sexta-feira, 15 de maio de 2026

Da importância da redenção


Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo. Há dias, sem que descortinasse a razão, perguntei-me quais seriam os três filmes de que mais gosto. Não me questionei sobre os três melhores filmes que vi, que é uma questão diferente. Uma resposta inequívoca surgiu-me de imediato. Em primeiro lugar, Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman. Depois, Táxi Cor de Malva (1977), de Yves Boisset. Por fim, A Festa de Babette (1987), de Gabriel Axel. Todos eles, embora cada um a seu modo, são filmes contemplativos, operam como se o tempo se dilatasse para que o espectador possa ver, sem ser perturbado, os rostos humanos e a própria natureza. Não são filmes de acção, mas de revelação. 

Contudo, a viagem tem um papel central nos três. O velho e solitário Dr. Isak Borg, personagem central de Morangos Silvestres, faz uma longa viagem de carro para receber um doutoramento Honoris Causa. Nela, confronta-se com o seu passado e aquilo que fez da sua vida. Philippe Marchal, um escritor de sucesso, em Táxi Cor de Malva, tendo abandonado França, confronta-se na Irlanda rural com a dor da perda de um filho e o desabar do casamento. No filme de Gabriel Axel, também Babette se instala numa pequena e remota aldeia rural, agora da Jutlândia (Dinamarca), depois de ter fugido da Comuna de Paris (1871). Em todos estes filmes, a viagem, mais do que física, é de natureza interior. Os protagonistas viajam dentro das suas memórias, confrontando-se consigo, com a dor da existência e com o destino. 

Ora, este viajar interior é uma condição para curar o que a vida e o mundo fizeram adoecer, para abrir caminho à redenção. E talvez seja por isso – pela possibilidade da redenção – que sempre gostei destes filmes. O cristianismo teve uma intuição genial, ao fazer da redenção de cada um o elemento central da religião. Ora, mesmo em tempos de retracção religiosa no mundo ocidental, a ideia de redimir a sua existência nunca foi abandonada. Saltou do culto e espalhou-se pelos diversos campos da acção humana, em especial da arte. Ao secularizar-se, a redenção religiosa tornou-se prosaica, mas não menos fundamental: significa agora encontrar um sentido para a vida, que permita dizer que valeu a pena ser vivida, mesmo quando a cidade arde e os invasores estão dentro dela, e sejamos aqueles xadrezistas que no só jogo encontram o sentido da sua vida.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Os males do presente


Por que razão vivemos num momento de grande turbulência mundial? Haverá muita gente com respostas, umas mais sensatas do que outras. Aventuras geopolíticas das grandes potências imperiais e os habituais interesses económicos são razões que surgem para dar um sentido ao que estamos a viver. Essas respostas não são erradas. Contudo, são limitadas e tomam por causa aquilo que é uma consequência. A grande questão situa-se num outro lugar: o desenvolvimento técnico-científico exponencial não foi acompanhado pelo desenvolvimento de uma capacidade humana para gerir as poderosas forças que ciência e tecnologia puseram ao dispor da humanidade. Dito de outra maneira, a nossa espécie não está capacitada para lidar, de modo razoável, com os poderes que a sua inteligência libertou. 

Não estamos preparados do ponto de vista moral. Em 1979, o filósofo alemão Hans Jonas propõe um novo imperativo moral que se sintetiza na frase seguinte: agir de modo que as condições de uma vida genuinamente humana na Terra se mantenham. Enquanto o imperativo categórico de Kant nos manda agir respeitando a humanidade no outro e em nós próprios, o de Jonas prolonga-o para as gerações futuras. O que assistimos nas últimas décadas, porém, mostra-nos que não apenas a espécie, embrenhada numa paranóia consumista, não tem qualquer interesse pelo futuro da vida humana na Terra, como o próprio respeito pelo outro e por si mesmo se encontra numa fase de vertiginosa degradação. No lugar de um desenvolvimento moral e espiritual necessário para lidar com a técnica, a espécie recuou nos seus padrões morais e está hoje à mercê dos efeitos não controlados da tecnologia. 

Não estamos preparados do ponto de vista político. As instituições políticas tinham uma função de complemento da vida moral. Se as regras morais falhavam, entrava em jogo a lei e a punição. Ora, nada disto se passa nos dias de hoje, quando se trata da tecnologia. Basta ver o caso das redes sociais. Os interesses desenvolvidos em torno dos produtos tecnológicos, além de  colonizarem as consciências dos indivíduos, capturaram as instituições políticas. Estas ou são impotentes para lidarem com a pressão ou tornaram-se agentes de degradação do mundo e da vida, seja nas alterações do clima, seja na corrupção das regras morais, seja na alienação dos indivíduos orientada por algoritmos. Günther Anders dizia, em 1956, que somos analfabetos emocionais: sabemos construir a bomba atómica, mas não conseguimos sentir o que significa um milhão de mortos. A partir de 1956, esse analfabetismo apenas se aprofundou. É aqui que está a origem dos males presentes.

domingo, 3 de maio de 2026

A perda de sentido do mundo


A desordem geopolítica que atinge o mundo, se interpretada de uma maneira determinista, pode ser vista como a consequência das profundas alterações da economia global, fundamentalmente das revoluções tecnológicas (informática, cibernética, robótica, internet, redes sociais, inteligência artificial). A desordem política actual seria a consequência necessária destas transformações. Ora, esta leitura empobrece o modo como podemos compreender o que se está a passar. Haverá, claro, uma correlação entre ambos os fenómenos, mas uma correlação não é uma relação causal. Há uma outra ordem que não é, por norma, tida em conta, mas que tem um papel fundamental. 

>Nos anos vinte do século passado, o teólogo católico ítalo-germânico Romano Guardini, na Carta IX da obra Cartas do Lago de Como, escreve: “A ciência, a técnica e tudo o que delas provém só se tornaram possíveis por causa do Cristianismo. Só um homem a quem a imediação divina da alma redimida e a dignidade do renascido incutiram a consciência de que é diferente do mundo que o rodeia — só esse homem pôde destacar-se da vinculação à natureza como o fez o homem da era técnica.” Ora, a ordem religiosa do Cristianismo, fundamental para a emergência da ciência moderna e da técnica, encontra-se profundamente desgastada. Por um lado, parte significativa do mundo cristão desenvolvido abandonou a religião; por outro, esse cristianismo está a ser usado de um modo superficial e emotivista, como acontece no fundamentalismo evangélico que suporta, por exemplo, a actual administração americana. 

O crescimento exponencial da ciência e da tecnologia não encontrou no homem contemporâneo a profundidade espiritual e a orientação moral necessárias para compreender e limitar os efeitos negativos gerados pela abstracção científica, bem como pela dominação da natureza e do ser humano pela tecnologia. Sem essa profundidade, dada pelo cristianismo, nomeadamente o católico, os seres humanos sentem-se incapazes de encontrar um sentido que integre na sua consciência os produtos das revoluções científicas e tecnológicas. Esse vazio torna as pessoas incapazes de interpretar o mundo. Sentem-se atraídas por explicações e soluções fáceis que conduzem a opções políticas e sociais que ajudam a explicar a desordem em que vivemos. É plausível pensar que, sem o retorno de um cristianismo enraizado nas pessoas e nas comunidades, não haverá capacidade para encontrar sentido para o mundo em que vivemos, pois desconhece-se ou despreza-se o solo em que o edifício científico-tecnológico tem as suas raízes.