Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de
Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre
nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da
fase de grupos. Esta, contudo, é uma crónica nostálgica que cruza futebol e
ciclismo. Na infância, adolescência e juventude, até ao final dos anos setenta,
o meu imaginário desportivo era preenchido por estes dois desportos. O futebol
durante grande parte do ano, com o Campeonato Nacional, a Taça de Portugal, as
competições europeias e até a Taça de Honra de Lisboa. Tudo isso ajudava a
suportar as aulas. Depois, chegavam as férias grandes e, quando o calor
apertava, em Agosto, vinha a Volta a Portugal em bicicleta.
A grande rivalidade desportiva era entre o Benfica e o
Sporting. O Porto, no futebol, vivia acorrentado pela ditadura dos clubes de
Lisboa. Como benfiquista, filho de benfiquista e pertencente a uma família de
benfiquistas, vibrava com os grande jogadores do clube, um sexteto excepcional.
Eusébio, claro, mas também Coluna, José Augusto, Simões, José Torres e Jaime
Graça. Lembro-me ainda de jogarem dois outros monstros do clube, o guarda-redes
Costa Pereira e o defesa-central Germano. Mais tarde vieram o Humberto Coelho,
o Bento, o Toni, o Vítor Batista e muitos outros. Mas os meus jogadores
do Benfica são, na verdade, aqueles do sexteto, essenciais na selecção
portuguesa de 1966. Durante muito tempo, por cada campeonato ganho pelo
Sporting, o Benfica vencia três. Era um tempo feliz para os benfiquistas.
Acabado o futebol, era a Volta a Portugal que continuava a
disputa entre Benfica e Sporting. Há quem diga que a popularidade nacional dos
dois clubes se deve à rivalidade, nos anos trinta, entre o sportinguista
Alfredo Trindade e o benfiquista José Maria Nicolau. No ciclismo, todavia, as
vitórias estavam mais distribuídas. Tomemos as décadas de 60 e 70. Os ciclistas
do Porto e do Sporting venceram quatro voltas e os do Benfica, cinco. E houve diversas
vitórias de corredores de outros clubes. A partir de certa altura, porém, o Tour
de França passou a merecer a nossa atenção, devido à presença do sportinguista
Joaquim Agostinho. Os benfiquistas tinham uma vida dupla. Queriam que ele
perdesse na Volta a Portugal, coisa que raramente acontecia, mas eram adeptos
fervorosos do Joaquim Agostinho francês. Vejo o Mundial de 2026, mas o meu
Mundial é o de 1966, de que vi todos os jogos de Portugal. Hei-de espreitar o Tour,
nem que seja para ver as paisagens, mas os meus Tours de França são os
do Joaquim Agostinho. Talvez esteja a ficar muito velho.
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