento dos socialistas. Dá a impressão de que Seguro é um inimigo e não o candidato do PS. Se há, aqui e ali, apoios institucionais, a militância eclipsou-se. A mobilização do partido se não é nula, para lá caminha. Seguro – que foi chefe dos socialistas – parece um estranho numa terra estranha. 

Seria para a democracia portuguesa fundamental que Seguro fosse eleito. Toda a esquerda devia estar empenhada nisso. Quais as razões? Para equilibrar os pratos da balança, para que, mais uma vez, os poderes não estejam todos concentrados na direita. Contudo, há uma razão mais substancial do que essa: a Constituição. Um presidente moderado e sensato de esquerda poderia encontrar caminhos para evitar que o PSD se deixe tentar por uma revisão constitucional negociada toda à direita, que a esquerda parlamentar não conseguirá impedir. Seguro poderia ser a chave para evitar a completa desfiguração da Constituição nascida do 25 de Abril. É uma mera possibilidade, talvez pequena, mas é a única que a esquerda tem para continuar a ter um papel com significado no país, o que parece não estar interessada.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Nocturnos 134

Rembrandt, A Ronda da Noite

A noite é um palco onde se desenrolam estranhas formas de comédia humana. Milicianos dispostos ao combate tomam conta dos recantos escuros, e uma luz vinda de não se sabe de onde ilumina as personagens, como se os quisesse assinalar aos poderes que na noite gerem a contabilidade obsessiva da Terra.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Comentários (34)

Adriano de Sousa Lopes, Posto de Socorros Avançado (Gulbenkian)


 Sou o que vem socorrer os doentes que de costas jazem arfando,
E aos homens fortes e de pé trago uma ajuda ainda mais necessária.
Walt Withman

Mais do que aqueles a quem a fragilidade lembra a cada hora o canto da finitude, são os que fizeram da força uma profissão de fé e marcham sobre a Terra como se fossem eternos que necessitam de quem os socorra e lhes estenda a mão, que eles, inclinados sob o peso da sua força, poderão rejeitar. A fraqueza, ao sentir-se fraca, sabe a sua natureza, mas a força recusa abrir os olhos, o sentimento e a razão para aquilo que se esconde sob a capa do seu poderio. As naturezas fortes julgam-se donas de si mesmas, do mundo e da caravela do tempo. Esquecem, porém, que o mar e o vento têm poderes que nem a força pode enfrentar, e são eles que empurram o tempo, que trouxe a força e trará a mais fraca de todas as fraquezas.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Pier Paolo Pasolini, Mamma Roma


O segundo filme de Pasolini, Mamma Roma, foi realizado em 1962 e é tido como uma continuação da vaga do neo-realismo cinematográfico italiano. Se pela pertença social das personagens – o subproletariado – o filme ainda se possa inscrever nessa corrente, a sua natureza simbólica e a própria estética – com o recurso a enquadramentos estáticos e frontais, como se quisesse suspender o tempo e aniquilar o movimento no espaço – apresenta uma dimensão marcadamente contemplativa, de tonalidade sacra, deixando perceber que o realizador se estava a afastar dos cânones neo-realistas, exibindo uma poética simbólica, para encenar não uma epopeia das classes baixas, mas uma tragédia regida, como nas tragédias gregas, pela mão invisível do destino. O filme centra-se em duas personagens, Mamma Roma, uma prostituta, e o seu filho Ettore, a quem ela pretende oferecer uma vida que esteja para além da marginalidade, uma vida burguesa feita de respeitabilidade.

O filme constrói-se como uma resposta à questão de saber se é possível fugir do lugar de onde se vem, se o trabalho é suficiente para fazer funcionar o elevador social, numa Itália que se moderniza, onde os saloios – na legendagem portuguesa – aspiram a tornarem-se citadinos. A personagem Mamma Roma representa, na verdade, o padrão de uma mentalidade burguesa, apesar da sua condição. Com o dinheiro poupado na sua actividade de prostituta e com a libertação do compromisso com o proxeneta que a explorava, monta uma banca de venda de legumes num pequeno mercado em Roma. Isso permite-lhe ter uma casa nos arredores da grande cidade e trazer o filho, um adolescente a entrar na primeira juventude e que desconhece a actividade da mãe, para a cidade, sonhando-o como um citadino que pela força do trabalho haveria de singrar na vida e alcançar a desejada respeitabilidade burguesa, que ela, de certo modo, sonha também para si.

Contudo, as barreiras sociais são muito menos porosas do que o desejo da mãe. Mesmo numa época de grandes transformações sociais e de modernização, a dinâmica social parece libertar os indivíduos dos campos não para os emancipar, mas para os prender nos subúrbios, onde os pequenos saloios se transformam em pequenos delinquentes, uma juventude que não estuda e não trabalha, acorrentada às dinâmicas culturais que se estabelecem naqueles bairros de classes baixas. Pasolini não torna patente os conflitos de classe que, muitas vezes, animam a estética neo-realista, mas revela os mecanismos que estruturam a existência daqueles estratos sociais. Fá-lo de uma forma crua, sem projectar nelas qualquer papel redentor. Pelo contrário, se a temática da redenção é abordada é ao nível do indivíduo – em Mamma Roma e na imagem em cruz do filho no hospital – e não da classe social.

Em Mamma Roma – uma sublime interpretação de Anna Magnani – Pasolini constrói um heroína cujo arquétipo repousa, em primeiro lugar, em Antígona. A mesma força interior, a mesma determinação na acção, a mesma divisão entre duas leis que se confrontam. Está dividida entre a lei maternal, a lei do sangue, que a leva a desejar uma vida boa, segundo os cânones burgueses, para o filho, e a lei do grupo social a que pertence e que a prende, uma lei que construída pela força do passado. É a impossibilidade de compatibilizar estas duas leis que torna o filme uma tragédia. O desfecho manifesta a força do destino e as ilusões modernas de ascensão social. Estamos longe de uma visão optimista da modernidade. Pelo contrário, o que é sublinhado é a derrota da liberdade – dessa capacidade de escolher e fazer um caminho em conformidade com a razão – pela estrita necessidade, com a sua natureza mecânica, que despoja os indivíduos do poder de agir tornando risível o livre-arbítrio. Contudo, a risibilidade do livre-arbítrio abre-se para uma ambiguidade estrutural do filme: a relação com o sagrado. Não apenas na imagem de Ettore, no hospital, preso em cruz à cama, mas a do olhar final de Mamma Roma fixado na cúpula da basílica de S. João Bosco. Isto introduz, como possibilidade de leitura, a dinâmica da Graça. O filme não resolve se o que falta à mãe e ao filho é a abertura à Graça; mas deixa a sugestão pairar como uma possibilidade efectiva. E isto permite ler a figura de Mamma Roma, perante o destino do filho, crucificada pela tensão entre o arquétipo inicial de Antígona e o final de Virgem Maria.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O Silêncio da Terra Sombria (31)

Rafael Barradas, Paisaje de Hospitalet, 1926

A vila é uma virgem

monstruosa,

o grito de uma labareda

na luz da candeia.

 

Deserto de zinco

habitado pelo restolho:

a memória ferida

na crueldade da  alcateia.


[1993]

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Simulacros e simulações (77)

Paul Gauguin, Trois Tahitiennes sur fond jaune, 1899

De súbito, as três mulheres taitianas já não são elas, mas uma simulação das três Graças. Olhamos e vemos o esplendor de Aglaia, o jJúbilo de Eufrósina, o florescimento de Tália. Não são um mero simulacro das divindades helénicas, a cópia de uma cópia, mas as reais filhas de Zeus e da ninfa Eurínome, que por razões esquecidas abandonaram a pátria e se refugiaram, para nossa desgraça, num mundo longínquo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Beatitudes (85) Noite de Natal

Isidre Nonell Monturiol, Noche de Navidad, 1909

A noite de Natal é um tempo de beatitude. Não a noite que se vive, mas aquela que se imagina. A imaginação descondiciona a vida das suas limitações e abre a consciência para as possibilidades mais próprias que se desenham no fundo de cada um. E são essas possibilidades, que nunca se tornam actuais, que lançam sobre a pessoa o halo luminoso da beatitude.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Em tempo de descristianização

Aquilo a que estamos a assistir no mundo ocidental, com a erosão das democracias liberais, a ascensão do populismo de extrema-direita, a fabricação, através dos algoritmos das redes sociais, de uma cultura de ódio, de conflitualidade e de negação do outro, tudo isso traz consigo a marca da descristianização que atingiu o Ocidente. É certo que uma parte dos políticos da extrema-direita já se afastou abertamente do cristianismo, tal como no século XX fascismo e nazismo eram, abertamente, anticristãos. Outra parte, contudo, continua a reivindicar-se como cristã, não hesitando em utilizar a religião como forma de propaganda política, enquanto defende abertamente posições que estão em confronto violento com os valores originais trazidos por Cristo. 

Vejamos – apenas como exemplo – o alvo preferencial da extrema-direita um pouco por todo o lado: o imigrante, o estrangeiro. Será que um cristão poderá subscrever as políticas que a América de Trump impõe, ou aquelas que os pequenos Trumps europeus pretendem impor? A resposta encontra-se no evangelho de Lucas, capítulo 10, versículos 25 a 37, a parábola do bom samaritano. A resposta de Jesus ao doutor da lei, do ponto de vista político, é interessante porque, podendo escolher como símbolo do amor ao próximo uma qualquer pessoa da comunidade judaica, escolheu um samaritano, visto pelos judeus como estrangeiro e particularmente desprezível. Jesus não mandou os samaritanos para a sua terra, mas escolheu um para simbolizar a conduta misericordiosa que todos devemos ter com o nosso próximo. 

Isto não significa, do ponto de vista político, que os países devem ter as portas escancaradas, mas que há um dever de não tratar mal aqueles que vêm fazer o que os ocidentais não querem ou não conseguem fazer. Só num clima de profunda descristianização é possível ver as políticas de Trump ou os cartazes que André Ventura espalhou pelo país. Só nesse clima se pode perceber o ódio que é destilado nas redes sociais por apoiantes da extrema-direita. Só perante uma completa perda de influência dos valores fundamentais do cristianismo se pode entender a derrocada civilizacional a que assistimos. Estamos em época natalícia, mas o Natal está afogado no consumo sem fim e é, a cada hora, negado pela intolerância de uma nova elite de políticos extremistas que, apesar de alguns dos seus líderes encherem a boca com Deus, não hesitaria em mandar crucificar aquele cujo nascimento o Natal pretende reviver. 

Apesar de tudo, um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. Há sempre um princípio de esperança que nos deve orientar, mesmo na noite mais escura.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Greve vitoriosa, esquerda derrotada


Não foram os sindicatos, tanto os da UGT como os da CGTP, acusados, pelo governo, de estarem, com a greve-geral de dia 11, a fazer o jogo dos partidos de esquerda? E não foram os sindicatos os vencedores, pela forma como tornaram visível o perigo para os trabalhadores que as propostas do governo representavam? Foram. Não são esses sindicatos, maioritariamente, influenciados pelos partidos de esquerda? São. Como é possível, então, afirmar que a esquerda sai derrotada, apesar de uma greve vitoriosa? É preciso distinguir dois tipos de conflito. O conflito laboral e o conflito político. No conflito laboral, a esquerda teve uma vitória, pois não só tornou visível as pretensões do governo, gravosas para os trabalhadores, como tornou a posição do mesmo governo muito difícil. 

Do ponto de vista do conflito político, porém, a esquerda parece ter pouca capacidade de capitalizar a vitória obtida no conflito social. O mais plausível é que o grande vitorioso da greve-geral seja André Ventura. Claro que Ventura nada vê de errado nas intenções do governo. Percebeu, contudo, que se as apoiasse ia atingir grande parte do seu eleitorado. A greve-geral funcionou como uma iluminação para a extrema-direita. André Ventura apressou-se a apresentar-se como o grande defensor dos trabalhadores portugueses, afirmando que votará contra a lei, caso algumas medidas não sejam retiradas. Por que motivo André Ventura que, com esta posição, fez mais uma cambalhota, sai vitoriosos da greve-geral? Por um motivo político e outro simbólico.

Politicamente, se a proposta governamental for derrotada no parlamento, um caso ainda para ver, Ventura dirá que isso se deve à oposição do Chega, o que será verdade. Reforçará a ideia de que representa, politicamente, as classes trabalhadoras. Do ponto de vista simbólico, muitos trabalhadores deixaram de se reconhecer nos programas e visões sociais da esquerda. Muitos trabalhadores, apesar de o serem e de terem poucas ou nenhumas hipóteses de trocar a sua situação por outra melhor, não se imaginam como aquilo que são, mas como o que desejam ser. E aquilo que simboliza esse seu desejo utópico é a retórica de Ventura, que denuncia tudo o que imaginariamente impede as pessoas de serem o que desejam. É uma ilusão, mas olhemos para José Luís Carneiro, Rui Tavares, Paulo Raimundo e José Manuel Pureza. Quantos eleitores que transferiram seu o voto da esquerda para a extrema-direita sentem nessas figuras o salvador de que andam à procura? Poucos ou nenhuns. Na política, símbolos e imaginários contam. E muito.