segunda-feira, 20 de julho de 2026

Raiz da Permanência 2

Claude Monet, Marine View, Sunset, 1874

Há um orvalho de morte e ressurreição,

a face de todas as luas nascidas

na inquietude do crepúsculo.

Os dias baloiçam na âncora da incerteza,

tremem tomados pelo pavor

do futuro, a ânsia rubra que vem

no anis de um anátema.

 

Ouve-se o cardar das botas antes de chegar

a enxurrada dos exércitos, o tropel

da obscuridade, a mansidão do oblívio.

Um aguaceiro de cães ladra

nos pórticos abertos

para a saída da febre da vida,

a entrada sorrateira da milícia da morte.

 

Um grito de água no gelo da atmosfera,

o restolhar das asas de um anjo

nas glicínias da memória.

Murmúrios de gaivotas na gravilha dos dias,

o olhar vazio da infância

perante a queda dos graves,

a poeira das coisas amadas no paraíso do ocaso.

 

Seguir o rasto da memória na casa veloz

da indignidade. Arder em lenta combustão

de Primaveras rasgadas

pela tesoura do impensável. Eis o nome sagrado

do que virá com o bornal cheio de figos.

Transbordam de mel e maldade

para as bocas abertas no sal do crepúsculo.

 

Abril de 2024

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