terça-feira, 11 de agosto de 2026

Raiz da Permanência 4

Georgia O'keeffe, Drawing III, 1959

Uma floresta de canções mortas dança no olhar

de quem passa e abre os ouvidos

para a ausência atulhada de espinhos,

enredo fecundado na turbulência do deserto,

na tristeza dos trópicos.

São canções de perda, sem penugem,

imberbes no vício da velhice.

Esperam vozes que lhes tragam

o cristal do sangue, a verruma da vida.

 

Ao entrar no gótico da igreja, ouve-se

o pulsar do peito de uma mãe,

um stabat mater dolorosa,

os dedos contraídos na culpa,

na inocência da dor.

Os fiéis sentem a nostalgia do júbilo,

o assalto da linfa da paixão,

um lamento oficiado em segredo,

aberto no dédalo da mágoa.

 

Espera-se a ressurreição das canções mortas.

Uma páscoa vinda nos ramos,

árvores sem o fogo da morfologia

chegam num êxtase de símbolos.

Erguem-se e deslizam

em vozes rodeadas pelo açor da noite.

Perfuram o lençol do silêncio

com a espada de lousa de uma anunciação.

 

Abril de 2024

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