sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O soberanismo europeu


Na Europa, o crescimento das direitas radicais assenta numa agenda que cruza dois grandes temas: a imigração, vista como ameaça à cultura original dos países europeus; e, na União Europeia (UE), a soberania nacional “ameaçada” por Bruxelas e pelas elites políticas liberais e mundialistas. Estes dois pontos centrais da agenda dessas direitas chocam, contudo, com dois problemas fundamentais. O primeiro diz respeito à imigração. Como podem os países europeus enfrentar a grave crise demográfica sem o recurso a pessoas vindas de fora, de outras culturas, para realizarem os trabalhos que os europeus deixaram de fazer? Este problema é importante, mas a questão da soberania é mais interessante. 

É interessante porque divide a própria direita radical soberanista. Ao lado dos partidos nacionalistas e dos seus dirigentes, muitos deles defensores, declarados ou dissimulados, da implosão do projecto europeu e do retorno à soberania nacional, existe um conjunto de intelectuais dessas áreas que defendem não o soberanismo nacional, mas o europeu. Uma dessas linhas de pensamento é a seguinte: vivemos num tempo daquilo a que se pode chamar Estado-Civilização, e as nações europeias são, por si sós, impotentes para ter voz e capacidade de acção nesse mundo dos Estados-Civilização. Os exemplos deste tipo de Estado são fáceis de encontrar: a China, a Índia, mas também a Rússia, a Turquia e, porque não, os EUA e o Brasil. Se as nações europeias querem preservar a sua soberania, têm de abdicar da soberania particular do Estado-nação a favor do que se poderia chamar a nação europeia, de um nacionalismo europeu. 

Esta direita é antineoliberal e antimundialista. Tem também dois traços que a tornam um osso duro de roer para os intelectuais e os militantes de esquerda. Reivindica a defesa da herança europeia, não apenas a clássica greco-latina e a cristã-medieval, mas também a modernidade europeia, com a ciência, e o próprio Iluminismo, com o papel central da razão. Por outro lado, surge, pela oposição ao mundialismo, como defensora das classes trabalhadoras europeias e dos seus direitos sociais, que a actual orientação da UE tem vindo a destruir. A esquerda, pelo seu internacionalismo, e a direita liberal, pelo seu cosmopolitismo, têm-se oposto, desde há muito, a uma visão do mundo organizada em torno de civilizações. A realidade evoluiu, porém, para uma ordem em que grandes Estados se confrontam e em que a dimensão civilizacional voltou a adquirir importância na organização geopolítica. Na ausência de um liberalismo e de um socialismo capazes de responder à nova situação, esse espaço começa a ser ocupado pelos teóricos do soberanismo europeu.

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