A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica
Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da
tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada
pelo Vaticano. Pelo contrário. Contudo, Leão XIV traça de forma clara os
perigos que ela encerra. Perigos para a pessoa: a ilusão de que a IA é humana, o
logro de ser moralmente neutra, o enfraquecimento do pensamento crítico, a
promoção do isolamento das pessoas e de dependência da IA. Perigos para a
comunidade: concentração de poder e novos monopólios, ameaças à dignidade do
trabalho e promoção de novas formas de escravatura, utilização da IA em
conflitos militares. Perigos para a humanidade: a utilização da IA para
ultrapassar a condição humana, segundo as narrativas do transumanismo e do
pós-humanismo, onde o homem é visto como um produto a melhorar.
A reflexão sobre a IA arrasta consigo também uma reflexão
política. Leão XIV salvaguarda a importância do Estado para a coesão da
sociedade civil e para a harmonização justa da distribuição do produto da
actividade humana. Sublinha a importância da democracia política como garantia da
participação dos cidadãos e impedimento da monopolização do poder por elites
movidas por interesses particulares. Salienta o papel fundamental da política
como lugar produtor de regras, avaliações independentes e transparência, que
evite que o bem comum seja imposto de cima para baixo por lógicas algorítmicas
controladas não democraticamente. Condena a submissão dos Estados e dos actores
políticos a uma lógica de Realpolitik, que substitui o diálogo e a
negociação entre Estados por um estado permanente de guerra.
A encíclica papal tem uma dimensão crítica e uma dimensão
construtiva. A crítica dirige-se, sem referir nomes ou potências, aos EUA de
Trump, à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping. São os principais agentes
antidemocráticos e fomentadores de uma ordem internacional baseada na guerra.
Por outro lado, a encíclica papal transporta em si um conjunto de valores
morais, económicos e políticos que deveriam ser o horizonte das democracias
liberais e dos actores políticos democráticos. Deveria ser o chão comum, que
nas sociedades livres, uniria, para lá das diferenças, a direita e a esquerda. É
de assinalar, assim, que a Igreja Católica se tornou, com o passar do tempo, na
grande instituição defensora da democracia e dos direitos civis, políticos e
sociais. O que não é pouco num tempo de grande incerteza promovida pelo avanço
tecnológico, pelos interesses das
grandes potências e pela avidez das grandes empresas.
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