Provocou alarido a investigação do Público sobre a
presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco
recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores,
mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. Essa
discussão, porém, oculta as raízes profundas que levam os alunos a convidar
este tipo de agentes para as campanhas eleitorais das suas associações. Por
raízes profundas não estou a referir o funesto papel das redes sociais e a perturbadora
cultura dominante entre adolescentes e jovens. A pergunta que devemos fazer é a
seguinte: por que razão os alunos não percebem que as escolas são lugares em que
determinado tipo de acontecimentos não pode ocorrer? Há dois elementos,
interligados, que ajudam a entender o estado a que se chegou.
Em Portugal, deixou de se perceber que as escolas não são a
continuidade da família. Que elas só cumprirão a sua missão se representarem,
para o aluno, uma ruptura entre a cultura da família e a escolar. Tem-se
assistido, desde a reforma de Roberto Carneiro, a uma diluição da fronteira
entre casa e escola. Isto foi fomentado pelo Ministério da Educação. As
direcções escolares e os próprios professores foram sendo cúmplices. Os pais,
sob a figura do encarregado de educação, foram postos dentro das escolas e trouxeram
com eles a cultura em que vivem e educam os filhos. O espaço escolar foi
perdendo a sua aura e aquilo que, idealmente, o distinguia dos outros espaços
sociais. Tornou-se o prolongamento das famílias e das comunidades, não um lugar
comprometido com uma cultura radicalmente distinta.
Perdeu-se a noção de que a instituição escolar é o lugar
onde todos os alunos têm oportunidade de aceder ao que há de melhor e mais
elevado na cultura humana. A democratização do ensino deveria significar que
todos os alunos acedem a bens culturais, através dos currículos e das práticas
lectivas, que, sem essa democratização, só estariam ao alcance de alguns. O que
se passa é outra coisa. Não são os alunos que se sentem levados a procurar uma
cultura mais exigente do que aquela que trazem das suas comunidades. Pelo
contrário, foi a cultura escolar que se deixou contaminar pelo meio em que está
inserida, mimetizando-o. A escola pública cedeu perante as pressões do exterior.
Em muitos casos, a cultura da comunidade e a da escola são uma e a mesma. Num
ambiente em que já não se reconhece que, para bem das novas gerações, deve
existir uma diferença radical entre a escola e o meio envolvente, é natural que
os alunos não compreendam por que motivo não podem trazer esse tipo de influenciadores.
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