Vivemos no mundo ocidental um momento particularmente
perigoso. O perigo não vem de ameaças militares, apesar de existirem, nem das
acrobacias económicas e tarifárias dos EUA, apesar de reais. O problema
centra-se naquilo que, desde o século XVII, tem sido uma das marcas
fundamentais da cultura ocidental, a ciência. A partir dos desenvolvimentos da
astronomia e da física, a atitude e o método científicos foram criando campos
de investigação que promoveram conhecimento sólido em todas as áreas ligadas à
natureza e à vida, onde se incluem os extraordinários progressos do conhecimento
médico. Isto permitiu uma radical alteração no modo como a espécie humana vivia,
desde a esperança média de vida até à qualidade dessa mesma vida.
O método científico é o processo mais fidedigno de produção
de conhecimento que jamais existiu. A sua natureza pública, os procedimentos
rigorosos de testagem, a análise sistemática das teorias por outros cientistas,
na busca de erros e incorrecções, tudo isto permitiu construir um enorme acervo
de conhecimentos teóricos e práticos, que são o fundamento da nossa vida. O
perigo que se vive, porém, deve-se a um efeito secundário de vivermos, para
utilizarmos um expressão de Karl Popper, em sociedades abertas. Estas
sociedades protegem a liberdade de expressão, o direito de cada um defender
publicamente as suas ideias. A própria ciência beneficiou dessa abertura da
sociedade. Contudo, a emergência das redes sociais trouxe uma modificação
inesperada ao modo como se vive nas referidas sociedades abertas.
Qualquer um passou a ter um espaço público global para expor
as crenças que lhe vão na alma. O problema não está em discutir se um ministro
é bom ou mau ou se o partido A é melhor do que o B. O problema surge quando
pessoas sem qualquer preparação científica decidem pôr em causa os
conhecimentos produzidos pelo método científico. Tem-se assistido a um
crescente poder deste tipo de crenças anticientíficas para criar seitas de adeptos
e inclusive influenciar o poder político. Os resultados são terríveis. Crianças
que morrem por não serem vacinadas ou a irresponsabilidade individual e
política perante as alterações do clima. Não é inverosímil pensar que esses
movimentos possam crescer de tal modo que ponham em causa a própria produção da
ciência. Vivemos numa situação paradoxal: a sociedade aberta foi o campo que
permitiu o florescimento da ciência, mas também pode tornar-se o cemitério onde
ela será sepultada. Este é um dos grandes desafios que o Ocidente enfrenta:
como preservar a liberdade e o conhecimento científico?
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