domingo, 24 de janeiro de 2021

Perfis 13. A mulher abandonada

Deborah Turbeville, Clothes by Romeo Gigli, Mirabella Magazine, 1989
A mulher abandonada entrega-se comovida ao seu abandono. Este nasce-lhe dentro do coração e transpira lentamente pelos poros, como se fora uma alma exausta, cansada da prisão do corpo. Inclina a cabeça para terra. Dos olhos, desprende-se o plácido rio da solidão. Com ele faz um vestido de água e seda, e logo vela o corpo para que olhos vindos ao acaso se interroguem sobre forma e beleza. No abandono, a mulher encontra um lugar de onde se soltam perguntas que desabam sobre a mudez e lhe inclinam o olhar para a grande avenida da tristeza. À sua volta cresce a ruína. O tecto desfaz-se em poeira policromada, as madeiras de portas e janelas são pasto de rebanhos de carunchos, os vidros esperam, na sujidade acumulada pela passagem dos anos, a pedra dura que os estilhaçará, fazendo-os cair no chão, para que se oiça o som que se solta desse encontro amargo e fortuito entre o vidro e os azulejos. Alguém pensará então ouvir o repicar frenético de um pequeno sino, mas a mulher abandonada permanecerá suspensa na sua dor, imaginando-se uma estátua confiscada à vida e tornada pedra e eternidade. Então, oferece-se, pura e inconsolável, à plenitude da contemplação. Intocável, entrega a sua imagem à avidez dos contempladores. Eles olham-na e não vêem abandono, tristeza, solidão, nem as sombras da alma no enigma do rosto, apenas os requebros do corpo, a cintilação das roupas. Tomada por uma melancolia invencível, ela começa a descer dentro de si, afunda-se mais e mais até ouvir o rumorejar da terra, a lava incandescente que se esconde no magma, cujo calor a toca ao de leve e a abre, com lentidão não dissimulada, para o arrebatamento da vida, desse lugar em que o abandono ainda é um sinal de contradição perante o império da morte.

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