Em entrevista ao Público, o psicólogo Eduardo Sá,
agora em cadeira de rodas, diz: A sociedade está-se a borrifar para os
deficientes. Não são pessoas. O estatuto de ser humano integral será negado,
há muito, talvez desde sempre, aos deficientes. Contudo, os dias que vivemos
são propícios a duas coisas. Em primeiro lugar, à ampliação do estatuto social
e político de não pessoa. Não são apenas os deficientes que não merecem a
consideração que todo o ser humano deve merecer. São também os doentes
crónicos, os fracos, os pobres, os derrotados. Não tardará, serão as mulheres,
de novo. Em segundo lugar, a sociedade libertou-se tanto da narrativa cristã do
amor ao próximo, como das narrativas políticas emancipatórias e de defesa de
uma igual dignidade de todos os seres humanos. O que agora se valoriza é o
desprezo pelo que é fraco e o culto da força.
Politicamente, isto é observável no actual governo
norte-americano, com a sua sanha contra os fracos e o culto fantasioso da
guerra, da violência gratuita, que transforma, sem que disso tenham vergonha,
secretários de Estado em vilões de banda desenhada. A vaga de vitórias da
extrema-direita, na América Latina, é outro sinal político desse culto dos
fortes e desprezo pelos fracos. Também a Europa não escapa ao fenómeno. O
avanço eleitoral das extremas-direitas é sintoma da mesma atitude para com os
mais fracos. Um indício forte vem da redução das esquerdas emancipatórias à
pura irrelevância eleitoral. Veja-se o caso do Bloco de Esquerda. Representou,
durante anos, uma perspectiva política preocupada em assegurar a igualdade de
tratamento dos vários sectores discriminados. Hoje, tem um deputado no
Parlamento e ninguém quer saber da sua agenda.
A crise política da ideia de uma igual dignidade de todos os
seres humanos é apenas um epifenómeno. O problema tem uma natureza
civilizacional e manifesta a perda de influência do cristianismo no mundo
ocidental. Foi este que, contra o que eram as crenças de então, veio valorizar
os fracos, os pobres, as mulheres, aqueles que estavam destituídos de poder e
eram vítimas de opressão. Isso não significa que as igrejas cristãs tenham sido
modelos emancipatórios. Muitas vezes, foram o contrário. No entanto, sem o
impulso das narrativas evangélicas, da ideia de amor ao próximo, nunca teria
sido possível a emergência de um pensamento político libertador dos fracos e de
respeito pela dignidade de todos os seres humanos. O crescimento das não
pessoasv, como diz Eduardo Sá, nas nossas sociedades é, fundamentalmente, o
sinal de uma derrota civilizacional do cristianismo e o triunfo do velho
paganismo.
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