sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Não pessoas


Em entrevista ao Público, o psicólogo Eduardo Sá, agora em cadeira de rodas, diz: A sociedade está-se a borrifar para os deficientes. Não são pessoas. O estatuto de ser humano integral será negado, há muito, talvez desde sempre, aos deficientes. Contudo, os dias que vivemos são propícios a duas coisas. Em primeiro lugar, à ampliação do estatuto social e político de não pessoa. Não são apenas os deficientes que não merecem a consideração que todo o ser humano deve merecer. São também os doentes crónicos, os fracos, os pobres, os derrotados. Não tardará, serão as mulheres, de novo. Em segundo lugar, a sociedade libertou-se tanto da narrativa cristã do amor ao próximo, como das narrativas políticas emancipatórias e de defesa de uma igual dignidade de todos os seres humanos. O que agora se valoriza é o desprezo pelo que é fraco e o culto da força. 

Politicamente, isto é observável no actual governo norte-americano, com a sua sanha contra os fracos e o culto fantasioso da guerra, da violência gratuita, que transforma, sem que disso tenham vergonha, secretários de Estado em vilões de banda desenhada. A vaga de vitórias da extrema-direita, na América Latina, é outro sinal político desse culto dos fortes e desprezo pelos fracos. Também a Europa não escapa ao fenómeno. O avanço eleitoral das extremas-direitas é sintoma da mesma atitude para com os mais fracos. Um indício forte vem da redução das esquerdas emancipatórias à pura irrelevância eleitoral. Veja-se o caso do Bloco de Esquerda. Representou, durante anos, uma perspectiva política preocupada em assegurar a igualdade de tratamento dos vários sectores discriminados. Hoje, tem um deputado no Parlamento e ninguém quer saber da sua agenda. 

A crise política da ideia de uma igual dignidade de todos os seres humanos é apenas um epifenómeno. O problema tem uma natureza civilizacional e manifesta a perda de influência do cristianismo no mundo ocidental. Foi este que, contra o que eram as crenças de então, veio valorizar os fracos, os pobres, as mulheres, aqueles que estavam destituídos de poder e eram vítimas de opressão. Isso não significa que as igrejas cristãs tenham sido modelos emancipatórios. Muitas vezes, foram o contrário. No entanto, sem o impulso das narrativas evangélicas, da ideia de amor ao próximo, nunca teria sido possível a emergência de um pensamento político libertador dos fracos e de respeito pela dignidade de todos os seres humanos. O crescimento das não pessoasv, como diz Eduardo Sá, nas nossas sociedades é, fundamentalmente, o sinal de uma derrota civilizacional do cristianismo e o triunfo do velho paganismo.

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