Se se olhar com atenção para o que se passa nas sociedades
ocidentais, descobre-se que a causa fundamental do mal-estar que se manifesta
em todos os lados é o ressentimento. É este que está a corroer os fundamentos
das democracias-liberais e ameaça mesmo a paz pública. Quase sempre, a
vocalização desse ressentimento dirige-se contra o imigrante, contra o
estrangeiro, contra aquele que não partilha a cultura e os valores que,
presumidamente, são os dos cidadãos autóctones. Não poucas vezes, essas
manifestações arrastam estranhas
posições. Por exemplo, argumentar ao mesmo tempo que certas comunidades
instaladas num país não respeitam as regras da democracia-liberal e aproveitar
essa presunção para atacar a democracia-liberal e tentar forçar soluções
políticas autoritárias.
Contudo, e apesar de ser real o sentimento de desgosto
perante o estrangeiro, não será a causa central do ressentimento que mina as
nossas sociedades. O estrangeiro surge como bode expiatório que cristaliza, em
si, o despeito que atinge amplas camadas dos países ocidentais. Este despeito
tem a raiz nas políticas que, após a queda do Muro de Berlim e o fim da ameaça
comunista, se foram impondo, nos países demo-liberais. Estas políticas têm tido
duas consequências. Destruição da ideia de elevador social, que permitiria o
progresso na escala social. As novas gerações sentem ter muito menos
possibilidades de ascender socialmente do que tiveram os seus pais. Sentem que
as suas vidas serão piores que as das gerações anteriores. A segunda
consequência, ligada a esta, é o desgaste e destruição do Estado Social. Mesmo
quando este não é desarticulado, os serviços de educação, saúde e protecção
tornam-se muito piores.
Tudo isto está a criar legiões de pessoas ressentidas com as
elites. Curiosamente, esse ressentimento não se volta contra as elites
económicas beneficiárias das políticas que estão a empobrecer as pessoas, mas
contra as elites políticas democráticas, bem como contra aquelas que têm um
peso estruturante nas sociedades: cientistas, intelectuais, pessoas com
formação superior. Este ressentimento está a transformar-se numa onda negra,
cada vez mais volumosa, que pode vir a destruir os regimes democráticos e, por
arrasto, um conjunto de benefícios que foram produzidos, na sequência do
Iluminismo (um dos alvos das correntes populistas), como a ciência, os direitos
cívicos, políticos e sociais e a própria vida civilizada. Se as democracias
ocidentais se pretenderem salvar e salvar um modo de vida civilizado, terão de
enfrentar as causas do ressentimento e corrigir o caminho que têm seguido desde
os anos noventa do século passado.
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