sexta-feira, 5 de junho de 2026

A encíclica de Leão XIV


A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. Pelo contrário. Contudo, Leão XIV traça de forma clara os perigos que ela encerra. Perigos para a pessoa: a ilusão de que a IA é humana, o logro de ser moralmente neutra, o enfraquecimento do pensamento crítico, a promoção do isolamento das pessoas e de dependência da IA. Perigos para a comunidade: concentração de poder e novos monopólios, ameaças à dignidade do trabalho e promoção de novas formas de escravatura, utilização da IA em conflitos militares. Perigos para a humanidade: a utilização da IA para ultrapassar a condição humana, segundo as narrativas do transumanismo e do pós-humanismo, onde o homem é visto como um produto a melhorar. 

A reflexão sobre a IA arrasta consigo também uma reflexão política. Leão XIV salvaguarda a importância do Estado para a coesão da sociedade civil e para a harmonização justa da distribuição do produto da actividade humana. Sublinha a importância da democracia política como garantia da participação dos cidadãos e impedimento da monopolização do poder por elites movidas por interesses particulares. Salienta o papel fundamental da política como lugar produtor de regras, avaliações independentes e transparência, que evite que o bem comum seja imposto de cima para baixo por lógicas algorítmicas controladas não democraticamente. Condena a submissão dos Estados e dos actores políticos a uma lógica de Realpolitik, que substitui o diálogo e a negociação entre Estados por um estado permanente de guerra. 

A encíclica papal tem uma dimensão crítica e uma dimensão construtiva. A crítica dirige-se, sem referir nomes ou potências, aos EUA de Trump, à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping. São os principais agentes antidemocráticos e fomentadores de uma ordem internacional baseada na guerra. Por outro lado, a encíclica papal transporta em si um conjunto de valores morais, económicos e políticos que deveriam ser o horizonte das democracias liberais e dos actores políticos democráticos. Deveria ser o chão comum, que nas sociedades livres, uniria, para lá das diferenças, a direita e a esquerda. É de assinalar, assim, que a Igreja Católica se tornou, com o passar do tempo, na grande instituição defensora da democracia e dos direitos civis, políticos e sociais. O que não é pouco num tempo de grande incerteza promovida pelo avanço tecnológico,  pelos interesses das grandes potências e pela avidez das grandes empresas.

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