Na Europa, o crescimento das direitas radicais assenta numa
agenda que cruza dois grandes temas: a imigração, vista como ameaça à cultura
original dos países europeus; e, na União Europeia (UE), a soberania nacional
“ameaçada” por Bruxelas e pelas elites políticas liberais e mundialistas. Estes
dois pontos centrais da agenda dessas direitas chocam, contudo, com dois
problemas fundamentais. O primeiro diz respeito à imigração. Como podem os países
europeus enfrentar a grave crise demográfica sem o recurso a pessoas vindas de
fora, de outras culturas, para realizarem os trabalhos que os europeus deixaram
de fazer? Este problema é importante, mas a questão da soberania é mais
interessante.
É interessante porque divide a própria direita radical
soberanista. Ao lado dos partidos nacionalistas e dos seus dirigentes, muitos
deles defensores, declarados ou dissimulados, da implosão do projecto europeu e
do retorno à soberania nacional, existe um conjunto de intelectuais dessas
áreas que defendem não o soberanismo nacional, mas o europeu. Uma dessas linhas
de pensamento é a seguinte: vivemos num tempo daquilo a que se pode chamar
Estado-Civilização, e as nações europeias são, por si sós, impotentes para ter
voz e capacidade de acção nesse mundo dos Estados-Civilização. Os exemplos
deste tipo de Estado são fáceis de encontrar: a China, a Índia, mas também a
Rússia, a Turquia e, porque não, os EUA e o Brasil. Se as nações europeias
querem preservar a sua soberania, têm de abdicar da soberania particular do
Estado-nação a favor do que se poderia chamar a nação europeia, de um
nacionalismo europeu.
Esta direita é antineoliberal e antimundialista. Tem também
dois traços que a tornam um osso duro de roer para os intelectuais e os
militantes de esquerda. Reivindica a defesa da herança europeia, não apenas a
clássica greco-latina e a cristã-medieval, mas também a modernidade europeia,
com a ciência, e o próprio Iluminismo, com o papel central da razão. Por outro
lado, surge, pela oposição ao mundialismo, como defensora das classes
trabalhadoras europeias e dos seus direitos sociais, que a actual orientação da
UE tem vindo a destruir. A esquerda, pelo seu internacionalismo, e a direita
liberal, pelo seu cosmopolitismo, têm-se oposto, desde há muito, a uma visão do
mundo organizada em torno de civilizações. A realidade evoluiu, porém, para uma
ordem em que grandes Estados se confrontam e em que a dimensão civilizacional
voltou a adquirir importância na organização geopolítica. Na ausência de um
liberalismo e de um socialismo capazes de responder à nova situação, esse
espaço começa a ser ocupado pelos teóricos do soberanismo europeu.
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