As temperaturas altas que têm assolado a Europa e as
palavras de António Guterres sobre o impacto energético escondido do uso da
Inteligência Artificial alertam, mais uma vez, para o problema das alterações
climáticas geradas pela actividade humana. Voltemos um pouco atrás no tempo e
às afirmações hiperbólicas do físico Stephen Hawking. A posição do físico
pode-se condensar em três ideias: 1. Um efeito de estufa irreversível. Em 2017,
aquando da saída dos EUA, dirigidos por Donald Trump, do Acordo de Paris,
Hawking alertou para que a Terra está a aproximar-se perigosamente de um ponto
de não retorno, onde o aquecimento se tornaria irreversível, tornando o planeta
estéril e com temperaturas de 250 graus; 2. A Terra como bola de fogo. A crise
climática e a sobrepopulação mundial combinadas transformariam, até 2600, a
Terra numa bola de fogo; 3. Colonização de um outro planeta. O físico considerava
que para a espécie não desaparecer tem um século para encontrar um planeta
habitável para ser colonizados pelos seres humanos.
Estas ideias são, no seu conjunto e cada uma por si,
hiperbólicas. Representam uma visão exagerada da situação que se vive. Contudo,
manda a prudência – essa virtude que deveria guiar todos os homens políticos,
mas que foi esquecida – que não seja o exagero que se valorize na hipérbole,
mas uma outra característica. A hipérbole é uma espécie de microscópio social.
Aumenta a realidade para que esta se torne visível. Os cientistas que trabalham
no domínio do clima sublinham que as previsões de Hawking não têm sustentação
científica. Contudo, representam uma advertência séria para os problemas que
estamos à beira de enfrentar. Melhor, que enfrentamos já nos nossos dias. A
questão não está nos exageros de Stephen Hawking, mas na realidade que estamos
a viver.
Do ponto de vista político, as potências, as que poderiam
ser decisivas para pôr fim ao pesadelo que se perfila no horizonte, ou negam-no
ou fingem que não se está a passar nada. O exemplo mais claro é o dos EUA sob a
mão de Trump e do movimento MAGA. O pior, porém, é a atitude das pessoas
comuns. Ao não quererem abdicar seja do que for dos seus desejos, são as
grandes incentivadoras do desastre. Não apenas pelo consumo a que se entregam,
como pela escolha deliberada de políticos que, em vez de enfrentarem o problema,
o agravam intencionalmente. Como êxodos da espécie humana para fora do planeta
são devaneios, o que estamos a assistir – e a participar no processo – é, para
usarmos ainda uma hipérbole, a um hara-kiri da nossa espécie.