terça-feira, 30 de junho de 2026

Beatitudes (85) A espera

E. Weingärtner, Untitled Portrait of Nun Praying, 1899
Ainda não é o rapto para fora de si e o mergulho no mar encapelado da divindade. É apenas um instante de atenção ao que não se vê e não se ouve. Antecipação silenciosa da beatitude que aguarda aquela que, ao olhar para o alto, entra em si, no lugar secreto que não tem nome.

domingo, 28 de junho de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (41)

Fernand Léger, Adiós Nueva York, 1946

A luz ensurdece

sob a despojada

indústria do Outono.

 

Mãos em  labareda

abrem-se, sôfregas,

à cárie da vida.

 

A cidade fumega

iluminada

pela gravidez da morte.

 

[1993]

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Meditações melancólicas (99) Momentos de sobriedade

Ray K. Metzker, City Whispers, Los Angeles, 1981

Transformar o ruído sem fim da cidade em secretos sussurros, será o desejo de não poucos dos seus habitantes. Na grande cidade, há um excesso de tudo. De pessoas, de automóveis, de solicitações. Um acumular de desejos acompanha essa demasia, multiplica-a, eleva-a a uma potência infinita. Uma embriaguez desmedida acompanha a existência do citadino. Quando, em momentos inesperados, a sobriedade toma conta dele, sonha acordado com a beleza dos espaços vazios, o murmurar das águas, o rumor do vento, o sussurrar do silêncio, a ilusão de uma vida simples.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Simulacros e simulações (79)

Arshile Gorky, Combate enigmático, 1937

Qualquer combate é um simulacro de uma evidência. Os combatentes enfrentam-se pensando que são claras as razões do confronto. Quanto maior o denodo na luta, mais é a simulação dessa crença. Não há combate, porém, que não contenha em si um enigma e que não seja a resolução sempre adiada, sempre falhada, desse enigma.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Diálogos aporéticos (13) - Pobrezas

Paul Schutzer,  Birds on barbed wire strung atop the Berlin Wall, Jan. 1962

- Pobres humanos.

- Pobres?

- Sim, duvidas?

- Não têm eles mais do que deviam?

- Ó sim, muito mais e nunca estão satisfeitos.

- É essa insatisfação que os torna pobres.

- Não. Essa apenas os torna ávidos e infelizes.

- Então?

- Olha para nós. Não há muro que nos limite, voamos para esquerda e para a direita.

- Sim, somos como o vento.

- E isso é a nossa riqueza.

- E eles não são como o vento. Erguem muros para se limitarem.

- E acumulam coisas para se esquecerem da pobreza em que vivem presos por muros que eles próprios ergueram.

- Não são pássaros e o alto não é o seu lugar, por isso nascem e morrem na mais dura pobreza.

- E nós o que fazemos com a nossa riqueza?

- Aspiramos a ser anjos.

sábado, 20 de junho de 2026

Marxismo cultural, uma fantasia


Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há anos. A ideia é a seguinte: o Ocidente está em profunda decadência, pois abandonou os seus valores essenciais. A causa desse abandono é o marxismo cultural. O vídeo apontava seis cavaleiros do apocalipse: Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Erich Fromm e Wilhelm Reich. A origem estaria na denominada primeira escola de Frankfurt. Estes seis refugiados do nazismo – eram judeus – teriam lançado as bases de tudo aquilo que é hoje wokismo, feminismo radical, libertação sexual, teoria decolonial, isto é, a decadência dos valores ocidentais. 

Esta fantasia oculta um problema que partes da direita não querem enfrentar. Divinizam o capitalismo, a liberdade do mercado, a iniciativa privada, e pretendem valores conservadores, o velho papel das mulheres, a família tradicional, a vigilância da sexualidade, etc. Ora, são as revoluções industriais que destroem as comunidades, as tradições e as velhas instituições. Nem o marxismo económico nem o marxismo cultural tinham poder para desestruturar os modos de vida vindos do Antigo Regime. O capitalismo vive da destruição e da obsolescência. Vive da revolução contínua. E não destrói apenas velhos modos de produção. Destrói formas de vida, de comunidade e os valores subjacentes. Tanto o marxismo económico de Marx como o marxismo cultural são reacções ao poder destruidor do capitalismo. Querer o capitalismo, a liberdade do mercado e valores conservadores é uma contradição insanável. 

Outra obscuridade neste discurso conservador está relacionada com a penetração destas ideias nos meios universitários. Ora, as revoltas estudantis dos anos sessenta, a emancipação feminina, a revolução sexual são levadas a cabo por quem? Pelos filhos família das classes altas e médias altas. Todos estes acontecimentos que horrorizam certa direita têm a origem dentro das famílias conservadoras. Querer que seis intelectuais mais ou menos obscuros traçaram um plano diabólico para destruir o Ocidente pode ser tranquilizador, mas não explica o essencial. Por que razão os filhos família se deixaram encantar pela teoria crítica, pela revolução sexual, pela emancipação da mulher, pela crítica ao colonialismo? O marxismo cultural não passa de um espantalho para ocultar o papel desestruturante e aniquilador que as famílias conservadoras e o capitalismo têm no mundo ocidental.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (40)

Piet Mondrian, De boerderij Weltevreden bij Duivendrecht, 1905

Pegas na maçã

e o corpo incendeia-se.

 

Nas margens do rio,

fogo, erva seca,

o silêncio da morte.

 

A cidade devastada,

expulsa do paraíso.

 

[1993]

terça-feira, 16 de junho de 2026

Perfis 21. O homem do leme

C. A. Northrop, The Helmsman, 1890

O horizonte é a linha onde o homem do leme poisa os olhos. Para lá dele está tudo o que não vê, mas onde arde o objecto do seu desejo. No que não se vê, pensa ele preso à experiência, está a serenidade e o perigo. O mar é um texto difícil com muitos sentidos e gramáticas inesperadas. Por vezes, mostra-se sereno, mas nessa máscara esconde-se o maior dos perigos. Outras, ruge ameaçador, mas é a bonança que vem com a treva do desespero. O timoneiro é um hermeneuta consumado. Não sabe apenas ler o texto das águas. Sabe ainda a multiplicidade dos sentidos que nesse texto se esconde. Sem esse saber antigo, o porto nunca estaria no além que se descobre para lá da linha do horizonte.

domingo, 14 de junho de 2026

Comentários (36)

Darío de Regoyos y Valdés, El puente del Arenal

 A cidade caía
casa a casa
do céu sobre as colinas
Carlos de Oliveira

Podemos cerrar os olhos e entrever o milagre da criação. Não do mundo, mas aquele mais pequeno e ao alcance da nossa dimensão, o da criação da cidade. Não nasce do solo, mas desce pausadamente do céu. É uma cidade celeste e, como todas as coisas que pertencem ao alto, é uma cidade vagarosa, feita de casas que lutam contra a gravidade. Demoram uma eternidade na travessia da atmosfera e enterram com suavidade os alicerces no chão que se lhe oferece. Agostinho e Hipona chamou-lhe cidade de Deus, mas talvez não fosse versado em assuntos urbanos. A cidade que vem de cima e pousa na terra é a mais humana de todas as cidades. É nela que os homens se encontram consigo e nesse encontro entrevêem a sombra de Deus projectada no mundo.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ensaio sobre a luz (136)

Edward Hopper, Light at Two Lights, 1927
Era uma luz branca e obsessiva, tocava a realidade enchendo-a da mais pura brancura. Por vezes, chocava com terríveis obstáculos. As superfícies resistiam, mostravam-se noutras cores. Presa na obsessão, a luz insistia, insistia, até que o adversário sucumbia e os verdes, azuis, vermelhos, toda e qualquer cor, se entregavam nos braços daquela luz. A paisagem, agora purificada, era alva, e nessa alvura nada já se distinguia.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Nocturnos 136

Maximilian Neustück, Nächtliches Ständchen in der Gasse eines Städtchens

Movida pelo império de Eros, uma serenata nocturna eleva-se ao coração que a espera. Esquecido o trauma do dia, a noite oferece-se como o horizonte onde a música encontra o seu poder invencível e torna real o que a luz prescrevia como impossível. 

domingo, 7 de junho de 2026

O Silêncio da Terra Sombria (39)

Amadeo de Souza-Cardoso, título desconhecido, c. 1914  (Gulbenkian)

A cidade tece textos de pez

com a brancura da cinza

e palavras de pedra e sal.

 

Vozes roucas são barcos

na água turva do lago.

Tremem ao vento da tarde.

 

A tristeza cai deslumbrada

sobre o anjo da partida,

hálito salgado, um mar vegetal.

 

[1993]

sexta-feira, 5 de junho de 2026

A encíclica de Leão XIV


A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. Pelo contrário. Contudo, Leão XIV traça de forma clara os perigos que ela encerra. Perigos para a pessoa: a ilusão de que a IA é humana, o logro de ser moralmente neutra, o enfraquecimento do pensamento crítico, a promoção do isolamento das pessoas e de dependência da IA. Perigos para a comunidade: concentração de poder e novos monopólios, ameaças à dignidade do trabalho e promoção de novas formas de escravatura, utilização da IA em conflitos militares. Perigos para a humanidade: a utilização da IA para ultrapassar a condição humana, segundo as narrativas do transumanismo e do pós-humanismo, onde o homem é visto como um produto a melhorar. 

A reflexão sobre a IA arrasta consigo também uma reflexão política. Leão XIV salvaguarda a importância do Estado para a coesão da sociedade civil e para a harmonização justa da distribuição do produto da actividade humana. Sublinha a importância da democracia política como garantia da participação dos cidadãos e impedimento da monopolização do poder por elites movidas por interesses particulares. Salienta o papel fundamental da política como lugar produtor de regras, avaliações independentes e transparência, que evite que o bem comum seja imposto de cima para baixo por lógicas algorítmicas controladas não democraticamente. Condena a submissão dos Estados e dos actores políticos a uma lógica de Realpolitik, que substitui o diálogo e a negociação entre Estados por um estado permanente de guerra. 

A encíclica papal tem uma dimensão crítica e uma dimensão construtiva. A crítica dirige-se, sem referir nomes ou potências, aos EUA de Trump, à Rússia de Putin e à China de Xi Jinping. São os principais agentes antidemocráticos e fomentadores de uma ordem internacional baseada na guerra. Por outro lado, a encíclica papal transporta em si um conjunto de valores morais, económicos e políticos que deveriam ser o horizonte das democracias liberais e dos actores políticos democráticos. Deveria ser o chão comum, que nas sociedades livres, uniria, para lá das diferenças, a direita e a esquerda. É de assinalar, assim, que a Igreja Católica se tornou, com o passar do tempo, na grande instituição defensora da democracia e dos direitos civis, políticos e sociais. O que não é pouco num tempo de grande incerteza promovida pelo avanço tecnológico,  pelos interesses das grandes potências e pela avidez das grandes empresas.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Lições da final do Jamor


A final da Taça de Portugal em futebol pode servir para uma experiência de pensamento sobre valores morais e políticos. Não se trata do resultado, mas, digamos assim, do apoio dos adeptos do futebol. Com exclusão dos sportinguistas, estou convencido de que a generalidade dos outros tinham o seu coração com o Torreense – mesmo que a razão dos benfiquistas, devido ao cálculo para entrada directa na Liga Europa, os obrigasse a apoiar o Sporting. E não se trata apenas de querer a humilhação de um cube rival, como podia ser o caso de portistas e encarnados, mas de uma opção moral fundada num longínquo arquétipo da nossa cultura, o episódio bíblico do combate entre o pequeno David e o gigante Golias. O Sporting era o Golias presente no Estádio do Jamor, e o Torreense, o David. Nestes casos, o apoio tende, quase unanimemente e excluindo os adeptos do gigante em jogo, para o mais fraco, desejando-se a punição do mais forte, apenas por ser mais forte, independentemente do seu mérito.

Esta pulsão para apoio ao mais fraco é interessante por três motivos. Em primeiro lugar, porque tem o seu fundamento na cultura grega. Apesar de ser profundamente inigualitária, a cultura grega punia a húbris, noção que pode ser traduzida como autoconfiança desmedida, orgulho excessivo, etc. De certo modo, os grandes clubes, devido ao seu poderio económico, são encarnações dessa húbris, a qual perverte o equilíbrio desportivo que deveria reinar entre todas as equipas. Só assim se poderia considerar que as competições desportivas são justas, pois todas as equipas partiriam em igualdade de condições. Em segundo lugar, porque essa pulsão se enraíza na cultura judaico-cristã: no modelo do combate entre David e Golias, e na preferência pelos mais fracos enunciada – embora, nem sempre cumprida – como a orientação do cristianismo.

Por fim, porque neste apoio ao mais fraco há uma leitura política. Se o coração dos homens estivesse orientado para o mérito, todos os adeptos quereriam, à partida, que o melhor vencesse sempre. E por norma os grandes clubes – que o são em virtude das suas vitórias – possuem mais mérito do que os pequenos. Por isso, deveriam receber o apoio esmagador de todos os adeptos do futebol. Não apenas dos seus. Isto significa que a pulsão para apoio ao mais fraco é também uma pulsão igualitária. Ora, apesar de se viver numa sociedade que promove, continuamente, o individualismo e a meritocracia, fundamentos da desigualdade, no coração dos homens reside um sentimento igualitário que se manifesta nas coisas mais inesperadas, como o apoio ao pequeno David-Torreense contra o gigante Golias-Sporting.