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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Cadernos do esquecimento 59 Civilizar

Nestor Stekke, Bundling and Gathering Faggots, 1899

Rapidamente se esquece aquilo que ainda há pouco era um hábito enraizado. O excesso da floresta não era, em momento algum, desperdício. A lenha miúda recolhia-se e atava-se segundo o império de um longo hábito. De súbito, tudo se tornou mais fácil, a civilização trouxe a comodidade do gás e da electricidade. Cozinhar e aquecer as casas á agora um mero contrato com agentes sem nome, e aquilo que era um bem logo se transformou em desperdício. Civilizar será, assim, eliminar o esforço e criar o desperdício, raptar os homens da pobreza e, ao mesmo tempo, fazer esquecer o enraizamento na Terra e a dependência das suas dádivas. A civilização é um exercício de esquecimento da natureza. Como se pode cuidar daquilo de que não temos já memória?

domingo, 22 de março de 2026

Cadernos do esquecimento 58 Moinho de vento

Heinrich Kuhn, Landscape with Windmill, 1898

Sempre que nos deparamos com um velho moinho irrompe um silêncio na alma. O passado perfila-se perante os olhos e não sabemos o que fazer com ele. Uma beleza, quase cantante, desprende-se da paisagem e uma melancolia transporta-nos para um tempo que nunca vivemos, mas que se resguardou dentro do coração. Dali já não sai a farinha que se transformava em pão, como se fosse um colírio contra a fome. Há, porém, uma força musical que balança o prazer de olhar e a dor perante as coisas que perderam o lugar no mundo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Cadernos do esquecimento 57 No crepúsculo

Edmond Sacré, Crépuscule D’Hiver, 1903

Em todos os crepúsculos há um momento de revelação, a epifania de qualquer coisa que ultrapassa a medida comum, mas que o transcorrer do dia esconde. Só nessa hora de incerteza, quando a luz hesita entre a claridade e as trevas, o que estava oculto dança perante os olhos do espectador. A dança, porém, ao mostrar o que se oculta, estende um novo véu não sobre o olhar, mas sobre a razão. Os olhos vêem, mas o entendimento não compreende. A vontade trabalha, impele a consciência para a descoberta, mas a escuridão já caiu e tudo se perde nessa batalha do logos contra o mythos, da razão contra a imaginação. Se a noite é de Inverno, a lareira acolhe aquele que esteve prestes a compreender e dá-lhe, na inquietação das labaredas, um caminho para que a imaginação possa figurar, aquilo que, no crepúsculo, a visão observou, mas a inteligência não conseguiu aprisionar com as correntes do seu labor.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Cadernos do esquecimento 56 Gramática

Fred Kradolfer, sem título, 1930 (Gulbenkian)

Há uma gramática da memória que, como todas as gramáticas, articula a fonética, a morfologia e a sintaxe daquilo que se recorda e do que é entregue ao esquecimento. A fonética memorial observa a sonoridade da recordação, enquanto a morfologia medita sobre a formação das unidades mnemónicas e o modo como, partindo de unidades mínimas, se estruturam noutras mais amplas. Por fim, a sintaxe ocupa-se dos exercícios combinatórios dessas unidades, estruturando paisagens, como grandes textos que nos trazem o que estava oculto. Sobre tudo isso reina o esquecimento — não como uma ameaça, mas como o campo de possibilidade de onde emerge o que escapa ao olvido.

domingo, 5 de janeiro de 2025

Cadernos do esquecimento 55 Imagens

Abel Manta, sem título, 1932 (Gulbenkian)

Há imagens que perduram como se fossem marcos a assinalar as etapas de uma viagem. Vivem puras e livres, mesmo que a realidade que as trouxe se tenha dissolvido. Uma certa ruralidade que inundou este país até tarde permanece na memórias de muitas gerações ainda vivas. Há uma resistência feroz ao esquecimento, tecida na lentidão com que a vida se desenrolava naqueles dias, uma vida incrustada na argamassa da pobreza e no barro de  um atraso ancestral, como se uma tradição tenaz prendesse os homens num mundo imutável.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Cadernos do esquecimento 54 Árvores

Jorge Guerra, Les Arbres, 1982 (Gulbenkian)

São árvores tomadas pelo hálito do Inverto, entregues ao império do frio, tomadas pelo assalto das longas noites. Desmemoriadas, abandonaram as folhas ao ritmo das estações, enquanto ouvem o rumor da natureza e os uivos dos homens. Esperam a hora da ressurreição, o tempo em que a noite se tornará dia e a luz solar inscreverá as suas mensagens secretas na rudeza dos troncos e na incontinência dos ramos. Então, voltarão os pássaros, ali encontrarão abrigo, contra as enxurradas caídas dos céus, os vendavais declinados pelas montanhas, a malevolência nos corações humanos. Enquanto aguardam, as velhas árvores permanecem na cripta da escuridão e oferecem ao mundo o silêncio do esquecimento.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Cadernos do esquecimento 53 Duplicar a vida

Paul Signac, Women at Well, 1892

Dever-se-ia anotar toda a vida, fazer o registo minucioso do que se foi vendo e ouvindo, dos grandes acontecimentos e das trivialidades de cada dia, dos actos e das omissões. Fundamentalmente, das palavras que se foram trocando, as ditas e as escutadas. Ter-se-ia, então, duas vidas, a vida vivida no mundo da vida e a vida escrita. Uma seria turbulenta; outra, serena com a serenidade que a escrita traz ao espírito que luta contra o esquecimento. Que sei eu das mulheres que, na infância longínqua, dirigiram-se, com os seus cântaros de barro avermelhado, ao poço, onde uma roldana cantava, enquanto a corda subia e descia? Apagaram-se, não sei o seu nome, nem quem foram. Puras sombras raptadas para dentro de um caderno de folhas em branco, onde se acumula os vestígios de tudo o que foi tomado pelas hordas do esquecimento.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Cadernos do esquecimento 52 Prioridades

Marcel Duchamp, La partida de ajedrez, 1910

Poder-se-ia começar com uma fenomenologia do esquecimento, com a descrição do fenómeno nas suas múltiplas manifestações, mas seria uma perda de tempo. Elabore-se de imediato uma taxionomia. Temos os esquecimentos passivos e os activos. Os passivos são aqueles que sofremos contra a nossa vontade. As coisas apagam-se ou, no melhor dos casos, ocultam-se, sem que haja uma intervenção da nossa parte. Quando a amnésia é activa não se pense, porém, que existe uma deliberação para esquecer alguma coisa. Isso não funcionaria. Pelo contrário, qualquer deliberação em vez de conduzir ao esquecimento levaria a uma inflação da memória. O esquecimento activo resulta de uma imersão de tal modo intensa numa certa actividade que o resto desaparece do campo de consciência. Os jogadores de Xadrez estão tão presos ao combate que travam que o próprio  amor é abandonado na orla do campo de batalha. O esquecimento passivo dá-nos uma visão do nosso ser biológico, o activo mostra as prioridades que orientam uma vida.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Cadernos do esquecimento 51 Não quebrar os contratos

George Platt Lynes, Lew Christiensen, William Dollar, and Daphne Vane
performing Orpheus and Eurydice,
1934
Há esquecimentos irremediáveis. O ânimo cede perante o punhal do desejo e o que era o horizonte de uma esperança torna-se a experiência da desilusão. Quando, por fim, se descobria no amor o caminho para remir da morte os que para ela tinham sido atirados, a falência da memória aniquila a jubilosa expectativa e deixa que o curso das coisas retome a norma traçada pela feroz necessidade, fechando para sempre a porta que separa os mortos do mundo dos vivos. Nunca os homens devem quebrar um contrato que graciosamente os deuses permitiram a celebração.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Cadernos do esquecimento 50 A redenção do esquecimento

Frederick Sommer, Taylor, Arizona, 1945

A persistência da erosão é o outro lado da vulnerabilidade humana, que se dissemina do corpo para tudo o que os homens realizam. Durante parte substancial da vida da espécie, pretendeu-se limitar a acção do tempo e assegurar que as obras humanas transportariam para eternidade o selo dos seus autores. Uma luta vã contra um inimigo impiedoso, que, continuamente, dispara sobre aquilo que os homens semeiam como testemunho. Cansados da luta, perdidas as ilusões, os seres humanos passaram a cultivar a rápida obsolescência e a curta memória. Agora, a eternidade deixou de ser a linha do horizonte que o viajante quer alcançar. Mergulhados no fluxo do devir, apenas se espera a redenção do esquecimento.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Cadernos do esquecimento 49 Desolação

Johan Hagemeyer, “Corrosion” - Death Valley from Zabriskie Point, 1940

É possível antecipar o que será a Terra quando a vida, toda a vida, dela tiver desaparecido. Não será a morte que reinará, pois a morte alimenta-se da vida, mas a desolação. Esta nascerá do mais terrível dos esquecimentos, aquele que não terá remissão, pois não haverá já quem tenha poder  para se esquecer. Será o esquecimento sem sujeito desse esquecimento. A desolação não será, nessa hora, o resultado da devastação e do desamparo. Num lugar reduzido a processos mecânicos, não há destruição nem construção, mas apenas a resultante das forças em presença. Também não se poderá falar em desamparo, pois não há o que busque amparo. A desolação será o sinal de um ser sem sentido, de um puro existir que a si se desconhece e nesse desconhecimento existe como não existisse.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Cadernos do esquecimento 48 Ir ao cinema

Francesc Català-Roca, Sesión nocturna, 1950
Não é que as pessoas, nas grandes cidades, não frequentem sessões da noite ou da tarde de cinema. Quem ainda vai às salas fá-lo. Na província, na pequena província onde existia sala de cinema, as sessões eram, em outros tempos, todas elas nocturnas, com excepção da sessão de domingo à tarde. A ida ao cinema, tinha nesses dias, um carácter ritual, como se se estivesse a instituir uma tradição. Uma impossibilidade, pois o cinema é um acontecimento essencialmente moderno, sujeito aos imperativos da rápida alteração de comportamentos, submetidos ao ritmos bipolar da inovação e da obsolescência. As coisas depressa passam de moda, que é uma forma de ficarem obsoletas ainda antes de o estarem realmente. Os rituais ligados ao cinema, ao contrário dos dias de hoje, acordavam-se, com algum rigor, à estratificação social existente. O primeiro balcão, a primeira plateia, o segundo balcão, a segundo plateia, todas essas compartimentações se acordavam com uma magreza geral de rendimentos, e frequentar um primeiro balcão era uma forma de diferenciação social em comunidades relativamente pequenas, ciosamente guardada por quem estava no topo da escala. Hoje, as salas democratizaram-se. Nos estúdios, reina uma ordem democrática, onde impera a igualdade, pois seria risível encontrar diferenciação social no simples acto de ir ver um filme.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Cadernos do esquecimento 47 Adicções

Chris Killip, Glue sniffers, Whitehaven, Cumbria, 1980

O peso da vida é de tal modo desmesurado que só através do recurso contumaz à adicção se torna possível viver. Gostamos, com a tendência com que somos educados para moralizar facilmente, de colocar a adicção no território das coisas malfazejas e que, para o bem de si e dos outros, convém evitar, custe o que custar. Esta técnica moral, todavia, esquece uma coisa. A existência de múltiplas adicções. Estas vão muito para lá das que são biológica e socialmente negativas. Há outras que, pelo contrário, são consideradas positivas, pois têm um efeito benéfico para o indivíduo ou para a sociedade. Condena-se o adicto ao jogo, mas não o que está viciado no trabalho. Condena-se o adicto a drogas ou ao álcool, mas não os que o estão ao desporto ou à comida saudável. A estas adicções, e são inumeráveis, dá-se o nome de hábitos, aos se atribui o qualificativo de bom. Oculta-se, todavia, a linha de continuidade que existe entre maus e bons hábitos, entre vícios e virtudes, entre más e boas adicções. Visam sempre um estado alterado de consciência que permita ao indivíduo suportar a existência. Para um animal dotado de pensamento, a vida só parece suportável se poder evitar enfrentá-la na sua crueza e nudez.

sábado, 25 de maio de 2019

Da persistência dos lugares

Charles Marville, Rue Vieille-Notre-Dame (de la rue du Pont-aux-biches), 1864-66

A fotografia de Charles Marville tem mais de 150 anos e, no entanto, aquela paisagem urbana ainda me foi familiar. Não em Paris, mas em muitas cidades e vilas portuguesas. O mesmo tipo de ruas, o mesmo género de casas, a mesma sensação de imobilidade do tempo. Sabemos, pela razão, que o calendário passa uniformemente pelos diversos lugares habitados pelo homem. A experiência, porém, desmente esse saber. Há lugares em que o passado persiste, escorado numa obstinação contra a natureza devoradora do tempo. Nesses lugares, o grande devorador é obrigado à ficção da imobilidade. Os dias e os meses passam, mas as folhas do calendário são rasgadas com uma lentidão tal que ninguém percebe o anacronismo em que vive. O espaço humano é uma revolta contra o tempo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Justa distância

André Hambourg - La Conversation (1929)

Há uma palavra grega, aidos (Αἰδώς), que se traduz, por norma, como vergonha, modéstia ou humildade. Em todas estas expressões encontramos uma certa ideia de distanciamento, de tal forma que costumo interpretar aidos (Αἰδώς) como a justa distância que deve separar os seres humanos, para que eles possam viver com um módico de dignidade. O meu problema, contudo, é que esta justa distância não é fixa. Tenho constatado que, com o passar dos anos, a distância justa é cada vez maior. Não é que os outros me incomodem. Não. Sou eu que sinto estar a mais. O que significa isto? Apenas que qualquer coisa que eu tenha a dizer - e eu tenho cada vez menos coisas a dizer - não os interessa rigorosamente nada. E tudo aquilo que os poderá interessar, devido à minha ignorância, é-me desconhecido. Este legítimo desinteresse dos outros por aquilo que eu possa dizer e esta impotência minha em saber o que interessa aos outros são os motores que fazem crescer a distância. A justa distância protectora dos outros relativamente à minha presença é assim cada vez maior. Penso, por vezes e não erroneamente, que este afastamento, imposto pela justa distância, é um caminhar em direcção à morte. Também em relação a ela há uma justa distância, mas, ao contrário da outra, esta vai diminuindo. Esta diminuição não se deve apenas ao envelhecimento, mas ao facto de entre mim e ela haver cada vez mais assuntos em comum. Chegará a hora em que ela será a única que não se incomodará com aquilo que eu tenha a dizer.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Distância e harmonia

Henri Matisse - Armonía en rojo (1908)

A espécie humana é, muitas vezes, para além de previsível, muito cansativa. Aliás, uma coisa está ligada à outra. Cansa de tão previsível. Se imagina que tem de quebrar uma rotina, age em massa na defesa da repetição, do eterno retorno do mesmo. E torna-se uma ameaça. Na verdade, só há uma maneira de viver em harmonia com os seres humanos. Frequentá-los o menos possível. Αἰδώς (Aidos) era a deusa grega da vergonha, da modéstia e da humildade. Αἰδώς era também uma virtude essencial para a comunidade política. Costumo interpretar esta virtude como o exercício da justa distância, pois tanto a vergonha como a modéstia e a humildade trazem consigo um certo distanciamento do outro e da massa dos outros. É este distanciamento que nos permite viver em harmonia.

sábado, 12 de dezembro de 2015

A arte do fingimento

Francis Bacon - Painting of a Dog (1952)

Ocupem-se de coisas sérias. (Sólon)

Talvez na distante época de Sólon de Atenas ainda fosse claro aquilo que era uma coisa séria e com a qual os homens teriam o dever de se ocupar. Sólon cuidou de legislação e de poesia lírica. Hoje em dia, porém, quem se atreve a dizer que legislar e fazer poesia são coisas sérias? Basta ouvir o rumor da voz do povo para perceber que ninguém leva a sério os pobres legisladores. Quanto aos poetas, isso nem é sequer considerado uma ocupação. O problema é que nos dias que correm os homens podem ocupar-se de uma multiplicidade quase infinita de coisas, mas no fundo, por mais aparente que seja a paixão com se entregam às suas ocupações, todos pressentem que tudo é pouco sério. Em vez do imperativo de Sólon ocupem-se de coisas sérias, será mais apropriado prescrever: finjam que são sérias as coisas de que se ocupam. Nada melhor do que a arte do fingimento. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Os eixos e o tempo

Francis Bacon - Cabeça III (1961)

O tempo está fora dos eixos. (W. Shakespeare, Hamlet)

Por uma qualquer patologia, deu-me para pensar sobre mim e fui ter à frase de Hamlet. A constatação hamletiana de que o tempo está fora dos eixos pode sempre ser lida como uma avaliação da modernidade que então se iniciava, como a consciência de um ruptura com a velha ordem medieval, a qual, na verdade, fornecia os eixos em torno dos quais o tempo girava, na sua ciclicidade, e donde, na época de Shakespeare, havia já a clara consciência de que se tinha soltado. A sorte maldita do pobre Hamlet residiria na consciência infeliz da sua tarefa: a de ter nascido para voltar a colocar o tempo nos eixos. A heroicidade do propósito e o sentimento de maldição que ela acarreta devem-nos contudo fazer suspeitar de outra coisa.

Desenhava-se já ali a difusa consciência de uma inédita situação. Não se tratava de o tempo ter-se soltado dos eixos, mas dos eixos terem desaparecido. Não mais um outro tempo teria os seus eixos, em torno dos quais a vida pudesse girar na ciclicidade de um eterno retorno. Os tempos não retornam mais, pois os eixos foram roubados. A partir de agora, a cada novo tempo apenas lhe resta o ir destrambelhado para a frente e para baixo, como se a gravidade lhe determinasse a queda e o desejo o tornasse vítima da voragem do futuro. Acabaram-se os eixos, ficou o tempo e isso parece-me tão pouco consolador quanto parecia à Hamlet a tarefa que lhe competia. Tenho a vantagem de ser plebeu, o que não me atribui qualquer tarefa e assim deslizo tranquilo, desfigurado, apatetado e, como o anjo da história, empurrado pelo vento que sopra do paraíso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um pensamento feliz

Francisco Bores - Felicidad (1955-58)

Li há pouco a estranha expressão “era um homem de pensamento feliz” e fiquei tomado por uma perplexidade tal que suspendi a leitura. O que naquela frase poderia causar-me tão grande perplexidade? Nunca me tinha ocorrido fundir pensamento e felicidade. Talvez o autor estivesse a usar uma expressão figurada e quisesse apenas dizer que se estava perante alguém cujo pensamento é oportuno, que possui perspicácia ao analisar uma situação ou ao propor uma solução. Alguém que pensa bem, em suma. Isso, porém, seria substituir uma avaliação técnica por um estado de alma pouco adequado à retórica da avaliação. O que me causa perplexidade é, de facto, essa conjugação entre pensamento e felicidade, a substituição da verdade enquanto virtude do pensamento pela felicidade.

Talvez hoje em dia exista um mercado para esse tipo de coisas, para um pensamento feliz ou para uma filosofia que promete felicidade, que vende bem-estar pela deglutição de algumas teorias filosóficas, devidamente expurgadas da malevolência que existe em todo o pensar. Tudo isto, contudo, é uma falsificação. Pensar é já uma confissão, a confissão de que se abandonou a busca da felicidade, para enfrentar o terrível que se esconde e que deve vir até nós sob o nome da verdade. Por que motivo a verdade que o pensamento nos revela sobre o mundo nos deveria fazer felizes? Não encontro qualquer motivo. Talvez a razão maior da minha perplexidade nasça de uma antiga convicção que nunca consegui abandonar: se deixasse de pensar conseguiria abrir a porta da felicidade.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O lar originário

Jacob Smits - Evening Landscape (1901-1914)

Os entardeceres frios de Dezembro trazem-me à memória não apenas a infância mas outras vidas que parecem escondidas em mim. Não, não creio na reencarnação nem em vidas passadas, mas alguma coisa nos meus genes traz uma memória de paragens mais frias, menos luminosas, mas também mais severas e puras. Oiço a água correr em regatos que nunca vi, sei de lagos onde nunca mergulhei, sinto o vento frio do norte cortar-me a face. Nas tardes frias de Inverno eu chego à minha pátria, uma pátria que nenhuma arqueologia encontrará, que nenhum registo justificará, mas que eu, no silêncio destes dias, sei ser o lar originário, o heimat de onde alguém partiu e ao qual, tantas vezes, anseio chegar.