quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Descrições fenomenológicas 62. Paisagem em azul

Esteban Vicente, Goyescas, 1983

Uma cortina de tule desce do céu sobre a terra e vela suavemente a montanha e a floresta. Nela dançam mil tonalidades de azul, como se a paisagem fosse uma enorme aguarela onde se combinam o índigo, o anil, o cobalto, a turquesa, azuis marinhos ou da Prússia, mil outros matizes, ora mais suaves, ora mais carregados. Os olhos, perplexos da harmonia em azul, levam tempo a adaptar-se ao inóspito da paisagem. Lentamente, apercebem-se da massa rochosa da montanha e descobrem sobre as suas encostas e, no planalto em que se desdobra, a floresta, com as suas grandes árvores, cujas folhas, verdes em dias de sol, se confundem na ambiência que a tudo cobre. Na terra revestida de neve refulgente, pequenas poças de água e gelo cintilam. Um lençol imaculado na sua brancura funde-se no azul que desce dos céus. Restos de arbustos secos erguem-se aqui e ali, enegrecidos pelo frio e pela morte. No centro da clareira, uma cabana com paredes de madeira, um telhado de colmo de duas águas e um alpendre, tudo coberto por uma espessa camada de neve. De uma das janelas sai uma luz que anuncia o fogo a arder na lareira. Vê-se o arfar das labaredas, a metamorfose das cores, o vermelho, o laranja e logo o amarelo, para retornar tudo ao princípio, numa dança que que traz à memória o fluxo eterno, o movimento inconstante do ser, a esperança de que a vida não tenha fim. Vindo da floresta, um corvo pousa na chaminé. O preto que o cobre ilumina-se no contaste com o branco da neve. Na cabana, alguém chega à janela. Fica parado, contempla com demora o horizonte, depois volta-se e desaparece. Os azuis fundem-se lentamente até que tudo se torna negro e a noite acrescente paz à solidão.

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