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| Francisco de Goya, Aníbal contemplando Italia, 1791 |
Após a demissão da ministra da Administração Interna, Maria
Lúcia Amaral, têm surgido, um pouco por todo o lado, comentários que se podem
sintetizar numa expressão: erro de casting. O uso desta expressão por agentes
políticos e comentadores é, já por si, revelador de um problema estrutural que
atravessa as sociedades ocidentais. Escolher ministros não é escolher actores
para actuarem num cenário ficcional de uma série televisiva, num filme ou,
mesmo, numa peça de teatro. Por vezes, o uso de expressões metafóricas ilumina
o que se quer compreender; mas, outras vezes, como é o caso, essas expressões
obscurecem a compreensão dos fenómenos. O problema não reside no facto de a
ex-ministra ser uma má actriz. Reside noutro lado, do qual ela não terá
consciência e de que não será a primeira culpada.
O problema reside na compreensão da natureza do político,
problema que se tem vindo a agravar nos últimos séculos. Esse agravamento
manifesta-se, por exemplo, na escolha de pessoas sem perfil político para
funções essencialmente políticas. Quais são as áreas políticas essenciais? São
quatro: 1. Negócios Estrangeiros; 2. Defesa; 3. Justiça; 4. Interior
(Administração Interna). Ora, já a designação do Ministério — a substituição da
tradicional designação de Interior por Administração Interna — revela um equívoco,
de que Maria Lúcia Amaral foi vítima. A função não é administrativa, mas
política. Todas as áreas políticas acima referidas incluem funções de
administração, mas isso é apenas um suporte das decisões políticas estruturais,
as quais devem ser coordenadas por um primeiro-ministro, de modo a garantir a
consonância da acção política governativa.
O que a acção política visa, em primeira e em última
instâncias, é a persistência da comunidade política no tempo. No caso,
assegurar que Portugal tenha um futuro. Isso faz-se, por um lado, pela relação
com a exterioridade geopolítica, num mundo que, muitas vezes, pode ser
descrito, de modo hobbesiano, como um lugar de guerra de todos contra todos.
Assim, há que ter atenção aos potenciais inimigos, aos amigos e aliados. Estas
funções políticas devem encontrar-se nas pastas dos Negócios Estrangeiros e da
Defesa. Por outro lado, e com igual importância, existe a segurança interna e a
paz pública — duas funções políticas que cabem às pastas da Justiça e do
Interior (Administração Interna). Ora, para estas quatro pastas são necessários
ministros politicamente fortes. Fortes em dois sentidos: autoridade política e
pensamento político estruturado sobre a área e a sua relação com o desiderato
da política. Coisa que muitas vezes não acontece, como no caso da ex-ministra.

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