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| Egon Schiele, Agonía, 1912 |
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
EUA, ciência e desrazão
terça-feira, 2 de setembro de 2025
Ciência e democratização da opinião
Este democratismo das redes sociais, ao dar força a
movimentos como os acima referidos, veio revelar o carácter aristocrático do
conhecimento científico. Este é produzido e compreendido por uma elite, um
clube seleccionado que, para entrar nele, exige longos anos de preparação e um
conjunto não pequeno de provas ao longo do caminho. Isto significa que a maior
parte de nós – quase todos – não está habilitado para trabalhar em ciência, e
mesmo aqueles que estão, estão apenas num ramo muito específico. O que acontecia,
antes das redes sociais invadirem o panorama da intercomunicação humana, era
que havia um respeito tácito, veiculado pela comunicação social e pelos valores
da sociedade, pelos esforços desses homens e mulheres que dedicavam uma vida ao
conhecimento. Presumia-se – e com razão – que sendo especialistas, tinham uma
autoridade real para falar sobre a sua área, fossem vacinas, cancro de pele, ou
física nuclear.
O que se assiste é uma revolta da plebe – ou dos sans-culottes,
caso se prefira a França da Revolução ao Império Romano – contra o patriciado
ou a aristocracia do conhecimento científico. A revolta tem uma característica
específica. Não apenas pretende ter voz sobre assuntos de natureza científica,
como quer ter o poder da autoridade: as suas crenças, sem qualquer validação,
são a verdade e a ciência, com o seu laborioso e controlado processo de
produção de conhecimento, não passa de uma mistificação. Estamos a assistir a
um teste terrível dos efeitos da liberdade de expressão. Até que ponto a
ciência e o conhecimento racional podem sobreviver a estes ataques irracionais?
Não é apenas ao nível político, com a erosão das democracias, que as redes
sociais geram problemas. Também são um factor de turbulência para a ciência e
para os benefícios que os seres humanos podem tirar dela. Já não é impossível
pensar que uma nova Idade das Trevas esteja no horizonte.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
Ciência e pensamento crítico
Uma das formas mais insidiosas de superstição é aquela que se baseia num suposto pensamento crítico ou no direito de pensar por si mesmo, numa espécie de afirmação à outrance do lema kantiano ‘Pensar sempre por si mesmo’. A estratégia é colocar em pé de igualdade uma forma de conhecimento altamente estruturada, obedecendo a rigorosos protocolos de controlo, testagem e avaliação, isto é, a Ciência, com opiniões e conjecturas que não têm qualquer controlo. Aliás, nem se trata de colocar em pé de igualdade Ciência e estas opiniões. Pretende-se mesmo julgar a Ciência com base nessas opiniões, como se isso fosse uma atitude crítica altamente inteligente.
Não temos o dever de pensar por nós próprios? Temos, mas pensar por si próprio, de modo responsável, é avaliar, com base num método rigoroso, aquilo que nos é proposto. Isso, dir-se-á, levanta um enorme problema. Por exemplo, como posso avaliar se devo ou não ser vacinado contra a COVID-19? Não tenho conhecimento para fazer uma avaliação crítica da vacinação. Como eu está mais de 99% da humanidade. A única coisa que podemos fazer, para pensar criticamente, é confiar na autoridade científica dos cientistas. Não se trata, porém, de uma aceitação cega de uma autoridade. Há regras para aceitar argumentos de autoridade. São essas regras que permitem adoptar uma atitude crítica sobre certo assunto que não dominamos.
Só devemos aceitar um argumento de autoridade se aqueles que o propõem são efectivamente autoridades no assunto, se não existirem contra-exemplos credíveis que ponham em causa o que a autoridade afirma e se existir um forte consenso científico sobre esse assunto, por exemplo, sobre o benefício da vacinação. Ora, quando as pessoas, em nome de um suposto pensamento crítico e de um direito a pensar por si, rejeitam os resultados da Ciência, não estão a pensar criticamente. Estão a submeter-se à autoridade de pessoas que não dominam os assuntos, que emitem opiniões que ninguém controla nem avalia. Estão a trocar o conselho de autoridades competentes por crenças sem qualquer fundamento. Escolhem a superstição e não o pensamento crítico.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Saber e poder
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
Reconhecimentos
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Poderes encantatórios
sábado, 16 de abril de 2016
Um exercício de purificação
Não pretendo argumentar a favor de normas não monogâmicas de casamento ou de relação sexual. Quero apenas chamar a atenção para este tipo de informação. Ele vem relativizar aquilo que se apresenta, ao nível da religião, como um valor absoluto. A monogamia e a indissolubilidade do casamento são valores relativos, resultantes de uma necessidade específica posta pelo ambiente social. Esta relativização coloca, por outro lado, uma outra questão: que relação pode haver entre ciência e religião? Há uma visão, alimentada por certos círculos propensos ao ateísmo, de oposição absoluta entre este dois tipos de crenças. A esta visão, preconceituosa e ingénua, corresponde uma outra, não menos preconceituosa e ingénua, que pretende justificar a fé com a ciência.
As duas visões acima referidas ocultam uma terceira. A ciência pode ter um impacto purificador na religião e na vida espiritual. Como? Tornando evidente a relatividade daquilo que, na religião, pertence não à experiência espiritual mas ao domínio da vida social contingente, que, por isso, é relativo e mutável. A regulação da sexualidade e as opções matrimoniais não possuem um valor absoluto e, por isso mesmo, não são nem factor limitativo nem fomentador de uma vida espiritual plena e realizada. A ciência pode ter, deste modo, a virtude de ajudar as religiões a libertarem-se dos preconceitos e a concentrarem-se naquilo que é o seu núcleo essencial: a vida espiritual dos homens, a libertação das ilusões, a sua relação com o absoluto e a transcendência, com o mistério do ser.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
A duplicidade em que vivemos
Estava a assistir - com grande prazer, saliente-se - à performance de Carlos Fiolhais e pensava, ao mesmo tempo, que muitos dos problemas que se colocam hoje em dia nascem de crenças sem qualquer alicerce racional, as quais desabaram na Europa e são hoje parte da sua vida. A Europa que se esforçou desde o século XVII para expulsar o mito da vida social, tornando-o um assunto da esfera privada, essa Europa que construiu um conjunto de instituições desencantadas, como muito bem o percebeu Max Weber, chega ao século XXI confrontada com narrativas que trazem consigo o mundo encantado, sob a forma de pesadelo, que tinha expulso por um trabalho laborioso de cinco séculos. E é esta duplicidade - a da afirmação da autonomia da razão e a da negação dessa mesma autonomia da razão - que não deixa de me espantar, de me dar que pensar.
terça-feira, 9 de junho de 2015
A poesia quântica e a prosa determinista
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Ciência e Política (Léo Strauss)
Strauss escreve este texto em 1946, um tempo onde o fenómeno totalitário está especialmente vivo. Nas décadas seguintes desenvolveu-se todo um pensamento de oposição entre democracia e totalitarismo. O apogeu prático-político dessa reflexão teórica é a derrota do campo comunista, simbolizada na queda do Muro de Berlim. Mas, a partir daí, a democracia política parece definhar por falta de substância. Com isto quero dizer: deixou de haver alternativas verdadeiras, e com possibilidade de ascender ao poder, em confronto. Mais, os fenómenos que estavam ligados ao totalitarismo aparecem também ligados às chamadas práticas democráticas. Apesar da proclamação da morte das ideologias, da morte das grandes narrativas, a verdade é que as governações não dispensam as narrativas ideológicas, apresentem-se estas na forma mínima ou na forma de grande narrativa. Por outro lado, o papel da ciência vulgarizada e desviada tem, como aconteceu nos regimes totalitários, um papel estruturante da acção política. Não são apenas as ciências empírico-analíticas, as ciências da natureza, que são mobilizadas enquanto tecnociência para prover a dominação sobre a natureza, mas também as chamadas ciências histórico-hermenêuticas, as ciências sociais e humanas, que são cada vez mais utilizadas para um exercício refinado de dominação sobre a comunidade e os cidadãos. Desde a ciência política à sociologia, passando pela psicologia, a antropologia, a economia, o poder tem tido a capacidade de produzir narrativas ideológicas, por vezes narrativas mínimas, outras grandes narrativas, a partir dos conhecimentos que estas ciências vão produzindo.
terça-feira, 28 de abril de 2015
O acaso e a liberdade
sábado, 19 de julho de 2014
O bombardeamento da ciência
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Sonhos lúcidos
quarta-feira, 2 de abril de 2014
O sentimento de liberdade
terça-feira, 20 de agosto de 2013
A terceira opção
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Proprietários da vida
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Cientistas condenados
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Ciência e Política
terça-feira, 31 de julho de 2012
A epistemologia do milagre
O processo passa, em primeiro lugar, por um departamento médico cuja finalidade, utilizando a linguagem de Karl Popper, é de tentar falsificar (mostrar que é um falso milagre) o acontecimento, mostrando que a cura pode ser explicada por causas naturais. Este processo, do ponto de vista epistemológico é também muito interessante, pois "exclui todas as doenças psicológicas (pois são organicamente inverificáveis) e aquelas sob tratamento (pois este pode ser a causa da cura, mesmo que isso seja estatisticamente improvável)". Há todo um esforço de reduzir o fenómeno a uma explicação empírica e testável. Mas se a cura é "inexplicável no estado actual dos conhecimentos médicos", o dossier passa um segundo comité médico, de âmbito internacional. Apenas os casos que passam nesta segunda comissão de carácter médico-científico é que são remetidos para esfera religiosa, para o bispo do lugar da pessoa curada (e não para o bispo de Tarbes e Lourdes) que, ajudado por uma comissão canónica diocesana, determina se a cura pode ser declarada, segundo a fé, milagrosa ou não. A última declaração de uma cura milagrosa foi em 2005 e era referente a um processo que tinha 53 anos.
O que é pertinente observar é o extremo cuidado com que a Igreja Católica lida com este tipo de fenomenologia e a mobilização que faz de uma aparelhagem científica e filosófica para determinar a verosimilhança metafísica do fenómeno. Não é apenas o recurso à ciência médica que está em jogo, ou o recurso a uma certa concepção epistemológica que pode encontrar raízes ou semelhanças em/com o falsificacionismo popperiano. Há no processo, mesmo depois de declarada a natureza milagrosa da cura, um elemento que - embora eu não saiba se isso, no âmbito da Igreja, é praticável e praticado - permite reverter a declaração: "a cura é inexplicável no actual estado dos conhecimentos médicos". O que deixa em aberto o caminho para falsificar o milagre declarado (mostrar que é falso), pois novas formas de compreensão das patologias poderão trazer uma nova compreensão da doença e da cura, mesmo que esta seja instantânea e tenha efeitos duradouros.
Esta racionalidade religiosa, esta busca de uma probidade intelectual em matéria de fé, por parte da Igreja Católica, pode ser uma das variáveis a ter em conta para explicar a razão do declínio dessa mesma fé. Esta, pelo menos ao nível popular, alimenta-se do prodígio, e o milagre é o prodígio mais democrático que pode existir. A Igreja ao restringir drasticamente e de forma tão racional a irrupção de milagres no quotidiano das pessoas acaba por fazer alinhar a própria instituição na grande corrente iluminista anti-católica, gerando, ao mesmo tempo, um afastamento de largas camadas populares que, educadas numa tradição do maravilhoso e da superstição muito anterior ao cristianismo, se cristianizaram pelo maravilhoso e prodigioso que sobressaía no cristianismo. Isto coloca um problema bastante interessante: como será possível uma religião que abandona a superstição, através de uma crítica racional, e que não se resuma, como o protestantismo, a uma mera moralidade racionalizante?






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