sexta-feira, 27 de março de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (38)

José Gutiérrez Solana, Procesión en Toledo, 1905

Era um tempo de procissão.

Anjos sem rosto deslizam

no macadame das ruas,

as virgens puídas

sombreiam os andores.

Sob o pálio, o sacerdote

mastiga orações

e pensa na viagem ulcerada

pela imperfeição da partida.

 

[1993]

domingo, 22 de março de 2026

Cadernos do esquecimento 58 Moinho de vento

Heinrich Kuhn, Landscape with Windmill, 1898

Sempre que nos deparamos com um velho moinho irrompe um silêncio na alma. O passado perfila-se perante os olhos e não sabemos o que fazer com ele. Uma beleza, quase cantante, desprende-se da paisagem e uma melancolia transporta-nos para um tempo que nunca vivemos, mas que se resguardou dentro do coração. Dali já não sai a farinha que se transformava em pão, como se fosse um colírio contra a fome. Há, porém, uma força musical que balança o prazer de olhar e a dor perante as coisas que perderam o lugar no mundo.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Escolas e influenciadores


Provocou alarido a investigação do Público sobre a presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores, mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. Essa discussão, porém, oculta as raízes profundas que levam os alunos a convidar este tipo de agentes para as campanhas eleitorais das suas associações. Por raízes profundas não estou a referir o funesto papel das redes sociais e a perturbadora cultura dominante entre adolescentes e jovens. A pergunta que devemos fazer é a seguinte: por que razão os alunos não percebem que as escolas são lugares em que determinado tipo de acontecimentos não pode ocorrer? Há dois elementos, interligados, que ajudam a entender o estado a que se chegou. 

Em Portugal, deixou de se perceber que as escolas não são a continuidade da família. Que elas só cumprirão a sua missão se representarem, para o aluno, uma ruptura entre a cultura da família e a escolar. Tem-se assistido, desde a reforma de Roberto Carneiro, a uma diluição da fronteira entre casa e escola. Isto foi fomentado pelo Ministério da Educação. As direcções escolares e os próprios professores foram sendo cúmplices. Os pais, sob a figura do encarregado de educação, foram postos dentro das escolas e trouxeram com eles a cultura em que vivem e educam os filhos. O espaço escolar foi perdendo a sua aura e aquilo que, idealmente, o distinguia dos outros espaços sociais. Tornou-se o prolongamento das famílias e das comunidades, não um lugar comprometido com uma cultura radicalmente distinta. 

Perdeu-se a noção de que a instituição escolar é o lugar onde todos os alunos têm oportunidade de aceder ao que há de melhor e mais elevado na cultura humana. A democratização do ensino deveria significar que todos os alunos acedem a bens culturais, através dos currículos e das práticas lectivas, que, sem essa democratização, só estariam ao alcance de alguns. O que se passa é outra coisa. Não são os alunos que se sentem levados a procurar uma cultura mais exigente do que aquela que trazem das suas comunidades. Pelo contrário, foi a cultura escolar que se deixou contaminar pelo meio em que está inserida, mimetizando-o. A escola pública cedeu perante as pressões do exterior. Em muitos casos, a cultura da comunidade e a da escola são uma e a mesma. Num ambiente em que já não se reconhece que, para bem das novas gerações, deve existir uma diferença radical entre a escola e o meio envolvente, é natural que os alunos não compreendam por que motivo não podem trazer esse tipo de influenciadores.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A persistência da memória (33)

Rudolph Eickemeyer Jr., The Vesper Bell, 1901

Se existe ainda, o toque de Vésperas já não é escutado por ninguém. Os dias tornaram-se apenas um acumular de horas que deslizam num rio de indiferença. Não é que as pessoas não estejam sujeitas a horários. Contudo, todos esses momentos fazem parte de um contínuo que encerra a pessoa numa prisão feita de cansaço e de exigências externas. A vida moderna, com os seus imperativos económicos, roubou aos seres humanos uma forma de viver o tempo que lhes dava a possibilidade de se recolherem em si e de elevarem o pensamento ao alto, abrindo-lhes os horizontes, tanto do mundo como de si mesmas. Ninguém se recolhe, se o sino tocar as Vésperas. É apenas um som que se perdeu num mundo de ruído.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Ormuz, uma opereta bufa

Manuel Filipe, Guerra, 1945

As recentes ameaças de Donald Trump aos países europeus que recusem participar numa aventura militar no estreito de Ormuz são um sinal eloquente da fragilidade dos Estados Unidos, sob o comando do actual Presidente. A acção militar contra o Irão já tinha todos os ingredientes de uma opereta. Perigosa, letal, mas mesmo assim uma opereta bufa. Desde as declarações de Trump às de Rubio e culminando nas de Peter Hegseth, tudo isso mostra que se está, como nesse tipo de espectáculo musical, perante um enredo absurdo: a narrativa está repleta de mal-entendidos, de personagens caricatas e de situações improváveis.

Independentemente do destino do regime iraniano, aquilo a que estamos a assistir, ao vivo, é a um espectáculo onde a decadência da maior potência militar e económica do mundo  se torna visível, manifestando-se assim as suas grandes fragilidades. Começa uma aventura pensando que o regime teocrático cai em três dias, mas a cada dia que passa, torna-se claro que os dirigentes americanos não sabem como sair do abismo onde o seu país e o Ocidente caíram. As ameaças de Trump não são sinal de força, mas de uma fraqueza existencial. Os militares devem estar arrepiados. A Rússia esfrega as mãos e a China sorri discretamente, agradecendo aos deuses a existência do MAGA e de Donald Trump.

sábado, 14 de março de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (37)

Adriano Sousa Lopes, Os telhados de Montmartre à noite (Gulbenkian)

Na periferia dos cardos,

oiço a ruína soletrar

um louvor da candura.

 

Na periferia do medo,

oiço o mundo verter

o calcário do cansaço.

 

Na periferia do espanto,

oiço a ave de Minerva

ferida ao anoitecer.

 

[1993]

 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Simulacros e simulações (78)

David Almeida, sem título, 1981 (Gulbenkian)
Sonha-se com portas de ébano, e na negrura da madeira simula-se o desejo daquilo que, para além delas, se esconde. É um desejo obscuro, sem objecto, apenas o desejo de desejar o que flui, num mundo estanhado pelo esquecimento, sob leis de uma física desconhecida, sujeito ao arbítrio de um milhafre perdido e à progressão corrosiva do míldio.  

terça-feira, 10 de março de 2026

Diálogos aporéticos (12) - Colher rosas

Anton Einsle, Am Gartenzaun, 1891

- Não se deviam colher rosas.

- Que ideia! Temes que a roseira sofra.

- Não era nisso que pensava, mas noutra coisa, apesar de a roseira sofrer.

- Que absurdo, uma superstição de quem vive sob o véu da montanha.

- Tudo o que está vivo, para além de morrer, sofre. As plantas também.

- Que sofram, desde que possamos ter a sua beleza nas mãos.

- As rosas são como nós.

- Como nós?

- Sim, ao serem colhidas, murcham, tal como nós.

sábado, 7 de março de 2026

Sonâmbulos


No romance Pasenow ou o Romantismo, primeiro volume da trilogia Os Sonâmbulos, do austríaco Hermann Broch, o oficial e aristocrata rural Joachim von Pasenow utiliza o uniforme como uma protecção contra a anarquia tanto do mundo exterior, como a do mundo interior, a do corpo. Por que razão precisava ele dessa protecção? Porque os valores do mundo em que foi educado, os valores da honra aristocrática, estavam em plena dissolução perante o avanço de um novo mundo baseado no comércio global, uma realidade representada pelo seu ex-camarada de armas Eduard von Bertrand. O uniforme militar, o sentimento de honra e a própria devoção religiosa não correspondiam já a nada de sólido naquele no ano de 1888, o ano dos acontecimentos ficcionais do romance, numa Alemanha recém unificada. O uniforme de Joachim é a metáfora perfeita para mostrar essa situação em que um conjunto de crenças, valores e rituais não são mais do que a casca de um fruto vazio. 

Para além da grande qualidade literária da obra de Hermann Broch, ela merece ser lida, relida e profundamente meditada porque pode ser um guia para o nosso tempo. Dito de outra maneira: é possível que muitos de nós nos agarremos aos nossos valores sociais, estéticos, morais e políticos como Joachim von Pasenow se agarrava ao uniforme. O modo como as novas gerações concebem a realidade e a vida, as alterações no domínio da nova economia (mas também da velha), as drásticas alterações geopolíticas, agora com mais uma guerra no Médio-Oriente, e a perda contínua de fé nas instituições democráticas, tudo isso constitui, para aqueles que viveram parte apreciável da sua vida à sombra do triunfo aliado na Segunda Guerra Mundial, uma ameaça anárquica idêntica à sentida pelo ficcional capitão Pasenow. 

Assim como ele se agarrava aos valores que morriam, também nós nos agarramos ao sistema de valores que fez a glória da Europa do pós-guerra. Contudo, por muito que isso nos custe, esse sistema de valores parece já não ter um conteúdo que lhe dê a potência necessária para ordenar o mundo. Tornámo-nos, como aconteceu à velha aristocracia rural alemã, em sonâmbulos. Caminhamos no mundo, conversamos, escrevemos artigos, ostentamos ainda um arremedo de paixão política ou moral, mas, na verdade, não estamos em estado de vigília. Dormimos, pensando que estamos acordados, enquanto esse mundo de valores em que vivemos se desfaz perante os nossos olhos e sob o entusiasmo dos novos Bertrand. Somos agora aqueles que, sonâmbulos, apertam o botão do colarinho da farda com a esperança de que ela nos proteja do vazio e da anarquia. Não protegerá.

terça-feira, 3 de março de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (36)

Pierre Bonnard, La Place de Clichy, 1912

Ergue-te, ó ave de rapina.

No gargarejo das ruas.

Na carcoma dos lares.

No vómito das praças.

 

Esvoaça, ó ave de rapina,

presa no trilha da infâmia.

Espera-te, sob a muralha,

o vesperal esgoto do rio.

 

[1993]

domingo, 1 de março de 2026

O ressentimento


Se se olhar com atenção para o que se passa nas sociedades ocidentais, descobre-se que a causa fundamental do mal-estar que se manifesta em todos os lados é o ressentimento. É este que está a corroer os fundamentos das democracias-liberais e ameaça mesmo a paz pública. Quase sempre, a vocalização desse ressentimento dirige-se contra o imigrante, contra o estrangeiro, contra aquele que não partilha a cultura e os valores que, presumidamente, são os dos cidadãos autóctones. Não poucas vezes, essas manifestações arrastam  estranhas posições. Por exemplo, argumentar ao mesmo tempo que certas comunidades instaladas num país não respeitam as regras da democracia-liberal e aproveitar essa presunção para atacar a democracia-liberal e tentar forçar soluções políticas autoritárias. 

Contudo, e apesar de ser real o sentimento de desgosto perante o estrangeiro, não será a causa central do ressentimento que mina as nossas sociedades. O estrangeiro surge como bode expiatório que cristaliza, em si, o despeito que atinge amplas camadas dos países ocidentais. Este despeito tem a raiz nas políticas que, após a queda do Muro de Berlim e o fim da ameaça comunista, se foram impondo, nos países demo-liberais. Estas políticas têm tido duas consequências. Destruição da ideia de elevador social, que permitiria o progresso na escala social. As novas gerações sentem ter muito menos possibilidades de ascender socialmente do que tiveram os seus pais. Sentem que as suas vidas serão piores que as das gerações anteriores. A segunda consequência, ligada a esta, é o desgaste e destruição do Estado Social. Mesmo quando este não é desarticulado, os serviços de educação, saúde e protecção tornam-se muito piores. 

Tudo isto está a criar legiões de pessoas ressentidas com as elites. Curiosamente, esse ressentimento não se volta contra as elites económicas beneficiárias das políticas que estão a empobrecer as pessoas, mas contra as elites políticas democráticas, bem como contra aquelas que têm um peso estruturante nas sociedades: cientistas, intelectuais, pessoas com formação superior. Este ressentimento está a transformar-se numa onda negra, cada vez mais volumosa, que pode vir a destruir os regimes democráticos e, por arrasto, um conjunto de benefícios que foram produzidos, na sequência do Iluminismo (um dos alvos das correntes populistas), como a ciência, os direitos cívicos, políticos e sociais e a própria vida civilizada. Se as democracias ocidentais se pretenderem salvar e salvar um modo de vida civilizado, terão de enfrentar as causas do ressentimento e corrigir o caminho que têm seguido desde os anos noventa do século passado.