domingo, 23 de agosto de 2026

Raiz da Permanência 5

Ben Nicholson, Colinas al pie de una montaña, Cumberland, 1928

Deixar florir na campina a erva da dúvida,

ver a prata da hesitação crescer

no ouro branco da certeza.

Um trabalho sôfrego abre a porta da crença

ao teste do medo.

O temor e o tremor, ouve-se na voz

alçada no gruir do vendaval.

 

A colecção de heresias avoluma-se,

erva ansiosa

nos córregos de Maio.

 

Os campos foram abandonados à premonição

da agricultura, o lento laborar do pão,

o êxtase da vinha a crescer

para os copos erguidos

na garrulice dos fins-de-semana.

A dúvida arma-se como um cavaleiro.

Solerte, levanta a lança e o copo,

espera a investida estrídula da evidência.

 

Plantam-se hectares de evidências e  dogmas,

rega-os a água da asseveração.

Espera-se que os pássaros do Sul

poisem na rigidez dos ramos da autoridade.

Ó árvores dogmáticas, cheias de seiva,

sulcadas pelo silicone ferino.

Ó árvores de garras afiadas para o inimigo,

o vagaroso borbulhar da inquietação.

 

Deus desce da redundância da eternidade,

o seu espírito paira dadivoso sobre as águas

paradas da certeza,

colhe-as como se colhesse uma laranja

e a levasse à boca

para lhe saborear, gomo a gomo, a textura da dúvida

oculta na medula coleante da convicção.

 

Abril de 2004

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