sábado, 1 de agosto de 2026

Política e caos nos exames

O caos instalado nos exames nacionais do ensino secundário é o resultado do crescimento da ignorância política entre os actores político-governamentais. A política existe porque subsiste um perigo permanente: a massa humana, abandonada a si própria, constitui uma força bruta, instável e potencialmente destrutiva, capaz de precipitar a comunidade no caos. A política confronta-se com esse abismo sempre iminente, cuja abertura pode arrastar consigo toda a comunidade. O papel da política é manter esse abismo fechado, ordenando a comunidade e regulando, através da lei, as pulsões dos indivíduos que põem em causa a organização social. Tudo o que faz parte da política – a educação, a saúde, as preocupações sociais, a segurança policial, a segurança contra ameaças externas, a justiça, as preocupações climáticas, etc. etc. – só existe e tem sentido por causa dessa ameaça abissal.

O principal problema da situação dos exames não é o destino dos alunos, a insegurança das famílias, o desrespeito pelo trabalho de professores e directores. O principal problema reside no Ministério da Educação e no respectivo ministro. O papel de um actor político é, recordo, evitar o caos e impedir que o abismo se abra. Ora, as opções organizacionais do actual ministro lançaram o sistema de exames no maior caos de que há memória. Em vez de manter o abismo caótico fechado, o ministro e o seu Ministério abriram-no e lançaram dentro dele alunos, famílias, professores, directores e a própria sociedade portuguesa. Fernando Alexandre não esteve à altura daquilo que se exige de um governante. Houve arrogância perante a complexa gestão digital das provas de exames e respectivas classificações. Este processo existe noutros países, mas levou muitos anos a ser posto em funcionamento. Em Portugal, pensou-se que uns meses chegavam.

Um político deve ter, entre as suas virtudes, a ponderação e, acima de tudo, a prudência. Faltaram ambas a Fernando Alexandre. A complexidade do processo não foi devidamente ponderada, como mostra o caos instalado. Um político prudente, porém, teria evitado o caos, dando passos mais pequenos, devidamente avaliados e criticados. Preocupado com a sua imagem de ministro decidido e inovador, não teve a humildade que um homem prudente teria perante a situação. Se tivesse meditado a tragédia grega – um dos lugares fundamentais para perceber o que é a política – saberia que a hübris (arrogância) se paga cara. O resultado foi lançar o ensino secundário no caos. O pior, porém, não é o ministro da Educação desconhecer o que é a política. O pior é que isso acontece com grande parte do actores políticos. Calhou ser nos exames.