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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Descrições fenomenológicas 73. A indústria

Jacqueline Lamba, Ciel Noir, 1986

Caminha-se naquele espaço como se se caminhasse no passado. O fumo das chaminés corre continuamente e transforma-se em escuras nuvens. A luz emudece, toldada pela ânsia fabril dos homens. Uma casa, porventura, uma pensão, exibe os toldos, outrora brancos, sujos de fuligem. Conto as chaminés, mas perco-me uma e outra vez. Ao longe, ergue-se um arranha-céus, mas é apenas uma suposição, a presença de um fantasma. Tudo o que podia ser vegetação verde e viva é, agora, o cadáver abandonado de um mundo que, naquele lugar, está morto, sem esperança de redenção. Passam operários macilentos, cabisbaixo, como se suportassem o mundo aos seus ombros. Alguns entram numa taberna, um tugúrio acinzentado, onde um homem pálido vende copos de vinho e cálices de aguardente. Ninguém fala. O cliente aponta com a mão o que quer, o taberneiro serve-o. Depois, o bebedor procura umas moedas no bolso, põe-nas em cima do balcão, sai e retoma o caminho para a fábrica que o espera. Da pensão, sai um homem de fato e gravata, talvez um engenheiro, um administrador. Também a ele lhe amareleja a pele e soçobra o passo. Diante da taberna não pára. Olha para a cidade, consulta o relógio, apressa-se. Ouve-se o apito de um comboio, logo chega o ruído das rodas no carris. Pára na estação improvisada, lançando baforadas de fumo para os céus. Raquítica, uma árvore tenta agarrar-se à terra, mas o céu cobre-a de uma chuva fuliginosa, ácida. Não se avistam mulheres ou crianças, apenas sombras, paredes sujas, telhados escuros e o contínuo metralhar do fumo a sair dos canos de tijolo das grandes chaminés industriais.

terça-feira, 18 de março de 2025

Descrições fenomenológicas 72. Tempestade

Mark Tobey, À Cheval la Nuit, 1958
Um, dois, talvez um terceiro, mais ao longe. Arranha-céus rompem o firmamento, enquanto a noite desliza sobre a cidade e a tempestade se faz ouvir no ribombar dos trovões. De súbito, tudo se ilumina, mas logo as trevas vencem a luz, para que, de novo, a realidade cintile vibrante, enquanto os céus ressoam, os vidros das janelas tremem e os homens, temerosos, se escondem nas casas fustigadas pela chuva. Despidas, as árvores entregam-se ao tumulto: os ramos, nus; o tronco, encharcado. Presságios obscuros lêem-se nas suas formas. Vaticínios desprendem-se da esquadria do parque, onde um bosque se ordena como uma companhia perfilada na parada, à espera de ordens para marchar para a frente de combate. São árvores sem nome, perdidas na sua identidade, soldados hirtos como estátuas cravadas na terra. O trânsito da noite foi sugado pela intempérie. Os carros, fantasmas alinhados junto aos passeios, são peças de mobiliário de uma época desaparecida há muito. Nas ruas, formam-se lagos: uma água suja, onde flutua o lixo do dia. Uma mulher caminha sob um guarda-chuva inútil. Segue-a um homem. Mas tudo isso dura o instante de um relâmpago. Quando um novo clarão ilumina a rua, homem e mulher desapareceram, esquecidos na noite, tragados por uma encruzilhada. Os arranha-céus permanecem silenciosos, fendendo os céus, desvairados na negrura da noite, mergulhados no fogo líquido da tempestade invernosa.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Descrições fenomenológicas 71. Ruas

Antonio Clavé, A Don Pablo, 1984

Olha-se e pensa-se imediatamente num V, num V de vitória. Só depois se percebe que se há uma letra que descreva o que se observa é um Y. Uma rua única desemboca numa bifurcação. Talvez seja melhor dizer ao contrário. Duas ruas, vindas de sítios distantes, desaguam numa única via. Há nesta imagem alguma incongruência, pois espera-se que uma cidade moderna seja racional e evite a confluência de dois fluxos de trânsito numa única avenida. É isso, porém, o que acontece. Um trânsito infernal vindo de cada uma das ruas encontra-se e forma um engarrafamento que parece não ter fim. Nos passeios, os peões vão solitários, indiferentes à sorte dos automobilistas, indiferentes à sorte de quem por elas passa, também apeado, também ostentando no rosto a máscara sediciosa do alheamento. No vértice da bifurcação, um edifício, mais alto do que os outros, projecta uma longa sombra que cai como um véu sobre a avenida que forma a haste do Y. Ouve-se o buzinar dos carros e sente-se a ânsia dos condutores. Os semáforos parecem inúteis. Mudam de cor, mas tudo continua parado. Peões mais apressados evitam as passadeiras e atravessam por entre os carros, como se temessem que o passeio do outro lado se evaporasse. Há quem entre ou saia dos cafés, dos bares, das lojas ou dos prédios de apartamentos. O fumo saído dos tubos de escape forma uma nuvem e espalha um odor maligno naquele lugar. Dois condutores desentendem-se e trocam palavras iradas. Fazem gestos obscenos e calam-se. Ouve-se um grito e de seguida passa um grupo de adolescentes. Os gritos multiplicam-se. Depois esmorecem sorvidos pela nuvem de fumo, trancados entre as altas paredes dos prédios, calados pelo ruídos dos motores que retomam a marcha, numa lentidão que parece exasperar ainda mais os condutores, em cujos rostos se observam o desgosto do cansaço, sinais de loucura, ânsias homicidas.

domingo, 12 de março de 2023

Descrições fenomenológicas 70. A praça

Willem De Kooning, Cuadro, 1948

Não se sabe ao certo quando aquele espaço foi transformado numa praça, roubado às tarefas agrícolas que, noutros tempos, ocupavam as terras que cidades belicosas invadiram, desterrando os camponeses cada vez para mais longe. Sabe-se apenas que ali se reuniam há séculos pessoas para se entregarem ao comércio, às paixões do mundo, ao hábito da conversa. É essa praça antiga que ainda se suspeita sob a actual, com um enorme tabuleiro empedrado, ladeado por duas filas de velhos plátanos, agora despidos pelas agruras das estações. De um lado e de outro, existem cafés e bares, com as suas esplanadas cobertas e gente, muita gente, sentada nas mesas, uns lendo os jornais, outros a conversar, outros silenciosos olhando em frente, sem que se consiga saber qual o destino desses olhares desavisados. A noite cai, a iluminação eléctrica cria nuvens de luz ao misturar-se com uma chuva fina e melancólica. Entre os renques de árvores, no empedrado do tabuleiro central, não falta gente. Casais passeiam devagar, chapéus de chuva abertos, homens e mulheres solitários levam à trela cães de diverso porte, que vão sacudindo a água fina que se deposita no pêlo. Um jovem casal dá as mãos, enquanto a luz incide sobre eles, tornando-os o foco de quem, desocupado, olha por curiosidade, por não ter mais nada para fazer, por não saber como ocupar o tempo que antecede a hora de jantar. Depois, o casal perde-se entre os transeuntes, enquanto a chuva fina e rala forma aglomerados de gotas suspensas no ar, vibrando sob a luz, para cair no empedrado, nos chapéus de chuva, nos ramos despidos dos plátanos, uma água embalada pela hora do crepúsculo e pela vida que ainda ali freme, passados tantos séculos, mas que mais um pouco desaparecerá, por algumas horas, quando aquela gente recolher a casa para jantar e proteger-se das trevas da noite.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Descrições fenomenológicas 69. O tocador de violino

António Areal, Opus II, nº 78, 1963

Uma rua miserável às portas da cidade. Ainda não tinha chegado ali o lençol de alcatrão. A terra batida deixava ver o rasto de carroças, de automóveis, pegadas animais e humanas. As casas baixas tinham janelas escurecidas pelos anos e portas de madeira de onde a tinta ia caindo, encarquilhada, seca, até se dissolver em pó, levado pelo vento. Aqui e ali, despontavam árvores ainda jovens, já cansadas, com se sofressem de uma privação de que jamais se recuperariam. Entre as casas, havia muros e paliçadas, para além deles avistavam-se outras árvores, mais frondosas, talvez pequenos pomares para abastecimento dos moradores. Era um tempo de trocas reduzidas, de abastança fortuita e de pobreza assegurada. Um som de violino rompe o silêncio que um transeunte ocasional julgaria eterno. No meio da rua, suspenso da cegueira que tolhe os olhos, um homem, coberto por um velho chapéu de abas largas, faz deslizar o arco sobre as cordas. Os dedos movem-se com vagar, ouve-se uma música lenta, melancólica, como se a tristeza dos olhos vazios descesse pelos braços e tomasse conta das mãos. Caminha amparado por um adolescente, talvez um filho, de boné na cabeça, um saco no braço, calças pelo meio das pernas e pés descalços, sujos pela poeira dos caminhos. Não há ninguém nas janelas. Uma criança, ainda não terá cinco anos, aproxima-se daquele par sombrio, como se o som que se solta do violino fosse um íman que a atraísse. Indiferente, o músico entrega-se, com paixão contida, à peça que toca, enquanto atravessa a rua, sempre amparado pelo rapaz de pés descalços, sob a vigilância atenta da criança, que se imobilizou e segue com os olhos o lento desaparecer daqueles estranhos. Uma janela abre-se, uma mulher, ainda jovem, chama a criança, esta vira-se e corre para casa. A música extingue-se, fundida na luz suja da amanhã.

domingo, 24 de julho de 2022

Descrições fenomenológicas 68. Mulheres na praia

Pier Luigi Lavagnino, Estate, 1963

Uma das jovens mulheres, flectindo ligeiramente as longas pernas, inclinou-se sobre os pés. Soltava das fivelas as correias das sandálias, para que os pés, livres daquilo que os oprimia, pudessem enterrar-se ligeiramente na areia escura. A outra olhava o horizonte, na direcção de onde soprava o vento. O cabelo parecia querer fugir-lhe da cabeça e a toalha que segurava com ambas as mãos revolteava como se fosse uma bandeira açoitada pelo chicote da ventania. O sol trespassava a fina camada de nuvens e brilhava com uma luz esbranquiçada, anémica, incapaz de aquecer corpos e almas. Nenhuma delas trazia óculos escuros. O barulho do vento confundia-se com o rumorejo das ondas. Naqueles lugares, as águas do mar nunca são azuis ou verdes, mas cor de cinza, espalhando na paisagem uma melancolia difusa, uma tristeza que contrastava com o riso aberto e alegre daquelas mulheres, ainda tão novas. Tinham ambas a elegância do Norte, o corpo alongado, os seios nem pequenos nem grandes, como se aqueles corpos procurassem um equilíbrio, uma medida que lhes permitisse, em qualquer circunstância, evitar que a graça que deles emanava fosse posta em perigo. Condoído, o vento amainou por instantes, os cabelos delas repousaram sobre as cabeças, sem revoltear, sem insinuar fugir para longe dos corpos. Aproveitaram a condescendência dos elementos e estenderam as tolhas sobre a areia. Sentaram-se de imediato e tiraram as túnicas que as cobriam. Sobre o corpo, tinham um fato-de-banho preto, que lhes realçava a brancura da pele e lhes dava um ar sóbrio. O mar fora tomado por uma estranha placidez. As ondas formavam-se ainda longe da linha de rebentação, deslizavam lentamente e desfaziam-se como se estivessem exaustas, como se a energia lhes tivesse sido roubada. Não havia mais ninguém na praia. Elas deitaram-se nas toalhas. Falaram ainda alguns minutos. Palavras entrecortadas por um riso jovial, até que adormeceram. Um bando de gaivotas pousou não longe delas.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Descrições fenomenológicas 67. Rua com neve

Juan Suárez Ávila, Panorama desde el puente, 1974

No fundo da rua, as casas da perpendicular que a termina, deixam que os olhos avistem os telhados. Cobrem-nos uma neve branca, pura, cintilante ao ser batida pelos raios de sol, se a névoa os deixa escapar. Nos muretes das varandas e nos parapeitos das janelas, a mesma neve persiste em equilibrar-se, numa harmonia difícil, num jogo que o vento, por vezes agreste, insiste em desfazer, arrastando para o chão pequenas bolas misteriosas na sua brancura imaculada. A rua, de tão sombria, contrasta com essa visão dos telhados. Também a neve a cobre, mas não passa de uma mistura de gelo, lama e água suja. Não se avistam carros, embora o chão retenha ainda o sulco da sua passagem. As paredes de um dos lados têm janelas com grossas grades de ferro, no rés-do-chão, mas as dos primeiros e segundos andares – é uma rua de casas baixas, indigna, dir-se-á, de fazer parte de uma grande metrópole – não têm defesas contra assaltantes. Os vidros parecem sujos, embora por eles perpasse a existência de vidas no interior dos apartamentos. Uma ou outra janela está aberta e, por vezes, alguém assoma por uma delas, deixa correr os olhos pela rua, abana a cabeça ou encolhe os ombros, enquanto flocos de neve descem para poisar nos candeeiros de iluminação pública, nos passeios, na estrada. Do outro lado, as janelas estão cobertas por tapumes, algumas fechadas com tijolos, outras apresentam vidros partidos, por onde sai, sem pressa, a escuridão que delas se apossou. Ao fundo da rua, um homem aproxima-se da perpendicular e corta à esquerda. Segue-o, a curta distância, outro que pára, hesita, olha para trás, por fim, opta por voltar à direita, com o passo indeciso de quem não sabe onde está nem para onde deve ir. A meio da rua, um casal, já não são novos, caminha indiferente à queda da neve. Vão vestidos com grossos casacos compridos de Inverno. Ele leva um guarda-chuva na mão esquerda, usa-o como se fosse uma bengala, enquanto ela lhe dá o braço, carregando na mão direita uma mala de senhora, talvez de dimensões excessivas para quem anda a pé. Fico a vê-los afastarem-se, em passo comedido para não escorregarem, percebo que trocam palavras. Passam indiferentes à vida de um dos lados da rua e à ruína que vai carcomendo o outro. Tudo neles tem a marca de um longo hábito e nada do que ali possa acontecer os surpreenderá. Depois, esqueço-me deles, da rua sombria, do destino das casas. Os olhos prendem-se, então, à brancura imaculada dos telhados, ao reverberar da neve, à luz cintilante que a ilumina.

domingo, 20 de junho de 2021

Descrições fenomenológicas 66. Paisagem industrial

Gerardo Rueda, Bardala, 1961
O céu tinha desaparecido tragado por nuvens cada vez mais espessas de fumo. Das chaminés, pintadas de branco e vermelho, saíam baforadas contínuas onde o cinza suave e o chumbo pesado se misturavam para deixar um rasto de tristeza no horizonte. Dentro das grandes fábricas haveria, por certo, pessoas, muitas pessoas, mas fora delas não se via ninguém, como se todos tivessem sido capturados por um inimigo feroz ou alguma feiticeira irascível as houvesse enfeitiçado para as fazer desaparecer. Ao redor dos grandes edifícios o deserto progredia. Há muito que as plantas se tinham recusado a crescer ali. Também os animais, temendo o que se escondia sob a capa volátil do odor, teriam emigrado. Quem chegasse ao nosso planeta naquele instante e nada soubesse sobre ele, não imaginaria, ao ver o fluir do fumo, que ali se temperava o ferro para se transformar em aço. Olhasse-se para que lado se olhasse, a sensação era sempre a mesma. Uma viva opressão nascida das inúmeras fábricas, que nunca se cansavam de expelir fumarolas, pequenos vulcões ameaçadores. Por vezes, ouviam-se sirenes. Outras, passavam grandes camiões carregados. O que nunca parava, porém, era a azáfama no interior dos grandes edifícios. Os olhos procuravam uma ou outra mancha de verde, mas nunca a encontravam e perdiam-se num mundo de cinzas e desolação.
 

quarta-feira, 10 de março de 2021

Descrições fenomenológicas 65. No parque

Pier Luigi Lavagnino, Alberi, 1969

Cruzado por ruas largas de terra batida, talvez como recordação desse tempo arcaico em que os homens não pavimentavam os caminhos, o parque era o coração da cidade. Esta vivia ao ritmo da sua pulsação. Se havia ali uma atmosfera de tristeza, a cidade entristecia. Se os dias se tornavam nele melancólicos ou alegres, a cidade era tomada por uma súbita melancolia ou transbordava de alegria. Tudo o que acontecia no parque reflectia-se na cidade que o acolhia. Era um dia de Primavera, um sol amistoso brilhava no cerúleo do céu. A folhagem verde do arvoredo e dos arbustos reverberava. Nos lagos, a água cintilava, deixando ver cardumes de pequenos peixes a brilhar, se os raios solares lhes tocavam a pele. Uma multidão invadia o parque. Havia nas pessoas alegria e expectativa. Caminhavam despreocupadas, dirigiam-se para uma praça central, toda ela rodeada por enormes plátanos. Ali amontoavam-se, conhecidos com conhecidos, mas também com desconhecidos, e falavam, riam, como se aquele fosse um dia de festa. Num recanto, um pouco afastado, uma rapariga estava deitada na relva. Os seios alteados, as pernas nuas, os braços perdidos pelo corpo. No ventre, sustentava a cabeça de um rapaz deitado, de pernas flectidas. Segurava nas mãos uma viola. Indiferentes à multidão, deixavam-se embalar pela música dedilhada por ele. Por vezes, cantavam em uníssono, como se fossem apenas uma voz, um corpo, um ser. Ela calava-se e escutava-o. Depois, voltavam ambos a cantar, num dueto, em que se respondiam, como numa conversa vinda muito de trás. Quando se cansaram, ele poisou a viola, deitou-se ao lado dela e ficou a olhar para a copa das árvores e o azul do céu. Quando voltou a falar, ela rolou para cima dele e beijou-o na boca. A multidão continuava a afluir, os grupos ocasionais iam-se desfazendo e refazendo, enquanto ela olhava para dentro dos olhos dele. Quero ver o que há no fundo dos teus olhos, disse-lhe. Ele riu-se, puxou-a mais para si e beijou-a com sofreguidão. Da praça, chegava agora uma música de dança e a multidão segregava-se em mil pares que rodopiavam pelo chão de terra batida, enquanto o rapaz e a rapariga se perdiam na noite que havia nos olhos de cada um, descendo cada vez mais fundo, inundando-se de desejo, de pressa que os levasse, naquele instante, para o futuro.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Descrições fenomenológicas 64. Paisagem de silêncio

Robert Ryman, Regis, 1977

Imóveis, as águas do rio repousam da sua caminhada para a foz. Esquecem a nascente e o caminho que fizeram. Retemperam as forças para o que falta. Da sua imobilidade nascem reflexos de nove ciprestes que se erguem na margem. Um terá secado. Uma ilusão, leva o espectador a pensar na existência de um duplo renque daquelas árvores, o que se alteia em direcção aos céus e o outro que se abisma nas águas em direcção ao centro da terra. Estranha linha divisória, habitada por segredos que ninguém desvenda. O horizonte está coberto por uma névoa de onde nasce uma luz cansada pela esforço de romper o véu. Não se vêem animais, nem homens, apenas a paisagem despida na sua geometria, o encanto das águas pousadas sobre a quietude da terra, os ciprestes alinhados como uma coluna militar, o céu perdido numa mancha sonâmbula de cinza. Sobre tudo isto cai o silêncio e o visitante hesita em entrar nesse mundo, não vá acordar os elementos, raptá-los do sossego em que adormeceram e entregá-los à mácula do alvoroço. Do céu cai uma gota de água, depois outra e outra, no rio nascem círculos concêntricos, que ondulam até se pacificarem e fundirem no magma líquido, restabelecendo-se a ordem primitiva. De súbito, um pássaro poisa no cipreste morto. Canta. Um barco movido a remos sulca a água. O barqueiro move os braços e as pernas, enquanto a pequena embarcação desliza, o murmúrio das águas se fecha sobre si mesmo e a paz se restabelece no momento em que o pássaro levanta voo e o visitante desaparece tragado pela neblina.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Descrições fenomenológicas 63. O bosque dos sortilégios

Gustavo Torner, Galicia, 1957

De súbito, o silêncio tomou conta do bosque. O vento suspendeu a corrida infinita que o anima, os pássaros calaram-se escondidos nas ramagens das grandes árvores, os rumores dissolveram-se no húmus da terra negra. A paisagem era então uma enorme tela pintada de verde e silêncio, cortada pela antracite de rochas abauladas, que ao erguerem-se do chão, desenham esferas cobertas, aqui e ali, por um musgo ancestral. Entre o arvoredo há caminhos de terra batida, onde as folhas mortas jazem à espera que o vento as sopre e as arraste para as pequenas clareiras, onde ao adormecer trarão nova vida à terra. Ao longe, uma mulher caminha solitária. Desloca-se como se não quisesse quebrar o sortilégio e acordar a natureza sonâmbula que a envolve. Os pés poisam com cuidado, e quando ergue a máquina fotográfica e dispara, fá-lo como se fosse imponderável e das suas mãos nenhum ruído pudesse vir perturbar essa hora em que o mundo se recolhe dentro de si. No céu azul, algumas nuvens lembram antigas caravelas e navegam silentes, uma armada em busca das grandes aventuras que o prometido Oriente lhe trará. A mulher sobe uma escada de pedra. O corpo ergue-se de degrau em degrau. Por vezes, pára. Põem as mãos sobre os olhos e contempla o sossego que se expande até ao horizonte. Respira fundo, e recomeça a subida. Espera-a, ainda longe, um marco geodésico e dali há-de fazer as melhores fotografias, aquelas que esperam o seu talento para que venham à vida. O sol cobre-se nas nuvens que demandam as Índias e a mulher é tomada por uma pressa incompreensível. Um pé num degrau, logo outro no seguinte, como se uma força irresistível a impelisse ou um compromisso inadiável a esperasse. Sobe, rapidamente e do movimento do seu corpo solta-se uma pequena aragem. Uma sombra toca os ramos das árvores. O vento desaba da montanha, os cabelos da mulher eriçam-se, as saias enfunadas deixam ver as pernas, enquanto o canto dos pássaros cobre o verde do bosque com uma música de água e luz.
 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Descrições fenomenológicas 62. Paisagem em azul

Esteban Vicente, Goyescas, 1983

Uma cortina de tule desce do céu sobre a terra e vela suavemente a montanha e a floresta. Nela dançam mil tonalidades de azul, como se a paisagem fosse uma enorme aguarela onde se combinam o índigo, o anil, o cobalto, a turquesa, azuis marinhos ou da Prússia, mil outros matizes, ora mais suaves, ora mais carregados. Os olhos, perplexos da harmonia em azul, levam tempo a adaptar-se ao inóspito da paisagem. Lentamente, apercebem-se da massa rochosa da montanha e descobrem sobre as suas encostas e, no planalto em que se desdobra, a floresta, com as suas grandes árvores, cujas folhas, verdes em dias de sol, se confundem na ambiência que a tudo cobre. Na terra revestida de neve refulgente, pequenas poças de água e gelo cintilam. Um lençol imaculado na sua brancura funde-se no azul que desce dos céus. Restos de arbustos secos erguem-se aqui e ali, enegrecidos pelo frio e pela morte. No centro da clareira, uma cabana com paredes de madeira, um telhado de colmo de duas águas e um alpendre, tudo coberto por uma espessa camada de neve. De uma das janelas sai uma luz que anuncia o fogo a arder na lareira. Vê-se o arfar das labaredas, a metamorfose das cores, o vermelho, o laranja e logo o amarelo, para retornar tudo ao princípio, numa dança que que traz à memória o fluxo eterno, o movimento inconstante do ser, a esperança de que a vida não tenha fim. Vindo da floresta, um corvo pousa na chaminé. O preto que o cobre ilumina-se no contaste com o branco da neve. Na cabana, alguém chega à janela. Fica parado, contempla com demora o horizonte, depois volta-se e desaparece. Os azuis fundem-se lentamente até que tudo se torna negro e a noite acrescente paz à solidão.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Descrições fenomenológicas 61. O mosteiro

Ellsworth Kelly, Shadows Under a Balcony, 1950

No chão desenha-se ainda um caminho de terra batida. A humidade e o frio compactaram-na, tornando-a mais dura sob os pés cautelosos que, por vezes, a pisam. Aqui e ali, descortinam-se pequenas poças. Uma água suja e cansada, quase sólida, onde repousam folhas mortas, pedras, pequenos ramos secos. O resto, porém, está coberto pela brancura irisada da neve, um espelho imaculado que reflecte o mundo. Não há nela pegadas humanas ou de animais, pois uma ordem severa impõe uma disciplina estrita de respeito pela vastidão do manto branco. Um castanheiro antigo retorce-se despido. Sobre os seus ramos amontoam-se flocos que fazem lembrar pequenas aves brancas pousadas na madeira escurecida pelo Inverno. O tronco, em baixo, é rodeado por um banco circular de granito, onde, nas estações mais amenas, não é inabitual encontrar ali alguém sentado, quase sempre em silêncio, evadido da frivolidade das conversas que animam o mundo. A alguns metros da árvore, vindo do tempo da fundação, há um velho fontanário de pedra, de onde sai uma água cristalina e gélida que cai em borbotões na pia circular, para depois se evadir, formando um pequeno regato que se precipita encosta abaixo. Num dos edifícios, o mais recuado, a capela, a neve amontoada da última noite desliza devagar pelas abas negras do telhado e precipita-se no pátio com um ploc-ploc surdo. Sobre o pórtico, uma estátua de um santo enfrenta a invernia com decisão, indiferente aos humores do clima ou aos pássaros que o escolhem como poiso temporário, para ali ganharem energia e se alçarem aos céus. Sob as arcadas do edifício principal, um coro de monjas, ocultas em seus hábitos castanhos com grandes golas brancas, enfrenta o frio e canta. A voz aguda e cristalina penetra na montanha e eleva-se às esferas celestes, entoando um requiem que suspende o tempo e deixa entrever, na luz que se desprende das velas, o sinal de uma eternidade quase palpável que se estende pelo mosteiro e transborda num eco sem fim pelas encostas íngremes e pelas florestes onde dormem os animais selvagens.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Descrições fenomenológicas 60. Um porto

Esteban Vicente, Goyescas, 1983

Da porta da pequena ermida situado no outeiro, quase em cima da costa, vê-se o movimento marítimo de um porto antigo. À direita, as grandes construções, armazéns e, um pouco mais ao fundo, estaleiros, entregues à construção e à reparação de barcos de pequeno e médio porte. Levados pela necessidade, operários e homens do mar atravessam apressados o cais, enquanto gente aturistada deambula por ali ávida, como todos os turistas, de ver aquilo que nunca haverá de ver e muito menos compreender. O céu está mesclado de nuvens que ora coam a luz, criando uma atmosfera de irrealidade, uma paisagem de fantasia, o exercício romântico de um pintor obcecado com o sublime das emoções que lhe perturbam a alma, ora deixam o campo aberto para que os raios solares incendeiem as águas e ateiem súbitas e estranhas cintilações de fogo nas pedras do molhe, que se vê à esquerda. As águas, tranquilas até à afabilidade, entretêm-se nesse jogo de mudança de cores, ora cinzentas, ora verde-azuladas, ora quase acastanhadas. Não é dia de grande tráfego portuário. Alguns veleiros sulcam as águas, as velas desfraldadas, uns aproximando-se de terra, outros afastando-se, diminuindo de tamanho até se tornarem um ponto a desaparecer na linha do horizonte. Num dos cais, à borda das águas, mesmo alinhado com a ermida, está, sobre um pilar de pedra cinzenta, um oratório não muito grande, encimado por cruz de madeira. Diante dele, está parada uma pequena embarcação. Dois homens inclinam a cabeça e permanecem assim por largos minutos, murmurando súplicas e desfiando gratidões. Depois, põem o barco em movimento e afastam-se lentamente, enquanto o sol irrompe de novo e resplandece como se tivéssemos voltado ao quarto dia da criação e os grandes luzeiros acabassem de ter sido colados pela mão de Deus na tela gigantesca do firmamento.

sábado, 31 de outubro de 2020

Descrições fenomenológicas 59. O rei do mundo

Javier Calvo, A partir de Keiser, 1985

Ouve-se o marulhar surdo das águas que, exaustas e cinzentas, vindas de muito longe, chegam à foz, abrindo os seus braços, até se tornarem num imenso regaço que a tudo parece acolher. Ao longe, avistam-se, através do véu translúcido da névoa, as montanhas com os seus cumes afiados e incertos, os vales ronronantes de mistério, as escarpas anunciando o perigo, o arvoredo que, em dias de sol, será verde e agora não passa de um borrão escuro, viscoso, que o vento faz ondular com lentidão. Nas águas, deslizam barcos tão diversos que dificilmente se fica conformado com o uso da mesma designação para cada um deles. Impante e orgulhoso, avança sem pressa um porta-aviões, com a sua carga que, erguendo-se aos céus, leva a morte para a despejar sobre a terra incauta. Divisam-se os caças-bombardeiros silenciosos, sonolentos, e na amurada perfilam-se homens que olham ansiosos e sonâmbulos para terra. Um pouco mais adiante, uma pequena embarcação à vela, talvez uma falua, sulca irrequieta as águas, como se temesse ser abalroada pelo gigante que a segue. As velas são asas encardidas a fender o horizonte, estandartes e pendões de um exército antigo e derrotado pelo tempo. Os ocupantes, nautas experimentados e curtidos ao sol e à chuva, afadigam-se com tarefas que os levem a bom porto. Entre uma e outra embarcação, num pequeno bote a remos, ergue-se um homem. Solitário, contempla a desmesura da morte e da vida, da engenharia com que se engalana a tarefa de fazer morrer o inimigo e a pobreza dos que, nas águas, levam a morte aos peixes para dar vida aos homens. Inerte, o homem contempla os mistérios da humanidade, depois espreita o horizonte cerrado pelas montanhas, até que o seu barco é o único naquelas águas e ele sente-se, na estreiteza do bote e na vertigem do coração, o rei do mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Descrições fenomenológicas 58. Entre ruínas 2

Agnes, Martin, Sin título No. 2, 1977

De tudo o que um dia preencheu aquela divisão, um quarto, por certo, resta uma poltrona. É possível que, enquanto a casa foi habitada, quem lá vivia empregasse o francês fauteuil, mas isso é uma conjectura derivada do gosto afrancesado com que a vivenda foi arquitectada. No chão assoalhado, as tábuas estão todas no lugar. Nem o tempo nem a humidade foram suficientes para as levantar. Os efeitos do caruncho, porém, são já visíveis, formando ilhas escuras num mar em que os tons castanhos acinzentados se tornaram dominantes. Vê-se no centro um sistema de dunas de caliça, cuja origem se encontra num buraco do tecto, onde houve um terminal do sistema eléctrico, que alimentava um candeeiro que alguém terá levado. Junto às paredes, as dunas são substituídas por um areal raso. Naquelas são visíveis rachas e um olhar distraído diria que se formou um sistema hidrográfico, ao qual não faltam sequer alguns lagos. Os sítios que um dia suportaram o interruptor e as tomadas eléctricas despiram-se e são agora buracos negros circulares, poços que penetram as paredes, dos quais desapareceram, talvez roubados, os fios de cobre que transportavam a energia eléctrica. A porta foi retirada e a luz que chega da rua, por uma janela existente na parede oposta, é apenas suficiente para deixar perceber que o corredor não está em melhores condições que o quarto. Os lambris junto ao chão são pasto de fungos e, também eles, vítimas da fome desvairada dos carcomas, vendo-se em toda a volta montículos de pó de madeira. Em alguns sítios, o lambril já se despegou da parede, deixando ver o reboco que durante anos escondeu. A poltrona forrada por um tecido aveludado não deixa perceber a cor original. Rasgões, buracos e até pequenos cortes, tudo isso coberto pelo pó esbranquiçado da caliça, configuram um território inóspito. Há muito que ninguém ali se senta, nem os eventuais saqueadores de ruínas ou algum vagabundo que, em noite de tempestade, se acolha na casa. Espera que o tempo passe, que a casa seja reconstruída ou demolida, para então merecer uma última atenção, quando lhe pegarem para a levar para a lixeira.

 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Descrições fenomenológicas 57. Entre ruínas 1

Leopoldo Novoa, Next time the fire, 1992

Um grande quintal. Há nele ainda vestígios de caminhos construídos por lajes irregulares de calcário. Muitas delas foram arrancadas do lugar, empilhadas ao fundo junto de uma arrecadação, como se alguém as tivesse colhido para as levar para outro lugar, onde houvesse pés humanos para as pisar e assim se defenderem do contacto directo com a terra. Fungos e musgo denunciam que o projecto foi abandonado há muito. Uma armação de ferro, de onde um dia penderam duas cadeiras de baloiço, mantém-se de pé, presa nas sapatas de cimento que se enterram pelo chão. As pernas e a trave são uma combinação de ferrugem e de verde escuro, restos de tinta que o tempo e a corrosão dos materiais ainda não apagaram. Os ganchos, de onde penderam as correntes que seguravam os assentos, continuam a esperar que alguém se recorde do seu préstimo, para que neles o ferro ranja enquanto crianças vão e vêm, entre gritos e gargalhadas de prazer. O que fora uma sebe é agora um renque de arbustos desalinhados, entrecortado por espaços vazios, por onde animais selvagens entram e saem. A casa mantém o telhado, onde crescem ervas daninhas, talvez cactos e fetos. Há telhas partidas, mas não muitas. As paredes que um dia foram brancas amareleceram, com pedaços de caliça a despegarem-se, à espera que o vento os derrube para se pulverizarem ao tocarem o chão. No primeiro andar, em vez de janelas há portas que dão para varandas exíguas feitas de pedra e rodeadas de balaústres. Colónias de fungos fizeram lá a sua casa, tingindo-as de uma mescla de cores sombrias, onde predomina um cinzento moderado com manchas redondas de antracite e linhas de verde dos musgos trazidos pela humidade. Os caixilhos das janelas do rés-do-chão perderam cor. O vermelho deu lugar ao castanho claro da madeira ressequida, gretada, por onde passeiam formigas. Numa delas, as portadas de vidro estão abertas. A obscuridade do abandono sai em golfadas de esquecimento para a rua, cai sobre o quintal, toca a terra, os objectos esquecidos, os tapetes de folhas mortas que uma brisa empurra, ouvindo-se um rumorejo suave como se fantasmas as pisassem com cuidado para não despertar alguma memória que o sono do tempo adormeceu.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Descrições fenomenológicas 56. O molhe

Hafidh Al-Droubi, Harmony in Blue, 1966

De um lado, as águas cor esmeralda, do outro azul cinza. Divide-as um molhe, que as segura e fende, para aquietar-lhes ímpetos, torcer-lhes energias, submetê-las aos devaneios humanos. Desenha nelas, à superfície, uma cicatriz de betão armado, amparada por enormes blocos de pedra, para ali arrastados como protecção contra a cólera do oceano.  São seiscentos metros que separam o início da construção, ainda em terra seca, da ponta onde o molhe se termina num farol, uma torre, já bem dentro do mar, com paredes pintadas às riscas brancas e verdes, encimadas por uma enorme lâmpada, também ela verde. Passeiam por ali famílias vindas de fora, pessoas que o aproveitam como terreno para as suas caminhadas, a pé ou de bicicleta, gente da terra que nunca se cansa de olhar o mar. Velhos pescadores, agora reformados, espreitam com nostalgia a passagem dos barcos de pesca. Outros, pescadores amadores, distribuem-se pela metade final da construção e, equipados com grandes canas de pesca, entretêm-se em manipulá-las, lançando ao mar a linha terminada num anzol onde prendem o isco, fazendo rodar para trás e para a frente um carreto, numa coreografia arduamente adquirida. Depois, prendem as canas ao chão. Uns, deitando-as sobre o cimento. Outros aproveitando as fendas disponíveis. Por fim, sentam-se em bancos e cadeiras apropriadas à função e ficam a conversar com amigos ou a família, ou a olhar para a cor do mar, numa espera interminável que a cana dê um sinal que anuncie um peixe caído no engodo humano, preso pela boca na ponta acerada do anzol. Solitária, uma mulher jovem, vestida com roupa desportiva, caminha em direcção ao farol. Um passo decidido, as pernas compassadas num corpo elegante, o cabelo a ondular com o movimento, erguendo-se se o vento o açoita com mais violência. Os olhos escondem-se nuns óculos de sol de marca famosa. Olha em frente, um passo, e outro, e outro, até que cumpre os seiscentos metros. Pára, olha o mar e senta-se na borda do molhe, as pernas caídas em direcção às rochas de protecção, o corpo apoiado nas palmas da mão que repousam no chão. As gaivotas esvoaçam, aterram sobre o cimento, levantam voo, se alguém se aproxima, planam empurradas pela energia eólica. Passados alguns minutos, a mulher levanta-se, a roupa realça-lhe as formas. Volta-se, vira-se para terra e caminha, no mesmo passo decidido e cadenciado, indiferente a quem passa, concentrada em si, no corpo que se oferece ao olhar dos espectadores. Chegada ao fim do molhe, entra num bar que ali há e desaparece na suave obscuridade que a acolhe.

sábado, 8 de agosto de 2020

Descrições fenomenológicas 55. Rua sombria

Juan Suárez Ávila, Paisaje imaginario, 1974

A custo o sol penetra a rua, apenas naquele momento em que cai a pique e logo começa a trepar pelas paredes dos prédios para se afastar, até que passadas vinte e quatro horas volta, se o dia não for toldado por nuvens grávidas de cinza e chumbo, prontas a desabar sobre a terra em grossas gotas de chuva. Não se avista ninguém, apenas as sombras desenham estranhas figuras, que se vão transformando perante o olhar. À esquerda, vê-se o anúncio de um hotel, daqueles onde se acolhe, quando chega à cidade, gente vinda dos campos, pouco abonada pelo trabalho da terra. Depois, os prédios de seis andares, são dedicados à habitação, apartamentos lúgubres, de vidros sujos. Num ou noutro prédio, há varandas onde se avistam plantas raquíticas. Há portadas entreabertas, mas ninguém parece espreitar por elas. Ao nível do rés-do-chão vêem-se alguns portões de metal, mas não escondem qualquer comércio, são apenas armazéns alugados a comerciantes que abriram o seu negócio em ruas mais promissoras, mais largas, onde a luz se demora com mais vagar e a massa dos clientes se passeia despreocupada, deixando-se ver quando a luz bate sobre os seus rostos pintados pelo quotidiano. O outro lado da rua é uma mancha negra de prédios desabitados, envelhecidos, casas construídas séculos atrás e onde ninguém que gastar os seus dias e as suas noites. Talvez um ou outro sirva de acomodação a algum sem-abrigo, mas o que sobressai é as manchas negras que os fungos multiplicados na humidade semeiam. Os caixilhos ainda vão segurando vidros, aqui e ali já partidos. Num ou noutro prédio, a porta da rua foi substituída por uma parede tosca, daquelas feitas de tijolo e cobertas de cimento, para evitar que se intrometam por ali, e um acidente faça nascer um fogo, ou que a casa abandonada seja lugar para um crime terrível. O tempo passa pela rua, enche-a de rugas e pústulas, sem que um veículo se atreva a passar pelas lajes gastas que a pavimentam. Uma mulher curvada, apoiando-se numa bengala, surge ao fundo. Desloca-se com vagar, passos trémulos, o olhar no chão. Uma gabardine envelhecida quase toca no chão. Traz com ela uma pequena maleta, que parece ter um peso excessivo para as suas forças. Detém-se perante a porta do hotel, poisa a mala no chão. Da algibeira tira um papel. Olha-o e olha para a designação do hotel. Guarda a informação de onde a tirara, pega na mala e entra.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Descrições fenomenológicas 54. O túnel

Öyvind Fahlström, Stötar, 1960

Batida pelo sol, a rua mostra o cansaço e as rugas que os anos depositaram na sua pele de tijolo, cimento e alcatrão. Os caixilhos brancos das janelas, de tinta gretada pelo calor, seguram vidros antigos, nem sempre muito limpos, como se a sujidade fosse uma cortina de protecção a quem da rua pretendesse espreitar a intimidade de uma casa, os segredos de alguma alcova, os desvarios de alguém tomado por acesso de loucura. A estrada também teve melhores dias. A profusão de remendos negros deixa perceber que o asfalto é antigo, e que se prefere ir consertando aqui e ali do que pôr um tapete novo. A ladeá-la passeios de um cimento turvo, carcomido pelo uso, cheio de rachas, de onde brotam ervas raquíticas e algum musgo. Duas mulheres, mãe e filha, caminham lado a lado. Por vezes, a mãe sai do passeio e dá alguns passos pela estrada, mas logo volta a pisar o cimento encardido, encostando-se à filha. De uma varanda de um primeiro andar, pende uma bandeira esverdeada, com dizeres imperceptíveis inscritos em amarelo desmaiado pelo sol. Se o vento lhe bate com mais ferocidade, quase levanta voo, sujeitando o mastro a uma pressão a que ele vai cedendo pouco a pouco. Desemboca a rua num túnel sombrio, sem iluminação se é de dia. Dele saem mulheres apressadas, perseguidas pelas suas sombras. Em sentido contrário, três homens entram na escuridão, conversam animados. Um assunto de negócios, compras e vendas, o valor das casas, a recuperação que se pode fazer. Durante alguns segundos as vozes ficam a ecoar até se perderem, como se os seus donos tivessem sido tragados por um buraco negro. De uma loja, uma mercearia, sai uma freguesa, ainda nova, e logo o lojista, agora desocupado, se chega à porta, acende um cigarro e fica a olhar a mulher, que se perde na escuridão do túnel. Depois, inclina a cabeça para baixo e concentra-se num exame minucioso do chão. Por vezes, cumprimenta um transeunte e olha para o outro lado, a rua batida pelo sol, com a esperança de que venha alguém com quem possa conversar e matar aquele tempo, que teima em não passar. Uma rajada de vento ergueu a bandeira, uma janela abriu-se e fechou-se com violência. Os vidros estilhaçados caíram no passeio, onde um cão assutado começou a ladrar, enquanto se afastava perplexo, perdendo-se nas trevas do túnel.