segunda-feira, 1 de junho de 2026

Lições da final do Jamor


A final da Taça de Portugal em futebol pode servir para uma experiência de pensamento sobre valores morais e políticos. Não se trata do resultado, mas, digamos assim, do apoio dos adeptos do futebol. Com exclusão dos sportinguistas, estou convencido de que a generalidade dos outros tinham o seu coração com o Torreense – mesmo que a razão dos benfiquistas, devido ao cálculo para entrada directa na Liga Europa, os obrigasse a apoiar o Sporting. E não se trata apenas de querer a humilhação de um cube rival, como podia ser o caso de portistas e encarnados, mas de uma opção moral fundada num longínquo arquétipo da nossa cultura, o episódio bíblico do combate entre o pequeno David e o gigante Golias. O Sporting era o Golias presente no Estádio do Jamor, e o Torreense, o David. Nestes casos, o apoio tende, quase unanimemente e excluindo os adeptos do gigante em jogo, para o mais fraco, desejando-se a punição do mais forte, apenas por ser mais forte, independentemente do seu mérito.

Esta pulsão para apoio ao mais fraco é interessante por três motivos. Em primeiro lugar, porque tem o seu fundamento na cultura grega. Apesar de ser profundamente inigualitária, a cultura grega punia a húbris, noção que pode ser traduzida como autoconfiança desmedida, orgulho excessivo, etc. De certo modo, os grandes clubes, devido ao seu poderio económico, são encarnações dessa húbris, a qual perverte o equilíbrio desportivo que deveria reinar entre todas as equipas. Só assim se poderia considerar que as competições desportivas são justas, pois todas as equipas partiriam em igualdade de condições. Em segundo lugar, porque essa pulsão se enraíza na cultura judaico-cristã: no modelo do combate entre David e Golias, e na preferência pelos mais fracos enunciada – embora, nem sempre cumprida – como a orientação do cristianismo.

Por fim, porque neste apoio ao mais fraco há uma leitura política. Se o coração dos homens estivesse orientado para o mérito, todos os adeptos quereriam, à partida, que o melhor vencesse sempre. E por norma os grandes clubes – que o são em virtude das suas vitórias – possuem mais mérito do que os pequenos. Por isso, deveriam receber o apoio esmagador de todos os adeptos do futebol. Não apenas dos seus. Isto significa que a pulsão para apoio ao mais fraco é também uma pulsão igualitária. Ora, apesar de se viver numa sociedade que promove, continuamente, o individualismo e a meritocracia, fundamentos da desigualdade, no coração dos homens reside um sentimento igualitário que se manifesta nas coisas mais inesperadas, como o apoio ao pequeno David-Torreense contra o gigante Golias-Sporting.