O caos instalado nos exames nacionais do ensino secundário é
o resultado do crescimento da ignorância política entre os actores
político-governamentais. A política existe porque subsiste um perigo
permanente: a massa humana, abandonada a si própria, constitui uma força bruta,
instável e potencialmente destrutiva, capaz de precipitar a comunidade no caos.
A política confronta-se com esse abismo sempre iminente, cuja abertura pode
arrastar consigo toda a comunidade. O papel da política é manter esse abismo
fechado, ordenando a comunidade e regulando, através da lei, as pulsões dos
indivíduos que põem em causa a organização social. Tudo o que faz parte da
política – a educação, a saúde, as preocupações sociais, a segurança policial,
a segurança contra ameaças externas, a justiça, as preocupações climáticas,
etc. etc. – só existe e tem sentido por causa dessa ameaça abissal.
O principal problema da situação dos exames não é o destino
dos alunos, a insegurança das famílias, o desrespeito pelo trabalho de
professores e directores. O principal problema reside no Ministério da Educação
e no respectivo ministro. O papel de um actor político é, recordo, evitar o
caos e impedir que o abismo se abra. Ora, as opções organizacionais do actual
ministro lançaram o sistema de exames no maior caos de que há memória. Em vez
de manter o abismo caótico fechado, o ministro e o seu Ministério abriram-no e
lançaram dentro dele alunos, famílias, professores, directores e a própria
sociedade portuguesa. Fernando Alexandre não esteve à altura daquilo que se
exige de um governante. Houve arrogância perante a complexa gestão digital das
provas de exames e respectivas classificações. Este processo existe noutros
países, mas levou muitos anos a ser posto em funcionamento. Em Portugal,
pensou-se que uns meses chegavam.