Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma
mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do
conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que
parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há
anos. A ideia é a seguinte: o Ocidente está em profunda decadência, pois
abandonou os seus valores essenciais. A causa desse abandono é o marxismo
cultural. O vídeo apontava seis cavaleiros do apocalipse: Max Horkheimer,
Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Erich Fromm e Wilhelm Reich.
A origem estaria na denominada primeira escola de Frankfurt. Estes seis
refugiados do nazismo – eram judeus – teriam lançado as bases de tudo aquilo
que é hoje wokismo, feminismo radical, libertação sexual, teoria decolonial,
isto é, a decadência dos valores ocidentais.
Esta fantasia oculta um problema que partes da direita não
querem enfrentar. Divinizam o capitalismo, a liberdade do mercado, a iniciativa
privada, e pretendem valores conservadores, o velho papel das mulheres, a
família tradicional, a vigilância da sexualidade, etc. Ora, são as revoluções
industriais que destroem as comunidades, as tradições e as velhas instituições.
Nem o marxismo económico nem o marxismo cultural tinham poder para
desestruturar os modos de vida vindos do Antigo Regime. O capitalismo vive da
destruição e da obsolescência. Vive da revolução contínua. E não destrói apenas
velhos modos de produção. Destrói formas de vida, de comunidade e os valores
subjacentes. Tanto o marxismo económico de Marx como o marxismo cultural são
reacções ao poder destruidor do capitalismo. Querer o capitalismo, a liberdade
do mercado e valores conservadores é uma contradição insanável.
Outra obscuridade neste discurso conservador está
relacionada com a penetração destas ideias nos meios universitários. Ora, as
revoltas estudantis dos anos sessenta, a emancipação feminina, a revolução
sexual são levadas a cabo por quem? Pelos filhos família das classes altas e
médias altas. Todos estes acontecimentos que horrorizam certa direita têm a
origem dentro das famílias conservadoras. Querer que seis intelectuais mais ou
menos obscuros traçaram um plano diabólico para destruir o Ocidente pode ser tranquilizador,
mas não explica o essencial. Por que razão os filhos família se deixaram
encantar pela teoria crítica, pela revolução sexual, pela emancipação da
mulher, pela crítica ao colonialismo? O marxismo cultural não passa de um
espantalho para ocultar o papel desestruturante e aniquilador que as famílias
conservadoras e o capitalismo têm no mundo ocidental.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.