segunda-feira, 6 de julho de 2026

Descrições fenomenológicas 73. A indústria

Jacqueline Lamba, Ciel Noir, 1986

Caminha-se naquele espaço como se se caminhasse no passado. O fumo das chaminés corre continuamente e transforma-se em escuras nuvens. A luz emudece, toldada pela ânsia fabril dos homens. Uma casa, porventura, uma pensão, exibe os toldos, outrora brancos, sujos de fuligem. Conto as chaminés, mas perco-me uma e outra vez. Ao longe, ergue-se um arranha-céus, mas é apenas uma suposição, a presença de um fantasma. Tudo o que podia ser vegetação verde e viva é, agora, o cadáver abandonado de um mundo que, naquele lugar, está morto, sem esperança de redenção. Passam operários macilentos, cabisbaixo, como se suportassem o mundo aos seus ombros. Alguns entram numa taberna, um tugúrio acinzentado, onde um homem pálido vende copos de vinho e cálices de aguardente. Ninguém fala. O cliente aponta com a mão o que quer, o taberneiro serve-o. Depois, o bebedor procura umas moedas no bolso, põe-nas em cima do balcão, sai e retoma o caminho para a fábrica que o espera. Da pensão, sai um homem de fato e gravata, talvez um engenheiro, um administrador. Também a ele lhe amareleja a pele e soçobra o passo. Diante da taberna não pára. Olha para a cidade, consulta o relógio, apressa-se. Ouve-se o apito de um comboio, logo chega o ruído das rodas no carris. Pára na estação improvisada, lançando baforadas de fumo para os céus. Raquítica, uma árvore tenta agarrar-se à terra, mas o céu cobre-a de uma chuva fuliginosa, ácida. Não se avistam mulheres ou crianças, apenas sombras, paredes sujas, telhados escuros e o contínuo metralhar do fumo a sair dos canos de tijolo das grandes chaminés industriais.

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