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| James Leon Williams, Far From the Madding Crowd, 1890 |
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
A persistência da memória (38)
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Diálogos aporéticos (14) - O corvo
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| Philippe Halsman, Alfred Hitchcock, at the time of the filming of his movie The Birds, 1962 |
- Meu Deus, pareces um filósofo a meditar o livre-arbítrio.
- Cala-te! Que sabes tu de
meditação?
- E por que razão não haveria de
saber?
- Não passas de um corvo. Negro,
horrível, assustador.
- Concedo-te duas coisas. Sou um
corvo e sou negro, como todos os corvos. Quanto a ser horrível e assustador, é
uma opinião tua. Vale o que vale. Para nós corvos, vale zero.
- Claro, devem achar-se a espécie mais
bela da criação.
- Nós, corvos negros, não achamos
nem deixamos de achar. Nós sabemos e sabemos que, em toda a criação, não há
espécie que se nos compare em beleza.
- Presunção, meu caro amigo.
- Não sou teu amigo. Apenas um
conhecido e por motivos comerciais.
- Isso sim. Nisso tens razão.
Pertences à espécie mais interesseira que existe ao de cima deste planeta.
- Vocês humanos nunca se olham ao
espelho. Preferem meditar sobre o livre-arbítrio, em vez de encarar a
realidade.
- E o que é a realidade?
- A minha ou a tua?
- A minha claro, ou julgas que
quero saber da realidade de bípedes com penas negras?
- A tua realidade? É de quem perdeu
o tino há muito e passa o dia a falar com um corvo.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Perfis 23. A sonhadora
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| Baron Adolph de Meyer, Träumerei, 1896 |
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Beatitudes (88) Caminhos da floresta
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| Léon Keusters, Landschaftsstudie, 1891 |
domingo, 20 de setembro de 2026
Raiz da Permanência 7
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| Frantisek Kupka, Gouache, 1921 |
Descido
da cruz e entregue ao sepulcro, o dia
ficou
turvo na queda da noite, sem margem
para
erguer a voz e ressoar
como
sino embalado pelo ângelus.
Dia
morto em louvor do porvir,
sepultado
na madeira da memória,
pronto
para o grés do esquecimento.
Os
dias são flocos de neve tocados
pela
candeia da miséria.
Derretem
assobiados pela prosódia do vento,
formam
um lago de memórias,
de
onde a água do tempo se evapora,
formando
nuvens tóxicas
em
céu de terebentina e sal-gema.
Pobre
exército a desfilar na parada, o dia
oferece
o coração às balas inimigas,
cai
trespassado pelo livor do vazio,
morre
no rubor do nada.
Rosa
desfolhada no friso da passagem,
entrega-se
na cruz
do
instante, no sepulcro da eternidade.
Abril de 2024
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Educação, PISA e cultura escolar
Contudo, há que relativizar esta
culpa. O problema surge no tempo de Cavaco Silva, com a reforma Roberto
Carneiro. É aqui que penetra em força, no campo político ligado à Educação, a
ideologia educativa da OCDE, que foi seguida pela generalidade dos ministros da
Educação do PS e do PSD, com excepção de Nuno Crato. Diga-se, em abono de
verdade, que o actual ministro não alterou nada de essencial do que vinha de
João Costa. Os resultados desta ideologia são devastadores. Em primeiro lugar,
destruiu a autoridade dos professores, mostrando-os como culpados de tudo o que
alunos não sabem nem fazem. Em segundo lugar, minimizou a necessidade de os
alunos serem responsabilizados e de prestarem provas externas durante todo o
percurso escolar. Por fim, criou uma confusão nos currículos, criando áreas
difusas, que ninguém sabe o que fazer com elas, desvalorizando a aquisição de
conhecimento em prol do desenvolvimento de hipotéticas competências gerais, que
ninguém sabe como desenvolver.
O problema fundamental, porém, é
outro, que a ideologia educativa da OCDE mascarou. Existe em Portugal, e em
muitos países ocidentais, uma cultura adversa à escolaridade. Há uma frase que
resume essa cultura: as aulas são uma seca. Esta perspectiva não nasceu
com os telemóveis, os ecrãs e o digital. Estes apenas a intensificaram. Mais,
essa atitude vem de casa, das famílias e da sociedade. É uma cultura adversa ao
trabalho rigoroso, ao esforço e à disciplina. A escola, manietada pelo
Ministério da Educação, nunca teve qualquer hipótese de lidar com ela. Se
Portugal quer enfrentar o problema, então tem de enfrentar esta visão social
inimiga da aprendizagem. Quem achar que não é assim, veja os resultados do
PISA. No topo estão China, Singapura, Taiwan, Japão, Coreia. Países onde a
escola é um lugar de disciplina, esforço e superação.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Prosa dos dias (36) Uma poesia violenta
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| John Gutmann, Kids Reading Comics, San Francisco, 1938 |
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Ensaio sobre a luz (139)
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| Nicanor Piñole, Fábrica de Moreda |
sábado, 12 de setembro de 2026
Nocturnos 139
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| Frits Thaulow, Night, 1880 |
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Comentários (38)
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| Jean-Auguste Dominique Ingres, Bonaparte as First Consul, 1804 |
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Simulacros e simulações (81)
domingo, 6 de setembro de 2026
Raiz da Permanência 6
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| Caspar David Friedrich, Abbey in an Oak Forest, 1809-1810 |
A natureza flutua no horizonte das coisas perdidas.
Correm
arautos para anunciar o cravo
da
recompensa, a rosa de aço
pregada
no polietileno das nuvens.
Ama-se
a natureza como se ama
uma
criança desconhecida, sem nome.
Ama-se
a natureza nas tardes de domingo,
sem
a cisterna do futebol.
Ama-se
a natureza na compunção do pecado,
sem
a sêmola do arrependimento.
Os
amantes naturais perdem o seu amor
no
labirinto da natureza, nos meandros dos rios,
no
cume oscilante da montanha.
Confiam
na anunciação de um profeta da pureza,
na
devolução da esponja da potência
perdida
na natureza turva da vida,
na
proa dos sonhos de azoto e púrpura.
O
dedilhar de um piano incendia as fontes da floresta.
Pássaros
erguem-se em suas asas
de
ébano e voam para longe.
Fogem
da inflamação da natureza, do ar
irrespirável
na turbação do fogo. Fogem.
Então,
a floresta abre o espasmo do ventre
ao
coriscar do lume.
As
mãos cedem ao pântano da cinza,
caem
no rancor da pendência
contra
o caos da sintaxe natural do mundo.
Abril de 2024
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
O soberanismo europeu
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Uma situação paradoxal
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Máximas (28)
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
A persistência da memória (37)
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| J.J. Agema, Morning, 1973 |
terça-feira, 25 de agosto de 2026
Cadernos do esquecimento 60 Outro mundo
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| Lima de Freitas, sem título, 1963 |
domingo, 23 de agosto de 2026
Raiz da Permanência 5
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| Ben Nicholson, Colinas al pie de una montaña, Cumberland, 1928 |
Deixar florir na campina a erva da dúvida,
ver
a prata da hesitação crescer
no
ouro branco da certeza.
Um
trabalho sôfrego abre a porta da crença
ao
teste do medo.
O
temor e o tremor, ouve-se na voz
alçada
no gruir do vendaval.
A
colecção de heresias avoluma-se,
erva
ansiosa
nos
córregos de Maio.
Os
campos foram abandonados à premonição
da
agricultura, o lento laborar do pão,
o
êxtase da vinha a crescer
para
os copos erguidos
na
garrulice dos fins-de-semana.
A
dúvida arma-se como um cavaleiro.
Solerte,
levanta a lança e o copo,
espera
a investida estrídula da evidência.
Plantam-se
hectares de evidências e dogmas,
rega-os
a água da asseveração.
Espera-se
que os pássaros do Sul
poisem
na rigidez dos ramos da autoridade.
Ó
árvores dogmáticas, cheias de seiva,
sulcadas
pelo silicone ferino.
Ó
árvores de garras afiadas para o inimigo,
o
vagaroso borbulhar da inquietação.
Deus
desce da redundância da eternidade,
o
seu espírito paira dadivoso sobre as águas
paradas
da certeza,
colhe-as
como se colhesse uma laranja
e
a levasse à boca
para
lhe saborear, gomo a gomo, a textura da dúvida
oculta
na medula coleante da convicção.
Abril de 2004
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Não pessoas
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Beatitudes (87) Leitura
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Perfis 22. O compositor
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| Edward Steichen, Richard Strauss, 1905 |
sábado, 15 de agosto de 2026
Prosa dos dias (35) Fora do mundo
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| Robert Capa, German soldiers surrender to American troops. Cherbourg, France. June 26th, 1944 |
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Ensaio sobre a luz (138)
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| Alexis Mazourine, Im Winter, 1899 |
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Raiz da Permanência 4
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| Georgia O'keeffe, Drawing III, 1959 |
Uma
floresta de canções mortas dança no olhar
de
quem passa e abre os ouvidos
para
a ausência atulhada de espinhos,
enredo
fecundado na turbulência do deserto,
na
tristeza dos trópicos.
São
canções de perda, sem penugem,
imberbes
no vício da velhice.
Esperam
vozes que lhes tragam
o
cristal do sangue, a verruma da vida.
Ao
entrar no gótico da igreja, ouve-se
o
pulsar do peito de uma mãe,
um
stabat mater
dolorosa,
os
dedos contraídos na culpa,
na inocência da dor.
Os
fiéis sentem a nostalgia do júbilo,
o
assalto da linfa da paixão,
um
lamento oficiado em segredo,
aberto
no dédalo da mágoa.
Espera-se
a ressurreição das canções mortas.
Uma
páscoa vinda nos ramos,
árvores
sem o fogo da morfologia
chegam
num êxtase de símbolos.
Erguem-se
e deslizam
em
vozes rodeadas pelo açor da noite.
Perfuram
o lençol do silêncio
com
a espada de lousa de uma anunciação.
Abril de 2024
domingo, 9 de agosto de 2026
Nocturnos 138
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| James Glesson, Gardens of the Night, 1947 |
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Leituras de férias
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Simulacros e simulações (80)
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| Piet Mondrian, Alberi in fiore, 1912 |
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Comentários (37)
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| Caspar David Friedrich, Pilgrimage at Sunrise, 1805 |
sábado, 1 de agosto de 2026
Política e caos nos exames
O caos instalado nos exames nacionais do ensino secundário é
o resultado do crescimento da ignorância política entre os actores
político-governamentais. A política existe porque subsiste um perigo
permanente: a massa humana, abandonada a si própria, constitui uma força bruta,
instável e potencialmente destrutiva, capaz de precipitar a comunidade no caos.
A política confronta-se com esse abismo sempre iminente, cuja abertura pode
arrastar consigo toda a comunidade. O papel da política é manter esse abismo
fechado, ordenando a comunidade e regulando, através da lei, as pulsões dos
indivíduos que põem em causa a organização social. Tudo o que faz parte da
política – a educação, a saúde, as preocupações sociais, a segurança policial,
a segurança contra ameaças externas, a justiça, as preocupações climáticas,
etc. etc. – só existe e tem sentido por causa dessa ameaça abissal.
O principal problema da situação dos exames não é o destino
dos alunos, a insegurança das famílias, o desrespeito pelo trabalho de
professores e directores. O principal problema reside no Ministério da Educação
e no respectivo ministro. O papel de um actor político é, recordo, evitar o
caos e impedir que o abismo se abra. Ora, as opções organizacionais do actual
ministro lançaram o sistema de exames no maior caos de que há memória. Em vez
de manter o abismo caótico fechado, o ministro e o seu Ministério abriram-no e
lançaram dentro dele alunos, famílias, professores, directores e a própria
sociedade portuguesa. Fernando Alexandre não esteve à altura daquilo que se
exige de um governante. Houve arrogância perante a complexa gestão digital das
provas de exames e respectivas classificações. Este processo existe noutros
países, mas levou muitos anos a ser posto em funcionamento. Em Portugal,
pensou-se que uns meses chegavam.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Raiz da Permanência 3
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| Jordi Pallarés, Procesión, 1984 |
O timbre das ferraduras ecoa pelo silêncio
das
mudas paredes da catedral.
Peregrinos
sem nome arrastam
o
mercúrio da dor e enchem
de
orações as mochilas vazias,
compradas
na feira da ladra.
Toca-os
a lepra do cansaço,
o
ranço de tudo o que os habitou,
súbitos
despojos na pressa
da
fome, do frio, do desejo frívolo
de
quem viaja com o mundo às costas
e
espera na encruzilhado do caminho
a
máquina da santidade no azul das ervas.
As
ruas enchem-se de flores de estanho e colchas de água,
passam
procissões, pisam as lajes com pés
de
penumbra em sapatos rotos,
abertos
pela dança do sol na inclemência
do
meio-dia.
Devotos
ajoelham na fragrância da paisagem,
enquanto
as mãos dedilham contas
na
pressa da salvação.
As
palavras soletram-se na humildade
de
um alfabeto raptado à crosta dos símbolos.
Horas
rasgadas pelas promessas nascidas
na
equação da incerteza,
facas
de lâmina sufocada, hirta,
pronta
para o ritual rude da morte.
O
longo caminhar pelos figueirais
abandonados
ao tétano da tarde.
Seguem
homens em cardume,
cantam
contra a espessura da tentação,
erguem
os olhos e tremem
no
frio da abundância, no calor da escassez.
Um
fanal orienta a navegação no porto
do
purgatório, a casa escrita
nas
omissões dos lábios e nos gestos dos dedos.
Ouvem-se
os sinos a dilacerar o alcatrão.
Ao
longe, uma montanha ecoa
o
salitre dos anjos.
São
peixes montanhosos, estonteados
no
ventre do cardume,
deambulam
como ossos nas mandíbulas dos cães,
encastrados
no gesso metálico da dúvida.
Agora,
tomam opiáceos receitados na esquina
do
desejo, na entrada para o templo
do
esquecimento, enorme, com uma boca cerrada
na
tépida vida entalhada na turfa do sexo.
Peregrinam
como se cantassem
e
os dedos rígidos acusam
o
criminoso trazido pela álgebra da ventania,
o
ladrão dos espaços siderais,
o
universo vazio à espera de inquilino,
arrendamento
semestral pago adiantado.
Abril de 2024



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