quinta-feira, 30 de julho de 2026

Raiz da Permanência 3

Jordi Pallarés, Procesión, 1984

O timbre das ferraduras ecoa pelo silêncio

das mudas paredes da catedral.

Peregrinos sem nome arrastam

o mercúrio da dor e enchem

de orações as mochilas vazias,

compradas na feira da ladra.

Toca-os a lepra do cansaço,

o ranço de tudo o que os habitou,

súbitos despojos na pressa

da fome, do frio, do desejo frívolo

de quem viaja com o mundo às costas

e espera na encruzilhado do caminho

a máquina da santidade no azul das ervas.

 

As ruas enchem-se de flores de estanho e colchas de água,

passam procissões, pisam as lajes com pés

de penumbra em sapatos rotos,

abertos pela dança do sol na inclemência

do meio-dia.

Devotos ajoelham na fragrância da paisagem,

enquanto as mãos dedilham contas

na pressa da salvação.

As palavras soletram-se na humildade

de um alfabeto raptado à crosta dos símbolos.

 

Horas rasgadas pelas promessas nascidas

na equação da incerteza,

facas de lâmina sufocada, hirta,

pronta para o ritual rude da morte.

O longo caminhar pelos figueirais

abandonados ao tétano da tarde.

Seguem homens em cardume,

cantam contra a espessura da tentação,

erguem os olhos e tremem

no frio da abundância, no calor da escassez.

 

Um fanal orienta a navegação no porto

do purgatório, a casa escrita

nas omissões dos lábios e nos gestos dos dedos.

Ouvem-se os sinos a dilacerar o alcatrão.

Ao longe, uma montanha ecoa

o salitre dos anjos.

São peixes montanhosos, estonteados

no ventre do cardume,

deambulam como ossos nas mandíbulas dos cães,

encastrados no gesso metálico da dúvida.

 

Agora, tomam opiáceos receitados na esquina

do desejo, na entrada para o templo

do esquecimento, enorme, com uma boca cerrada

na tépida vida entalhada na turfa do sexo.

Peregrinam como se cantassem

e os dedos rígidos acusam

o criminoso trazido pela álgebra da ventania,

o ladrão dos espaços siderais,

o universo vazio à espera de inquilino,

arrendamento semestral pago adiantado.

 

 Abril de 2024

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