Por que razão vivemos num momento de grande turbulência
mundial? Haverá muita gente com respostas, umas mais sensatas do que outras. Aventuras
geopolíticas das grandes potências imperiais e os habituais interesses
económicos são razões que surgem para dar um sentido ao que estamos a viver.
Essas respostas não são erradas. Contudo, são limitadas e tomam por causa
aquilo que é uma consequência. A grande questão situa-se num outro lugar: o
desenvolvimento técnico-científico exponencial não foi acompanhado pelo
desenvolvimento de uma capacidade humana para gerir as poderosas forças que
ciência e tecnologia puseram ao dispor da humanidade. Dito de outra maneira, a
nossa espécie não está capacitada para lidar, de modo razoável, com os poderes
que a sua inteligência libertou.
Não estamos preparados do ponto de vista moral. Em 1979, o
filósofo alemão Hans Jonas propõe um novo imperativo moral que se sintetiza na
frase seguinte: agir de modo que as condições de uma vida genuinamente
humana na Terra se mantenham. Enquanto o imperativo categórico de Kant nos
manda agir respeitando a humanidade no outro e em nós próprios, o de Jonas
prolonga-o para as gerações futuras. O que assistimos nas últimas décadas,
porém, mostra-nos que não apenas a espécie, embrenhada numa paranóia consumista,
não tem qualquer interesse pelo futuro da vida humana na Terra, como o próprio
respeito pelo outro e por si mesmo se encontra numa fase de vertiginosa
degradação. No lugar de um desenvolvimento moral e espiritual necessário para
lidar com a técnica, a espécie recuou nos seus padrões morais e está hoje à
mercê dos efeitos não controlados da tecnologia.
Não estamos preparados do ponto de vista político. As
instituições políticas tinham uma função de complemento da vida moral. Se as
regras morais falhavam, entrava em jogo a lei e a punição. Ora, nada disto se
passa nos dias de hoje, quando se trata da tecnologia. Basta ver o caso das
redes sociais. Os interesses desenvolvidos em torno dos produtos tecnológicos,
além de colonizarem as consciências dos
indivíduos, capturaram as instituições políticas. Estas ou são impotentes para
lidarem com a pressão ou tornaram-se agentes de degradação do mundo e da vida,
seja nas alterações do clima, seja na corrupção das regras morais, seja na
alienação dos indivíduos orientada por algoritmos. Günther Anders dizia, em
1956, que somos analfabetos emocionais: sabemos construir a bomba atómica, mas não
conseguimos sentir o que significa um milhão de mortos. A partir de 1956, esse
analfabetismo apenas se aprofundou. É aqui que está a origem dos males
presentes.
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