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sexta-feira, 5 de junho de 2026

A encíclica de Leão XIV


A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. Pelo contrário. Contudo, Leão XIV traça de forma clara os perigos que ela encerra. Perigos para a pessoa: a ilusão de que a IA é humana, o logro de ser moralmente neutra, o enfraquecimento do pensamento crítico, a promoção do isolamento das pessoas e de dependência da IA. Perigos para a comunidade: concentração de poder e novos monopólios, ameaças à dignidade do trabalho e promoção de novas formas de escravatura, utilização da IA em conflitos militares. Perigos para a humanidade: a utilização da IA para ultrapassar a condição humana, segundo as narrativas do transumanismo e do pós-humanismo, onde o homem é visto como um produto a melhorar. 

A reflexão sobre a IA arrasta consigo também uma reflexão política. Leão XIV salvaguarda a importância do Estado para a coesão da sociedade civil e para a harmonização justa da distribuição do produto da actividade humana. Sublinha a importância da democracia política como garantia da participação dos cidadãos e impedimento da monopolização do poder por elites movidas por interesses particulares. Salienta o papel fundamental da política como lugar produtor de regras, avaliações independentes e transparência, que evite que o bem comum seja imposto de cima para baixo por lógicas algorítmicas controladas não democraticamente. Condena a submissão dos Estados e dos actores políticos a uma lógica de Realpolitik, que substitui o diálogo e a negociação entre Estados por um estado permanente de guerra. 

A encíclica papal tem uma dimensão crítica e uma dimensão construtiva. A crítica dirige-se, sem referir nomes ou potências, aos EUA de Trump, à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping. São os principais agentes antidemocráticos e fomentadores de uma ordem internacional baseada na guerra. Por outro lado, a encíclica papal transporta em si um conjunto de valores morais, económicos e políticos que deveriam ser o horizonte das democracias liberais e dos actores políticos democráticos. Deveria ser o chão comum, que nas sociedades livres, uniria, para lá das diferenças, a direita e a esquerda. É de assinalar, assim, que a Igreja Católica se tornou, com o passar do tempo, na grande instituição defensora da democracia e dos direitos civis, políticos e sociais. O que não é pouco num tempo de grande incerteza promovida pelo avanço tecnológico,  pelos interesses das grandes potências e pela avidez das grandes empresas.

domingo, 3 de maio de 2026

A perda de sentido do mundo


A desordem geopolítica que atinge o mundo, se interpretada de uma maneira determinista, pode ser vista como a consequência das profundas alterações da economia global, fundamentalmente das revoluções tecnológicas (informática, cibernética, robótica, internet, redes sociais, inteligência artificial). A desordem política actual seria a consequência necessária destas transformações. Ora, esta leitura empobrece o modo como podemos compreender o que se está a passar. Haverá, claro, uma correlação entre ambos os fenómenos, mas uma correlação não é uma relação causal. Há uma outra ordem que não é, por norma, tida em conta, mas que tem um papel fundamental. 

>Nos anos vinte do século passado, o teólogo católico ítalo-germânico Romano Guardini, na Carta IX da obra Cartas do Lago de Como, escreve: “A ciência, a técnica e tudo o que delas provém só se tornaram possíveis por causa do Cristianismo. Só um homem a quem a imediação divina da alma redimida e a dignidade do renascido incutiram a consciência de que é diferente do mundo que o rodeia — só esse homem pôde destacar-se da vinculação à natureza como o fez o homem da era técnica.” Ora, a ordem religiosa do Cristianismo, fundamental para a emergência da ciência moderna e da técnica, encontra-se profundamente desgastada. Por um lado, parte significativa do mundo cristão desenvolvido abandonou a religião; por outro, esse cristianismo está a ser usado de um modo superficial e emotivista, como acontece no fundamentalismo evangélico que suporta, por exemplo, a actual administração americana. 

O crescimento exponencial da ciência e da tecnologia não encontrou no homem contemporâneo a profundidade espiritual e a orientação moral necessárias para compreender e limitar os efeitos negativos gerados pela abstracção científica, bem como pela dominação da natureza e do ser humano pela tecnologia. Sem essa profundidade, dada pelo cristianismo, nomeadamente o católico, os seres humanos sentem-se incapazes de encontrar um sentido que integre na sua consciência os produtos das revoluções científicas e tecnológicas. Esse vazio torna as pessoas incapazes de interpretar o mundo. Sentem-se atraídas por explicações e soluções fáceis que conduzem a opções políticas e sociais que ajudam a explicar a desordem em que vivemos. É plausível pensar que, sem o retorno de um cristianismo enraizado nas pessoas e nas comunidades, não haverá capacidade para encontrar sentido para o mundo em que vivemos, pois desconhece-se ou despreza-se o solo em que o edifício científico-tecnológico tem as suas raízes.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Alívio, decadência e sensatez

Um suspiro de alívio. Há muito que a União Europeia não recebia uma boa notícia. Teve-a no domingo com a derrota, nas eleições húngaras, de Viktor Orbán. Mais do que a vitória de Péter Magyar, o importante foi a derrota de um claro opositor ao projecto europeu, amigo de dois grande inimigos da União Europeia, Putin e Trump. Contudo, só o tempo dirá se o novo governante da Hungria irá reverter os elementos iliberais criados por Orbán e qual é o seu empenho no projecto comum. O mais plausível é que tente compatibilizar a integração  na União com o nacionalismo húngaro, sublinhando, no caso da imigração, a preeminência dos direitos do cidadão, que são uma legitimação da exclusão dos não húngaros, sobre os direitos humanos, que prescrevem uma perspectiva mais inclusiva do estrangeiro.

Uma decadência grotesca. É um espectáculo extraordinário aquele a que assistimos em directo: a decadência da maior potência económica e militar. O mais interessante é que os eleitores americanos não foram enganados. Foram eles que escolheram Trump e sabiam perfeitamente quem ele era e é. Conheciam o seu narcisismo, a sua incompetência política, a sua falta de gravidade. Sabiam também que se iria rodear de gente tão pouco competente e tão pouco racional quanto ele. Uma das democracias mais sólidas do planeta suicida-se em directo. Imagine-se o que pensarão os inimigos dos EUA, para não falar dos amigos. Uma comédia grotesca encenada com actores de terceira categoria, que continua a encantar parte significativa dos eleitores americanos. É bom não esquecer este encantamento, até porque nos pode calhar em sorte um espectáculo semelhante.

A sensatez na cadeira de S. Pedro. Os recentes ataques de Donald Trump ao Papa Leão XIV são um sinal inequívoco de que este está a dizer aquilo que deve ser dito. Os delírios militares da administração americana nada têm de cristão. Tentar transformar o ataque ao Irão numa guerra religiosa não é apenas uma blasfémia tonta. É uma enorme irresponsabilidade, que poderá ter consequências bastante desagradáveis para o mundo ocidental, onde os EUA, apesar de Trump, se situam. Leão XIV disse aquilo que, como líder religioso, deveria dizer, mas também disse aquilo que um líder político responsável e civilizado deve dizer. Neste momento, apesar de ser atravessada por muitas correntes, incluindo uma corrente trumpista, a Igreja Católica é a voz mais forte no mundo a fazer-se ouvir em defesa da vida civilizada e decente. As democracias liberais fariam bem em estar atentas à voz que clama no Vaticano. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Em tempo de descristianização

Aquilo a que estamos a assistir no mundo ocidental, com a erosão das democracias liberais, a ascensão do populismo de extrema-direita, a fabricação, através dos algoritmos das redes sociais, de uma cultura de ódio, de conflitualidade e de negação do outro, tudo isso traz consigo a marca da descristianização que atingiu o Ocidente. É certo que uma parte dos políticos da extrema-direita já se afastou abertamente do cristianismo, tal como no século XX fascismo e nazismo eram, abertamente, anticristãos. Outra parte, contudo, continua a reivindicar-se como cristã, não hesitando em utilizar a religião como forma de propaganda política, enquanto defende abertamente posições que estão em confronto violento com os valores originais trazidos por Cristo. 

Vejamos – apenas como exemplo – o alvo preferencial da extrema-direita um pouco por todo o lado: o imigrante, o estrangeiro. Será que um cristão poderá subscrever as políticas que a América de Trump impõe, ou aquelas que os pequenos Trumps europeus pretendem impor? A resposta encontra-se no evangelho de Lucas, capítulo 10, versículos 25 a 37, a parábola do bom samaritano. A resposta de Jesus ao doutor da lei, do ponto de vista político, é interessante porque, podendo escolher como símbolo do amor ao próximo uma qualquer pessoa da comunidade judaica, escolheu um samaritano, visto pelos judeus como estrangeiro e particularmente desprezível. Jesus não mandou os samaritanos para a sua terra, mas escolheu um para simbolizar a conduta misericordiosa que todos devemos ter com o nosso próximo. 

Isto não significa, do ponto de vista político, que os países devem ter as portas escancaradas, mas que há um dever de não tratar mal aqueles que vêm fazer o que os ocidentais não querem ou não conseguem fazer. Só num clima de profunda descristianização é possível ver as políticas de Trump ou os cartazes que André Ventura espalhou pelo país. Só nesse clima se pode perceber o ódio que é destilado nas redes sociais por apoiantes da extrema-direita. Só perante uma completa perda de influência dos valores fundamentais do cristianismo se pode entender a derrocada civilizacional a que assistimos. Estamos em época natalícia, mas o Natal está afogado no consumo sem fim e é, a cada hora, negado pela intolerância de uma nova elite de políticos extremistas que, apesar de alguns dos seus líderes encherem a boca com Deus, não hesitaria em mandar crucificar aquele cujo nascimento o Natal pretende reviver. 

Apesar de tudo, um Bom Natal e um Feliz Ano Novo. Há sempre um princípio de esperança que nos deve orientar, mesmo na noite mais escura.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Um novo Papa


A eleição de um novo Papa é um acontecimento sempre marcante, apesar de se viver, na Europa, em sociedades cada vez mais estranhas ao cristianismo. Uma das grandes preocupações, antes, durante e após a eleição de Leão XIV, era se o sucessor de Francisco seria conservador ou progressista. Assiste-se já a um ataque da extrema-direita ao novo Papa por não ser um conservador, e, à esquerda, desconfia-se de que não será tão progressista quanto se esperaria. Há, em tudo isto, um equívoco. Termos como conservador e progressista são provenientes de uma ordem de coisas que não a religião e encerram neles a confissão de paixões políticas. Ora, se há uma paixão que deve guiar um Papa, é a Paixão de Cristo — e não as paixões políticas. Mesmo para um Papa, isso não é fácil.

O Sumo Pontífice não é apenas o sucessor de Pedro. Este, além de uma pessoa, é uma função. Por isso, qualquer Papa é, de novo, Pedro, a pedra sobre a qual o Cristo edifica a sua Igreja. Se olharmos para os textos evangélicos, encontramos dois episódios centrais para compreender esta função entregue a um ser humano. Em primeiro lugar, o reconhecimento. A função petrina é instaurada após a pergunta de Cristo: Quem dizeis vós que Eu sou? E Simão Pedro responde: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. Contudo, a interpretação deste episódio não pode ser desligada da leitura de um outro: o da tripla negação de Cristo por Simão Pedro, na noite em que Jesus foi preso pelos poderes deste mundo e a sua Paixão era iminente. Qualquer Papa vive na tensão entre o reconhecimento de Cristo e a negação desse reconhecimento perante o perigo. Essa negação é, na verdade, a condescendência submissa aos poderes deste mundo.

As tentações conservadoras e progressistas dos Papas são as três negações de Pedro, no mundo moderno, perante a proximidade da Paixão do Mestre. São a cedência aos poderes do mundo, às suas paixões políticas e ao temor perante o significado da Paixão crística. Isto não torna os Papas heréticos. Mostra-os, à semelhança de Pedro, como homens frágeis perante um acontecimento que ultrapassa a compreensão humana. A função papal inclui, deste modo, o reconhecimento de Cristo como Filho de Deus, mas também a negação de que se pertence ao seu mundo. João Paulo II é louvado pela sua luta contra o comunismo; Francisco, pela sua denúncia da injustiça social. Ora, em ambos os casos, isso constitui a fraqueza perante a Paixão eterna do Filho de Deus. É a sua negação. Contudo, esta negação não ofusca o essencial: a resposta à pergunta Quem dizeis vós que Eu sou? Na economia da crença católica, o Papa é o que diz: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Um novo Papa

Hoje foi escolhido um novo Papa. Três sinais interessantes. Em primeiro lugar, a Europa está em perda dentro da Igreja Católica. Enquanto os europeus se vão afastando da Igreja, esta parece procurar âncoras noutros lados. Dois Papas vindos do Novo Mundo é mais do que um mero acaso. É uma orientação.

Em segundo lugar, a escolha do nome: Leão XIV. Se esta escolha pretende significar alguma coisa, e faz sentido que assim seja, isso significa o restabelecer de uma ligação com o Papa Leão XIII. A atenção que este deu à questão operária - em polémica tanto com o liberalismo como com o socialismo - é a sua imagem de marca. Leão XIV parece predisposto a dar atenção não já tanto à questão operária, mas à dos pobres e dos desfavorecidos. A questão social continua viva na Igreja.

Por fim, uma das frases emblemáticas das suas primeiras palavras. Para começar, escolheu a paz de Cristo, essa paz desarmada e desarmante, como disse. Isto mostra que continuará a haver, por parte da Igreja Católica, uma atenção muito especial aos problemas da paz e da guerra. Não uma atenção inscrita na política deste mundo, mas radicada na mensagem evangélica. Uma paz que não é a dos homens, numa política que não é deste mundo.

sábado, 22 de março de 2025

Uma passagem do Evangelho de João

 

Agora que nos estamos a aproximar, no calendário católico, da Páscoa, talvez valha a pena meditar nos versículos 36, 37 e 38, do Capítulo 18, do Evangelho de João. Depois de entregue a Pôncio Pilatos, Jesus respondeu à pergunta deste: Que fizeste? Dito de outro modo: de que és culpado? Ora, a resposta de Jesus é surpreendente: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora: o meu reino não é daqui.» Quando Pilatos pergunta: «Então tu és rei?», a resposta continua a ser surpreendente: «Tu dizes que sou rei. Eu nasci para isto e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade.» Esta passagem do Evangelho de João não deve ser vista como o anúncio de uma utopia, mas como o ideal regulador de toda a política.

São dois os elementos centrais: a violência e a verdade. Jesus consente na afirmação de que é rei, mas é um soberano que não tem um corpo de guardas que lute por ele. Abdica da violência legítima para fazer vingar a sua soberania. Esta centra-se na verdade. A verdade deve ser entendida não apenas como um acordo entre aquilo que se diz e os factos, mas como uma vida verdadeira, onde se inclui o bem e a justiça. Não é a violência, mesmo que legítima, que deve suportar a governação, mas o exercício dessa verdade. As palavras de Cristo, na sua radicalidade, causam a mais profunda perplexidade nos homens políticos. Essa perplexidade está resumida na resposta de Pilatos às palavras de Jesus: «O que é a verdade?» Pôncio Pilatos – como qualquer autoridade política – conhece bem a violência como forma de exercer a soberania, mas desconhece a verdade.

Como o idealismo platónico, o texto evangélico fornece, ainda que de modo diferente, um padrão pelo qual podemos medir a bondade das governações humanas. Quanto menor for a violência a que recorrem e quanto mais preocupadas estiverem com a verdade, o bem e a justiça, melhor serão. Quanto mais violência usarem e menos preocupadas estiverem com a verdade, o bem e a justiça, mais detestáveis serão. Um reino cujo rei não usa a violência e se conduz apenas pela verdade não é daqui e de agora, não é deste mundo. Contudo, esse rei é o padrão pelo qual, no fundo dos corações, os homens medem os seus soberanos. E sempre que os homens se revoltam contra as governações é porque estas se afastaram da verdade, do bem e da justiça e no seu lugar colocaram a violência. Eis três versículos terríveis para aqueles que têm nas mãos o poder sobre os outros.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Espíritos de Natal


Crentes e descrentes, ou nem uma coisa nem outra, quase todos, no Ocidente, dão importância ao Natal, muitas vezes sob a capa de festa de família, momento de reunião daqueles que os afazeres da vida ou as disposições do ânimo mantêm afastados durante o ano. A democratização do espírito mercantil da época tem um efeito de ocultação de algumas ideias fundamentais que subjazem ao Natal. A mercantilização da quadra é o dispositivo pelo qual o espírito mundano esconde o que parece ser o essencial do período natalício – um essencial que se dirige a todos os homens, mas que estes têm dificuldade em acomodar.

Antes de tudo, surge a decepção das expectativas humanas. No nosso quadro mental, um Salvador aparece como uma figura de poder e de riqueza. Contudo, aquilo que o Cristianismo sublinha é o contrário: a figura central apresenta-se despida de todos os poderes e de todas as riquezas deste mundo. Ora, se Ele é a figura arquetípica dos cristãos – melhor, de toda a humanidade –, então estes devem conformar-se com esta renúncia àquilo que, em geral, mais estimam e pelo qual estão dispostos às maiores atrocidades. É uma decepção que o actual espírito natalício faz por esquecer.

Concomitante a esta decepção está o quadro ético proposto pelo nascimento simples e humilde do redentor da humanidade. Gostamos de cultivar a complexidade, que imaginamos ser símbolo da nossa riqueza material ou espiritual, e a afirmação de nós próprios, uma forma benévola de descrever a nossa arrogância. O espírito natalício, se fiel ao acontecimento do presépio de Belém, é também uma ferida narcísica aberta na imagem que cultivamos de nós mesmos.

Uma característica da mensagem presente no nascimento de Cristo parece alinhar-se com os nossos desejos: a esperança. Contudo, também aqui nos confrontamos com um motivo de desencanto, pelo esforço e pela coragem que exige. O Natal significa, na economia da religião cristã, esperança, mas o objecto dessa esperança, ao contrariar as nossas inclinações naturais e ao exigir de nós a capacidade de sacrifício, tende a conduzir-nos ao desespero ou, mais frequentemente, à indiferença.

As exigências colocadas pelo Cristianismo e os imperativos que, subliminarmente, o espírito de Belém traz consigo são de tal modo incomensuráveis à natureza humana que homens e mulheres sentem, ao mesmo tempo, atracção e repulsa. A atracção reside no facto de não terem apagado o acontecimento da memória e de o continuarem a comemorar. A repulsa manifesta-se na forma como o fazem: numa inversão radical do espírito que se revelou no presépio de Belém. Somos humanos, demasiado humanos. Um bom Natal.

sábado, 26 de agosto de 2023

Ainda a visita do Papa Francisco


Com excepção de um núcleo jacobino e da liderança estarola da extrema-direita, a aceitação da visita do Papa Francisco, e do que veio dizer, foi muito ampla. Será o actual Papa um taumaturgo capaz de operar milagres e de fazer coincidir gente que, por norma, tem as mais contrárias opiniões? O carisma de Giorgio Bergoglio ajuda bastante. Papas anteriores, de perfil mais conservador, teriam dificuldades em encontrar não uma excelente recepção no país, mas uma tal unanimidade. Contudo, deverá ser na própria Igreja Católica que devemos buscar esse poder de atracção, o qual é pior ou melhor interpretado pelos seus representantes, seja no Vaticano, seja nas dioceses.

Se olharmos para o arco constitucional dos países democráticos da Europa, encontramos três grandes famílias ideológicas. O conservadorismo, o liberalismo e o socialismo. Os conservadores, apesar da sua pluralidade, enfatizam a estabilidade e a continuidade das instituições, e se queremos encontrar um conceito para definir essa ideologia será o de tradição. Os liberais, que existem tanto na direita como na esquerda, defendem um conjunto de valores políticos e morais, onde se inclui a democracia e a importância do indivíduo. O conceito central desta corrente é o de liberdade. Por fim, os socialistas, que vão desde os velhos sociais-democratas até aos comunistas, têm, com diferentes intensidades, preocupações sociais. A ideia nuclear será a de igualdade. Em resumo, as principais correntes ideológicas do arco constitucional giram em torno da tradição, da liberdade e da igualdade.

Os três conceitos, porém, emergem na Igreja Católica e são inerentes à sua própria natureza. A tradição apostólica, que estabelece uma conexão entre Cristo e os crentes actuais. A liberdade dos homens, pois são dotados de livre-arbítrio, isto é, de capacidade de escolha, como ensinou Santo Agostinho, e a igualdade de todos os seres humanos perante Deus. São estas três ideias constitutivas do Cristianismo originário que, com a implosão da Igreja, após a Reforma protestante e o advento do Iluminismo, se emancipam do domínio da religião e são apropriadas pelo mundo da política. Em todas as três principais ideologias políticas do arco constitucional ressoa ainda, de algum modo, a voz do Cristianismo e da Igreja Católica. Não admira, assim, que, em certas circunstâncias, pareça existir o milagre de um grande consenso. O actual Papa tem uma grande capacidade de fazer pontes, mas isso deve-se, também, ao papel que o Cristianismo teve e tem ainda na modelação das nossas sociedades e das nossas crenças políticas.

sábado, 18 de março de 2023

Os abusos e a desorientação da Igreja


A Igreja Católica portuguesa, na sequência do relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais, tem mostrado uma inconcebível desorientação. A resposta dada pela Conferência Episcopal Portuguesa e algumas intervenções de altos dignitários, entre eles o Cardeal-Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, deixaram muita gente perplexa e não poucos católicos desiludidos. O carácter sexual dos abusos tem ocultado a raiz do problema e a causa última da desorientação eclesiástica. Há quem pense que a questão está na relação perversa que a Igreja Católica mantém com a sexualidade, por um lado, e a exigência do celibato dos padres, por outro. O problema, todavia, é mais fundo.

É um facto que existe uma pulsão na Igreja para tentar controlar a sexualidade dos fiéis ou mesmo, caso fosse possível, de toda a gente. Enquanto se preocupa com o controlo da vida sexual dos outros, o clero – que domina toda a Igreja – sempre foi muito benevolente para com os seus, mesmo nos casos de abuso de menores, como se tem sabido. O problema, porém, não é, em primeiro lugar, um problema com a sexualidade, mas a forma como a Igreja tem sido incapaz de lidar com o mundo moderno e a autonomia dos indivíduos. Não é a sexualidade que leva parte do clero à desorientação, mas o facto de a relação com os crentes, na qual o pastor tem poder sobre as consciências, estar em contradição com sociedades onde os indivíduos são livres. Não podemos esquecer que os abusos, agora relatados pela Comissão Independente, ocorreram em relações onde, por norma, o poder eclesial do abusador se conjugava com a submissão das vítimas.

Essa relação de poder sobre as consciências está ameaçada. É essa ameaça que explica a desorientação de parte importante da hierarquia católica. Outrora, o seu poder era suficiente para ocultar as coisas desagradáveis. Agora deixou de ser. Enquanto a Igreja não compreender que a liberdade das pessoas e a autonomia da sua consciência é um bem que deve ser não só respeitado, mas cultivado, continuará a ver nos padres pastores de um rebanho de ovelhas submissas. E isto abre o caminho para todos os abusos. O que há de doentio na relação da Igreja com a sexualidade, o que há de inominável na história dos abusos, radica numa perversa relação de poder dos clérigos com os fiéis. Sem alterar esta relação, parte substancial da Igreja continuará desorientada, perdida entre o sonho do retorno a um passado de poder e dominação das consciências e os ditames de um mundo onde cada um deve guiar-se pela sua razão e não pela do prior da paróquia.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Bento XVI, Lula da Silva e guerra na Ucrânia


Bento XVI. No último dia do ano que acabou morreu o Papa Bento XVI, Joseph Ratzinger. Bento XVI não suscitou nem grandes reconhecimentos populares nem grandes ódios. A serenidade e a timidez não lhe conferiam o dom da comunicação com as massas. Contudo, tinha uma enorme solidez intelectual e uma visão muito clara do papel da Igreja Católica no mundo. Percebeu que as interpretações ditas progressistas do Vaticano II estavam a conduzir a Igreja à irrelevância e estava consciente de que a Europa se podia perder para o catolicismo. Contudo, designá-lo como conservador – ou ultraconservador – é falhar completamente o alvo. Era apenas e completamente católico, fiel à tradição apostólica, às sagradas escrituras e ao magistério da Igreja. Do ponto de vista político, tinha uma funda compreensão da situação da Europa e os livros que lhe dedicou continuam a merecer leitura.

Lula da Silva. No primeiro dia do novo ano, Lula da Silva tomou posse como Presidente do Brasil. O acto, normal em democracias maduras, representou, nas circunstâncias em que o Brasil tem vivido, uma vitória da democracia. Uma vitória difícil, num país em que parte da população pede a instauração de uma ditadura militar e com ela o fim das liberdades políticas. Veremos se a experiência política do novo Presidente é suficiente para ultrapassar a profunda divisão em que o país se encontra, onde a direita democrática foi pulverizada pelo bolsonarismo, que tem um vincado ódio ao centro esquerda, que pinta como se fosse constituído por perigosos radicais. Veremos ainda se Lula da Silva tem capacidade e instrumentos políticos para tirar da pobreza os 60% de brasileiros, ou parte deles, que nela se encontram.

Guerra na Ucrânia. O ano que acabou trouxe a guerra para dentro da Europa. Foi o ano em que os europeus tiveram uma terrível lição sobre o que é a política internacional. As guerras eram há muito, com exclusão do problema dos Balcãs, uma coisa longínqua. Agora, é à porta de casa, uma guerra incompreensível para o cidadão comum. Os europeus aprenderam – espera-se – que a sua segurança não está garantida e que é preciso fazer alguma coisa por ela. Aprenderam ainda outra coisa – espera-se, mais uma vez –, aprenderam que diversas potências mundiais utilizam a economia e os negócios como forma de fazer ruir a casa europeia, criando laços de dependência que, na altura certa, são usados como trunfos políticos, senão militares, para conduzir, muitas vezes com cúmplices europeus, os países da velha Europa à submissão.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O presépio de Belém


Vivemos numa sociedade em que não apenas o Estado se exime de qualquer orientação confessional, como parte substancial da população, mesmo a que se diz crente, tem uma relação débil com a religião. Contudo, o Natal não deixa de ser uma festividade a que a grande maioria das pessoas dá significativa atenção. Visto como festa da família, como momento em que pessoas que pouco se vêem durante o ano se encontram, o Natal tem, nos dias de hoje, o seu grande impulso não na religião, mas no comércio. A questão que se coloca é se este espírito de Natal é compatível com o acontecimento que lhe deu origem e motivação.

O cristianismo talvez seja a mais estranha de todas as religiões. É marcada por um exercício de humilhação, como se esta fosse a condição de possibilidade de uma exaltação numa outra vida. Estamos perante uma religião que nasce da ideia de que Deus encarnou, viveu uma vida humilde e morreu na cruz, a mais humilhante das formas de morte daqueles tempos. A questão começa de imediato no nascimento do Messias. Não nasce num palácio, nem nos círculos do poder religioso judaico. Nasce num estábulo, como se quisesse identificar, na Terra, a humildade como a marca daquilo que é divino.

Se há virtude que, nos dias de hoje, tem má fama, essa é a da humildade. Não há quem não queira afirmar-se, mostrar-se como o melhor, o mais forte, o mais sedutor, o mais poderoso. A vida social e a educação dos neonatos convergem para a afirmação da subjectividade, como se cada uma fosse o centro do universo, o ponto em torno do qual tudo deve girar. O Natal simboliza o contrário. O mais poderoso é o mais frágil e humilde. A encarnação da divindade não vem para mostrar um poder, mas para servir até à ignomínia da cruz. A descristianização da sociedade significa que o modelo crístico deixou de ser há muito o ideal regulador do homem. O Natal, para a nossa cultura, é um anacronismo e, ao mesmo tempo, uma provocação.

Essa provocação cresce quando se contrapõe a pobreza do presépio de Belém e o ideal social que nos rege. Ter mais, consumir mais, aceder ao maior número de experiências possíveis. O próprio festejo natalício já não é o da pobreza do Menino Jesus, mas da capacidade que se tem de distribuir presentes, uma afirmação de que não se é pobre. O cristianismo, com o nascimento e morte do Cristo, é um exercício de desapossamento de si e dos bens materiais. Ora, isso é totalmente estranho aos valores pelos quais nos regemos. Nada há de mais incompatível com o actual espírito natalício, como o encaramos, do que a terrível frugalidade do presépio de Belém.

terça-feira, 22 de março de 2022

Guerra metafísica

Giorgio de Chirico, Gladiadores y león, 1927
Uma guerra metafísica pela salvação humana, assim considera Cirilo, patriarca de Moscovo e líder da Igreja Ortodoxa Russa (ver aqui), a invasão da Ucrânia. Como se vê, não é apenas no mundo islâmico que a guerra é vista como um meio de salvação e de fazer frente aos infiéis. O pior é que Cirilo e Putin estão completamente alinhados. Não se trata de ocupar um país soberano, mas de salvar  o mundo, libertá-lo dos perigosos valores ocidentais. Esta resistência aos valores ocidentais e a defesa dos valores tradicionais russos estão, inclusive,  plasmadas na Nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Quando as guerras são por motivos económicos, a sensatez chega mais cedo. Quando são desencadeadas pela loucura de salvar a humanidade ou para proteger a pureza de uma suposta tradição, há que esperar o pior. E o pior começa com a mobilização de uma religião, cujo fundador deu a sua vida em nome da salvação dos homens. Deu a sua, não a dos outros. Ao patriarca Cirilo não o incomoda que o sacrifício não seja o seu, mas o de milhares de inocentes. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O Natal do nosso confinamento

Um período significativo da história da humanidade está ligado à existência de uma omnipresente dimensão religiosa. Não é necessário ser crente para compreender que o conjunto de narrativas míticas e de rituais simbólicos foram uma vantagem competitiva da espécie para se adaptar ao meio onde tem de conduzir a sua existência. Por norma, na vida quotidiana, a religião nunca é pensada dessa forma. Há os crentes, mais ou menos praticantes, há os não crentes, há os que não sabem se devem crer ou não e há os indiferentes, mas todos eles tomam posição perante aquilo que é mais óbvio na religião, o sistema de crenças e sua eventual verdade ou falsidade. As pessoas não se confrontam com a utilidade que a religião tem na vida adaptativa da espécie.

Ora, os sistemas de narrativas e símbolos religiosos dirigem-se não propriamente à razão, mas a dimensões mais fundas do ser humano. Têm a função de o integrar no cosmos, na vida social e em si mesmo. O Natal, com o nascimento da criança divina e a consumação da encarnação do Verbo de Deus, segundo a narrativa do Novo Testamento, tem essa importância integradora do homem na dinâmica da existência. O Natal não é a comemoração de um facto ocorrido há dois mil anos, mas um momento simbólico em que o homem através dos rituais natalícios reforça os seus vínculos mais fundos com o mundo, a vida, a comunidade e a existência. Esse exercício, todavia, sofre, desde há muito, uma forte erosão, tendo-se tornado numa diabólica corrida ao consumo mesclada por uma insípida e vaga ideia de festividade familiar.

O que a actual pandemia vem desarranjar na vida dos homens não é o Natal, mas essa visão profana e insossa das festividades comemorativas do eventual nascimento do Menino. As pessoas têm menos tempo para enlouquecer nas compras, vão ter de restringir as deambulações, assim como as reuniões familiares deverão ser menos concorridas. Haverá muita gente obrigada a uma quadra frugal. No entanto, esta terrível pandemia poderia ser uma oportunidade para que o símbolo do Natal – o de um Deus que toma corpo e nasce como criança no menos nobre dos sítios – pudesse ajudar a que cada um se questionasse sobre o seu lugar no cosmos, na comunidade e em si mesmo, sobre o mistério do seu próprio nascimento e o sentido da sua vida. Este Natal do nosso confinamento é uma brecha que poderia abrir caminho para uma relação mais autêntica e profunda com a existência. Uma oportunidade inesperada, como todas as grandes oportunidades, que nos arriscamos, lamentosos por perder a rotina onde nos afundamos a cada ano, a nem dar por ela. Um bom Natal.

terça-feira, 12 de maio de 2020

A Igreja e a pandemia em Portugal


Em todo o processo ligado à pandemia provocada pelo coronavírus, a Igreja Católica em geral, e a portuguesa em particular, teve uma atitude que merece louvor. A Igreja portuguesa, e é nela que centro este artigo, mostrou que não é apenas uma instituição guardiã da fé e tradição apostólicas, mas ainda um factor de razoabilidade dos comportamentos sociais, exercendo uma influência muito importante na atitude de muitos portugueses, o que ajudou a minimizar os efeitos da pandemia. A Igreja teve maleabilidade e capacidade para se antecipar ao poder político na decisão de suspender cerimónias públicas e de dar um exemplo que acabou por reforçar a legitimidade das decisões dos órgãos políticos da República.

Em dois momentos, o 25 de Abril e o 1.º de Maio, houve uma tentativa, por parte de sectores políticos extremados, de forçar um confronto entre a Igreja e as instituições políticas da República. Das duas vezes, a Igreja portuguesa resistiu à tentação e manteve-se no seu lugar. Em relação à primeira data, a presença do Cardeal Patriarca nas cerimónias da Assembleia da República não apenas matou a tentativa de criar uma fricção entre instituições políticas e religião, como mostrou um inequívoco apoio ao regime democrático. Em relação ao dia do trabalhador e à inusitada coreografia que a CGTP, com o apoio político do Partido Comunista, decidiu montar em Lisboa, a Igreja pura e simplesmente não se imiscuiu, não reivindicou tratamento igual, não tirou partido da situação para se desviar da linha que ela própria traçara para si mesma. Não se envolveu no que não lhe dizia respeito.

Os que tentaram criar uma tensão entre religião e política não compreendem o que é a religião. Uma religião como a Católica tem uma dupla dimensão. Tem uma vida pública, exterior, feita em comunidade, em eclésia, e tem uma dimensão espiritual, interior, que os crentes podem viver mesmo nos momentos em que a vida comunitária está suspensa. A vida política pelo contrário só tem uma dimensão, a pública. Não há vida política sem o espaço público, sem a encenação ritual de um teatro mundano, que é onde se deve colocar o que aconteceu no 25 de Abril e no 1.º de Maio. A Igreja portuguesa não permitiu que se comparasse aquilo que não é comparável, vida religiosa e vida política. Vincou a diferença entre o espaço sagrado da religião e o espaço profano da política, encontrou formas novas de alimentar a vida espiritual dos crentes e, com essa atitude racional, reforçou tanto as instituições políticas como a credibilidade da própria Igreja. Deu a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Bloco de Esquerda, Rui Rio, União Europeia e Igreja Católica


O BLOCO DE ESQUERDA E OS DEPUTADOS. Parece haver divergências entre a distrital de Santarém e a direcção nacional sobre quem deve encabeçar a lista de candidatos pelo distrito às eleições legislativas. Este caso e também o do Porto, onde existe contestação às opções da direcção nacional, mostram que o BE está cada vez mais integrado no espírito do sistema partidário português. A proximidade do poder gera competição pelos lugares elegíveis e as direcções centrais dos partidos preocupam-se em assegurar fidelidades, uma forma de ter um exército coeso e evitar ruído. Todas estas coisas, porém, têm um preço. Para o BE é o da banalização, o ser visto como um partido igual aos outros.

AS OPÇÕES DE RUI RIO. O líder do PSD surpreendeu o establishment político com a escolha dos primeiras cabeças de listas para as eleições de Outubro. Os apoiantes de Rio verão nas escolhas uma excelente ideia para renovar o partido. Outros sublinharão nessas escolhas a estratégia para eliminar os críticos da direcção. Na verdade, tudo isso é irrelevante. O que tem relevo é, a confirmar-se o rumor, o facto de Rui Rio não encabeçar nenhuma lista de candidatos. Por uma questão simbólica e de tributo à democracia representativa, um candidato a primeiro-ministro deve encabeçar uma das listas colocadas à votação.

UNIÃO EUROPEIA. Há dias, Emmanuel Macron disse, a propósito do preenchimento dos lugares de topo da União Europeia, que os líderes europeus deram uma péssima imagem daquela. Em todos os projectos políticos há uma dose de utopia. Esta tem a função positiva de fornecer um horizonte. Tem, porém, uma dimensão negativa: a de querer forçar a realidade. As actuais dificuldades parecem mostrar que se passou a ténue fronteira onde a utopia europeia é positiva e se entrou num não lugar onde, por negação da realidade, a vida é impossível.

A QUEDA DO CATOLICISMO. Um estudo sobre a paisagem religiosa da grande Lisboa, coordenado por Alfredo Teixeira, da Universidade Católica, tem um conjunto de dados que vale a pena prestar atenção. Nesta área do país, apenas 55% das pessoas se dizem católicas, mas uma grande parte destas são não praticantes e muitas contestam as orientações da Igreja. Por outro lado, 35% dos inquiridos dizem-se crentes sem religião (13,1%), ateus (10%), agnósticos (6,9%) ou indiferentes (4,9%). O dado mais importante a realçar é a grande erosão sofrida pela Igreja Católica no seu poder para moldar consciências e atrair as pessoas para os seus valores. Em poucas décadas, a principal fonte de formação de valores morais da sociedade portuguesa parece ter-se esgotado.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Autarquias, professores, padres casados e futebol


PODER AUTÁRQUICO. Depois da operação Teia, uma nova operação contra detentores – ou ex-detentores – do poder autárquico. Não faço ideia o que pensam presidentes de câmara e vereadores sobre a reputação das autarquias. Qualquer cidadão percebe que essa reputação está muito longe de ser a melhor. Poderão os autarcas fazer alguma coisa pelo poder municipal e, através dele, pela democracia? Podem. Devem exigir a criação – ou criá-los, se para isso tiverem poder – de mecanismos de completa transparência nos concursos públicos e na gestão da coisa pública. Mecanismos a que os próprios cidadãos possam aceder. Devem ter uma gestão dos municípios e das suas condutas políticas absolutamente frugal. Isso ajudaria em muito à reputação das autarquias.

PROFESSORES. Saiu o calendário escolar do próximo ano lectivo. Os jornais anunciam três semanas de férias de Natal. Nas caixas de comentários dos jornais online não tardou a habitual campanha contra o professorado. Ninguém quis saber que a pausa lectiva do próximo ano é praticamente igual à dos anos anteriores. Há mais um dia sem aulas. Porquê? Porque o dia habitual de recomeço das aulas, 3 de Janeiro, é uma sexta-feira e o governo achou sensato fazer o recomeço na segunda-feira seguinte. O caso serviu para uma pequena fronda contra os professores. Isto diz muito do país que somos.

ORDENAÇÃO DE HOMENS CASADOS. A Igreja Católica vai discutir a possibilidade, na Amazónia, de serem ordenados como padres homens casados. A expectativa de alguns, porém, é que este seja o primeiro passo para que o processo seja replicado noutros lugares do mundo, onde a Igreja enfrenta o mesmo problema da falta de sacerdotes. A abertura ao mundo moderno feita pelo Concílio Vaticano II foi seguida pelo declínio das vocações e pelo abandono do sacerdócio por muitos padres. Os conservadores vêem o concílio como a causa do problema. No entanto, ninguém pode afirmar que mantendo-se a Igreja fiel ao espírito tridentino a situação não seria a mesma ou pior. Vamos assistir, por certo, a novos confrontos entre tridentinistas e adeptos do Vaticano II.

FUTEBOL. A transferência do jogador João Félix para o Atlético de Madrid, por 120 milhões de euros, por muito que adeptos compradores e vendedores se alegrem, mostra que o futebol é, há muito, um jogo cujo centro reside no dinheiro. Sem este, o futebol tal como existe desabaria. O que impressiona, porém, é os adeptos confundirem o peso do dinheiro com o mérito desportivo dos seus clubes. O mérito dos vitoriosos reside em grande parte no dinheiro que têm.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Natal e sociedade


Entre a religião e a sociedade há uma dinâmica que, nos dias de hoje marcados pela indiferença religiosa, parece já não ser compreendida pela maioria das pessoas. Esta incompreensão deve-se à religião ter sido relegada para o foro da subjectividade. As pessoas podem dizer-se católicas, frequentarem a Missa, mas na vida social comportarem-se objectivamente como alguém despido de qualquer crença religiosa. Isto afecta, de forma muito evidente, o sentido social da Festa da Natividade do Senhor, a qual se degradou numa espécie de orgia de consumo.

O Natal tem um significado religioso, de natureza espiritual, e tem um sentido social. Não foi apenas a sua dimensão espiritual que foi rasurada, mas também o significado profundo da sua natureza mais exterior e comunitária. No nascimento do Menino, as nossas sociedades sacralizavam e divinizavam a emergência de uma nova vida. O Menino Jesus é o arquétipo de todas as crianças que vêm à vida. Isto significava que a banalidade do nascimento humano tornava-se num acontecimento excepcional. Por mais crianças que nascessem, por mais vulgar que fosse a mecânica que conduz da fecundação ao nascimento, todo o recém-nascido era um excepção, um acontecimento extraordinário e singular. Uma manifestação divina.

No Natal, as sociedades celebravam o poder da vida, a sua regeneração e a sua eterna novidade. Celebravam também outra coisa, celebravam a sua própria continuidade. Esta simbolização, pelo Natal, da continuidade da vida e da comunidade parece, nos dias de hoje, completamente perdida, ocultada pela festividade profana que, dinamizada pela indústria e pelo comércio, se ergueu nas cidades e nos lares. Em vez da vida, desde há muito que o Natal celebra o poder de compra. Deixou de ser uma questão vital para se tornar num dado nas estatísticas económicas dos países e uma dor de cabeça para aqueles que, crentes ou não, terão de participar nas festividades, arrastados pela enorme máquina publicitária.

Que o Natal tenha perdido a sua dimensão espiritual, isso diz respeito aos crentes. Que ao Natal se tenha retirado o poder para simbolizar o triunfo da vida e a continuação da comunidade, deveria preocupar crentes e descrentes. Sem a simbólica do Natal, a vida e a continuidade de uma comunidade perdem a sua natureza sagrada e são arrastadas para o domínio do que é vulgar e banal. Se o Natal passou a ser uma prova do poder de comprar, a vida – essa que se renova em cada recém-nascido – tornou-se um exercício dependente de um cálculo económico, e a continuidade da comunidade ficou sujeita à aritmética dos prazeres e dos desprazeres que a nova criança poderá trazer.

[A minha crónica em A Barca]

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Igreja, o espírito e o sexo


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A recente declaração do cardeal Clemente sobre abstinência sexual dos católicos recasados e a intensa luta, ao mais alto nível da hierarquia católica, sobre problemas de ordem moral tornam manifesta, mais uma vez, a grande dificuldade que a Igreja Católica enfrenta nas sociedades modernas. O problema centra-se no conflito entre a autonomia e liberdade dos indivíduos, uma característica da modernidade, e a reivindicação, por parte da Igreja, de um papel de tutoria, em matéria moral, de preferência sexual, das consciências dos crentes. O que se passa é que cada vez mais crentes, não deixando de o ser, recusam submeter a sua consciência e a sua liberdade à tutoria dos sacerdotes católicos.

O Vaticano II e a acção do actual Papa são tentativas de lidar com este problema. Os ventos vindos do concílio nunca agradaram aos sectores conservadores da Igreja. Pior ainda é a acção de Francisco, a qual gera verdadeiros ataques de fúria e de desobediência por parte desses sectores. Há uma coisa, contudo, que os sectores conservadores têm razão. O aggiornamento proposto por João XXIII, Paulo VI e Francisco não tem conseguido travar o declínio do catolicismo nas sociedades modernas. Os conservadores equivocam-se, porém, quando pensam que uma Igreja reactiva para com a modernidade, fundada no espírito do concílio de Trento, seria capaz de evitar o declínio. Provavelmente, o declínio seria mais rápido.

Há um problema que me parece central neste conflito entre católicos conservadores e católicos actualizadores. É o da discussão se centrar em questões morais. Isto é um problema porque ambos diminuem, na prática, o âmbito do catolicismo. Surpreendentemente, tanto conservadores como actualizadores estão a transformar o cristianismo, tal como o fizeram os protestantes, numa mera moralidade. Ora o cristianismo é mais, muito mais do que uma doutrina moral, farisaica ou misericordiosa. É uma aventura espiritual.

A Igreja Católica possui uma herança espiritual, fundada na mística, que poderia ser uma chave para entrar em contacto com o mundo moderno. Essa espiritualidade tem recursos suficientes não apenas para lidar com pessoas livres mas também para libertar as pessoas. É essa ânsia de liberdade e de libertação que levou muitos ocidentais a interessarem-se pelas práticas espirituais do Oriente, do Tantra ao Yoga ou ao Zen. A Igreja Católica em vez de fazer uso, no mundo moderno, da sua riquíssima tradição espiritual, esconde-a e passa o tempo, literalmente, a discutir o sexo e a moral sexual, como se a vida espiritual dos homens se reduzisse ao coito, interrompido ou não.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A questão religiosa

A minha crónica em A Barca.

O Iluminismo assentou a sua avaliação – claramente, negativa – da religião revelada em três pilares críticos: a crítica do preconceito, da superstição e da autoridade que não advenha da razão. Segundo os iluministas, a religião revelada manteria uma atitude anti-racional fundada em preconceitos e superstições, na ordem do conhecimento, e na autoridade, no que diz respeito a matérias morais e à própria crença dogmática. Esta crítica racionalista tornou-se no Ocidente culto o padrão com que se julga ainda hoje a religião. O que levanta, pelo menos, dois problemas.

Em primeiro lugar, a religião tem dimensões que estão muito para além daquilo que é consignado num sistema de crenças explicativas do mundo ou num código moral. A vida religiosa assenta na relação do indivíduo consigo mesmo e com a transcendência. O essencial de uma religião é a vida espiritual que proporciona. É desta vida espiritual que, no decurso da história da humanidade, se soltaram os elementos que forneceram as primeiras explicações racionalizantes do mundo (os mitos que compõem todas as religiões) e as normas de conduta que regeram – e regem em muitas culturas – a vida das comunidades. Estes últimos elementos são aqueles que, pela sua natureza acidental e histórica, se transformam em preconceitos e superstições. No entanto, eles não fazem parte daquilo que é fundamental numa religião, apesar de serem, muitas vezes, o seu aspecto mais visível e também o mais polémico. Dito de outra maneira, a crítica do Iluminismo à religião deteve-se no acidental e não compreendeu o essencial.

Em segundo lugar, a dissolução crítico-racionalista da religião, o subestimar da sua importância na vida das comunidades, está a tornar o Ocidente incapaz de perceber os problemas que o mundo islâmico lhe coloca, tanto fora de fronteiras (o último caso é o da Turquia e da sua deriva anti-secular) como dentro (o terrorismo ou a não aceitação do modo de vida ocidental por imigrantes muçulmanos). Diversos sectores islâmicos vêem no abandono do cristianismo por parte dos ocidentais uma janela de oportunidade para expandir o Islão. Não tendo passado pelo Iluminismo crítico, estão convencidos de que o actual vazio religioso não poderá perdurar, o que abrirá ao Islão um futuro risonho na Europa. É por estes motivos que a religião não pode continuar a ser considerada pelos europeus uma superstição ou uma irrelevância. E é por eles também que se deve ter muito cuidado em deitar fora o cristianismo, pois corremos o risco de despejar o bebé com a água do banho.