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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Diálogos aporéticos (13) - Pobrezas

Paul Schutzer,  Birds on barbed wire strung atop the Berlin Wall, Jan. 1962

- Pobres humanos.

- Pobres?

- Sim, duvidas?

- Não têm eles mais do que deviam?

- Ó sim, muito mais e nunca estão satisfeitos.

- É essa insatisfação que os torna pobres.

- Não. Essa apenas os torna ávidos e infelizes.

- Então?

- Olha para nós. Não há muro que nos limite, voamos para esquerda e para a direita.

- Sim, somos como o vento.

- E isso é a nossa riqueza.

- E eles não são como o vento. Erguem muros para se limitarem.

- E acumulam coisas para se esquecerem da pobreza em que vivem presos por muros que eles próprios ergueram.

- Não são pássaros e o alto não é o seu lugar, por isso nascem e morrem na mais dura pobreza.

- E nós o que fazemos com a nossa riqueza?

- Aspiramos a ser anjos.

terça-feira, 10 de março de 2026

Diálogos aporéticos (12) - Colher rosas

Anton Einsle, Am Gartenzaun, 1891

- Não se deviam colher rosas.

- Que ideia! Temes que a roseira sofra.

- Não era nisso que pensava, mas noutra coisa, apesar de a roseira sofrer.

- Que absurdo, uma superstição de quem vive sob o véu da montanha.

- Tudo o que está vivo, para além de morrer, sofre. As plantas também.

- Que sofram, desde que possamos ter a sua beleza nas mãos.

- As rosas são como nós.

- Como nós?

- Sim, ao serem colhidas, murcham, tal como nós.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Diálogos aporéticos (11) - A grande noite

Yale Joel, Couple embracing late at night on the Schoffelgasse,  Zurich, 1948

- Adeus, tenho de ir.

- Mas, tínhamos combinado...

- Não me lembro de ter combinado nada.

- Estás a brincar.

- Talvez sofra de uma estranha amnésia.

- Como é possível? Não tens idade para isso.

- Meu querido, a deficiência da memória não tem por causa única a idade.

- Os planos que ontem fizemos para esta noite.

- Ontem? Onde?

- Quando nos encontrámos no café.

- Ah, sim, encontrámo-nos no café é verdade.

- Esta iria ser a nossa primeira e grande noite de amor.

- Grande, mas ainda não percebeste?

- O quê?

- Esta é a noite mais pequena do ano, como pode ser uma grande noite de amor?

- ...

- Adeus, dorme bem.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Diálogos aporéticos (10) - Linha do horizonte

George Hoyningen-Huene, Divers, Paris, 1930

- O que está a ver?

- Nada.

- Ah. Está tão concentrado no horizonte.

- O horizonte fascina-me.

- Alguma razão específica para tanto fascínio.

- Sim. O simples facto de ser uma linha.

- A linha do horizonte.

- Claro, a linha do horizonte.

- E o que tem ela de tão fascinante?

- Não sei.

- Não sabe?

- Não. Não consigo ver mais do que a linha.

- E isso é fascinante?

- Nem por isso.

- Não percebo.

- Falta de treino. Talvez falta de imaginação.

- Tornei-me sua inimiga, para me acusar de não saber fantasiar?

- Não se trata de inimizade.

- Então?

- Apenas a constatação de que os seus limites morrem na linha do horizonte.

- E os seus?

- Os meus vão bem para lá dela.

- E o que vê?

- A linha do horizonte.

- Pensava que via para além dela.

- Gostava de ver, mas a linha cega-me.

- Sim, eu já sabia que estava cego.

- Porquê?

- Porque nem a mim me vê.

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Diálogos aporéticos (09) - Afaste-se

Ed van der Elsken, Tokyo, 1984

- Não se aproxime.

- Mas…

- Já lhe disse não se aproxime de mim.

- Não estou contaminado.

- Não quero saber. Afasta-se, afaste-se.

- Também não sou radioactivo.

- Antes fosse.

- Isso seria terrível, não sabe que a radioactividade é…

- Não me interessa.

- Ao menos, deixe-me passar.

- Não. Afaste-se, volte para trás.

- Para trás?

- Sim, saia por onde entrou.

- Eu quero seguir na carruagem, comprei bilhete, tenho esse direito.

- Que a sua sombra não me toque, que a sua presença não me atormente a viagem. Volte para trás. Não posso vê-lo, nem pensar que vai no mesmo comboio que eu.

- Endoideceu?

- Se der mais um passo, grito.

- Nem me conhece, qual o motivo para tanta repugnância?

- Basta aquilo que vejo. Meteu conversa comigo.

- Não meti, foi você que começou.

- Pressenti aquilo que queria.

- É dada a pressentimentos?

- Cale-se, nem o posso ver.

- Que mal lhe fiz?

- Olhe para a sua camisa. Como é possível alguém usar uma camisa dessas e querer falar comigo? Volte para trás, depressa. Afaste-se. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Diálogos aporéticos (08) - O modelo

Emmerico Nunes, O pintor e o modelo, 1909

- Quero pintá-la.
- Que horror, não lhe reconheço talento de maquilhador.
- Quem falou em maquilhá-la?
- Não falou?
- Ainda não desci tão baixo, a minha arte é outra.
- Quer dizer que pintar-me seria degradá-lo? Estou a ver a conta em que me tem.
- Não, não se trata disso.
- Trata-se de quê?
- Eu não sou maquilhador, só isso.
- Não é e quer pintar-me? Acha que lhe permitiria que tocasse o meu rosto?
- Eu não quero tocar o seu rosto.
- Ainda bem.
- Quero pintar o seu corpo.
- Mas não se maquilha o corpo todo, só o rosto.
- Eu não quero maquilhar-lhe o corpo, apenas o quero pintar.
- …
- Quero que se dispa e se sente tranquila, numa posição natural.
- E é assim que me quer pintar?
- É, é, claro.
- E julga que o vou deixar pôr esses seus pincéis nojentos em cima da minha pele?
- Meu Deus, eu não quero pintar sobre a sua pele nua, mas pintá-la na tela, um nu como o que qualquer artista faz.
- E se eu recusei casar consigo, acha que iria ser o modelo das suas fantasias? Se quiser pintar um corpo nu, dispa-se e ponha-se à frente do espelho. Dispenso ver o resultado.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Diálogos aporéticos (07) - Escolhas

Norman Parkinson, Margot Fonteyn; Sir Robert Murray Helpmann, 1951

- É só para isso que eu sirvo.
- O que estás a dizer?
- Isso mesmo. Só sirvo para isso.
- Falas por enigmas, agora.
- Não entendeste?
- Explica-te. Cansam-me os mistérios.
- Só sirvo para me pores o pé em cima.
- Não me faças, rir. Estás só a ser gentil.
- Posso estar, mas só sirvo para essas gentilezas.
- Não serves apenas para eu te espezinhar. És o meu par, danças comigo.
- Sim, levanto-te e seguro-te, para que não caias.
- É essa a tua função, ou querias ver-me a rebolar pelo chão diante do público.
- Não passo, para ti, de um carregador.
- O que querias mais?
- Sair daqui contigo, ir jantar e depois…
- E achas que sairia alguma vez com quem se veste dessa maneira?
- Não sejas perversa. Faz parte do meu papel.
- Devias ter escolhido.
- Escolhido?
- Ou dançavas comigo ou saías comigo, e cala-te, preciso de acabar o que estou a fazer.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Diálogos aporéticos (06) - A carta

Hans Baumgartner, Ferien am Canal du Midi. France, 1949

- Hum… hum... hum.
- Pareces muito contente.
- Férias põem-me sempre bem-disposto.
- Pensava que era a carta.
- Cartas fazem parte das férias.
- Fazem?
- Sim, há que escrever, há que dar conta das novas experiências.
- Não vejo o interesse.
- É só uma questão de pensares um pouco.
- Sim, estou a pensar nisso desde que começaste a escrever.
- E a que conclusão chegaste?
- A nenhuma, por isso te perguntei.
- Então, é isso o que te disse.
- Dar conta das novas experiências.
- Não precisas de me repetir.
- A quem?
- Ora, a quem haveria de ser.
- Não estou a compreender. Há alguma coisa que me escapa.
- Talvez.
- Tens alguma novidade para me contar?
- Novidade? Tanto quanto saiba, não.
- Então estás a escrever para quem?
- Para mim. Para quem haveria de ser?
- Não entendo.
- Se quiseres posso incluir-te no endereço, sempre vivemos na mesma casa.
- Dispenso, mas escreves para ti porquê?
- Para quando chegarmos, poder saber aquilo que andámos a fazer fora de casa.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Diálogos aporéticos (05) - Não é fácil

William Holman Hunt, Claudio and Isabel, 1850
- Meu pobre, o que fizeste?
- Melhor fora que tivesse feito alguma coisa.
- Omitiste algum dever?
- Por Deus, sabes bem que não sou pessoa para omissões.
- Então, porque te prendem.
- Quem te disse que me prenderam?
- Estas correntes significam o quê? Estás livre?
- Não, não estou livre.
- Pareces irado.
- Não pareço. Estou irado. Não é fácil.
- Claro, estar preso sendo inocente não é fácil. Compreendo.
- Não, não compreendes.
- O que te irrita tanto.
- A minha estupidez.
- Não compreendo.
- Eu também não.
- Não? Quem te prendeu?
- Fui eu.
- Então de que te queixas?
- De ter-me esquecido dos tampões para os ouvidos. Não é fácil.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Diálogos aporéticos (04) - Ir à praia

Pablo Picasso - Hombre y mujer en la playa (1956)

- Vamos para a praia.
- Tem de ser? Agora?
- Não gostas de praia?
- Gosto. Gosto muito, mesmo.
- Vamos, então?
- Logo hoje.
- Por que não? O dia está excelente.
- Pois, pois está, mas…
- Tens alguma coisa contra os dias excelentes?
- Não, não. Não há nada como os dias excelentes. Fazem-me feliz os dias excelentes.
- Então, vamos para a praia.
- Mas não será melhor esperar que os dias fiquem ainda mais excelentes?
- Não podes dizer que não queres ir?
- É uma pergunta?
- Uma pergunta?
- Bem me parecia que não.
- Por que razão não dizes a verdade? Confessa que não gostas de praia.
- Mas eu adoro praia. Não há coisa que mais goste.
- …
- É óptima a praia, mas…
- Mas o quê? As pessoas incomodam-te, já sei.
- Vamos começar com as recriminações? Volta a acusação de misantropo?
- Passaste a adorar as pessoas...
- Bem, não ajudam muito, mas mesmo assim…
- Mesmo assim, o que há mais?
- Eu adoro praia, como sabes, mas tem muita areia, sol que não acaba e água, muita água fria.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Diálogos aporéticos (03) - Noli me tangere!

Francisco Arjona - Composición III (1984)

- Noli me tangere!
- Noli me tangere? Erudição religiosa a esta hora?
- Não tenhas ideias.
- O meu problema não é as ideias, é…
- É, é. A sério, não me apetece.
- Os meus dedos desejam tanto tocar-te.
- Nada de implorar, isso deixa-me doente. Que asco.
- Mas…
- Já te disse: não me toques!
- Não disseste, não. Disseste…
- Eu sei bem o que disse.
- Só que…
- Não consegues conter-te?
- Conter-me?
- Contar carneiros ou…
- Ou o quê?
- Calares-te, por exemplo.
- Não te posso tocar, não posso falar. Será que posso respirar?
- Ficaria grata se o evitasses.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Diálogos aporéticos (02) - Imperativo

Edvard Munch - Cupid and Psyche (1907)

- Que horas são?
- É tarde, despacha-te.
- Perguntei-te as horas, dispenso ordens.
- Ordens?
- O despacha-te soou-me a imperativo.
- Estamos atrasados, não vou discutir pragmática da língua.
- Estamos? E queres discutir o quê?
- Nada. Estamos atrasado, já disse.
- Já disseste. Agora, o que dizes passa a ser uma autoridade. É isso?
- Por amor de Deus…
- Deixa a religião fora destas coisas.
- É uma maneira de…
- … dizer. É sempre o mesmo.
- O mesmo?
- Falta-te imaginação, repetes-te, só lugares comuns. É uma maneira de dizer, repete lá.
- A sério, não deixam entrar depois do concerto começado.
- Não deixam? Mas quem pensam eles que são?
- Não é perm…
- Cala-te! Agora tens procuração da organização?
- Despacha-te!
- Cala-te!

terça-feira, 28 de março de 2017

Diálogos aporéticos (01) - Amnésia

Wassily Kandinsky - Black and Violet (1923)

- Estou grávida.
- Como?
- Como? Sei lá. Talvez me tenha esquecido de tomar a pílula. Ultimamente, tenho esquecimentos frequentes. Ainda ontem foi o autor de um livro, há dias, ao entrar na farmácia, reparei que não me lembrava do nome do medicamento. Valeu-me…
- Estás grávida?
- Estou.
- Estás grávida porque sofres de amnésia, é isso que queres dizer.
- Bem, nunca tinha pensado nisso. Amnésia é uma palavra forte. Parece quase uma teoria e eu não me predisponho muito para teorias, como sabes.
- Sei, sei… e estar grávida é uma questão prática.
- Nunca pensei ficar grávida.
- Achas que deves abortar?
- Bem, também não tinha pensado nisso.
- Pois, estás mesmo grávida?
- Fiz o teste e deu positivo.
- Positivo, logo positivo. Não será melhor fazer outro?
- Também já fiz o segundo. Confirmou o primeiro. Estou grávida.
- E agora?
- Agora, apetece-me gritar.
- Será caso para tanto?
- Não sei, é a primeira vez que estou grávida.
- Irrita-me a tua irresponsabilidade.
- A minha?
- Sim, a tua. Não tens idade para esquecimentos. Não acredito nessa história. Até daquilo que seria melhor esqueceres te lembras, quanto fará...
- Estás a insinuar o quê?
- Eu…
- Estás a insinuar que fiz de propósito?
- Bem…
- Achas que estando no meu juízo, e eu estou, alguma vez iria dar um pai como tu a um filho meu?
- Talvez fosse o efeito da amnésia, esqueceste-te de tomar a pílula e de quem eu era.
- Estou grávida e tu espumas ressentimento.
- O ressentimento não traz ninguém ao mundo.
- Mas envenena. Queres matar o feto com a tua exalação? É isso que queres?
- Estás grávida. E logo agora.
- O que é que tens contra este momento? Julgas que haveria outro melhor? Estás…
- Não estou, não.
- Não estás o quê?
- Sei lá. Esqueci-me...