terça-feira, 11 de agosto de 2026

Raiz da Permanência 4

Georgia O'keeffe, Drawing III, 1959

Uma floresta de canções mortas dança no olhar

de quem passa e abre os ouvidos

para a ausência atulhada de espinhos,

enredo fecundado na turbulência do deserto,

na tristeza dos trópicos.

São canções de perda, sem penugem,

imberbes no vício da velhice.

Esperam vozes que lhes tragam

o cristal do sangue, a verruma da vida.

 

Ao entrar no gótico da igreja, ouve-se

o pulsar do peito de uma mãe,

um stabat mater dolorosa,

os dedos contraídos na culpa,

na inocência da dor.

Os fiéis sentem a nostalgia do júbilo,

o assalto da linfa da paixão,

um lamento oficiado em segredo,

aberto no dédalo da mágoa.

 

Espera-se a ressurreição das canções mortas.

Uma páscoa vinda nos ramos,

árvores sem o fogo da morfologia

chegam num êxtase de símbolos.

Erguem-se e deslizam

em vozes rodeadas pelo açor da noite.

Perfuram o lençol do silêncio

com a espada de lousa de uma anunciação.

 

Abril de 2024

domingo, 9 de agosto de 2026

Nocturnos 138

James Glesson, Gardens of the Night, 1947

São monstros os habitantes dos jardins da noite. Nascem nos porões mais esconsos do sono e expandem-se como objectos excedentários entre canteiros e renques de árvores por florir. Se chega a aurora, precipitam-se para os sonos de onde brotaram, levando pesadelos aos incautos que se deixam enredar nas teias endurecidas pelos gelos matinais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Leituras de férias


Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente. Os dois primeiros livros, são seis, do Ciclo Terramar, de Ursula K. Le Guin, Um Feiticeiro de Terramar e Os Túmulos de Atuan. Estão ambos publicados pela Relógio d’Água. Por vezes, indicado como literatura juvenil ou de fantasia, o ciclo é muito mais do que isso, e a imaginação da autora é prodigiosa. A editora Cavalo de Ferro está a publicar os chamados Romances Duros, do grande Georges Simenon. Não são romances com o inspector Maigret, mas são, na caracterização do mundo humano, excepcionais. Estão quatro disponíveis: A Neve Estava Suja; A Casa dos Krull; As Janelas Defronte; O Círculo dos Mahé. 

Duas obras francesas que acabei de ler. Publicado em 2014, O Reino, de Emmanuel Carrère, foi traduzido para Português pela Tinta-da-China. A classificação da obra não é fácil. Pode ser considerado um romance, mas por norma é incluído na categoria de narrativa (récit). É, ao mesmo tempo, uma narrativa ficcional do nascimento do Cristianismo e um confronto do autor com a fé. Teve-a inflamada, mas perdeu-a. A segunda obra é o romance de 2010, O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq, traduzido pela Alfaguara. Ganhou o Prémio Goncourt. O romance gira em torno de três personagens: o pintor Jed Martin, Michel Houellebecq, ele mesmo, e o Inspector-Chefe da polícia, comissário Jasselin. É ao mesmo tempo um romance de formação de artista (Künstlerroman), uma autobiografia imaginada do autor, um romance policial e ainda um romance de antecipação, devido ao recurso a cenas que se passam em anos posteriores a 2010. 

Para concluir, duas obras de poesia. Em primeiro lugar, Crepúsculo de Outono – poesia completa, de Georg Trakl (1887-1914), com tradução, introdução e notas de João Barrento. Publicou a Assírio & Alvim, em 2026. A primeira quadra do poema A Floresta em Agonia: “Um tecto de ramos, pétreo cinzento, / Na confusão de folhas raras, ressequidas, / Lampejam borboletas, raras e perdidas. / No azul ecoam golpes de machado ao vento.” A segunda obra é Velas de Ignição, de Durs Grünbein (1962), traduzida por Maria Teresa Dias Furtado, para as Edições do Saguão, em 2026. Os três primeiros versos do poema Anúncios Qualificados: “Troco: coração grande a funcionar mal, / Alimentado a pilhas, tipo relógio de cuco da floresta negra, / Por torradeira para bronzear o tórax, palavra-passe Mónaco.” 

Boas leituras, estas ou outras, e boas-férias.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Simulacros e simulações (80)

Piet Mondrian, Alberi in fiore, 1912

Não é a árvore em flor que se copia ou ensaia, mas a ideia pura, perfeita e eterna, de árvore florida que surge em simulação. Despe-se dos elementos materiais e apaga-se os vestígios do tempo. Se os olhos caem sobre uma paisagem de árvores em flor, o que vêm, no fulgor do espectáculo, é um simulacro, o pobre produto da natureza que, presa ao tempo, procura imitar o que é eterno.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Comentários (37)

Caspar David Friedrich, Pilgrimage at Sunrise, 1805

 Pela Porta de Jaffa passavam as multidões de peregrinos.
Foi um milagre estarmos entre os escolhidos.
Durs Grünbein

Não são raros os milagres. Não há dia em que um milagre não aconteça. Surgem sem se anunciar e, não poucas vezes, desaparecem sem deixar rasto. Mesmo o beneficiário, preso na sua distracção, pode nem dar por ele. Fica-lhe na conta. Raro é ser peregrino e, entre a multidão, o escolhido. Não poucas vezes, se chega à Porta de Jaffa, essa que é o símbolo de todas as outras, e ela está fechada, sem que se tenha a senha para a abrir. Nessa altura, tudo deriva da economia do milagre. Do peregrino depende, e apenas em pequena parte, chegar à Porta e bater. Que ela se abra, resulta do arbítrio de quem superintende o trabalho do porteiro. Um milagre.

sábado, 1 de agosto de 2026

Política e caos nos exames

O caos instalado nos exames nacionais do ensino secundário é o resultado do crescimento da ignorância política entre os actores político-governamentais. A política existe porque subsiste um perigo permanente: a massa humana, abandonada a si própria, constitui uma força bruta, instável e potencialmente destrutiva, capaz de precipitar a comunidade no caos. A política confronta-se com esse abismo sempre iminente, cuja abertura pode arrastar consigo toda a comunidade. O papel da política é manter esse abismo fechado, ordenando a comunidade e regulando, através da lei, as pulsões dos indivíduos que põem em causa a organização social. Tudo o que faz parte da política – a educação, a saúde, as preocupações sociais, a segurança policial, a segurança contra ameaças externas, a justiça, as preocupações climáticas, etc. etc. – só existe e tem sentido por causa dessa ameaça abissal.

O principal problema da situação dos exames não é o destino dos alunos, a insegurança das famílias, o desrespeito pelo trabalho de professores e directores. O principal problema reside no Ministério da Educação e no respectivo ministro. O papel de um actor político é, recordo, evitar o caos e impedir que o abismo se abra. Ora, as opções organizacionais do actual ministro lançaram o sistema de exames no maior caos de que há memória. Em vez de manter o abismo caótico fechado, o ministro e o seu Ministério abriram-no e lançaram dentro dele alunos, famílias, professores, directores e a própria sociedade portuguesa. Fernando Alexandre não esteve à altura daquilo que se exige de um governante. Houve arrogância perante a complexa gestão digital das provas de exames e respectivas classificações. Este processo existe noutros países, mas levou muitos anos a ser posto em funcionamento. Em Portugal, pensou-se que uns meses chegavam.

Um político deve ter, entre as suas virtudes, a ponderação e, acima de tudo, a prudência. Faltaram ambas a Fernando Alexandre. A complexidade do processo não foi devidamente ponderada, como mostra o caos instalado. Um político prudente, porém, teria evitado o caos, dando passos mais pequenos, devidamente avaliados e criticados. Preocupado com a sua imagem de ministro decidido e inovador, não teve a humildade que um homem prudente teria perante a situação. Se tivesse meditado a tragédia grega – um dos lugares fundamentais para perceber o que é a política – saberia que a hübris (arrogância) se paga cara. O resultado foi lançar o ensino secundário no caos. O pior, porém, não é o ministro da Educação desconhecer o que é a política. O pior é que isso acontece com grande parte do actores políticos. Calhou ser nos exames.