quarta-feira, 8 de julho de 2026

Raiz da Permanência 1

Caspar David Friedrich, Angels in Adoration, 1826

Tudo vem por um movimento secreto do espírito

de Deus, água a cair nos cântaros da aurora

ou no esquecimento onde se doba

o abandono nas cinzas de quarta-feira.

É um mover-se na fímbria da floresta:

ali se guarda o rastejar das sombras,

o rufo dos lábios tomados

pelo deslizar das mãos no vinho do Outono.

 

Deus pensa na angústia da compaixão e há flores

na brancura de seus dedos estelares,

dedos vernáculos para acariciar

almas a decompor-se na textura do carvão,

almas a devorar o vidro do desamparo,

almas feridas pelo ócio do esquecimento,

almas rasuradas no cobalto da derrelicção,

almas escritas na queda das folhas do calendário.

 

São magníficas as magnânimas cogitações divinas,

longos pensamentos tecidos na trama

da eternidade,

polvilhadas no colmo das estrelas.

Meditações abertas ao ondular das galáxias,

à turbulência de corações presos na intriga

do amor decantado no sol de Setembro,

sorvido no apocalipse sem nome da aurora.

 

Abril de2024


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