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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Beatitudes (87) Leitura

Gerhard Sisters, Woman reading by Studio Window, 1900-1920
Aqueles dias chegam-nos já sem nome, sem data, sem um vestígio da sua natureza. Resta um rosto concentrado, levemente inclinado para o livro, e uma atenção firme que não quer perder uma palavra da sua própria beatitude.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Beatitudes (86) Mistérios do mar

Alfred Stieglitz, Mushrooms by the Sea, 1895

Uma mãe inicia um filho aos grandes mistérios do mar. É uma lenta iniciação, feita de pequenos rituais, de gestos litúrgicos precisos e sem fim. O deus das águas é caprichoso, e o culto deve ser aprendido com o maior dos rigores. Os cuidados são muitos, mas as beatitudes oferecidas podem ser mais. Sob cada mistério há, ao mesmo tempo, a ameaça do horror e a promessa da bem-aventurança.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Beatitudes (85) A espera

E. Weingärtner, Untitled Portrait of Nun Praying, 1899
Ainda não é o rapto para fora de si e o mergulho no mar encapelado da divindade. É apenas um instante de atenção ao que não se vê e não se ouve. Antecipação silenciosa da beatitude que aguarda aquela que, ao olhar para o alto, entra em si, no lugar secreto que não tem nome.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Beatitudes (86) Um lago na montanha

Henry Abercrombie Roome, A Lake in the Alps, 1892

Nasce, não sem espanto, uma felicidade indizível quando, em plena montanha, o olhar se perde nas águas de um lago. O espírito repousa e o coração, apesar de extasiado, sossega, esquecendo a trama do mundo e a púrpura insensata que cobre os dias. Tudo ali parece verdadeiro e é na verdade que o homem encontra o quartzo em que a vida descobre o sentido e o fundamento.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Beatitudes (85) Noite de Natal

Isidre Nonell Monturiol, Noche de Navidad, 1909

A noite de Natal é um tempo de beatitude. Não a noite que se vive, mas aquela que se imagina. A imaginação descondiciona a vida das suas limitações e abre a consciência para as possibilidades mais próprias que se desenham no fundo de cada um. E são essas possibilidades, que nunca se tornam actuais, que lançam sobre a pessoa o halo luminoso da beatitude.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Beatitudes (84) Solidão e mar

Harry Tolley, On the Lonely Shore, 1894

As horas em que um homem se afasta dos caminhos da turba e procura a solidão perante o silencioso rumorejar do oceano, essas horas são tão belas quanto o florir de uma rosa. No contemplar do mistério das águas, o pensamento floresce, guardando-se do vício das coisas sem importância e dos hábitos cravados na memória. Por instantes, sente-se a vertigem de uma beatitude que não pertence a este mundo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Beatitudes (83) Inverno

Léonard Misonne, Hiver, 1904
A rudeza do Inverno, com o seu pacto entre o frio, a parca luz  e os dias pequenos, não é um motivo de dor ou ocasião de trenódia. Há nessa mistura de sombras um secreto júbilo, onde a rememoração dos dias luminosos se junta à esperança do que virá. O Inverno é, também, ele, o linho com que se pode tecer a vida feliz.

domingo, 14 de setembro de 2025

Beatitudes (82) Jogo

John Dumont, The Dice Players, 1891
Não é na vitória que reside a beatitude que abre o coração e alivia o espírito dos trabalhos de cada dia, mas na expectativa com que se aguarda aquilo que a sorte ou o acaso ditarão. Esse momento de suspensão, em que os dados lançados ainda não encontraram o seu lugar, inebria o jogador e é, mesmo que ele não o saiba, a razão da sua vida.

sábado, 28 de junho de 2025

Beatitudes (81) No jardim

Constant Puyo, Au Jardin, 1902

Quando o tempo rodava mais lentamente, e as horas se dilatavam como um balão animado por sopro vigoroso, as mulheres desciam aos jardins para aí colherem a luz de uma vida tranquila e as flores  de uma paz tão diáfana que nem para ela havia nome. Tudo girava em torno da inocência e da ocultação do mundo. Respiravam sem pressa o aroma da eternidade, como quem recebe a coroa da beatitude.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Beatitudes (80) Poente

William Gordon Shields, Sunset on New York Bay, 1915-20

Também no fim existe uma beleza inexplicável, como se o que acaba pertencesse a dois mundos: aquele de onde parte e aquele que o espera. Rasgada a passagem, a luz de um e de outro lado mistura-se e deixa cair um véu que vela o olhar para o abrir para o que até então era invisível.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Beatitudes (79) O espelho de água

Henry G. Peabody, Wing and Wing, 1889 
Ao reflectirem-se nas águas cintilantes, os pequenos barcos à vela tornam-se pássaros aquáticos. Voam ao deslizar pelo lago sonolento. Cantam velhas canções de marinheiros, palavras perdidas nos arcanos da memória, no poço mercurial de cada dia. A água é um espelho onde todas as metamorfoses são possíveis. Ao olhá-la, o viandante participa na secreta beatitude que a natureza esconde no alabastro da sua pele e no âmbar dos seus desejos.

segunda-feira, 24 de março de 2025

Beatitudes (78) Noite

Charles Job, Abend an der Arun, 1907
O suave enlanguescer da noite permeia a terra, o ar e a água. Tudo se suspende, uma doce melancolia ergue-se para penetrar a couraça do tempo e, atravessando desertos e abismos, chegar aos dias de hoje. Promessa de felicidade que o passado envia, uma reminiscência que, de súbito, irrompe na memória e arrasta aquele que medita para a vida que não viveu, para a experiência de uma paisagem que nunca viu.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Beatitudes (77) No jardim

Louise Binder-Mestro, Au Jardin, 1905
O jardim, lugar onde os corpos repousam da algazarra da cidade e a cabeça se inclina em doce rêverie. Tudo, ali, é feito para que o esquecimento cresça e o mundo, como um espectro sem rosto, permaneça longe, tão longe como se não fora mais do que uma fantasia nascida do ócio, um pesadelo gerado pela turbulência do sono. No jardim, a vida é um exercício da mais pura e maternal beatitude, como se os monstros não se escondessem na raiz de uma hera ou na ramagem das tílias.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Beatitudes (76) Das coisas raras

Alfred Stieglitz, Lago di Misurina, The Tyrol, 1891  

A quietude das montanhas, as águas paradas do lago, o silêncio que sombreia a floresta. Caminha-se pela senda rasgada na terra e espera-se encontrar a cabana que acolherá a solidão do viandante. Ali, pensa-se, a felicidade será possível, mesmo que a noite seja visitada por terríveis tempestades e a presença humana se rarefaça. Só o que é raro tem valor, mesmo se o perigo aí se oculta.

domingo, 8 de dezembro de 2024

Beatitudes (75) O caminho solitário

Hans Winkelmann, Einsame Strasse, 1903

As paisagens despidas do Inverno, cenários vindos de um passado remoto, onde os caminhos solitários se abrem aos viandantes mais ousados, são fonte de uma inquietante felicidade. O alma treme perante os perigos do desconhecido, mas o corpo rejubila na solidão. Entre temor e júbilo, o espírito do caminhante, preso na sua singularidade, descobre a via que o leva de si a si mesmo.

domingo, 10 de novembro de 2024

Beatitudes (74) A disciplina da dança

George C. Bell, Interpretive dancing study, 1924

São múltiplos os motivos que levam os seres humanos a dançar. A maioria, talvez, será movida pela inquietude do deus Eros. Contudo, sob os motivos manifestos presentes em cada um que dança, existe uma outra razão, mais funda e, por isso, esquecida. Dançar é a expressão de uma guerra contra a condição caída. Em cada gesto esconde-se um combate com a gravidade e um desejo de imponderabilidade, como se o céu fosse para a humanidade a casa a que só as aves, pelo seu corpo, podem habitar. E desse desejo nasce a beatitude que se espelha no corpo de quem se entrega à disciplina da dança.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Beatitudes (73) Memória e imaginação

Júlio Resende, sem título, 1948

A neblina dos dias passado cristaliza-se em imagens difusas, onde o que se viu renasce em memórias carregadas de uma estranha beatitude, aquela que nasce do que se recorda em suave conúbio com o que se inventa e contempla como se tivesse acontecido.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Beatitudes (72) As velhas cozinhas

Amadeo de Souza-Cardoso, Cozinha da casa de Manhoufe, 1913

As velhas cozinhas, onde uma química feita pela experiência dos séculos imperava, são um breviário de recordações fundadas na domesticação do fogo e na placidez das águas. Dali, saíam promessas de uma felicidade eterna fundada nos pequenos prazeres da mesa, alicerçada na hermética alquimia dos sabores.

domingo, 28 de julho de 2024

Beatitudes (71) Transformações

Mário Eloy, Paisagem, 1930 (Gulbenkian)

A nostalgia das coisas simples e dos mundos tranquilos é um sinal de que no fundo da memória habita um desejo de felicidade e uma ânsia de beatitude, como se toda a vida feliz se inscrevesse em universos onde a complexidade do acontecer foi domada pela autenticidade do que é singelo, onde o cansaço com a inquinação da vida cede perante a candura arduamente conquistada.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Beatitudes (70) Melancolia

Mário Eloy, Paisagem, 1930 (Gulbenkian)

Um estado de beatitude pode nascer de uma nuvem de melancolia. Uma paisagem viva desaparecida há muito, um casario nascido do barro do esquecimento, a passagem dos barcos pelo rio da memória. De súbito, um clarão inunda o espírito e a verdade do mundo poisa, melancólica, no ramo do olhar.