A final da Taça de Portugal em futebol pode servir para uma
experiência de pensamento sobre valores morais e políticos. Não se trata do
resultado, mas, digamos assim, do apoio dos adeptos do futebol. Com exclusão
dos sportinguistas, estou convencido de que a generalidade dos outros tinham o
seu coração com o Torreense – mesmo que a razão dos benfiquistas, devido ao
cálculo para entrada directa na Liga Europa, os obrigasse a apoiar o Sporting.
E não se trata apenas de querer a humilhação de um cube rival, como podia ser o
caso de portistas e encarnados, mas de uma opção moral fundada num longínquo
arquétipo da nossa cultura, o episódio bíblico do combate entre o pequeno David
e o gigante Golias. O Sporting era o Golias presente no Estádio do Jamor, e o
Torreense, o David. Nestes casos, o apoio tende, quase unanimemente e excluindo
os adeptos do gigante em jogo, para o mais fraco, desejando-se a punição do
mais forte, apenas por ser mais forte, independentemente do seu mérito.
Esta pulsão para apoio ao mais fraco é interessante por três
motivos. Em primeiro lugar, porque tem o seu fundamento na cultura grega. Apesar
de ser profundamente inigualitária, a cultura grega punia a húbris,
noção que pode ser traduzida como autoconfiança desmedida, orgulho excessivo,
etc. De certo modo, os grandes clubes, devido ao seu poderio económico, são
encarnações dessa húbris, a qual perverte o equilíbrio desportivo que deveria
reinar entre todas as equipas. Só assim se poderia considerar que as competições
desportivas são justas, pois todas as equipas partiriam em igualdade de
condições. Em segundo lugar, porque essa pulsão se enraíza na cultura
judaico-cristã: no modelo do combate entre David e Golias, e na preferência
pelos mais fracos enunciada – embora, nem sempre cumprida – como a orientação
do cristianismo.
Por fim, porque neste apoio ao mais fraco há uma leitura
política. Se o coração dos homens estivesse orientado para o mérito, todos os
adeptos quereriam, à partida, que o melhor vencesse sempre. E por norma os
grandes clubes – que o são em virtude das suas vitórias – possuem mais mérito
do que os pequenos. Por isso, deveriam receber o apoio esmagador de todos os
adeptos do futebol. Não apenas dos seus. Isto significa que a pulsão para apoio
ao mais fraco é também uma pulsão igualitária. Ora, apesar de se viver numa
sociedade que promove, continuamente, o individualismo e a meritocracia,
fundamentos da desigualdade, no coração dos homens reside um sentimento
igualitário que se manifesta nas coisas mais inesperadas, como o apoio ao
pequeno David-Torreense contra o gigante Golias-Sporting.
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