O romancista húngaro Lásló Krasznahorkai, Nobel da
Literatura em 2025, deu uma entrevista ao Público de sexta-feira passada que
merece ser lida. A certa altura diz: A literatura sofreu uma transformação
enorme. Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu
praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até
James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard ou Fernando Pessoa a literatura
percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à
linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e
fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso. No início isso
surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande
esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer
prática de leitura e formação cultural.
A reacção à escrita exigente que, a partir do modernismo –
os autores referidos por Krasznahorkai e alguns outros –, se tornou o sinónimo
de literatura enquanto arte é idêntica à que o grande público teve, e tem,
perante a pintura moderna. Compreender a arte moderna, seja a pintura, seja a
música, seja a literatura, exige esforço intelectual, investimento pessoal e um
genuíno sentido estético desejoso de se cultivar. Não se pode dizer, contudo,
que houve um afastamento do grande público da arte, pois esse grande público
sempre esteve afastado dela. O fenómeno é outro. A educação cresceu
exponencialmente, as pessoas com formação superior são cada vez mais, mas isso
não significou uma transformação espiritual da população. Pelo contrário,
trouxe, em muitos casos, uma ignorância arrogante sentada em cima de um
diploma. As redes sociais apenas expandiram o fenómeno.
O mais surpreendente, talvez, é que o fenómeno da facilidade
apossou-se também das elites, outrora mais disponíveis para a grande arte. As
artes contemporâneas são-lhes estranhas. Poder-se-ia pensar que a pintura, com
o grande mercado que arrasta, é uma excepção. O que acontece é que ela se
tornou numa mercadoria valiosa e um investimento muito seguro, embora não se
perceba bem porquê. Existe investimento em pintura não por interesse estético,
mas por interesse económico, pela valorização mercantil das obras. Um livro
para ter valor de mercado tem de vender muitas centenas de milhares de exemplares.
Isso só pode acontecer se não exigir grande coisa dos leitores. Estes procuram
entretenimento e confirmação das suas crenças. Ora, a grande literatura nem
entretém nem confirma seja o que for. Questiona o leitor, exige dele o que ele
não quer dar, põe-no entre a espada e a parede, o que não é um lugar agradável
para se estar.
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