sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Comentários (35)

Guillermo Pérez Villalta, El rumor del tiempo, 1984

Não percas tempo! O dia é breve
E passa depressa a hora da juventude.
Ganha coragem e parte...
Georg Trakl

Os primeiros três versos do poema Apelo, de Georg Trakl, contêm três actos de linguagem directivos e dois representativos. O poeta começa por ordenar Não percas tempo! Este imperativo, por si só, não faz sentido. Preciso de uma justificação. Aí, o poema oferece duas: O dia é breve e E passa depressa a hora da juventude. Não se deve perder tempo, pois a vida é breve e o tempo é veloz na sua passagem. Justificado o imperativo, seguem-se outros dois: Ganha coragem é o primeiro, aquele que ordena reunir as condições para o cumprimento do segundo: parte. Estas formas imperativas, com as justificações que o poeta mobiliza, funcionam como um processo de ocultação. Escondem uma pergunta. Não a pergunta: partir para onde? Ocultam antes a pergunta decisiva: partir, por que razão? Tenha-se ou não coragem de partir, o tempo será perdido. Ficar ou partir não altera a brevidade do dia e a rápida passagem da hora da juventude. Que diferença fará ficar ou partir? Ficar responde ao preconceito sedentário, mas partir não é mais do que encarnar o preconceito do nómada. Em ambos os casos, a decisão tem o seu impulso num preconceito, em algo que não chegou por completo ao pensamento e que provavelmente nunca chegará, pois são obscuras as razões que nos levam a ficar ou a partir.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.