domingo, 3 de maio de 2026

A perda de sentido do mundo


A desordem geopolítica que atinge o mundo, se interpretada de uma maneira determinista, pode ser vista como a consequência das profundas alterações da economia global, fundamentalmente das revoluções tecnológicas (informática, cibernética, robótica, internet, redes sociais, inteligência artificial). A desordem política actual seria a consequência necessária destas transformações. Ora, esta leitura empobrece o modo como podemos compreender o que se está a passar. Haverá, claro, uma correlação entre ambos os fenómenos, mas uma correlação não é uma relação causal. Há uma outra ordem que não é, por norma, tida em conta, mas que tem um papel fundamental. 

>Nos anos vinte do século passado, o teólogo católico ítalo-germânico Romano Guardini, na Carta IX da obra Cartas do Lago de Como, escreve: “A ciência, a técnica e tudo o que delas provém só se tornaram possíveis por causa do Cristianismo. Só um homem a quem a imediação divina da alma redimida e a dignidade do renascido incutiram a consciência de que é diferente do mundo que o rodeia — só esse homem pôde destacar-se da vinculação à natureza como o fez o homem da era técnica.” Ora, a ordem religiosa do Cristianismo, fundamental para a emergência da ciência moderna e da técnica, encontra-se profundamente desgastada. Por um lado, parte significativa do mundo cristão desenvolvido abandonou a religião; por outro, esse cristianismo está a ser usado de um modo superficial e emotivista, como acontece no fundamentalismo evangélico que suporta, por exemplo, a actual administração americana. 

O crescimento exponencial da ciência e da tecnologia não encontrou no homem contemporâneo a profundidade espiritual e a orientação moral necessárias para compreender e limitar os efeitos negativos gerados pela abstracção científica, bem como pela dominação da natureza e do ser humano pela tecnologia. Sem essa profundidade, dada pelo cristianismo, nomeadamente o católico, os seres humanos sentem-se incapazes de encontrar um sentido que integre na sua consciência os produtos das revoluções científicas e tecnológicas. Esse vazio torna as pessoas incapazes de interpretar o mundo. Sentem-se atraídas por explicações e soluções fáceis que conduzem a opções políticas e sociais que ajudam a explicar a desordem em que vivemos. É plausível pensar que, sem o retorno de um cristianismo enraizado nas pessoas e nas comunidades, não haverá capacidade para encontrar sentido para o mundo em que vivemos, pois desconhece-se ou despreza-se o solo em que o edifício científico-tecnológico tem as suas raízes.

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