quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Uma situação paradoxal


Vivemos no mundo ocidental um momento particularmente perigoso. O perigo não vem de ameaças militares, apesar de existirem, nem das acrobacias económicas e tarifárias dos EUA, apesar de reais. O problema centra-se naquilo que, desde o século XVII, tem sido uma das marcas fundamentais da cultura ocidental, a ciência. A partir dos desenvolvimentos da astronomia e da física, a atitude e o método científicos foram criando campos de investigação que promoveram conhecimento sólido em todas as áreas ligadas à natureza e à vida, onde se incluem os extraordinários progressos do conhecimento médico. Isto permitiu uma radical alteração no modo como a espécie humana vivia, desde a esperança média de vida até à qualidade dessa mesma vida. 

O método científico é o processo mais fidedigno de produção de conhecimento que jamais existiu. A sua natureza pública, os procedimentos rigorosos de testagem, a análise sistemática das teorias por outros cientistas, na busca de erros e incorrecções, tudo isto permitiu construir um enorme acervo de conhecimentos teóricos e práticos, que são o fundamento da nossa vida. O perigo que se vive, porém, deve-se a um efeito secundário de vivermos, para utilizarmos um expressão de Karl Popper, em sociedades abertas. Estas sociedades protegem a liberdade de expressão, o direito de cada um defender publicamente as suas ideias. A própria ciência beneficiou dessa abertura da sociedade. Contudo, a emergência das redes sociais trouxe uma modificação inesperada ao modo como se vive nas referidas sociedades abertas. 

Qualquer um passou a ter um espaço público global para expor as crenças que lhe vão na alma. O problema não está em discutir se um ministro é bom ou mau ou se o partido A é melhor do que o B. O problema surge quando pessoas sem qualquer preparação científica decidem pôr em causa os conhecimentos produzidos pelo método científico. Tem-se assistido a um crescente poder deste tipo de crenças anticientíficas para criar seitas de adeptos e inclusive influenciar o poder político. Os resultados são terríveis. Crianças que morrem por não serem vacinadas ou a irresponsabilidade individual e política perante as alterações do clima. Não é inverosímil pensar que esses movimentos possam crescer de tal modo que ponham em causa a própria produção da ciência. Vivemos numa situação paradoxal: a sociedade aberta foi o campo que permitiu o florescimento da ciência, mas também pode tornar-se o cemitério onde ela será sepultada. Este é um dos grandes desafios que o Ocidente enfrenta: como preservar a liberdade e o conhecimento científico?

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