terça-feira, 20 de abril de 2021

O xadrez do combate à corrupção

Vieira da Silva, La Partie d'échecs, 1943

O debate sobre o combate à corrupção tem sido um curioso jogo de xadrez. Os partidos mais influentes fazem lembrar os talentosos grandes-mestres daquela modalidade, quando se encontram em situação difícil. Com toda a arte que é a sua, jogam para o empate. Um espectador acidental olha para o tabuleiro e o que vê são apenas manobras para empatar, jogadas que consigam o efeito de tudo mudar para que tudo fique na mesma.

domingo, 18 de abril de 2021

Simulacros e simulações (20)

Tibor Honty, Fiction Game, Prague, 1952
Todo o jogo começar por ser uma simulação, um exercício da imaginação em busca de regras que criem uma actividade e ordenem gestos e objectivos. De seguida, passa a simulacro onde se imita não o jogo jogado, mas o jogo imaginado. Por fim, o jogo nasce. Não é mais do que uma ficção realizada.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Ensaio sobre a luz (90)

Peter Turnley, Novokuznetsk, Russia, 1991
A alegria ainda parece dançar-lhes no rosto, mas a luz no seu excesso nada deixa velar, nem o trabalho do tempo, nem a imperfeição da arte, nem a pobreza da existência, nem o cansaço da esperança, nem a melancolia em que a vida lentamente se transforma.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Beatitudes (45) A libertação da realidade

Paris anno 1960. Watch how modern the Citroen DS was at that time. Photographer unknown
A nostalgia é a beatitude permitida aos que viram o tempo passar sobre eles. Os velhos carros de há sessenta anos não são velhos, mas presenças vivazes na memória que se libertou da realidade. E aqui reside a chave da felicidade. A libertação do peso do real. Por isso, esses carros que o tempo tornou obsoletos são motivo de prazer, pois não temos de andar neles. São apenas imagens no fundo delido da memória, nas quais a inclinação à nostalgia sempre se compraz.

terça-feira, 13 de abril de 2021

A Garrafa Vazia 56

Maurice Tabard, Eye and beach - montage, 1949
Nas ruas, o alcatrão
derrete
sob o punho
bastardo do sol.
Enterro os pés
no betume
ardente
e como o pão
ázimo da morte.

Abril de 2021

domingo, 11 de abril de 2021

Na era do ad hominem

Quando a internet surgiu e, posteriormente, com a emergência dos blogues e redes sociais pensou-se que a esfera pública tinha encontrado uma fonte de renovação. Mais pessoas poderiam trocar opiniões sobre os problemas que afectam a vida comum, sem estarem controladas pelos diversos poderes, contribuindo para uma crescente participação, racionalmente educada, nos assuntos públicos. Olhando para o que se passa – seja nas redes sociais ou nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação online – a sensação é devastadora.

Existe, na verdade, um aumento da interacção social, mas esse contribui, ao contrário do que se esperava, para degradação da esfera pública. A situação é tanto mais preocupante quanto têm crescido os níveis de escolarização das pessoas, e a esfera pública era vista como um lugar de participação através da razão argumentativa, o que supõe uma população escolarizada. As participações valeriam apenas pela racionalidade dos argumentos e não por quaisquer outras características pessoais.

A generalidade dos participantes nesta nova esfera pública não possui, todavia, qualquer capacidade para argumentar razoavelmente sobre os assuntos públicos. A larga maioria das intervenções não passa da expressão de sentimentos e emoções, do débito de adesões cegas ou de ódios acesos. Quando são apresentados esboços de argumentos, estes ou radicam na incompreensão do que está em causa ou não passam de falácias que visam confirmar aquilo que o emissor sente, uma tentativa de esmagar as opiniões de que discorda.

Uma falácia persistente tornou-se o centro da vida da esfera pública nos tempos da internet. Trata-se do velho argumentum ad hominem (argumento contra o homem). Se alguém propõe alguma coisa, aquilo que vai ser contestado, de modo directo ou indirecto, é a pessoa e não o que ela propõe ou defende. Esta falácia é importante não apenas do ponto de vista da coerência lógica da argumentação, mas porque é o sinal de uma atitude social que se tem expandido com força inusitada nos últimos tempos.

No argumentum ad hominem manifesta-se uma intolerância não apenas com a opinião do outro, mas com a pessoa do outro. Não são razões que são apresentadas, mas um ódio contumaz, destilado de forma mais ou menos agressiva. Aquilo que pareceu ser uma democratização de práticas racionais de argumentação pública com vista ao consenso, não passa, hoje em dia, de um vazadouro do pior lixo que há em nós. Tornou-se numa ameaça persistente às regras democráticas e de convivência social promotoras da amizade cívica entre quem pensa de forma diferente.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Nocturnos 58

Harold Roth, Luna Park, 1940

O medo da noite move todos estes parques de diversão que se cobrem com a farândola de uma luz feérica. Quanto maior a iluminação, maior será o temor que o espírito quer esconder. O terror que nasce na obscuridade nocturna do coração humano só encontra breve analgésico nas grandes fontes luminosas geradas na máquina do artifício e na dor do desespero.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Escolas e corrupção

As escolas tornaram-se o lugar onde todas as preocupações sociais são despejadas. A última notícia veio pela boca da ministra da Justiça. A estratégia anticorrupção passará também pelas escolas. Violência doméstica? Assunto para a escolas. Preocupações ambientais? Assunto para as escolas. Violência no namoro? Assunto para as escolas. Falta de espírito empreendedor? Assunto para as escolas. Incapacidade de gerir dinheiro e de gerar poupanças? Assunto para as escolas. Problemas de obesidade e má alimentação no país? Assunto para as escolas. Racismo? Assunto para as escolas. Gravidezes indesejadas, práticas sexuais arriscadas, desconhecimento da sexualidade? Assunto para as escolas. Agora, chegou a vez da corrupção.

Algumas destas coisas a escola, no âmbito curricular, poderá tratar. O resto é impossível. E daquilo que a escola pode tratar não será de esperar efeito significativo sobre as crenças dos indivíduos. Pensar que a escola consegue alterar o conjunto de representações mentais e de hábitos que os alunos trazem de casa e dos grupos de pares é pura estultícia. Haverá alunos que poderão ser tocados. Serão poucos e, muitas vezes, esses poucos já trazem de casa a inclinação para serem sensíveis a certas atitudes vistas como socialmente adequadas. Este recurso sistemático às escolas, para resolverem assuntos para os quais não têm poder, é uma manobra política desagradável. Os governantes despejam em cima delas aquilo que deveria ser da responsabilidade das famílias, das instituições sociais e dos próprios actores políticos.

Trazer o problema da corrupção para dentro das escolas é carregá-las com mais um encargo para o qual não têm nem poder nem vocação. É uma forma, também, de fugir ao problema fingindo enfrentá-lo. No entanto, haveria coisas que poderiam ser feitas. Peguemos em três pequenos problemas. Qual é a reacção social ao facto de os alunos copiarem nas provas de avaliação? Qual é a reacção social perante a prática de plágio dos trabalhos de investigação ou do recurso aos pais e explicadores para os fazerem? Qual é a reacção social perante o facto de numa fila para o bar ou cantina haver alunos que dão o ‘golpe’, colocando-se à frente dos outros que lá estavam? Se uma escola pública decidisse ter um código duro para com esses comportamentos, qual seria a atitude dos pais? E do Ministério da Educação? Essas coisas não têm a ver com a corrupção? Tem a certeza? Seria mais interessante que o governo se preocupasse com elas em vez de atafulhar as escolas com ideias sem nexo.

domingo, 4 de abril de 2021

A floresta e o destino da humanidade

Arnold Böcklin, Floresta Sagrada, 1882

Segundo um artigo de Jorge Paiva, no Público de hoje (ver aqui), a cada dez segundos desaparece da Terra uma área de floresta equivalente ao relvado de um campo de futebol. Mantendo-se o ritmo actual de desflorestação, o nosso planeta deixará de ter florestas no final do presente século (menos de 80 anos). Estas são essenciais para a vida, onde se inclui a humana. O autor conta um caso interessante, o qual nos permitirá antecipar o que nos espera: “A Ilha de Páscoa (Rapa Nui na língua nativa) situada no Oceano Pacífico (Polinésia Oriental) e que hoje pertence ao Chile (a 3700 quilómetros da costa oeste deste país) esteve coberta por uma floresta subtropical antes da chegada de polinésios, há cerca de 1600-1700 anos (300-400 depois de Cristo). Esta floresta foi completamente devastada pelos rapanuios, o que, praticamente, provocou a extinção deste povo.”

Há na espécie humana uma inclinação para desencadear processos que depois não consegue controlar. As questões climáticas e o desaparecimento da floresta parecem já fazer parte desses casos onde o feitiço parece voltar-se inelutavelmente contra os feiticeiros. Faz parte dessa inclinação aquilo que se pode chamar a indústria da dúvida. O primeiro caso bem conhecido foi a estratégia usada pela indústria tabaqueira para lançar dúvidas sobre a relação entre o consumo de tabaco e o cancro de pulmões, depois o da indústria petrolífera acerca do aquecimento global. O mesmo se passa no caso das florestas. Aparecerá sempre alguém a lançar um conjunto de dúvidas sobre as evidências científicas. A partir daí, haverá legiões de militantes fanáticos a desvalorizar os perigos reais, mitigando-os ou mesmo tentando fazer crer que são falsos. Certamente que os rapanuios tiveram a percepção de que algo estaria mal na ilha, mas foram impotentes para travar o mal. A espécie humana no seu todo arrisca-se a ter o mesmo destino que os primeiros colonizadores da Ilha da Páscoa.

sábado, 3 de abril de 2021

A Garrafa Vazia 55

Francesco Clemente, Time, 1990
Prendo-me ao arame
farpado
da noite, ferido
caminho nas trevas,
escorro o óleo
da vida,
autómato preso
à torpe
fuligem do tempo.

Março de 2021

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Sonhos numa noite de Verão 30

Margaret Bourke-White, Scottish highlanders and Indian
troops march past the Great Pyramid
, 1940
À curiosidade aliara-se o medo. Sentado na base da Grande Pirâmide, olhava para a paisagem inóspita e para os militares que marchavam. Sentia-me perplexo e perdido no tempo. Havia demasiadas coisas que a razão não compreendia, mas o que me atormentava eram as tropas. Não conseguia perceber como, sendo múmias antiquíssimas, se apresentavam com aquelas fardas e, maquinalmente, marchavam perante mim. Quando atingiam certo ponto da Pirâmide, entravam nela. Passado tempo, surgiam no lugar oposto, o rosto embalsamado imóvel, o corpo mecânico em passo militar, entregues, como Sísifo, a um destino imutável, a um eterno entrar e sair da Pirâmide. A cada retorno dos soldados mortos-vivos o pânico aumentava. Como fugi dali, ainda hoje não o sei. 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Perfis 16. O compositor

Yousuf Karsh, Igor Stravinsky, 1952
Quando pensa, o compositor não pensa através da abstracção dos conceitos, mas todo o seu pensamento são notas entrelaçadas, formando um cordão de sons. Há dias em que o rio impetuoso se transforma num lago ameno, e toda a música se entrega à lentidão, numa gravidade imperial, uma quase suspensão do tempo, uma chamada ao mundo de tudo o que é solene e deve permanecer na memória dos homens. Noutros dias, a vida é tomada pelo turbilhão do oceano ou pela girândola terrível de um incêndio. Escuta-se o bramir das ondas ou o estrondear violento das árvores arrastadas pelo vento e as chamas de um fogo imemorial. O compositor, porém, permanece opaco e meditativo, encosta-se ao piano e, quase sonâmbulo, deixa que tudo se passe no lugar mais inacessível aos olhares humanos. Talvez Deus espreite para dentro do seu ser e siga sobressaltado os sons que ali nascem, a música que nele se arquitecta. Depois, deixa-o entregue às ondas sonoras e suspende a sua omnisciência para que, também Ele, possa ser surpreendido pelo pensamento musical que naquele corpo se pensa. O compositor, diz, não pensa com a mente, mas com todo o corpo, pois o seu pensar é ritmo e ondulação, o bater do coração, o ir e vir do ar nos pulmões, o revolver das entranhas, o silêncio das vísceras. Fecha os olhos para ver. Ensurdece para escutar. Cala-se para dizer. Compor é saber que em todo o sim existe um não, que em todo o silêncio ruge o mais rugoso ruído. Como um arqueólogo de si mesmo, conduz a memória ao tempo em que, no ventre da mãe, escutava os sons do mundo nos sons maternais e sabia já, naquele encadeamento de largos e adágios, de andantes e moderatos, de allegros e vivaces, que era musical todos o seu pensamento, todo o seu coração, todo o seu ser.
 

quarta-feira, 31 de março de 2021

Beatitudes (44) Solipsismo

Rodney Smith, Samuel from Behind, 1997
Há uma estranha felicidade em imaginar-se, por instantes, na mais profunda solidão, sem que outros seres humanos cruzem o horizonte. O solipsismo nunca deixou de ser uma tentação. Depois, sem que se perceba como ou porquê, a fantasia desvanece-se, a solidão de bênção torna-se em ameaça, e a vida volta a esse convívio com os outros, ora desejado, ora apenas suportado.

terça-feira, 30 de março de 2021

O tempo do desejo e o da pandemia

Oscar Dominguez, Quelques mouvements du désir, 1937

Apesar do espantoso desempenho dos EUA no processo de vacinação contra a covid-19, as autoridades políticas, científicas e sanitárias estão bastante preocupadas com a emergência, no país, de uma quarta vaga da pandemia. Falam mesmo de ‘desgraça iminente’. O caso não se deve à falta de eficácia das vacinas, mas ao comportamento das pessoas. Ainda longe da imunidade de grupo, o que se exige é uma grande disciplina comportamental. Uso de máscaras e distanciamento social continuam a ser imperativos.

Mais uma vez se comprova que os países ocidentais deixaram de ter – se alguma vez a tiveram – disponível a disciplina de grupo como arma para enfrentar perigos colectivos, como é esta pandemia. Há uma enorme discrepância entre o tempo do desejo e o tempo da pandemia. O desejo surge perante a vontade como um imperativo que se quer realizar o mais rapidamente possível. O desejo de conviver com os outros e o desejo de voltar ao modo de vida anterior são investidos por uma grande urgência. O tempo do combate à pandemia – apesar da aceleração que tem tido – é muito mais lento. À urgência do desejo contrapõe-se a lentidão daquilo que permitiria criar condições seguras para a consumação do desejo.

O caso é agravado porque, numa sociedade de mercado, a competência de diferir a realização dos seus desejos é constantemente dinamitada pela própria sociedade. A necessidade de que os produtos sejam rapidamente consumidos, para que novos entrem no mercado, é uma forma de intensificar até ao paroxismo o desejo humano. O ideal da sociedade em que vivemos é que todos os desejos sejam consumados instantaneamente, mal emirjam a situação da sua não consumação torna-se insustentável. O mercado – e todos nós fazemos parte do mercado e dependemos dele – exige que assim seja. Percebe-se por que razão estão as autoridades americanas assustadas. Temem não ter mãos nas máquinas desejantes em que todos nos tornámos.

segunda-feira, 29 de março de 2021

A Garrafa Vazia 54

Bill Jacklin, 35th Precinct, 1987
A fúria cobaltosa
do coração
abre-se ao negrume
da caverna.

Simulacros e sombras
dançam
tangos e tarantelas
no porão da tarde.

Riem-se da granada
que explode
na grua
da minha mão.

Março de 2021

domingo, 28 de março de 2021

Nocturnos 57

Greg Girard, Tokyo, Shinjuku, 1976

A noite expulsou os corpos para dentro de casa. É agora um reino longínquo, povoado pela chuva, pelo vento, pela luz fantasmagórica criada pelo engenho dos homens. Nesse país vazio, invisíveis, deslocam-se memórias, desejos, esboços de seres que lutam para vir à luz do mundo.

sábado, 27 de março de 2021

Alma Pátria 71: Mara Abrantes, Fecho a Janela


 

In illo tempore, a alma pátria deveria andar sempre cruelmente devastada. Não havia rua, viela ou beco onde um coração desfeito não sangrasse dolorosamente. Um rio de sangue motivado por amores desencontrados, desfeitos, atraiçoados, dir-se-ia, corria por Portugal de lés-a-lés. Mara Abrantes, uma brasileira chegada ao país em 1958, faz parte, sem qualquer favor, dessa alma pátria que era segregada pela rádio e, depois, pela televisão. O público gostava deste tipo de dramas amorosos com sabor a fado e, neste caso, temperados pela pronúncia, sempre agradável, do outro lado do Atlântico. A canção – um fado canção – foi editada em EP em 1970, tem por autores António José e Ferrer Trindade, cuja orquestra acompanha a cançonetista, como então se dizia.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Simulacros e simulações (19)

Duane Michals, Andy Warhol, 1972

É um trabalho moroso o que conduz alguém da névoa do simulacro à luz clara e distinta de si. Um processo de tentativas e erros, dir-se-á. Isso, todavia, pressupõe uma ideia demasiado científica, a do ensaio, a da busca de uma verdade. Entre o simulacro e o si há um longo trabalho de fingimento, de ficcionalidade, de fazer parecer real aqui que ainda não o é. Toda a realidade é o resultado de um exercício contínuo de simulações.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Beatitudes (43) Meditação

Emilio Pettoruti, Meditazione, 1915

Recolher-se em si, abrir caminhos que só existem na vida interior, transitar por florestas luxuriantes e desertos inóspitos, atravessar mares procelosos sem que o corpo se mova, sem que os olhos se abram, sem que o ruído exterior entre casa dentro. Meditar não é apenas o meio de uma vida examinada, mas também o retorno ao jardim de onde se foi expulso pela ânsia do movimento e pelo ardil da dominação.

quarta-feira, 24 de março de 2021

A Garrafa Vazia 53

Romeo Mancini, Apocalisse, 1964
O ódio fervilha preso
ao cabresto
da noite.

Vielas varridas a varapau,
garrafas estilhaçadas
pelo chão.

Corpos ao desbarato,
o sangue acre
do sexo.

Tudo anoto no caderno
em que escrevo
na luz da servidão.

Março de 2021

terça-feira, 23 de março de 2021

A força da sociedade civil

Fernand Léger, Soldier with a Pipe, 1916
Quando vejo os liberais falar de Portugal dá-me imediatamente uma grande vontade de rir. Não que eles sejam particularmente dotados para o humor, mas porque não fazem a mínima ideia do país onde vivem. Para que o liberalismo possua algum sentido e não seja, caso aplicado, um inferno, seria necessário que Portugal possuísse uma sociedade civil forte, com poder de iniciativa e capacidade de organização. Um país que, para não se atolar na mais funda desorganização, precisa de recorrer à tutela de um militar – o vice-almirante Gouveia e Melo – para superintender o processo de vacinação da população só pode ter uma sociedade civil débil, incapaz de iniciativa e de organização.  

segunda-feira, 22 de março de 2021

Nocturnos 56

Richard Peter, Under the lantern, Dresden, 1935
Há segredos que só na noite se partilham, acordos que se fazem sob a luz vaga de um candeeiro, promessas que apenas as trevas podem ouvir. Há um logos para a luz do dia e outro para as sombras da noite. Nesses logos, vibram línguas tão diferentes que tradutor alguma as poderá aproximar.

domingo, 21 de março de 2021

Simulacros e simulações (18)

Johan Hagemeyer, Fashion Shop, Hollywood, 1930
Durante milhares de anos, a humanidade tentou representar a realidade. Com mais ingenuidade ou com mais talento. De modo mais impreciso ou com um excesso de precisão. Pensou-se cansada da mímeses e entregou-se à fantasia da simulação. A verdade, porém, é que ainda continua presa à imitação. Não da realidade, mas dos simulacros que vêm tomando conta dela.

sábado, 20 de março de 2021

A arte do possível

Nunca deixam de espantar-me as intervenções na comunicação social que, perante o confinamento, trazem sempre à colação as consequências terríveis que isso trará. Há casos em que essas preocupações se percebem, pessoas que são afectadas nos seus negócios ou empregos, às quais não se poderá pedir imparcialidade na reacção às decisões necessárias para conter a pandemia. Nos outros casos, porém, em que se apontam as terríveis desgraças que hão-de cair sobre as pessoas por causa do confinamento, há qualquer coisa de patético. É um facto que, por exemplo, o fecho das escolas tem consequências graves nas aprendizagens e no desenvolvimento de competência sociais dos alunos. Haverá, porém, uma solução exequível que permita combater a pandemia e evitar os efeitos secundários desse combate?

A política implica fazer escolhas, hierarquizar prioridades, perceber que não se pode ter tudo. Alcançar um bem maior implica muitas vezes perder outros bens que, apesar de grandes, são menores. Nenhum governo – pelo menos num país democrático – gosta de confinar os cidadãos. Nenhum governo gosta de ver a economia retroceder, o desemprego aumentar, as empresas a falir, as receitas ficais a diminuir, os gastos a aumentar drasticamente, os seus cidadãos a ficarem mais doentes e com menos recursos para combater a doença. Os governos não escolheram governar em pandemia. Quando muitas associações, que deveriam ser razoáveis, vêm chamar a atenção para as consequências nefastas do confinamento e das restrições impostas e se esquecem de dizer que as consequências de não haver confinamento seriam muito piores, não só estão a desinformar a população, como acabam por ter um efeito negativo no combate ao inimigo principal.

Agora que começamos a desconfinar é tempo de dar atenção aos efeitos colaterais da guerra ao coronavírus. Contudo, é preciso ter em atenção que as sociabilidades tradicionais não podem ser restauradas e que muitas coisas terão de mudar, talvez durante muito mais tempo do que aquele que imaginamos. Teremos de inventar novas formas de convivência, porque a pandemia não está debelada, nem de perto nem de longe. Teremos de interiorizar outras regras comportamentais. E é nesta mudança de atitude que muitas daquelas entidades, que traçam cenários apocalípticos por causa do combate à pandemia, deviam estar empenhadas. As coisas não são como nós as desejamos. São como são e é a isso que há que responder em cada momento, estabelecendo períodos e escolhendo o mais importante. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. A política é a arte do possível. O resto é lançar confusão. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

A Garrafa Vazia 52

Georges Bracque, El hombre del caballete, 1942
A náusea da nostalgia,
prego feito
de ferrugem,
armadilha
onde penduro
casaco e máscara.
Levo-os
se ponho os pés
no zinco da rua.

Fevereiro de 2021

quinta-feira, 18 de março de 2021

Simulacros e simulações (17)

Francis Picabia, Jardins de Saint-Cloud, 1909

Os homens não criam nem inventam jardins. Não há arquitecto que do fundo do seu talento retire inspiração para fazer nascer um espaço onde o mundo vegetal se manifeste e reine. Todos os jardins são cópias, reminiscências, simulações desse único e autêntico jardim de onde a espécie humana foi expulsa. Sonha-se com ele e fabrica-se um simulacro.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Uma doença difícil de controlar

Pierre Dubreuil, La Place de L’Opera, 1909
A atitude de pânico das autoridades políticas e de saúde, tal como das científicas, perante a suspensão da vacina contra o COVID-19, da AstraZeneca, é sintomática do mundo em que vivemos. Aquilo que é um procedimento que deveria tranquilizar as populações relativamente aos procedimentos de segurança de raiz científica, pode tornar-se um problema para combater o vírus. Uma parte da opinião pública seguirá com muito mais facilidade opiniões que, sem qualquer fundamento, lhe proponham teorias inverosímeis do que acatará os conselhos fundados em procedimentos altamente controlados pelas melhores técnicas científicas.

O sonho do Iluminismo de construir um mundo habitado por uma população plenamente ilustrada choca com barreiras que parecem inultrapassáveis. Talvez a superstição não seja apenas um problema de acesso à cultura e à educação, mas exista no homem uma disposição para habitar o mundo escorado nessa superstição, a qual muito dificilmente cede perante as evidências, perante aquilo que um dia se chamou a luz natural da razão. Diante de uma sugestão de perigo, logo os homens se abrigam no guarda-chuva das crenças irracionais. A irracionalidade é um vírus que, enquanto o homem for homem, não encontrará vacina eficaz para o erradicar.  O mais que se poderá aspirar é torná-la uma doença crónica que se vai tentando controlar, sem grande expectativa que chegue o dia da cura.

terça-feira, 16 de março de 2021

Beatitudes (42) A bela ilusão

Rodney Smith, Anika on Bicycle, 1993
Árvores, folhas caídas, e tudo ainda parecer possível. Longos passeios de bicicleta, sem que um destino se perfile no horizonte, apenas as hesitações da vida, a decantação das promessas na espera da sua realização, apenas a leveza com que se olha o mundo e se recebe todas as dádivas que ele prodigaliza, se o tempo com as suas garras de aço ainda finge não se ter intrometido.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Nocturnos 55

Todd Webb, Broadway at Wall Street, New York, 1959
A noite compõe-se de pétalas caídas. Cada uma leva consigo um anseio de luz e a estranheza de mergulhar nas trevas. Sobre elas passam, mergulhados na indiferença, aqueles que pertencem ao reino obscuro da multidão. Aproximam-se e repelem-se como átomos em desvario, seguem o caminho imaginando possuir algum.  

domingo, 14 de março de 2021

A Garrafa Vazia 51

Gerhard Richter, Mediation, 1986
Bebo o vinho no copo
vermelho do poente.
Espero o mergulho
do astro
no oceano da noite,
as luzes de néon
para iluminar
os passos ébrios
com que atravesso
a ruela da vida.

Fevereiro de 2021

 

sábado, 13 de março de 2021

Alma Pátria 70: Trio Odemira, Menino de Oiro


Com uma diferença de cinco dias morreram os dois irmãos Costa, a alma do Trio Odemira. Este grupo musical popular pertencia ao conjunto de formações que combinavam a música popular portuguesa e a música latino-americana, da qual cantaram alguns êxitos. Tinham lugar assegurado nos programas de rádio e teriam um grande reconhecimento popular. No vídeo, cantam uma canção de José Afonso, uma daquelas que era possível ouvir na rádio. Se se consultar a autoria da canção - gravada pelo grupo em 1964, dez anos antes da queda do regime que determinava politicamente o que que os portugueses podiam ouvir, ler ou fazer - não se encontra lá o nome de Zeca Afonso. A autoria era do dr. José Afonso. E isto diz muito do que era Portugal naqueles dias. Um dr. sempre era um dr., mesmo que fosse oposicionista. Cada coisa no seu lugar, pois o respeitinho era uma coisa muito bonita.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Começou o segundo mandato presidencial

Vicente Vela, ¡Desátame!, 1999

Começou o segundo mandato presidencial. Como marco desse começo ficou o inédito silêncio do Presidente relativamente ao plano de desconfinamento apresentado ontem. Marcelo Rebelo de Sousa vai agora mostrar o que é. O primeiro mandato de qualquer Presidente é dirigido a captar votos no território político adverso. No segundo, é a tentativa de fazer chegar ao poder os seus. Para além das palavras de ocasião, a solidariedade com o governo acabou ontem. Se o desconfinamento correr mal, o PR não terá nada a ver com isso. A partir de agora vamos assistir, de uma forma mais clara, ao confronto entre os talentos políticos de Marcelo e de Costa, não para resolver os problemas do país, mas na utilização desses problemas e da sua eventual resolução como arma política relativa ao poder. Costa para se manter, Marcelo para apeá-lo, a não ser que a direita persista no descalabro em que se encontra. Seja como for, a direita tem agora, claramente, um amigo em Belém. Quando se diz que o PR vai ser mais exigente com o governo no segundo mandato, isso significa que fará o possível para que, pelo menos, não seja reeleito nas próximas legislativas. Acabou-se o casamento de conveniência. O PR desatou-se do governo. É a natureza das coisas.

 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Simulacros e simulações (16)

Ray K. Metzker, Valencia,1961

Aos que simulam vigor e energia opõe-se aquele que simula fraqueza e debilidade. A existência é um jogo de simulações, aproximação a imagens que deambulam na consciência de cada um. O peso dessas imagens é de tal ordem que acaba por transformar cada ser humano no seu próprio simulacro.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Descrições fenomenológicas 65. No parque

Pier Luigi Lavagnino, Alberi, 1969

Cruzado por ruas largas de terra batida, talvez como recordação desse tempo arcaico em que os homens não pavimentavam os caminhos, o parque era o coração da cidade. Esta vivia ao ritmo da sua pulsação. Se havia ali uma atmosfera de tristeza, a cidade entristecia. Se os dias se tornavam nele melancólicos ou alegres, a cidade era tomada por uma súbita melancolia ou transbordava de alegria. Tudo o que acontecia no parque reflectia-se na cidade que o acolhia. Era um dia de Primavera, um sol amistoso brilhava no cerúleo do céu. A folhagem verde do arvoredo e dos arbustos reverberava. Nos lagos, a água cintilava, deixando ver cardumes de pequenos peixes a brilhar, se os raios solares lhes tocavam a pele. Uma multidão invadia o parque. Havia nas pessoas alegria e expectativa. Caminhavam despreocupadas, dirigiam-se para uma praça central, toda ela rodeada por enormes plátanos. Ali amontoavam-se, conhecidos com conhecidos, mas também com desconhecidos, e falavam, riam, como se aquele fosse um dia de festa. Num recanto, um pouco afastado, uma rapariga estava deitada na relva. Os seios alteados, as pernas nuas, os braços perdidos pelo corpo. No ventre, sustentava a cabeça de um rapaz deitado, de pernas flectidas. Segurava nas mãos uma viola. Indiferentes à multidão, deixavam-se embalar pela música dedilhada por ele. Por vezes, cantavam em uníssono, como se fossem apenas uma voz, um corpo, um ser. Ela calava-se e escutava-o. Depois, voltavam ambos a cantar, num dueto, em que se respondiam, como numa conversa vinda muito de trás. Quando se cansaram, ele poisou a viola, deitou-se ao lado dela e ficou a olhar para a copa das árvores e o azul do céu. Quando voltou a falar, ela rolou para cima dele e beijou-o na boca. A multidão continuava a afluir, os grupos ocasionais iam-se desfazendo e refazendo, enquanto ela olhava para dentro dos olhos dele. Quero ver o que há no fundo dos teus olhos, disse-lhe. Ele riu-se, puxou-a mais para si e beijou-a com sofreguidão. Da praça, chegava agora uma música de dança e a multidão segregava-se em mil pares que rodopiavam pelo chão de terra batida, enquanto o rapaz e a rapariga se perdiam na noite que havia nos olhos de cada um, descendo cada vez mais fundo, inundando-se de desejo, de pressa que os levasse, naquele instante, para o futuro.

terça-feira, 9 de março de 2021

A Garrafa Vazia 50

Georgia O'Keeffe, Cañón con cuervos, 1917
Oiço o crocitar
do corvo
na curva do caminho.

A sombra negra
obscurece
a límpida luz do dia.

Voo veloz
na lentidão
embriagada do levante.

Fevereiro de 2021

segunda-feira, 8 de março de 2021

Nocturnos 54

Harry Callahan, Aix-en-Provence, 1957

No tear do tempo, como se esperasse a vinda de Tirésias, a noite tece as suas teias, armadilhas de seda, ciladas de carvão, artifícios de aço. Ali reina o embuste e o logro. Se incauto, alguém cai no ardil, as trevas cerram-se até que da luz não reste um fio na memória.

domingo, 7 de março de 2021

Jeffrey Eugenides, Middlesex

Publicado em 2002, Middlesex, do norte-americano, de origem greco-irlandesa, Jeffrey Eugenides, ganhou o Pulitzer de ficção no ano de 2003. O romance é mercado por duas temáticas identitárias. Por um lado, ele é situado na comunidade grega que emigrou para os Estados Unidos na sequência da primeira guerra mundial e, fundamentalmente, dos conflitos entre gregos e turcos. Não sendo apenas uma resposta à questão quem somos nós?, não deixa de ser uma exploração da vida dessa comunidade, uma descrição dos seus valores, tradições e modos de ser, assim como da forma como se vão integrando na vida americana e alimentam o, e se alimentam do, american dream. É neste pano de fundo comunitarista, que emerge uma outra interrogação, agora sobre quem sou eu? O motivo da interrogação não é metafísico, mas físico, uma deficiência no gene SRD5A2, que codifica a enzima 5-alpha reductase. O resultado é o nascimento de um rapaz, embora com caracteres sexuais externos femininos. É isto que acontece ao protagonista do romance. Calliope – nome que recebeu de baptismo, enquanto rapariga – e Cal, nome que adaptou em adolescente quando se descobriu como rapaz. É um caso de intersexualidade.

Algumas leituras da obra tendem a questionar a necessidade da primeira metade do romance, a sua inutilidade para a questão central que é o drama da adolescente que se descobre ser um adolescente. A primeira metade é a narrativa que traz os avós paternos de Cal de uma aldeia grega, mas em território turco, para os Estados Unidos, em 1922, durante a guerra greco-turca. É um fresco épico que vai até a 1960, ano em que nasce Calliope. A questão que se coloca é a de como narrar a acção à distância de um gene recessivo que vai acabar por se manifestar. O autor fá-lo contando a história de uma consanguinidade intensa, a qual se inscreve na história dos homens e das comunidades. Podemos imaginar uma história genética puramente natural nos animais. No homem, apesar de se poder traçar a história genética dos homens como se traça a de seres de outras espécies, ela, para lá do discurso científico, é incompreensível. O drama de Cal não é um drama proveniente de nenhures, mas inscreve-se na duração, e esta só inteligível através da narrativa. Por isso, Eugenides conta a história de Eleutherios Stephanides, conhecido como Lefty, e da sua irmã e mulher Desdémona Stephanides, os avós de Cal. Conta também a de Milton, filho do casal incestuoso, e de Tessie, os pais de Cal e do seu irmão Capítulo 11 (uma referência ao capítulo da lei das falências dos EUA e à propensão do irmão de Cal para levar os negócios a mau porto).

Uma história de sangue no sangue da história. Em Bithynios, uma aldeia na Ásia Menor habitada pela minoria grega e de onde vêm os antepassados de Cal, o casamento entre primos, considerado incestuoso, era uma prática corrente. Isto significa que a consanguinidade e uma maior concentração de traços genéticos já ocorriam antes do casamento incestuoso dos irmãos Lefty e Desdémona. O filho de ambos, Milton, pai de Cal, acaba por casar também com a filha de uma prima dos pais. Esta história de concentração genética não é pura história genética, mas está inscrita, no romance, na própria história, no sangue que a história, no seu papel de negar continuamente as configurações do mundo humano, faz correr. Os pais de Lefty e de Desdémona morrem vítimas da guerra entre turcos e gregos. Os filhos órfãos fogem para os EUA do momento em que se dá o grande incêndio de Esmirna, motivado pelo conflito greco-turco. Eugenides não deixa de dar uma visão, nas passagens referentes à fuga dos avós de Cal, do genocídio arménio. Se o autor, que dá uma tenção a esses conflitos muito localizados, passa muito por cima a segunda guerra mundial, torna a focar-se na histórica localizada, agora em Detroit, com os seus conflitos interétnicos, como os motins de 1967, mas também a emergência da Nação do Islão, ou as condições de trabalho nas fábricas de automóveis. Narra a ascensão e queda de Detroit. A história de uma desgraça genética precisa da história humana para ser contada, mas não uma história mundial. É sempre a história local, quase que se pode dizer paroquial, que é mobilizada. É sempre a história de comunidades muito precisas e caracterizadas no espaço e no tempo.

A segunda parte do romance foca-se em Calliope e a sua descoberta da realidade sexual que lhe coube em sorte. Está-se em meados dos anos setenta do século XX, ela entrara na adolescência, mas não lhe aparece nem a menstruação nem se lhe desenvolvem os seios, ao contrário do que acontece às suas colegas do colégio feminino que frequentava. A revelação deve-se a um acidente. A narrativa, a partir daqui, concentra-se no processo de reconhecimento da nova situação e na disputa interior do protagonista sobre a sua condição. Eugenides explora a tensão entre cultura e natureza na definição do género e parece questionar a ideia de que o género é uma construção fundamentalmente social. Cal cresceu e foi educado como rapariga e frequentou um colégio feminino. Toda a construção do género foi feita no feminino. No entanto, a sua primeira paixão pelo Objecto Obscuro (uma referência ao filme de Buñuel, O Obscuro Objecto do Desejo), uma colega do colégio, era tipicamente masculina, de acordo com a sua natureza masculina. Quando chega o momento de optar, opta de acordo com o sexo genético e não com o género social, mesmo estando desprovido externamente da genitália masculina.

Se o romance é uma resposta às questões quem somos nós? e quem sou eu?, essa resposta não se funda numa revolta contra a própria condição comunitária e pessoal. A comunidade grega de que Cal provém não deixou de ser uma comunidade grega, mas agora claramente integrada no modo de vida americano, estabelecendo pontes entre os preconceitos da cultura originária e os da cultura em que se integram. Uma imagem de integração do sonho americano. É verdade que a questão racial, mesmo no romance que a trata a partir da visão preconceituosa da comunidade grega, é uma nota dissonante dessa visão idílica de uma América integradora. É como se esta fosse acolhedora para aqueles que a procuram e têm a perspectiva adequada sobre o trabalho e a riqueza, mas fosse impiedosa para aqueles para ela foram levados contra a sua vontade, enquanto escravos. Os gregos que fugiram da Europa são agora plenamente americanos, apesar de ainda serem gregos. Também Cal, ao narrar a sua vida até à assunção da sua identidade masculina, se mostra reconciliado com a sua situação, tendo ultrapassado as inquietações psicológicas, nunca estando em causa outras. Não há qualquer questionamento metafísico e as abordagens da situação circulam entre o conhecimento científico de natureza genética e médica e a abordagem psicológica. Cal quando narra a sua história, quase trinta anos depois, mostra-se completamente reconciliado com a sua natureza. É plenamente homem, apesar daquilo que nele ainda subsiste de feminino. Middlesex não é um romance de revolta, mas de reconciliação.

sábado, 6 de março de 2021

Da bazuca à bazooka

Quando uma palavra utilizada no discurso político como metáfora se torna um lugar comum, devemos desconfiar de que ela não quer dizer rigorosamente nada. A vida social está cheia de palavras que são uma referência ao vazio. Por exemplo, empreendedorismo. De tão utilizada como mezinha para curar os males de que padece a vida económica, chegou ao ponto de não querer dizer absolutamente nada, embora muita gente faça cursos de empreendedorismo, dos quais, por norma, poucos ou nenhuns empreendedores resultam. A metáfora a que me referia é, porém, bazuca. É aplicada aos fundos europeus gigantescos que irão ser mobilizados para enfrentar os danos colaterais da pandemia. Como o empreendedorismo seria a atitude que viria resolver o problema do emprego, a bazuca será a salvação de economias debilitadas pelos confinamentos.

Uma bazuca é uma arma de guerra para fazer explodir alvos inimigos. Ora o alvo do dinheiro da União é, directa ou indirectamente, a economia. A ideia será fazê-la explodir? Imaginemos, todavia, que a bazuca se dirige contra uma recessão económica e a subsequente liturgia da austeridade. Não será a metáfora nem mais elegante nem a com maior poder descritivo. Apesar disso, ela não deixa de fazer salivar muita gente. E é esta salivação que me aborrece. Compreendo que a União Europeia tenha o dever de ter uma estratégia para os seus Estados membros. O sórdido da questão diz respeito à forma como em Portugal há muita gente habituada a viver à custa dos fundos europeus. Estes têm ajudada a disfarçar a nossa pobreza endémica e a bazuca irá, mais uma vez, mascarar essa indigência nacional.

Instalou-se uma cultura de desprezo pelo esforço e pela autonomia do país. Autonomia não significa voltar ao velho soberanismo nacionalista. Significa que através do nosso esforço cuidamos de nós. Os fundos da União Europeia – onde se incluem os da bazuca – deveriam ser entendidos como uma ajuda a que desenvolvêssemos a nossa autonomia, através de um esforço patriótico persistente, que dispensasse a necessidade de mais ajudas. Não parece ser esse o entendimento geral. A ideia parece ser a de vivermos de ajudas crónicas dos outros países. É por isso que a palavra bazuca faz salivar muita gente. São as novas especiarias da Índia, o novo ouro do Brasil. Quando era criança, também havia bazucas, eram umas pastilhas elásticas chamadas precisamente bazooka. Eram óptimas para fazer um balão enorme que rebentava e de lá apenas saía ar. Temo muito que a bazuca europeia, nas mãos nacionais, não passe de uma bazooka.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Beatitudes (41) O fluir do rio

Édouard Boubat, Paris, 1962
Mesmo se o desânimo e a descrença se abatem sobre a consciência, não deixa de haver uma funda consolação em sentar-se na margem de um rio e contemplar com demora o fluir das águas, escutar-lhe os passos que as levam da nascente em direcção à foz. No caminhar do rio, aquele que o contempla encontra um sentido e transporta-o para vida, como uma frágil promessa de felicidade.

quinta-feira, 4 de março de 2021

A Garrafa Vazia 49

Eduardo Nery, N.º 39, 2003
Dói-te a garganta
e os olhos
inflamam-se
à luz da manhã.

Senta-te e espera
que a dor doa,
a febre fervilhe
na cólera do corpo.

O vigor vital
é como o suspiro
do coração,
vem e logo vai.

Fevereiro de 2021

quarta-feira, 3 de março de 2021

Simulacros e simulações (15)

Alfred Eisenstaed, Decorative multiple exposure of neon signs at night on
Virginia Street in Reno, NV, “The Biggest Little City in the World”
, 1937
Simulacros de luz e simulações de palavras servem, aos homens absortos na errância, de amuletos que os hão-de proteger das trevas e da má-sorte. Não desconfiam que as emanações do néon chegam até eles vindas do mais tenebroso dos reinos, aquele que junta ao negro da noite o peso do fado.
 

terça-feira, 2 de março de 2021

Globalização e confinamento

É plausível pensar que a actual pandemia de COVID-19 revelou a outra face da globalização mundial. Habituámo-nos nas últimas décadas a uma aproximação entre povos e culturas, a uma partilha do espaço mundial por gente de todas as paragens. Não apenas os capitais e as mercadorias se deslocam para qualquer lado, como as pessoas se encontram permanentemente em viagem. O aeroporto tornou-se um dos lugares simbólicos do mundo actual, povoado por gente de todas as condições, pessoas que precisam de se deslocar rapidamente. Uns em trabalho, outros em turismo. A implosão do Bloco de Leste, simbolizada na Queda do Muro de Berlim, abriu caminho para que as fronteiras se tornassem muito mais maleáveis.

O processo de globalização não foi e não é pacífico. Desencadeou reacções tanto ao nível social como político. Se se olhar para os conflitos ideológicos de hoje em dia, eles são muito menos económicos do que de natureza cultural e identitária. Culturas ameaçadas pela globalização geram reacções violentas de afirmação. Também nos países onde existe diversidade étnico-cultural, os conflitos identitários, fundados no ressentimento, cresceram, numa espécie de enclausuramento simbólico. Na Europa, a expansão da extrema-direita soberanista é também uma reacção política à globalização. Uma parte dos Europeus assustou-se com a alteridade que o novo mundo lhe trouxe e sonha com o retorno à segurança de um mundo que acabou. Contudo, estas reacções culturais e políticas à globalização são ainda formas de um processo de adaptação a essa mesma globalização e estão longe de constituir o seu reverso.

O reverso da globalização, descobrimo-lo no último ano, é o confinamento. O confinamento significa, de forma radical, o outro lado de tudo aquilo que vinha a suceder. Deslocações limitadas, a azáfama dos aeroportos drasticamente atingida, o turismo estilhaçado. Contudo, o mais importante não é isso, mas a imposição de ficar em casa. De ficar cingido ao domicílio. As pessoas passam da experiência de um mundo aberto à clausura do lar. Sempre que os números dos contágios sobem, fazemos a experiência, mesmo que mitigada pela simulacro do global que é a internet, da prisão domiciliária como forma de sobrevivência da espécie. Começamos agora a compreender a face oculta da globalização, aquela que ainda não tínhamos visto, mas que um ser microscópico teve o condão de revelar. O confinamento não foi uma coisa que aconteceu. Ele é o estado de sítio do mundo globalizado. A partir de agora é sempre uma possibilidade em aberto, a qualquer momento, pois esta pandemia parece ser apenas a primeira de outras cuja probabilidade é muito maior do que se pensa.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Nocturnos 53

Gordon Parks, Alexander Calder’s hand, 1952

Também a mão infinita de Deus distribuiu a luz pela noite que era o mundo. Fogaréus silenciosos ou grandes incêndios roncantes, a tudo a divina sabedoria recorreu para iluminar os lugares onde a treva ameaçadora poderia de reinar. Fez-se luz e o negro fundo do universo palpitou ao sabor de lâmpadas trémulas e candeias inquietas. Os cegos, porém, continuaram presos à sua cegueira.