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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Simulacros e simulações (81)

Modesto Ciruelos González, Collage, 1957

Pensa-se num bairro moderno, onde as ruas se cruzam e as praças acolhem pequenos jardins, onde brincarão crianças e animais. É apenas uma simulação de uma paraíso urbano, onde se esconde um labirinto. Quem nele entrar, dali não sairá.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Simulacros e simulações (80)

Piet Mondrian, Alberi in fiore, 1912

Não é a árvore em flor que se copia ou ensaia, mas a ideia pura, perfeita e eterna, de árvore florida que surge em simulação. Despe-se dos elementos materiais e apaga-se os vestígios do tempo. Se os olhos caem sobre uma paisagem de árvores em flor, o que vêm, no fulgor do espectáculo, é um simulacro, o pobre produto da natureza que, presa ao tempo, procura imitar o que é eterno.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Simulacros e simulações (79)

Arshile Gorky, Combate enigmático, 1937

Qualquer combate é um simulacro de uma evidência. Os combatentes enfrentam-se pensando que são claras as razões do confronto. Quanto maior o denodo na luta, mais é a simulação dessa crença. Não há combate, porém, que não contenha em si um enigma e que não seja a resolução sempre adiada, sempre falhada, desse enigma.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Simulacros e simulações (78)

David Almeida, sem título, 1981 (Gulbenkian)
Sonha-se com portas de ébano, e na negrura da madeira simula-se o desejo daquilo que, para além delas, se esconde. É um desejo obscuro, sem objecto, apenas o desejo de desejar o que flui, num mundo estanhado pelo esquecimento, sob leis de uma física desconhecida, sujeito ao arbítrio de um milhafre perdido e à progressão corrosiva do míldio.  

sábado, 27 de dezembro de 2025

Simulacros e simulações (77)

Paul Gauguin, Trois Tahitiennes sur fond jaune, 1899

De súbito, as três mulheres taitianas já não são elas, mas uma simulação das três Graças. Olhamos e vemos o esplendor de Aglaia, o jJúbilo de Eufrósina, o florescimento de Tália. Não são um mero simulacro das divindades helénicas, a cópia de uma cópia, mas as reais filhas de Zeus e da ninfa Eurínome, que por razões esquecidas abandonaram a pátria e se refugiaram, para nossa desgraça, num mundo longínquo.

domingo, 23 de novembro de 2025

Simulacros e simulações (76)

Marcelino Vespeira, Óleo 131, 1960 (Gulbenkian)

Talvez sejam braços em busca da potência mecânica do movimento. Talvez sejam hélices em rotação à procura do sossego e do silêncio depois de um voo atribulado. Talvez sejam os olhos que levam a imaginação a supor mundos onde não existem. Talvez seja o desejo que, vergado à carência, não pára de simular fantasias e quimeras.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Simulacros e simulações (75)

Lucio Muñoz, 8-86, 1986

Primeiro como simulacro, depois como simulação. Por fim, como realidade. Assim chegam, sobre a Terra, as paisagens nascidas no inferno. Não interessa se no inferno da religião ou se naquele que os homens trazem dentro de si, pois este é a simulação do outro.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Simulacros e simulações (74)

Georgia O'keeffe, Black and Purple Petunias, 1925

Não são petúnias o que vemos, mas o seu simulacro. Alguém viu verdadeiras petúnias. O fascínio foi de tal ordem que decidiu simulá-las. Entrou, então, num jogo de simulações. Só parou quando, perante o simulacro produzido, pensou nas petúnias vistas. Aquelas, as originais, morreram, mas estas têm a aspiração da eternidade.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Simulacros e simulações (73)

Lagoa Henriques, sem título, 1974 (Gulbenkian)
Há um momento em que, ao envelhecer, os homens iniciam uma lenta metamorfose. O corpo perde as fronteiras e vai-se transformando, sem pressa, numa árvore. Não em qualquer árvore, mas naquela que um dia se sonhou ser a autêntica árvore do paraíso.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Simulacros e simulações (72)

Júlio Pomar, Campinos, 1963

Simulam o vento a varrer a campina, simulam o trovão a ecoar na montanha, simulam os anjos em viagem de salvação. Também de si são simulacro, os campinos. Não lhes pertence nem a montada, nem as vestes, nem a vontade, nem a vida. Da sua realidade, nem a aparência lhes pertence.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Simulacros e simulações (71)

Manuel Botelho, 155. est-mr (da série «confidencial/desclassificado: estado-maior»), 2012

Num mapa, simula-se um mundo, para que a vida se torne um simulacro de si mesma. Segue-se então as rotas assinaladas, evita-se os obstáculos e pondera-se a influência da hidrografia sobre a beleza do território. Talvez seja possível uma floresta ali, uma estrada acolá, uma cidade no centro, para que nela tudo convirja e se perca no rumor do trânsito nocturno.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Simulacros e simulações (70)

Lucio Muñoz, 7-86, 1986

Simule-se o progresso da destruição, abram-se os olhos para o corroer dos materiais, oiça-se a música do aluimento das estruturas mais sólidas. Espere-se, na sobriedade do silêncio, o crescimento das ruínas, a desagregação dos palácios e a morte da matéria. Então, o mundo, como um simulacro cantante, pulsará sonâmbulo no ritmo de um coração tomado pelo zinabre da loucura. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Simulacros e simulações (69)

Fernando Calhau, sem título #630, 1980 (Gulbenkian)

Onde se simulam, por devaneio destituído de razão ou por fantasia obscura, obstáculos e barreiros, aí mesmo nascem limites inultrapassáveis, fronteiras jamais transpostas. Sempre que se gera um simulacro, corre-se o risco de transformar a aparência em realidade.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Simulacros e simulações (68)


Júlio Resende, Apanha da Azeitona, 1951 (Gulbenkian)

Simulando uma dança arcaica, homens e mulheres inclinam-se para o chão, onde o fruto derrubado da árvore espera o afago silencioso das mãos. Depois, erguem-se, olham o horizonte e esperam que a luz solar deixe cair os seus raios sobre o dia, como se fosse a música que os ilumina nessa dança dolorosa vinda de mundos que o tempo apagou.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Simulacros e simulações (67)

Gabriela Albergaria, To turn around 43 (f), 2001 (Gulbenkian)
Talvez se simule uma floresta em fogo ou se interprete a tempestade que emerge da noite escura do espírito. Ou então é um sinal deixado ao viandante para que saiba que ali haverá uma lareira a arder, no cume da montanha, nos dias frios e nas noite invernosas. Ou então não é mais que o simulacro de uma vida consumida pelo incêndio das horas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Simulacros e simulações (66)

Menez, sem título, 1977 (Gulbenkian)

A partir da geometria das formas simula-se a grande cidade, imaginando edifícios, sonhando geografias, fantasiando as sombras nos dias de calor. Toda a arquitectura é um exercício de simulacros, um trabalho feitos de fluxos de imagens e rastos de ideias, de onde nasce, na rudeza da matéria, o ritmo da realidade.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Simulacros e simulações (65)

Ana Hatherly, Sideral, 2002 (Gulbenkian)

Meditemos nos astros à deriva no universo. São letras desgarradas dentro da grande nuvem das línguas. Por vezes simulam constelações e tornam-se palavras. Outras pensam-se galáxias e são textos habitados por sistemas planetários e misteriosos buracos negros. 

domingo, 9 de junho de 2024

Simulacros e simulações (64)

Júlio Resende, Cabeças de homens, 1946 (Gulbenkian)
Uma lenta aproximação dos homens, onde os hálitos se tocam e os olhares se cruzam, simula uma comunhão que se supõe no fundo de toda a comunidade. Os olhares, porém, logo se afastam e aquilo que parece estar próximo não é mais do que o simulacro de uma conformidade, que esconde a distância infinita que vai de um  a outro eu.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Simulacros e simulações (63)

Rui Sanches, sem título: desenho da série Excêntricos, 1986 (Gulbenkian)

Imagina-se um mapa em desintegração. Aquilo que estava unido e onde se podia ver um centro invisível, ganha vida própria e da simulação do espaço chega-se a um simulacro do caos.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Simulacros e simulações (62)

Fernando Calhau, sem título #481, 1980 (Gulbenkian)

O olhar indeciso suspende-se sobre a maré de carvão grafitada na brancura da página. O coração hesita, os olhos confessam não saber se, na ondulação simulada, se vê a agitação do mar ou o devaneio de uma seara soprada pelo vento. Só a escuta abre o corpo para o simulacro do caos que transpira sob a ordem apolínea inventada pelo desejo do coração, pela gramática do olhar.