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| Jacqueline Lamba, Ciel Noir, 1986 |
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Descrições fenomenológicas 73. A indústria
terça-feira, 18 de março de 2025
Descrições fenomenológicas 72. Tempestade
| Mark Tobey, À Cheval la Nuit, 1958 |
sexta-feira, 25 de outubro de 2024
Descrições fenomenológicas 71. Ruas
| Antonio Clavé, A Don Pablo, 1984 |
Olha-se e pensa-se imediatamente num V, num V de vitória. Só depois se percebe que se há uma letra que descreva o que se observa é um Y. Uma rua única desemboca numa bifurcação. Talvez seja melhor dizer ao contrário. Duas ruas, vindas de sítios distantes, desaguam numa única via. Há nesta imagem alguma incongruência, pois espera-se que uma cidade moderna seja racional e evite a confluência de dois fluxos de trânsito numa única avenida. É isso, porém, o que acontece. Um trânsito infernal vindo de cada uma das ruas encontra-se e forma um engarrafamento que parece não ter fim. Nos passeios, os peões vão solitários, indiferentes à sorte dos automobilistas, indiferentes à sorte de quem por elas passa, também apeado, também ostentando no rosto a máscara sediciosa do alheamento. No vértice da bifurcação, um edifício, mais alto do que os outros, projecta uma longa sombra que cai como um véu sobre a avenida que forma a haste do Y. Ouve-se o buzinar dos carros e sente-se a ânsia dos condutores. Os semáforos parecem inúteis. Mudam de cor, mas tudo continua parado. Peões mais apressados evitam as passadeiras e atravessam por entre os carros, como se temessem que o passeio do outro lado se evaporasse. Há quem entre ou saia dos cafés, dos bares, das lojas ou dos prédios de apartamentos. O fumo saído dos tubos de escape forma uma nuvem e espalha um odor maligno naquele lugar. Dois condutores desentendem-se e trocam palavras iradas. Fazem gestos obscenos e calam-se. Ouve-se um grito e de seguida passa um grupo de adolescentes. Os gritos multiplicam-se. Depois esmorecem sorvidos pela nuvem de fumo, trancados entre as altas paredes dos prédios, calados pelo ruídos dos motores que retomam a marcha, numa lentidão que parece exasperar ainda mais os condutores, em cujos rostos se observam o desgosto do cansaço, sinais de loucura, ânsias homicidas.
domingo, 12 de março de 2023
Descrições fenomenológicas 70. A praça
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| Willem De Kooning, Cuadro, 1948 |
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
Descrições fenomenológicas 69. O tocador de violino
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| António Areal, Opus II, nº 78, 1963 |
Uma rua miserável às portas da cidade. Ainda não tinha chegado ali o lençol de alcatrão. A terra batida deixava ver o rasto de carroças, de automóveis, pegadas animais e humanas. As casas baixas tinham janelas escurecidas pelos anos e portas de madeira de onde a tinta ia caindo, encarquilhada, seca, até se dissolver em pó, levado pelo vento. Aqui e ali, despontavam árvores ainda jovens, já cansadas, com se sofressem de uma privação de que jamais se recuperariam. Entre as casas, havia muros e paliçadas, para além deles avistavam-se outras árvores, mais frondosas, talvez pequenos pomares para abastecimento dos moradores. Era um tempo de trocas reduzidas, de abastança fortuita e de pobreza assegurada. Um som de violino rompe o silêncio que um transeunte ocasional julgaria eterno. No meio da rua, suspenso da cegueira que tolhe os olhos, um homem, coberto por um velho chapéu de abas largas, faz deslizar o arco sobre as cordas. Os dedos movem-se com vagar, ouve-se uma música lenta, melancólica, como se a tristeza dos olhos vazios descesse pelos braços e tomasse conta das mãos. Caminha amparado por um adolescente, talvez um filho, de boné na cabeça, um saco no braço, calças pelo meio das pernas e pés descalços, sujos pela poeira dos caminhos. Não há ninguém nas janelas. Uma criança, ainda não terá cinco anos, aproxima-se daquele par sombrio, como se o som que se solta do violino fosse um íman que a atraísse. Indiferente, o músico entrega-se, com paixão contida, à peça que toca, enquanto atravessa a rua, sempre amparado pelo rapaz de pés descalços, sob a vigilância atenta da criança, que se imobilizou e segue com os olhos o lento desaparecer daqueles estranhos. Uma janela abre-se, uma mulher, ainda jovem, chama a criança, esta vira-se e corre para casa. A música extingue-se, fundida na luz suja da amanhã.
domingo, 24 de julho de 2022
Descrições fenomenológicas 68. Mulheres na praia
| Pier Luigi Lavagnino, Estate, 1963 |
Uma das jovens mulheres, flectindo ligeiramente as longas pernas, inclinou-se sobre os pés. Soltava das fivelas as correias das sandálias, para que os pés, livres daquilo que os oprimia, pudessem enterrar-se ligeiramente na areia escura. A outra olhava o horizonte, na direcção de onde soprava o vento. O cabelo parecia querer fugir-lhe da cabeça e a toalha que segurava com ambas as mãos revolteava como se fosse uma bandeira açoitada pelo chicote da ventania. O sol trespassava a fina camada de nuvens e brilhava com uma luz esbranquiçada, anémica, incapaz de aquecer corpos e almas. Nenhuma delas trazia óculos escuros. O barulho do vento confundia-se com o rumorejo das ondas. Naqueles lugares, as águas do mar nunca são azuis ou verdes, mas cor de cinza, espalhando na paisagem uma melancolia difusa, uma tristeza que contrastava com o riso aberto e alegre daquelas mulheres, ainda tão novas. Tinham ambas a elegância do Norte, o corpo alongado, os seios nem pequenos nem grandes, como se aqueles corpos procurassem um equilíbrio, uma medida que lhes permitisse, em qualquer circunstância, evitar que a graça que deles emanava fosse posta em perigo. Condoído, o vento amainou por instantes, os cabelos delas repousaram sobre as cabeças, sem revoltear, sem insinuar fugir para longe dos corpos. Aproveitaram a condescendência dos elementos e estenderam as tolhas sobre a areia. Sentaram-se de imediato e tiraram as túnicas que as cobriam. Sobre o corpo, tinham um fato-de-banho preto, que lhes realçava a brancura da pele e lhes dava um ar sóbrio. O mar fora tomado por uma estranha placidez. As ondas formavam-se ainda longe da linha de rebentação, deslizavam lentamente e desfaziam-se como se estivessem exaustas, como se a energia lhes tivesse sido roubada. Não havia mais ninguém na praia. Elas deitaram-se nas toalhas. Falaram ainda alguns minutos. Palavras entrecortadas por um riso jovial, até que adormeceram. Um bando de gaivotas pousou não longe delas.
domingo, 26 de dezembro de 2021
Descrições fenomenológicas 67. Rua com neve
| Juan Suárez Ávila, Panorama desde el puente, 1974 |
No fundo da rua, as casas da perpendicular que a termina, deixam que os olhos avistem os telhados. Cobrem-nos uma neve branca, pura, cintilante ao ser batida pelos raios de sol, se a névoa os deixa escapar. Nos muretes das varandas e nos parapeitos das janelas, a mesma neve persiste em equilibrar-se, numa harmonia difícil, num jogo que o vento, por vezes agreste, insiste em desfazer, arrastando para o chão pequenas bolas misteriosas na sua brancura imaculada. A rua, de tão sombria, contrasta com essa visão dos telhados. Também a neve a cobre, mas não passa de uma mistura de gelo, lama e água suja. Não se avistam carros, embora o chão retenha ainda o sulco da sua passagem. As paredes de um dos lados têm janelas com grossas grades de ferro, no rés-do-chão, mas as dos primeiros e segundos andares – é uma rua de casas baixas, indigna, dir-se-á, de fazer parte de uma grande metrópole – não têm defesas contra assaltantes. Os vidros parecem sujos, embora por eles perpasse a existência de vidas no interior dos apartamentos. Uma ou outra janela está aberta e, por vezes, alguém assoma por uma delas, deixa correr os olhos pela rua, abana a cabeça ou encolhe os ombros, enquanto flocos de neve descem para poisar nos candeeiros de iluminação pública, nos passeios, na estrada. Do outro lado, as janelas estão cobertas por tapumes, algumas fechadas com tijolos, outras apresentam vidros partidos, por onde sai, sem pressa, a escuridão que delas se apossou. Ao fundo da rua, um homem aproxima-se da perpendicular e corta à esquerda. Segue-o, a curta distância, outro que pára, hesita, olha para trás, por fim, opta por voltar à direita, com o passo indeciso de quem não sabe onde está nem para onde deve ir. A meio da rua, um casal, já não são novos, caminha indiferente à queda da neve. Vão vestidos com grossos casacos compridos de Inverno. Ele leva um guarda-chuva na mão esquerda, usa-o como se fosse uma bengala, enquanto ela lhe dá o braço, carregando na mão direita uma mala de senhora, talvez de dimensões excessivas para quem anda a pé. Fico a vê-los afastarem-se, em passo comedido para não escorregarem, percebo que trocam palavras. Passam indiferentes à vida de um dos lados da rua e à ruína que vai carcomendo o outro. Tudo neles tem a marca de um longo hábito e nada do que ali possa acontecer os surpreenderá. Depois, esqueço-me deles, da rua sombria, do destino das casas. Os olhos prendem-se, então, à brancura imaculada dos telhados, ao reverberar da neve, à luz cintilante que a ilumina.
domingo, 20 de junho de 2021
Descrições fenomenológicas 66. Paisagem industrial
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| Gerardo Rueda, Bardala, 1961 |
quarta-feira, 10 de março de 2021
Descrições fenomenológicas 65. No parque
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| Pier Luigi Lavagnino, Alberi, 1969 |
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
Descrições fenomenológicas 64. Paisagem de silêncio
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| Robert Ryman, Regis, 1977 |
Imóveis, as
águas do rio repousam da sua caminhada para a foz. Esquecem a nascente e o
caminho que fizeram. Retemperam as forças para o que falta. Da sua imobilidade
nascem reflexos de nove ciprestes que se erguem na margem. Um terá secado. Uma
ilusão, leva o espectador a pensar na existência de um duplo renque daquelas
árvores, o que se alteia em direcção aos céus e o outro que se abisma nas águas
em direcção ao centro da terra. Estranha linha divisória, habitada por segredos
que ninguém desvenda. O horizonte está coberto por uma névoa de onde nasce uma
luz cansada pela esforço de romper o véu. Não se vêem animais, nem homens,
apenas a paisagem despida na sua geometria, o encanto das águas pousadas sobre
a quietude da terra, os ciprestes alinhados como uma coluna militar, o céu perdido
numa mancha sonâmbula de cinza. Sobre tudo isto cai o silêncio e o visitante
hesita em entrar nesse mundo, não vá acordar os elementos, raptá-los do sossego
em que adormeceram e entregá-los à mácula do alvoroço. Do céu cai uma gota de
água, depois outra e outra, no rio nascem círculos concêntricos, que ondulam até
se pacificarem e fundirem no magma líquido, restabelecendo-se a ordem primitiva.
De súbito, um pássaro poisa no cipreste morto. Canta. Um barco movido a remos sulca
a água. O barqueiro move os braços e as pernas, enquanto a pequena embarcação desliza,
o murmúrio das águas se fecha sobre si mesmo e a paz se restabelece no momento
em que o pássaro levanta voo e o visitante desaparece tragado pela neblina.
sábado, 30 de janeiro de 2021
Descrições fenomenológicas 63. O bosque dos sortilégios
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| Gustavo Torner, Galicia, 1957 |
quarta-feira, 6 de janeiro de 2021
Descrições fenomenológicas 62. Paisagem em azul
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| Esteban Vicente, Goyescas, 1983 |
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
Descrições fenomenológicas 61. O mosteiro
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| Ellsworth Kelly, Shadows Under a Balcony, 1950 |
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
Descrições fenomenológicas 60. Um porto
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| Esteban Vicente, Goyescas, 1983 |
Da porta da pequena ermida situado no outeiro, quase em cima da costa, vê-se o movimento marítimo de um porto antigo. À direita, as grandes construções, armazéns e, um pouco mais ao fundo, estaleiros, entregues à construção e à reparação de barcos de pequeno e médio porte. Levados pela necessidade, operários e homens do mar atravessam apressados o cais, enquanto gente aturistada deambula por ali ávida, como todos os turistas, de ver aquilo que nunca haverá de ver e muito menos compreender. O céu está mesclado de nuvens que ora coam a luz, criando uma atmosfera de irrealidade, uma paisagem de fantasia, o exercício romântico de um pintor obcecado com o sublime das emoções que lhe perturbam a alma, ora deixam o campo aberto para que os raios solares incendeiem as águas e ateiem súbitas e estranhas cintilações de fogo nas pedras do molhe, que se vê à esquerda. As águas, tranquilas até à afabilidade, entretêm-se nesse jogo de mudança de cores, ora cinzentas, ora verde-azuladas, ora quase acastanhadas. Não é dia de grande tráfego portuário. Alguns veleiros sulcam as águas, as velas desfraldadas, uns aproximando-se de terra, outros afastando-se, diminuindo de tamanho até se tornarem um ponto a desaparecer na linha do horizonte. Num dos cais, à borda das águas, mesmo alinhado com a ermida, está, sobre um pilar de pedra cinzenta, um oratório não muito grande, encimado por cruz de madeira. Diante dele, está parada uma pequena embarcação. Dois homens inclinam a cabeça e permanecem assim por largos minutos, murmurando súplicas e desfiando gratidões. Depois, põem o barco em movimento e afastam-se lentamente, enquanto o sol irrompe de novo e resplandece como se tivéssemos voltado ao quarto dia da criação e os grandes luzeiros acabassem de ter sido colados pela mão de Deus na tela gigantesca do firmamento.
sábado, 31 de outubro de 2020
Descrições fenomenológicas 59. O rei do mundo
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| Javier Calvo, A partir de Keiser, 1985 |
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Descrições fenomenológicas 58. Entre ruínas 2
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| Agnes, Martin, Sin título No. 2, 1977 |
De tudo o que
um dia preencheu aquela divisão, um quarto, por certo, resta uma poltrona. É
possível que, enquanto a casa foi habitada, quem lá vivia empregasse o francês fauteuil,
mas isso é uma conjectura derivada do gosto afrancesado com que a vivenda foi
arquitectada. No chão assoalhado, as tábuas estão todas no lugar. Nem o tempo
nem a humidade foram suficientes para as levantar. Os efeitos do caruncho,
porém, são já visíveis, formando ilhas escuras num mar em que os tons castanhos
acinzentados se tornaram dominantes. Vê-se no centro um sistema de dunas de
caliça, cuja origem se encontra num buraco do tecto, onde houve um terminal do
sistema eléctrico, que alimentava um candeeiro que alguém terá levado. Junto às
paredes, as dunas são substituídas por um areal raso. Naquelas são visíveis
rachas e um olhar distraído diria que se formou um sistema hidrográfico, ao
qual não faltam sequer alguns lagos. Os sítios que um dia suportaram o
interruptor e as tomadas eléctricas despiram-se e são agora buracos negros
circulares, poços que penetram as paredes, dos quais desapareceram, talvez
roubados, os fios de cobre que transportavam a energia eléctrica. A porta foi
retirada e a luz que chega da rua, por uma janela existente na parede oposta, é
apenas suficiente para deixar perceber que o corredor não está em melhores
condições que o quarto. Os lambris junto ao chão são pasto de fungos e, também
eles, vítimas da fome desvairada dos carcomas, vendo-se em toda a volta montículos
de pó de madeira. Em alguns sítios, o lambril já se despegou da parede,
deixando ver o reboco que durante anos escondeu. A poltrona forrada por um
tecido aveludado não deixa perceber a cor original. Rasgões, buracos e até
pequenos cortes, tudo isso coberto pelo pó esbranquiçado da caliça, configuram
um território inóspito. Há muito que ninguém ali se senta, nem os eventuais
saqueadores de ruínas ou algum vagabundo que, em noite de tempestade, se acolha
na casa. Espera que o tempo passe, que a casa seja reconstruída ou demolida,
para então merecer uma última atenção, quando lhe pegarem para a levar para a
lixeira.
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Descrições fenomenológicas 57. Entre ruínas 1
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| Leopoldo Novoa, Next time the fire, 1992 |
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
Descrições fenomenológicas 56. O molhe
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| Hafidh Al-Droubi, Harmony in Blue, 1966 |
sábado, 8 de agosto de 2020
Descrições fenomenológicas 55. Rua sombria
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| Juan Suárez Ávila, Paisaje imaginario, 1974 |
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Descrições fenomenológicas 54. O túnel
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| Öyvind Fahlström, Stötar, 1960 |















