A desordem geopolítica que atinge o mundo, se interpretada
de uma maneira determinista, pode ser vista como a consequência das profundas
alterações da economia global, fundamentalmente das revoluções tecnológicas
(informática, cibernética, robótica, internet, redes sociais, inteligência
artificial). A desordem política actual seria a consequência necessária destas
transformações. Ora, esta leitura empobrece o modo como podemos compreender o
que se está a passar. Haverá, claro, uma correlação entre ambos os fenómenos,
mas uma correlação não é uma relação causal. Há uma outra ordem que não é, por
norma, tida em conta, mas que tem um papel fundamental.
>Nos anos vinte do século passado, o teólogo católico
ítalo-germânico Romano Guardini, na Carta IX da obra Cartas do Lago de Como,
escreve: “A ciência, a técnica e tudo o que delas provém só se tornaram
possíveis por causa do Cristianismo. Só um homem a quem a imediação divina da
alma redimida e a dignidade do renascido incutiram a consciência de que é
diferente do mundo que o rodeia — só esse homem pôde destacar-se da vinculação
à natureza como o fez o homem da era técnica.” Ora, a ordem religiosa do Cristianismo,
fundamental para a emergência da ciência moderna e da técnica, encontra-se
profundamente desgastada. Por um lado, parte significativa do mundo cristão
desenvolvido abandonou a religião; por outro, esse cristianismo está a ser
usado de um modo superficial e emotivista, como acontece no fundamentalismo
evangélico que suporta, por exemplo, a actual administração americana.
O crescimento exponencial da ciência e da tecnologia não
encontrou no homem contemporâneo a profundidade espiritual e a orientação moral
necessárias para compreender e limitar os efeitos negativos gerados pela
abstracção científica, bem como pela dominação da natureza e do ser humano pela
tecnologia. Sem essa profundidade, dada pelo cristianismo, nomeadamente o
católico, os seres humanos sentem-se incapazes de encontrar um sentido que
integre na sua consciência os produtos das revoluções científicas e tecnológicas.
Esse vazio torna as pessoas incapazes de interpretar o mundo. Sentem-se atraídas
por explicações e soluções fáceis que conduzem a opções políticas e sociais que
ajudam a explicar a desordem em que vivemos. É plausível pensar que, sem o
retorno de um cristianismo enraizado nas pessoas e nas comunidades, não haverá
capacidade para encontrar sentido para o mundo em que vivemos, pois
desconhece-se ou despreza-se o solo em que o edifício científico-tecnológico
tem as suas raízes.
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