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sábado, 5 de outubro de 2019

O 5 de Outubro

Francesca Woodman, From Angel Series, Rome, Italy, September 1977
Poderia falar da República que faz hoje 109 anos, mas o sábado não me parece propício para tal peroração. Há pouco a rua era percorrida por um vento desagradável, pouco conveniente, a lembrar que apesar dos termómetros o Outono já chegou. Talvez as repúblicas sejam regimes outonais, ao contrário das monarquias. Essa porém é um suposição sem sentido. São muitas as coisas sem sentido que me ocorrem em dias como o de hoje, determinado por lei a ser um dia de reflexão. Também eu me coloquei defronte do espelho para ver se reflectia. Nele, nada vi que me lembrasse de mim. Se havia alguma coisa reflectida não era eu. A data de 5 de Outubro é quase perfeita. Os monárquicos podem comemorá-lo, pois foi a 5 de Outubro que monarquia portuguesa começou. Na mesma data acabou a monarquia e começou a República, o que alegrará os republicanos. Só os anarquistas não têm razão alguma para deitar foguetes no dia de hoje, embora possam correr para apanhar as canas. O sol quando nasce não é para todos.

sábado, 4 de maio de 2019

Um dramma giocoso

Imagem de Il mercato di Malmantile (1758), de Carlo Goldoni

No fundo, esta maneira latina de fazer política não passa de uma ópera bufa. O pior é que os espectadores também são latinos e, apesar de dizerem mal dos artistas, o que faz parte do espectáculo, não deixam de gostar de um dramma giocoso. Tem que se passar o tempo de alguma maneira.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O dia da aposentação

A minha crónica em A Barca.

Há uns anos descobri que para um professor do ensino não superior todos os problemas da educação possuem uma data inexorável de resolução. O dia da aposentação. Aquilo que parece irresolúvel torna-se resolúvel. Voltar as costas à escola e esquecer que ela existe. Este cinismo não nasceu do acaso, nem se deve à índole malévola de quem tem por missão ensinar os outros. Como muito dos cinismos, nasce de uma impotência perante a realidade. E que realidade é essa? Ela é multifacetada, mas há duas características que interferem de sobremaneira na relação dos professores com a escola.

Por um lado, existe na sociedade portuguesa uma cultura inimiga da aprendizagem e daquilo que esta exige. Aprender exige atenção, dedicação, esforço e superação de obstáculos. Aprender exige que se seja capaz de sacrificar os prazeres e desejos imediatos a um prazer maior que nascerá do esforço e da auto-superação. Este tipo de atitude, contudo, é rara na sociedade portuguesa e a maioria dos alunos, quando chega às escolas, já vem vacinada contra o esforço. Esta cultura ferozmente inimiga da aprendizagem é uma realidade que qualquer professor conhece, mas é completamente desconhecida pelo Ministério da Educação.

Aqui surge uma segunda característica que distorce a relação do professorado português com a escola. Os governantes educativos vivem em completa e contínua negação da realidade. Para eles não existe qualquer cultura adversa à aprendizagem em Portugal. Se os alunos não aprendem, o problema não está na cultura que trazem consigo, mas nas estratégias de ensino que são adoptadas. Então, os governos entregam-se à prática delirante de promover reformas sobre reformas educativas (há mais uma em curso) com o desígnio de obrigar os professores a usar as estratégias que farão o milagre de multiplicar a sabedoria dos alunos, como Cristo, em Betsaida, multiplicou pães e peixes.

O problema é que ninguém sabe, a começar pelos governantes reformadores, que estratégias são essas que hão-de dar de comer a quem não tem fome. Como as ideias delirantes dos governantes são inaplicáveis, pois negam a realidade existente, aqueles criam nas escolas um inferno com a finalidade de obrigar os professores a justificar por que razão ideias tão brilhantes não têm qualquer efeito na realidade. Isto tornou as escolas universos kafkianos, cheias de regras e práticas burocráticas, problemas imaginários e soluções absurdas. Durante anos, impotentes, os professores tentam perceber o porquê de tudo isto, até que um dia descobrem que tudo se resolverá quando chegar o dia da aposentação.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O sacrifício de Robles


Queria aqui louvar Ricardo Robles pelo seu sacrifício altruísta e de elevado sentido teológico. Ele que é contra a lei Cristas que permite a especulação imobiliária, sacrificou a sua alma condenando-se ao inferno (na verdade, já lá está a arder e ainda não viu o dinheiro). E o que o motivou? O desejo turvo de enriquecer? Não, mil vezes não. Quis salvar a alma especuladora da direita e converter essa mesma direita numa encarniçada inimiga da lei Cristas. E não é que conseguiu? Desde que se soube as pretensões roblesianas de ir para o inferno dos ricos, que a direita, desde o Observador às redes sociais, passando pelos militantes de província, não pára de ser anti especulativa, de apontar a Robles aquilo que Robles apontava aos beneficiários da lei Cristas. Esperam-se agora as petições contra a lei Cristas (sim, petições como a esquerda costuma fazer), manifestações de rua e pedidos de audiência ao Presidente, além de uma procissão penitencial. Tudo isto levanta interessantes especulações (meu Deus, que palavra) teológicas. Será que Robles é um judas que trai os pobres por avidez ou um judas que, por amor aos pobres e preocupado com a felicidade do maior número, os trai para que a mole imensa dos que estavam perdidos se salvem e abjurem o pecado especulativo em que viviam? [Postado no facebook ontem.]

sábado, 14 de julho de 2018

Sem enredo


Alguém se queixa não sem indignação, numa caixa de comentários de um grande armazém de livros, de que os contos de uma certa autora não têm nada que se pareça com um enredo. Com um plot, pois a queixa vem em língua inglesa. Percebo o drama dos que contestam a literatura sem enredo. Usam a leitura como uma fuga ao mundo, uma consolação que os protege do facto inaceitável de a sua vida não possuir qualquer enredo. Coisas acontecem, umas repetem-se e outras não, mas, na verdade, nas nossas tristes vidas o arbitrário, o ocasional e o acidental são a regra e não a excepção, mesmo que teimemos no contrário, mesmo que pareça o contrário. "O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai." Também o evangelista João sabia que a vida não tem enredo. E se estamos todos in media res isso significa apenas que estamos no meio de um turbilhão sem sentido nem trama, esbracejando até morrer de cansaço.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Um cortejo fúnebre

Henri Cartier-Bresson, Rue de Vaugirard, 1968

Esta famosa fotografia de Cartier-Bresson tem no seu centro narrativo, digamos assim, o slogan do Maio de 68 Jouissez sans entraves. O slogan dizia, na sua totalidade, Jouissez sans entraves, vivez sans temps morts (Gozai sem entraves, vivei sem tempos mortos). Visto como resumo da grande explosão social dos estudantes franceses da época, tem sido interpretado de diversas maneiras, mas por norma como uma afirmação da vida enquanto exercício contínuo de prazer, como uma libertação do desejo e consumação deste. Na verdade, a palavra de ordem de 68 é muito mais tétrica do que aparenta. Basta conjugar os dois mandamentos que a constituem. 

O prazer libertado e sem entraves exigirá, é essa a condição humana, tempos mortos, tempos esses onde o desejo se reconstitui para buscar novos prazeres. Os tempos mortos são uma condição necessária à vida, incluindo à vida de prazer. Não há sibarita que não precise de horas mortas, de longas horas mortas. Conceber a vida como uma empreitada contínua (sem tempos mortos) de gozos sem entraves não é outra coisa senão uma afirmação da morte. Os homens não são máquinas desejantes, mas animais dotados de desejo. E a condição animal não está programada, seja qual for o âmbito que se considere, para um movimento perpétuo. O que pulsa no coração do Maio de 68 não é, então, a afirmação exuberante da vida, mas um convite à morte pela exaustão de um corpo agora submetido ao imperativo do prazer contínuo. O Maio de 68 não foi nem uma grande afirmação da vida nem um festival lúbrico. Foi, na verdade, um grande cortejo fúnebre.

domingo, 19 de novembro de 2017

Os gatos

Myron Wood - Cat Sunning, 1966

Mesmo no lugar mais pobre, um gato está nele como se estivesse num trono. Os gatos são majestades distantes, e olham-nos umas vezes com bonomia, outras com desprezo. As mais das vezes, o seu olhar transborda de comiseração. E é esta comiseração que os inibe de exercerem sobre os humanos um despotismo contumaz. Dão aos homens espaço para que estes tratem, nem sempre da melhor maneira, da sua vida. Por vezes, cheios da gravitas que lhes é própria, concedem-nos uma graça, mas logo impõem aquela distância que anuncia um verdadeiro poder. Se Marcelo Rebelo de Sousa ou António Costa possuíssem metade da gravitas de um gato e se mantivessem um décimo da distância que este impõe, ainda haveria lugar para uma esperança redentora.

domingo, 5 de novembro de 2017

A vida autêntica

Ernst Ludwig Kirchner - Vita alpestre (1919)

Uma parte do que somos é configurada pelo local onde nascemos e onde se desenrolou a infância. A vida na montanha é mais rude e rigorosa do que na planície ou nas cidades. A montanha é menos propícia ao devaneio. Ela, com os seus perigos e carências, exige frugalidade e uma atenção redobrada à realidade. Quase automaticamente, pensamos que a vida aí é mais autêntica e mais verdadeira. Esta relação, que o espírito faz sem nela reflectir, não deixa de revelar uma crença solidamente plantada no coração dos homens. A vida autêntica e verdadeira é aquela que, pela rudeza das suas condições, exige dos homens um grande rigor e uma não menor frugalidade. Por muito que gostemos do que é fácil e do que é cómodo, sabemos, por um saber ancestral, que a frugalidade e o rigor são o quinhão que nos deve caber.

sábado, 14 de outubro de 2017

Voto de silêncio

Max Ernst - The Eye of Silence (1943-44)

O mais curioso, quando se escreve sobre política, é a forma como, muitas vezes, os textos são recebidos. Sinto – o que significa que não é um conhecimento mas um pressentimento – que são tomados como afirmações dogmáticas. Quero dizer: exercícios de fé, a partir dos quais se proclama uma crença. Isto condiciona, por certo, a presumida reacção de alguns leitores. Os que partilham a fé que julgam ser a minha e os que não partilham a fé que me atribuem, sendo devotos, assumidos, de outros deuses. Ora se há uma coisa que marca a minha existência é a falta de fé em tudo o que é humano, demasiado humano. E não há coisa mais humana do que opiniões políticas, mesmo, ou principalmente, as que aparentam ser as minhas. Quando uma pessoa precisa de ter uma grande fé, o melhor, para não incomodar terceiros, é entrar para um convento. E mesmo que não seja casto nem pobre, deve sempre cumprir o voto de silêncio.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Degradações

Tal-Coat - Paisaje (1954)

Não bastava o radicalismo islâmico. Como é possível que personagens como King Jong-un e Donald Trump sejam os principais animadores, por estes dias de calor e fogos florestais, da comédia mundial? O pior é que a degradação da qualidade das personagens reflecte uma degradação ontológica do próprio mundo. Resta decidir se a doença antropológica é causa ou consequência da perda ontológica do cosmos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sonhos que andam

Imogen Cunningham - Dream Walking (1968)

Esta fotografia de Imogen Cunningham data de 1968. Não sei se ela foi um retrato deliberado da época ou se, por uma motivação oculta à consciência, a fotógrafa norte-americana retratou o espírito do tempo. Naqueles dias, julgou-se, que os sonhos podiam caminhar, inocentes, pela floresta da vida. Agora que o ano de 1968 se aproxima perigosamente do quinquagésimo aniversário sabemos bem onde nos levaram aqueles sonhos e o destino dos sonhadores. É o peso de vivermos na posteridade dos acontecimentos. Uma coisa foi confirmada. A vida é uma floresta. Contrariamente, ao que os sonhadores da época ostensivamente queriam fazer acreditar, essa floresta não era o habitat próprio da inocência. Na verdade, em todas as florestas existem lobos maus à espera de capuchinhos vermelhos. E nos acontecimentos desse longínquo ano de 1968 havia muitos capuchinhos vermelhos mas também um número razoável de lobos maus, como a velha história infantil desde há muito ensinava. 

domingo, 7 de maio de 2017

Taxionomia alimentar

Jackson Pollock - Night Mist (1945)

A história rumoreja. Não são palavras, grandes proclamações, mas meros murmúrios, indefinidos rumores. Inaudíveis? Não e sim. Não, porque são murmúrios e rumores e se a linguagem não é articulada, não deixa de haver emissão, ainda que débil, de sons que, como o canto e o voo das aves, podem ser interpretados. Sim, porque, apesar de proliferarem pelo espaço público os áugures, ninguém está interessado em fazer o silêncio necessário para que murmúrios e rumores possam ser escutados. No meio da algazarra geral, ela, a história, vai tecendo, inexorável, o seu manto, apesar das mil pretensões dos homens, que mais que fazê-la são feitos por ela e, por muito que isso os contrarie, para ela, alimento sempre escasso para uma voracidade insaciável. Perante isto, a esquerda, a direita e o centro não passam de uma taxionomia alimentar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Uma questão de fé

Jan Vermeer - The Allegory of Faith (1671-74)

Pego num livro de Nuno Júdice, O fruto da gramática, e logo no início do segundo poema leio: Desfio um rosário de conjunções / nos dedos da memória. E uma iluminação desce em mim e transporta-me para um longínquo passado, aquele em que – certamente, por inépcia minha – tentava decorar as conjunções recitando-as de enfiada, talvez distinguindo, mas a memória já não recupera esse aspecto, as coordenativas das subordinativas. Descobri, ao ler o poema de Júdice, que aquilo que eu fazia, há bem mais de quarenta anos, era rezar, rezar o rosário das conjunções, ou das preposições, ou dos advérbios. Os dedos da memória de que fala o poeta não são apenas os dedos que nos transportam para essa longínqua experiência. São também os dedos com que eu tentava prender em mim, na precária casa da memória, essas classes de palavras. Julgo que a escola, essa escola que me incitava a desfiar rosários gramaticais, uns atrás dos outros, nunca conseguiu fazer com que eu percebesse para que serviam essas estranhas palavras. Na verdade, para rezar tantos rosários era preciso ter fé, muita fé, e eu, já nesses dias, sofria de uma manifesta falta de fé.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As coisas técnicas


Visitar o passado é um belo exercício de confronto com as nossas ilusões, com as ilusões que a vida social faz nascer em nós e que, sem oposição, nós deixamos que elas cresçam. Na verdade, toda a vida social está focada em criar um manto de ilusões, um véu de Maya, com que se torna aceitável. Esta belíssima imagem de propaganda a um transístor portátil da Grundig (1958) foi vampirizada do Dias Que Voam, um blogue que merece bem estas vampirizações, para além de inúmeras visitas e leituras. Aliás, há lá outro anúncio notável da Grundig (1957), uma verdadeira lição de sociologia da época. Este transístor seria então, segundo a publicidade, uma jóia. Pequena, mas autêntica. Se pela autenticidade a Grundig nos assevera o seu carácter verdadeiro, oposto a uma falsificação, pela associação com uma jóia faz evocar em nós o que é belo e aquilo que resiste ao tempo, aquilo que é eterno.

Eis aqui, porém, a mentira da técnica. As coisas técnicas, na sua verdade, podem ser belas, mas apenas num momento. Não, porém, eternas. A beleza delas decairá rapidamente, ultrapassada por outras mais belas com que o mercado animará o nosso desejo. Para não falar no facto de todos estes objectos serem produzidas para se tornarem obsoletas e, em última análise, para deixarem de ser belos. Todos nós já experimentámos, perante um novo gadget, o deslumbrado embevecimento da rapariga do anúncio. Mas também já todos fizemos a experiência que esse novo objecto representa já o passado. A beleza que ele oferece ou o conforto que proporciona serão em breve ultrapassados por um novo objecto que se oferecerá imperativo, pelo saber da técnica e do design, à nossa voluptuosa faculdade de desejar. Passados tantos anos quem achará belo o pobre rádio transístor da Grundig? (averomundo, 2010/01/15)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XIII (epílogo)

Pablo Picasso - Bañistas en la playa de la Garoupe (1957)

Não há bem que não acabe, nem mal que sempre dure. É com esta referência à cultura popular e ao são senso comum que me despeço deste diário, querido diário, que me tem acompanhado nestes dias de exílio, nesta peregrinação ao santuário de Posídon. Dirá o leitor, o eventual leitor, corrijo, que o provérbio não esclarece se esta estadia é, por mim, banhista, considerada um bem ou um mal, um exílio ou uma peregrinação. É o que sempre digo: o mal dos provérbios é a sua tendência ora para o oracular ora a contradição lógica. Seja como for, e com pesar meu, deixarei a interpretação em aberto.

Estas meditações não pretendem a glória dos tratados filosóficos. Por isso mesmo, não quero condicionar a leitura destas aventuras e impor uma significação unívoca. Estamos no domínio da polissemia das palavras e da plurivocidade dos textos. Expostas ao público estas aventuras, cada um que as interprete como quiser ou como puder. Nelas encontrará vasta matéria para meditação sobre a natureza dos homens e do mundo e, se for mais aberto ao domínio do esotérico, certamente irá passar longas horas em busca da chave cabalística que se oculta no emaranhado destas pobres narrativas. Para ajudar os amantes do esotérico deixo uma pista. Treze são os dias deste diário. Os que forem dados à numerologia terão um vasto campo de trabalho.

Saiba, porém, que hoje, o último dia desta aventura, e isto não é despiciendo para a tal chave acima referida, decidi passar a manhã na praia, a passear para cá e para lá, a sentir a areia sob os pés, a ver os mais afoitos dentro de água. Para quê, perguntar-me-ão. Para nada, respondo. O banhista ideal, ao contrário do banhista real e empírico, é perfeitamente destituído de qualquer interesse e finalidade. Faz o que faz e nada mais há a acrescentar. E eu sou, como ficou vastamente documentado nas páginas deste diário, um banhista ideal, a ideia de banhista. Trago comigo a imutabilidade e a eternidade da minha condição.

Olho para o mar e o que vejo eu? Gente a esforçar-se para ser banhista. Correm, mergulham, nadam, chapinham na água, gritam… Para quê e porquê? Porque não são verdadeiros banhistas. Esforçam-se para parecer ser aquilo que não são. É este um dos grandes pecados da humanidade. Querer ser o que não é. Eu olho-os e, confesso, sinto um desdém olímpico. Eu não preciso de parecer. Eu sou o banhista, embora não ponha um pé na água. E se o ponho na areia é apenas por condescendência, para que todos possam ver a distância que há entre mim, a ideia de banhista, e eles, os pobres banhistas empíricos. Chega, porém, de surfar a filosofia do infeliz Platão. É a hora!

Resta-me, agora, arrumar as malas, despedir-me da criançada, que tem mais que fazer do que aturar banhistas em fase de pré-senilidade, e adeus oceano tenebroso, o vasto mundo, a terra firme e o calor sufocante esperam por mim. Ite, Missa est. (averomundo, 2007/08/13)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XII

George Seurat - Seated Bather (1883-84)

Começo com uma máxima filosófica: o mal sempre vem. Se tivesse nascido na Grécia, há 2700 anos, seria hoje lembrado como um dos sete sábios, que seriam então oito. Não nos desviemos, porém, do essencial. Este é o diário de um banhista. Hoje, domingo, ocorreu o que temia na semana passada. Regra da casa: ao domingo, ninguém põe pé na praia, seja esta qual for. O que aconteceu, hoje, domingo, que tanta acidez me causa? Foi declarado dia de excepção. Por que motivo, Senhor, fizeste tão inconstantes as tuas criaturas? Tudo para a praia; a criançada banhante na vanguarda solar. Criançada quer dizer aqui: gente entre os 20 e os 27 anos. Mas quem será fiel às regras expressas para regulação da comunidade? No dia em que as regras não forem cumpridas por ninguém ainda serão regras? E poderá uma comunidade, pequena que seja, viver sem regras? Não, não, mil vezes não. Consola-me a imagem de Sócrates – não o glorioso engenheiro que nos pastoreia – a recusar infringir a lei de Atenas e pôr-se ao fresco, aceitando, corajoso e intrépido, a cicuta que o haveria de levar.

Eu, o banhista por antonomásia, decido abdicar do meu prazer da areia, dos escaldões solares, da gratificante companhia dos milhares e milhares de seres humanos que vêm exibir para a praia a sua humanidade, abdico, repito-me, da excelência da sua companhia nas águas onde mergulho. Decido, reafirmo, num gesto de puro altruísmo, sacrificar-me pelos valores comunitários, pelas regras, sem as quais não há excepções. Vão sem mim, digo, com um ar pesaroso e compungido, como se tivesse acabado de sair de um confessionário. Tenho pena de não os acompanhar, faço notar, mas fico por aqui a garantir o cumprimento zeloso das regras, a dar o exemplo que os mais novos, quando forem mais velhos e perceberem o alcance do gesto, reterão e transmitirão à sua descendência, se a tiverem. A esperança é a última coisa a morrer, dizem.

Abandonado por todos, sem esperança de uma sardinhada dominical, condenado a uma refeição frugal, o fiel banhista aqui está perante o computador a cumprir a sua missão: narrar a sua gesta, contar aos outros os seus feitos, propagar ao mundo a sua epopeia nas praias de Portugal. É um fresco épico o que o meu ego me pede, um fresco que cale as navegações de gregos e de troianos, até de lusitanos. Sinto-me já o novo Camões anunciado pelo Pessoa. Suave é a carícia das ninfas e o vento da inspiração. Tremo ao tocar no teclado, ao ver os meus dedos a deslizar suavemente pelas teclas, à espera que grandes palavras desçam pelos filamentos do meu ser e arrastem os dedos para a glória literária.

Mas o que resta a quem fica só? A memória, a doce mas infiel memória. A recordação das aventuras tidas, dos banhos tomados, dos mergulhos dados, das bolas-de-berlim tragadas. A única coisa que posso fazer é desfolhar o glorioso livro da minha estadia a banhos e dar a conhecer os extraordinários episódios onde, nestes dias, se revelou a minha essência de banhista. Um problema, porém, assedia a minha razão. Será que vale a pena repetir-me? Não será este diário, fiel acompanhante e confidente querido, a expressão mais viva dessas aventuras? Não será este diário prova suficiente da minha gesta à beira-mar? Medito longamente na ideia de me repetir e concluo a meditação com uma dolorosa questão: valerá a pena fazer como as pessoas já entradas na idade e repetir-me até não mais poderem ouvir-me?

Tomo, mais uma vez, uma decisão. Para quem é tão indeciso, a média de decisões por dia não deixa de espantar. Não, penso com os meus botões, vou poupar o leitor aos meus acessos temporãos de senilidade e calar-me. Desde que deixei de ir à missa e ao futebol, o domingo sempre foi um dia triste, salpicado de angústia. Remeto-me ao silêncio. Nele, conforta-me o espaço espiritual onde a minha memória, a doce memória destes dias bem-aventurados, vai consolar-me. Sim, a rememoração sempre foi a mais doce das consolações. É ela, caro leitor e cara leitora (sucumbir à novilíngua, que assegura a mais verrumante igualdade de género, foi uma outra decisão terrível), é ela que vai ser o analgésico para a dor de tanto abandono e de tanta traição. Rememorar as glórias destes dias é o que resta a um velho abandonado, num domingo sem igreja nem campo de futebol. É duro ser um fiel banhista. (averomundo, 2007/08/12)

sábado, 27 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XI

Lisa Milroy - Beach (1993)

Recordo que O Diário de um banhista foi escrito em 2007, para evitar alguns ataques cardíacos com certas referências do texto.

No outro dia fiquei chocado. Então, não é que os inspectores da ASAE apreenderam 400, ou terão sido 4000?, Bolas-de-Berlim fresquinhas, daquelas mesmo boas para comer em pleno tempo de banhos. Esta preocupação com a saúde pública parece-me uma manobra das capitais escandinavas para aniquilaram as vantagens competitivas de Portugal. Não percebem que tudo isto é uma forma de indústria caseira, diria mesmo que é o nosso verdadeiro artesanato. Depois da alheira de Mirandela, dos múltiplos salpicões, dos chouriços e dos chourições, agora até Bola-de-Berlim está a ser alvo das arbitrariedades dos inspectores a soldo do governo, que por sua vez contemporiza com as pretensões daquela malta esbranquiçada, educada, ecológica e liofilizada, que habita as regiões do norte deste continente que viu nascer o glorioso banhista que eu sou.

Note-se que não quero aqui denegrir a imagem do nosso primeiro-ministro e acusá-lo de ser agente infiltrado das potências nórdicas adeptas da liofilização geral. Não, saliento apenas que o seu espírito pós-moderno, habitado pela epopeia da sociedade do conhecimento e pelo sonho – verdadeiro desígnio pátrio – do choque tecnológico, não o habilita a compreender o desvelo com que nós, portugueses ignaros, amamos os riscos provenientes da manufactura caseira de alimentos. Que interessam as salmonelas, se as bolas são uma arte caseira, feita com as mãos sujas, mas patrióticas, que fazem um bolo plenamente nacional, apesar daquela funesta referência a Berlim? São capazes de me explicar?

É um facto que sou um banhista. Mais, sou o verdadeiro banhista, aquele onde a essência de banhista coincide com a sua própria existência. Mas isso não quer dizer que não seja patriota e não ame aquilo que todos nós portugueses – deixem-me falar no plural – amamos. Solidário com o Portugal autêntico, levemente desgostado com a deriva tecnicizante do Engenheiro, ao levantar-me hoje, eu que sou por natureza indeciso, tomei uma decisão: nada de praia, vou realizar a minha vocação de banhista para outro lado.

E lá fui em demanda do Santo Graal. Entrava e saía, à socapa, de cafés e pastelarias até que chego ao Templo e entro no Santo dos Santos. Era ali que terminava a dorida busca do cálice com o sangue de Cristo. Miro a vitrina, salivo, sinto o coração a palpitar. Uma Bola-de-Berlim, digo em voz de comando. A rapariga não se amedronta com o meu vociferar, sorri, indulgente, quase cativante, e retruque: com ou sem creme? Sorrio também. Sinto-me em casa, no meu Portugal, nada naquela rapariga simples do povo me faz lembrar o Engenheiro Sócrates. Talvez o buço, se o Engenheiro o deixasse crescer, mas não nos desviemos. Com creme, minha amiga – respondo a fazer-me já íntimo –, com creme, que eu sou banhista. Ela não deixou de sorrir e serviu-me uma enorme bola a abarrotar de creme, esplendidamente banhada em óleo – quantas bolas, ó doces bolas, não terá aquele óleo fritado antes desta que irá morrer nas minhas vísceras e contribuir assim para a untuosidade geral do meu querido Portugal.

Ser banhista é mais do que tomar banho, ser banhista é comer Bolas-de-Berlim com creme, ser banhista é ser português sem os desvarios tecnológicos dos engenheiros e dos inspectores que nos engenham e inspectam a cada momento. A ASAE, o governo, o próprio Engenheiro, que fiquem sabendo: resistiremos, não passarão. Que vão para a Finlândia que os deu à luz (como vêem, sou um banhista educado), nós continuaremos com as nossas bolas no sítio que é o delas. (averomundo, 2007/08/11)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diário de um banhista - X

Kazemir Malevich - Bather (1911)

Confortado na certeza de ser o único e verdadeiro banhista, recusei-me hoje a pôr o pé na praia, não vá ele inchar ou tomar-se de urticária. Quem precisar de mostrar que é um banhista que vá a banhos, eu fico-me pela esplanada a enxotar moscas, a ler jornais, a beber cafés e a rodar a cadeira para fugir ao sol. Olho o mar e começo a contar os dias que faltam para, contristado, deixar o lugar idílico a que chamam praia, lugar que o calendário deste mundo infeliz me impõe com a regularidade das estações.

Nem uma aventura, mesmo metafísica, tenho para contar hoje neste pobre diário. Estes tempos fritam-me os neurónios, esfriam-me a coragem, e pouco mais consigo fazer do que balbuciar algumas palavras e deslocar-me, entre as sombras mortais que me rodeiam, com o ar desgastado de quem a vida abusou com trabalhos e sofrimentos, lutas e canseiras. Um banhista, mesmo da estirpe dos imortais como eu, não é de ferro. Estou cansado e, como o divino Ulisses, sonho com o regresso à pátria, que o malfadado Posídon não permite. Suspiro, se oiço o vozear das águas a bater nas areias. Quando chegarei a Ítaca, à minha doce ilha, pedaço de terra rodeada de calor por todos os lados?

domingo, 21 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IX

Paul Cézanne - Bathers at Rest (1875-76)

Chegado a mais um dia de estadia na praia questiono-me: serei um verdadeiro banhista? Terei o direito de escrever este diário? Esta interrogação não cai do céu aos trambolhões, não. Pelo contrário, há motivos empíricos que sustentam o dilema que me assoberba a razão. Quando tudo estava preparado para rumar em direcção à praia, não é que uma súbita angústia se apossa de mim e me faz dizer: vão, vão, sem mim. Cá os espero. E lá foram e eu fiquei dividido entre as cartas de Schiller e uma ida ao café. Acabei por escolher uma esplanada sobre o mar, onde li duas cartas sobre a educação estética da humanidade, bebi uma italiana – em sentido figurado, note-se – e olhei as águas do mar em profunda meditação metafísica.

Foi perante esta inclinação para fugir a sete pés da areia que o meu espírito se interrogou sobre a minha verdade enquanto banhista. Será que sou um banhista? Em desespero, recorri ao dicionário, o da Porto-Editora, passe a publicidade, e encontrei as seguintes definições de banhista: “1. pessoa que toma banho no mar, no rio, ou em piscinas; 2. pessoa em tratamento em local de águas medicinais”. Como se poderá ver pelas definições dadas, senti-me vítima de exclusão. Então eu que não estou em tratamento num local de águas medicinais, nem tomo banho no mar, no rio, ou em piscinas, nem sequer em albufeiras nem em lagos ou lagoas, não tenho direito ao nome de banhista?

Terei de suportar, neste mundo pós-moderno, séculos e séculos de preconceitos fundados na discriminação social e na divisão classista? A revolução francesa não trouxe a igualdade? Não foi para que todos fôssemos banhistas que se cortaram tantas cabeças? Terão sido em vão tantos sacrifícios? Pobre Maria Antonieta, infeliz Robespierre. Nesta profunda angústia existencial, duvidando da minha própria essência de banhista, decido mergulhar mais fundo no dicionário e fazer uma pesquisa em «banho».

Aleluia, aleluia, eis a boa­-nova. Depois de cinco definições literais, denotativas, de banho, surge uma primeira definição figurada. A conotação salvar-me-á, pensei. Banho é “a acção de se impregnar de ou mergulhar em”. Quando vi «impregnar de», desconfiei. Nada de «impregnanços» e ainda por cima equívocos: impregnar de… Meus Deus, de que se impregnarão as pessoas que se impregnam de…? Mas este equívoco, insuportável quando se utiliza o vocábulo «impregnar», tem um carácter salvífico se aplicado a mergulhar em… Esta abertura de sentido mostra, afinal, que eu, aquele que não mergulha em mares, rios, piscinas, lagos, albufeiras e poços, posso (desculpem a cacofonia) ainda assim mergulhar em… e ostentar o glorioso epíteto de banhista.

A meditação leva-me mais longe e revela-me a essência da verdade. Enquanto todos os outros são banhistas de mar, ou de rio, ou de lagoa, ou do quer que seja, eu que não sou banhista de nada em particular, sou um banhista em geral. Pobres banhistas do mundo empírico, enroladas na materialidade das águas, o que sois vós, sombras, ao pé de mim? Eu sou o verdadeiro banhista, a essência de banhista reside em mim, como para Platão a essência do mundo sensível residia no mundo das ideias. Ora se eu sou não um banhista particular e empírico subjugado às especificidades e limitações sensíveis, mas a ideia veraz e imutável de banhista, então não há qualquer razão para a minha angústia. Estou salvo e este diário, de cuja legitimidade eu começava a desconfiar, encontra-se não só justificado de facto, mas também de direito. Ó pobres mortais, vós de banhistas apenas sois a sombra, enquanto eu, aquele que mergulha em…, é o único banhista digno desse nome. Mergulhem onde vos aprouver, que eu mesmo no café já estou imerso em… e nunca deixo, onde quer que esteja, de ser o banhista que sou. A angústia que de mim se apossou é apenas o sentimento de desprazer daquele que sabe o que é a verdade e se vê confrontado com as sombras ilusórias daquilo a que os pobres mortais, de pensamento errante, chamam realidade. Ora, passem bem. (averomundo, 2007/08/07)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VIII

Jean Puy - Plage à Bénodet (1904)

Decisão e coragem são virtudes maiores de um banhista. A mim, porém, são qualidades que me falecem mal enfrento as águas. Saudoso de aventuras marítimas lá me dirigi para uma das muitas praias que por aqui há. Sugeri que fôssemos a outra, mais habitual. Sou um conservador, claro. Perdi a votação. Muito vento, foi o que ouvi como justificação. Parece que aqui se vive numa democracia argumentativa, com direito a justificação das opções e tudo. Lá fomos, armados de chapéu-de-sol, toalhas, cremes contra os ultravioletas e um livro que escondi entre o atoalhado.

Um banhista que não viva numa barraca tem de aliar à decisão e à coragem a perspicácia geográfica de um fundador de colónias. Como os antigos gregos, que saíam da sua cidade natal e iam para a Anatólia ou para a Sicília em busca de território livre e, quando o encontravam, aí fundavam uma nova cidade, colónia da primeira e protegida pelos deuses desta, também os banhistas de chapéu-de-sol e toalha têm de espiar o território, descobrir clareiras, apossar-se com determinação de cada palmo de terreno, delimitar uns metros quadrados, se os houver, de areia, erguer um altar, fazer uma hecatombe, e depois…

Bom, depois, mesmo que não haja necessidade de uma oposição determinada a novos colonizadores, é preciso vigiar as fronteiras e exibir o poderio da nova colónia. Como? Erguendo acrópoles de lona defendidas por muralhas de atoalhados turcos coloridos para ofuscar o adversário. Há quem use corta-ventos, mas faço parte de uma geração apostada em novas formas de defesa, mais imateriais e fundadas na vigilância electrónica e no uso de informação via satélite. Se tivesse propensão para filósofo, seria um novo Bentham, inventaria um panóptico digital. Adoro planos tecnológicos.

Colónia fundada e defendida, dá-se início à função. Os colonizadores cansados da longa viagem começam a despir-se e exibem-se em roupa interior, com o estranho nome de fato-de-banho, como se alguém precisasse de um fato quando toma banho. Esfregam-se com cremes, esticam os peitos, verificam a consistência dos músculos, se são do sexo masculino acomodam aquilo que os faz ser o que são, se são do feminino tentam tapar os pêlos que sempre crescem onde não devem e que as fazem parecer o que não são. Depois, desatam a correr para a água, os mais decididos, ou avançam lentamente, os timoratos. É o que acontece comigo. Mal a água me cobre os pés, sinto uma dor como se os ossos se partissem.

É aqui que a decisão e a coragem se mostram as virtudes maiores de um banhista. Respiro fundo, olho o sol e tomo uma decisão: para a Acrópole e já. Tenho a coragem inaudita de fugir.  Debaixo do chapéu-de-sol, observo o movimento do universo, o ir e vir das águas, oiço a restolhadas das crianças e o ganir dos cães de companhia, a maior parte nas respectivas acrópoles, enquanto os seus donos se espojam areia fora. Abro o livro, ponho os óculos de leitura e mergulho nas páginas batidas pelas areias trazidas pelo vento suave. Amanhã levarei tampões para os ouvidos. Para ler, preciso de silêncio.

Cansados de praia, desfazemos a colónia, guardamos nos sacos os deuses e voltamos à terra pátria. Um banhista não passa de um Sísifo. (averomundo, 2007/08/08)