sábado, 18 de julho de 2026

Arte e consumo


O romancista húngaro Lásló Krasznahorkai, Nobel da Literatura em 2025, deu uma entrevista ao Público de sexta-feira passada que merece ser lida. A certa altura diz: A literatura sofreu uma transformação enorme. Tenho a impressão de que a literatura contemporânea esqueceu praticamente tudo o que aconteceu durante o século XX. Desde Marcel Proust até James Joyce, Samuel Beckett, Thomas Bernhard​ ou Fernando Pessoa a literatura percorreu um caminho extraordinário. No entanto, hoje parece ter regressado à linguagem e às estruturas narrativas do século XIX: quanto mais acessível e fácil de consumir for um livro, maior é o seu sucesso. No início isso surpreendia-me. Depois percebi a razão: esses livros podem ser lidos sem grande esforço e praticamente sem bagagem cultural. A literatura mais exigente requer prática de leitura e formação cultural

A reacção à escrita exigente que, a partir do modernismo – os autores referidos por Krasznahorkai e alguns outros –, se tornou o sinónimo de literatura enquanto arte é idêntica à que o grande público teve, e tem, perante a pintura moderna. Compreender a arte moderna, seja a pintura, seja a música, seja a literatura, exige esforço intelectual, investimento pessoal e um genuíno sentido estético desejoso de se cultivar. Não se pode dizer, contudo, que houve um afastamento do grande público da arte, pois esse grande público sempre esteve afastado dela. O fenómeno é outro. A educação cresceu exponencialmente, as pessoas com formação superior são cada vez mais, mas isso não significou uma transformação espiritual da população. Pelo contrário, trouxe, em muitos casos, uma ignorância arrogante sentada em cima de um diploma. As redes sociais apenas expandiram o fenómeno. 

O mais surpreendente, talvez, é que o fenómeno da facilidade apossou-se também das elites, outrora mais disponíveis para a grande arte. As artes contemporâneas são-lhes estranhas. Poder-se-ia pensar que a pintura, com o grande mercado que arrasta, é uma excepção. O que acontece é que ela se tornou numa mercadoria valiosa e um investimento muito seguro, embora não se perceba bem porquê. Existe investimento em pintura não por interesse estético, mas por interesse económico, pela valorização mercantil das obras. Um livro para ter valor de mercado tem de vender muitas centenas de milhares de exemplares. Isso só pode acontecer se não exigir grande coisa dos leitores. Estes procuram entretenimento e confirmação das suas crenças. Ora, a grande literatura nem entretém nem confirma seja o que for. Questiona o leitor, exige dele o que ele não quer dar, põe-no entre a espada e a parede, o que não é um lugar agradável para se estar.

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