sexta-feira, 20 de março de 2026

Escolas e influenciadores


Provocou alarido a investigação do Público sobre a presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores, mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. Essa discussão, porém, oculta as raízes profundas que levam os alunos a convidar este tipo de agentes para as campanhas eleitorais das suas associações. Por raízes profundas não estou a referir o funesto papel das redes sociais e a perturbadora cultura dominante entre adolescentes e jovens. A pergunta que devemos fazer é a seguinte: por que razão os alunos não percebem que as escolas são lugares em que determinado tipo de acontecimentos não pode ocorrer? Há dois elementos, interligados, que ajudam a entender o estado a que se chegou. 

Em Portugal, deixou de se perceber que as escolas não são a continuidade da família. Que elas só cumprirão a sua missão se representarem, para o aluno, uma ruptura entre a cultura da família e a escolar. Tem-se assistido, desde a reforma de Roberto Carneiro, a uma diluição da fronteira entre casa e escola. Isto foi fomentado pelo Ministério da Educação. As direcções escolares e os próprios professores foram sendo cúmplices. Os pais, sob a figura do encarregado de educação, foram postos dentro das escolas e trouxeram com eles a cultura em que vivem e educam os filhos. O espaço escolar foi perdendo a sua aura e aquilo que, idealmente, o distinguia dos outros espaços sociais. Tornou-se o prolongamento das famílias e das comunidades, não um lugar comprometido com uma cultura radicalmente distinta. 

Perdeu-se a noção de que a instituição escolar é o lugar onde todos os alunos têm oportunidade de aceder ao que há de melhor e mais elevado na cultura humana. A democratização do ensino deveria significar que todos os alunos acedem a bens culturais, através dos currículos e das práticas lectivas, que, sem essa democratização, só estariam ao alcance de alguns. O que se passa é outra coisa. Não são os alunos que se sentem levados a procurar uma cultura mais exigente do que aquela que trazem das suas comunidades. Pelo contrário, foi a cultura escolar que se deixou contaminar pelo meio em que está inserida, mimetizando-o. A escola pública cedeu perante as pressões do exterior. Em muitos casos, a cultura da comunidade e a da escola são uma e a mesma. Num ambiente em que já não se reconhece que, para bem das novas gerações, deve existir uma diferença radical entre a escola e o meio envolvente, é natural que os alunos não compreendam por que motivo não podem trazer esse tipo de influenciadores.

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