terça-feira, 25 de agosto de 2026

Cadernos do esquecimento 60 Outro mundo

Lima de Freitas, sem título, 1963

Talvez ainda haja quem traga no fundo da memória um país feito de fantasmas. As pessoas não eram bem pessoas, apenas uma imagem lutuosa delas mesmas. Não chegavam a rir, e a palavra alegria quando não desconhecida era adversa. Evitava-se pronunciá-la ora por delicadeza, para não ofender o próximo, ora por medo daquilo que as fúrias poderiam desencadear ao ouvi-la. O silêncio caía pesado sobre cada um. Não era uma libertação da algazarra quotidiana, mas uma pena a que, como Sísifo, ninguém podia escapar. Caminhavam curvados e lentamente, pois a vida era um peso que impelia os corpos para a terra. Se alguém imaginou que o mundo podia não ser assim, ninguém sabe. Naquele tempo, os segredos, se os havia, eram invioláveis. Que o tempo passasse depressa, era o maior, talvez o único, desejo que nascia naqueles corações.

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