sábado, 20 de junho de 2026

Marxismo cultural, uma fantasia


Há dias, deparei-me com um vídeo em espanhol sobre uma mudança irrevogável do Ocidente gerada por seis homens. O vídeo faz parte do conflito ideológico com o marxismo cultural. É um exemplo da linguagem que parte da direita e a extrema-direita usa na guerra cultural que desencadeou há anos. A ideia é a seguinte: o Ocidente está em profunda decadência, pois abandonou os seus valores essenciais. A causa desse abandono é o marxismo cultural. O vídeo apontava seis cavaleiros do apocalipse: Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Erich Fromm e Wilhelm Reich. A origem estaria na denominada primeira escola de Frankfurt. Estes seis refugiados do nazismo – eram judeus – teriam lançado as bases de tudo aquilo que é hoje wokismo, feminismo radical, libertação sexual, teoria decolonial, isto é, a decadência dos valores ocidentais. 

Esta fantasia oculta um problema que partes da direita não querem enfrentar. Divinizam o capitalismo, a liberdade do mercado, a iniciativa privada, e pretendem valores conservadores, o velho papel das mulheres, a família tradicional, a vigilância da sexualidade, etc. Ora, são as revoluções industriais que destroem as comunidades, as tradições e as velhas instituições. Nem o marxismo económico nem o marxismo cultural tinham poder para desestruturar os modos de vida vindos do Antigo Regime. O capitalismo vive da destruição e da obsolescência. Vive da revolução contínua. E não destrói apenas velhos modos de produção. Destrói formas de vida, de comunidade e os valores subjacentes. Tanto o marxismo económico de Marx como o marxismo cultural são reacções ao poder destruidor do capitalismo. Querer o capitalismo, a liberdade do mercado e valores conservadores é uma contradição insanável. 

Outra obscuridade neste discurso conservador está relacionada com a penetração destas ideias nos meios universitários. Ora, as revoltas estudantis dos anos sessenta, a emancipação feminina, a revolução sexual são levadas a cabo por quem? Pelos filhos família das classes altas e médias altas. Todos estes acontecimentos que horrorizam certa direita têm a origem dentro das famílias conservadoras. Querer que seis intelectuais mais ou menos obscuros traçaram um plano diabólico para destruir o Ocidente pode ser tranquilizador, mas não explica o essencial. Por que razão os filhos família se deixaram encantar pela teoria crítica, pela revolução sexual, pela emancipação da mulher, pela crítica ao colonialismo? O marxismo cultural não passa de um espantalho para ocultar o papel desestruturante e aniquilador que as famílias conservadoras e o capitalismo têm no mundo ocidental.

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