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| Lima de Freitas, sem título, 1963 |
Talvez ainda haja quem traga no fundo da memória um país feito de fantasmas. As pessoas não eram bem pessoas, apenas uma imagem lutuosa delas mesmas. Não chegavam a rir, e a palavra alegria quando não desconhecida era adversa. Evitava-se pronunciá-la ora por delicadeza, para não ofender o próximo, ora por medo daquilo que as fúrias poderiam desencadear ao ouvi-la. O silêncio caía pesado sobre cada um. Não era uma libertação da algazarra quotidiana, mas uma pena a que, como Sísifo, ninguém podia escapar. Caminhavam curvados e lentamente, pois a vida era um peso que impelia os corpos para a terra. Se alguém imaginou que o mundo podia não ser assim, ninguém sabe. Naquele tempo, os segredos, se os havia, eram invioláveis. Que o tempo passasse depressa, era o maior, talvez o único, desejo que nascia naqueles corações.

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