terça-feira, 20 de abril de 2021

O xadrez do combate à corrupção

Vieira da Silva, La Partie d'échecs, 1943

O debate sobre o combate à corrupção tem sido um curioso jogo de xadrez. Os partidos mais influentes fazem lembrar os talentosos grandes-mestres daquela modalidade, quando se encontram em situação difícil. Com toda a arte que é a sua, jogam para o empate. Um espectador acidental olha para o tabuleiro e o que vê são apenas manobras para empatar, jogadas que consigam o efeito de tudo mudar para que tudo fique na mesma.

domingo, 18 de abril de 2021

Simulacros e simulações (20)

Tibor Honty, Fiction Game, Prague, 1952
Todo o jogo começar por ser uma simulação, um exercício da imaginação em busca de regras que criem uma actividade e ordenem gestos e objectivos. De seguida, passa a simulacro onde se imita não o jogo jogado, mas o jogo imaginado. Por fim, o jogo nasce. Não é mais do que uma ficção realizada.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Ensaio sobre a luz (90)

Peter Turnley, Novokuznetsk, Russia, 1991
A alegria ainda parece dançar-lhes no rosto, mas a luz no seu excesso nada deixa velar, nem o trabalho do tempo, nem a imperfeição da arte, nem a pobreza da existência, nem o cansaço da esperança, nem a melancolia em que a vida lentamente se transforma.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Beatitudes (45) A libertação da realidade

Paris anno 1960. Watch how modern the Citroen DS was at that time. Photographer unknown
A nostalgia é a beatitude permitida aos que viram o tempo passar sobre eles. Os velhos carros de há sessenta anos não são velhos, mas presenças vivazes na memória que se libertou da realidade. E aqui reside a chave da felicidade. A libertação do peso do real. Por isso, esses carros que o tempo tornou obsoletos são motivo de prazer, pois não temos de andar neles. São apenas imagens no fundo delido da memória, nas quais a inclinação à nostalgia sempre se compraz.

terça-feira, 13 de abril de 2021

A Garrafa Vazia 56

Maurice Tabard, Eye and beach - montage, 1949
Nas ruas, o alcatrão
derrete
sob o punho
bastardo do sol.
Enterro os pés
no betume
ardente
e como o pão
ázimo da morte.

Abril de 2021

domingo, 11 de abril de 2021

Na era do ad hominem

Quando a internet surgiu e, posteriormente, com a emergência dos blogues e redes sociais pensou-se que a esfera pública tinha encontrado uma fonte de renovação. Mais pessoas poderiam trocar opiniões sobre os problemas que afectam a vida comum, sem estarem controladas pelos diversos poderes, contribuindo para uma crescente participação, racionalmente educada, nos assuntos públicos. Olhando para o que se passa – seja nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação online – a sensação é devastadora.

Existe, na verdade, um aumento da interacção social, mas esse contribui, ao contrário do que se esperava, para degradação da esfera pública. A situação é tanto mais preocupante quanto têm crescido os níveis de escolarização das pessoas, e a esfera pública era vista como um lugar de participação através da razão argumentativa, o que supõe uma população escolarizada. As participações valeriam apenas pela racionalidade dos argumentos e não por quaisquer outras características pessoais.

A generalidade dos participantes nesta nova esfera pública não possui, todavia, qualquer capacidade para argumentar razoavelmente sobre os assuntos públicos. A larga maioria das intervenções não passa da expressão de sentimentos e emoções, do débito de adesões cegas ou de ódios acesos. Quando são apresentados esboços de argumentos, estes ou radicam na incompreensão do que está em causa ou não passam de falácias que visam confirmar aquilo que o emissor sente, uma tentativa de esmagar as opiniões de que discorda.

Uma falácia persistente tornou-se o centro da vida da esfera pública nos tempos da internet. Trata-se do velho argumentum ad hominem (argumento contra o homem). Se alguém propõe alguma coisa, aquilo que vai ser contestado, de modo directo ou indirecto, é a pessoa e não o que ela propõe ou defende. Esta falácia é importante não apenas do ponto de vista da coerência lógica da argumentação, mas porque é o sinal de uma atitude social que se tem expandido com força inusitada nos últimos tempos.

No argumentum ad hominem manifesta-se uma intolerância não apenas com a opinião do outro, mas com a pessoa do outro. Não são razões que são apresentadas, mas um ódio contumaz, destilado de forma mais ou menos agressiva. Aquilo que pareceu ser uma democratização de práticas racionais de argumentação pública com vista ao consenso, não passa, hoje em dia, de um vazadouro do pior lixo que há em nós. Tornou-se numa ameaça persistente às regras democráticas e de convivência social promotoras da amizade cívica entre quem pensa de forma diferente.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Nocturnos 58

Harold Roth, Luna Park, 1940

O medo da noite move todos estes parques de diversão que se cobrem com a farândola de uma luz feérica. Quanto maior a iluminação, maior será o temor que o espírito quer esconder. O terror que nasce na obscuridade nocturna do coração humano só encontra breve analgésico nas grandes fontes luminosas geradas na máquina do artifício e na dor do desespero.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Escolas e corrupção

As escolas tornaram-se o lugar onde todas as preocupações sociais são despejadas. A última notícia veio pela boca da ministra da Justiça. A estratégia anticorrupção passará também pelas escolas. Violência doméstica? Assunto para a escolas. Preocupações ambientais? Assunto para as escolas. Violência no namoro? Assunto para as escolas. Falta de espírito empreendedor? Assunto para as escolas. Incapacidade de gerir dinheiro e de gerar poupanças? Assunto para as escolas. Problemas de obesidade e má alimentação no país? Assunto para as escolas. Racismo? Assunto para as escolas. Gravidezes indesejadas, práticas sexuais arriscadas, desconhecimento da sexualidade? Assunto para as escolas. Agora, chegou a vez da corrupção.

Algumas destas coisas a escola, no âmbito curricular, poderá tratar. O resto é impossível. E daquilo que a escola pode tratar não será de esperar efeito significativo sobre as crenças dos indivíduos. Pensar que a escola consegue alterar o conjunto de representações mentais e de hábitos que os alunos trazem de casa e dos grupos de pares é pura estultícia. Haverá alunos que poderão ser tocados. Serão poucos e, muitas vezes, esses poucos já trazem de casa a inclinação para serem sensíveis a certas atitudes vistas como socialmente adequadas. Este recurso sistemático às escolas, para resolverem assuntos para os quais não têm poder, é uma manobra política desagradável. Os governantes despejam em cima delas aquilo que deveria ser da responsabilidade das famílias, das instituições sociais e dos próprios actores políticos.

Trazer o problema da corrupção para dentro das escolas é carregá-las com mais um encargo para o qual não têm nem poder nem vocação. É uma forma, também, de fugir ao problema fingindo enfrentá-lo. No entanto, haveria coisas que poderiam ser feitas. Peguemos em três pequenos problemas. Qual é a reacção social ao facto de os alunos copiarem nas provas de avaliação? Qual é a reacção social perante a prática de plágio dos trabalhos de investigação ou do recurso aos pais e explicadores para os fazerem? Qual é a reacção social perante o facto de numa fila para o bar ou cantina haver alunos que dão o ‘golpe’, colocando-se à frente dos outros que lá estavam? Se uma escola pública decidisse ter um código duro para com esses comportamentos, qual seria a atitude dos pais? E do Ministério da Educação? Essas coisas não têm a ver com a corrupção? Tem a certeza? Seria mais interessante que o governo se preocupasse com elas em vez de atafulhar as escolas com ideias sem nexo.

domingo, 4 de abril de 2021

A floresta e o destino da humanidade

Arnold Böcklin, Floresta Sagrada, 1882

Segundo um artigo de Jorge Paiva, no Público de hoje (ver aqui), a cada dez segundos desaparece da Terra uma área de floresta equivalente ao relvado de um campo de futebol. Mantendo-se o ritmo actual de desflorestação, o nosso planeta deixará de ter florestas no final do presente século (menos de 80 anos). Estas são essenciais para a vida, onde se inclui a humana. O autor conta um caso interessante, o qual nos permitirá antecipar o que nos espera: “A Ilha de Páscoa (Rapa Nui na língua nativa) situada no Oceano Pacífico (Polinésia Oriental) e que hoje pertence ao Chile (a 3700 quilómetros da costa oeste deste país) esteve coberta por uma floresta subtropical antes da chegada de polinésios, há cerca de 1600-1700 anos (300-400 depois de Cristo). Esta floresta foi completamente devastada pelos rapanuios, o que, praticamente, provocou a extinção deste povo.”

Há na espécie humana uma inclinação para desencadear processos que depois não consegue controlar. As questões climáticas e o desaparecimento da floresta parecem já fazer parte desses casos onde o feitiço parece voltar-se inelutavelmente contra os feiticeiros. Faz parte dessa inclinação aquilo que se pode chamar a indústria da dúvida. O primeiro caso bem conhecido foi a estratégia usada pela indústria tabaqueira para lançar dúvidas sobre a relação entre o consumo de tabaco e o cancro de pulmões, depois o da indústria petrolífera acerca do aquecimento global. O mesmo se passa no caso das florestas. Aparecerá sempre alguém a lançar um conjunto de dúvidas sobre as evidências científicas. A partir daí, haverá legiões de militantes fanáticos a desvalorizar os perigos reais, mitigando-os ou mesmo tentando fazer crer que são falsos. Certamente que os rapanuios tiveram a percepção de que algo estaria mal na ilha, mas foram impotentes para travar o mal. A espécie humana no seu todo arrisca-se a ter o mesmo destino que os primeiros colonizadores da Ilha da Páscoa.

sábado, 3 de abril de 2021

A Garrafa Vazia 55

Francesco Clemente, Time, 1990
Prendo-me ao arame
farpado
da noite, ferido
caminho nas trevas,
escorro o óleo
da vida,
autómato preso
à torpe
fuligem do tempo.

Março de 2021

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Sonhos numa noite de Verão 30

Margaret Bourke-White, Scottish highlanders and Indian
troops march past the Great Pyramid
, 1940
À curiosidade aliara-se o medo. Sentado na base da Grande Pirâmide, olhava para a paisagem inóspita e para os militares que marchavam. Sentia-me perplexo e perdido no tempo. Havia demasiadas coisas que a razão não compreendia, mas o que me atormentava eram as tropas. Não conseguia perceber como, sendo múmias antiquíssimas, se apresentavam com aquelas fardas e, maquinalmente, marchavam perante mim. Quando atingiam certo ponto da Pirâmide, entravam nela. Passado tempo, surgiam no lugar oposto, o rosto embalsamado imóvel, o corpo mecânico em passo militar, entregues, como Sísifo, a um destino imutável, a um eterno entrar e sair da Pirâmide. A cada retorno dos soldados mortos-vivos o pânico aumentava. Como fugi dali, ainda hoje não o sei. 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Perfis 16. O compositor

Yousuf Karsh, Igor Stravinsky, 1952
Quando pensa, o compositor não pensa através da abstracção dos conceitos, mas todo o seu pensamento são notas entrelaçadas, formando um cordão de sons. Há dias em que o rio impetuoso se transforma num lago ameno, e toda a música se entrega à lentidão, numa gravidade imperial, uma quase suspensão do tempo, uma chamada ao mundo de tudo o que é solene e deve permanecer na memória dos homens. Noutros dias, a vida é tomada pelo turbilhão do oceano ou pela girândola terrível de um incêndio. Escuta-se o bramir das ondas ou o estrondear violento das árvores arrastadas pelo vento e as chamas de um fogo imemorial. O compositor, porém, permanece opaco e meditativo, encosta-se ao piano e, quase sonâmbulo, deixa que tudo se passe no lugar mais inacessível aos olhares humanos. Talvez Deus espreite para dentro do seu ser e siga sobressaltado os sons que ali nascem, a música que nele se arquitecta. Depois, deixa-o entregue às ondas sonoras e suspende a sua omnisciência para que, também Ele, possa ser surpreendido pelo pensamento musical que naquele corpo se pensa. O compositor, diz, não pensa com a mente, mas com todo o corpo, pois o seu pensar é ritmo e ondulação, o bater do coração, o ir e vir do ar nos pulmões, o revolver das entranhas, o silêncio das vísceras. Fecha os olhos para ver. Ensurdece para escutar. Cala-se para dizer. Compor é saber que em todo o sim existe um não, que em todo o silêncio ruge o mais rugoso ruído. Como um arqueólogo de si mesmo, conduz a memória ao tempo em que, no ventre da mãe, escutava os sons do mundo nos sons maternais e sabia já, naquele encadeamento de largos e adágios, de andantes e moderatos, de allegros e vivaces, que era musical todos o seu pensamento, todo o seu coração, todo o seu ser.