Seria uma inominável estultícia a esquerda ver na eleição de
António José Seguro uma alavanca para chegar ao poder. Posso enganar-me, mas o
futuro inquilino de Belém, mesmo que seja eleito para um segundo mandato, não
vai fazer dele, como é tradição em Portugal, uma plataforma para levar os seus
ao poder. Não criará, como outros Presidentes da República criaram, problemas
ao governo saído do parlamento para, caso não seja da sua cor política, o
substituir por outro dos socialistas. Como alguns comentadores sublinharam,
Seguro era o mais fora do sistema de todos os candidatos relevantes, incluindo
Gouveia e Melo, que vinha de fora, mas desejava entrar nesse sistema. As
instituições democráticas e a Constituição têm agora em Belém alguém que terá
uma clara consciência dos limites do seu cargo e de que a Presidência não é
lugar para gincana partidária, alguém que será o mais independente dos
Presidentes. Desse ponto de vista, a esquerda nada têm a esperar do Presidente
eleito.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Seguro e a esquerda
Contudo, António José Seguro
pode ser útil à esquerda. Não como actor político, mas como modelo, como
exemplo. Humildade, integridade pessoal, moderação. O PS, é um partido moderado
(nunca o deixou de ser, mesmo no tempo da geringonça). Tem-lhe faltado, todavia,
humildade e é assombrado por uma imagem negativa da integridade de alguns dos
seus actores. Faria bem o PS reconhecer isso e mudar radicalmente a sua relação
com o poder. A integridade e a gravitas de Seguro são um modelo que devia imitar. Se o
PCP e o BE não têm problemas de integridade, têm graves problemas de humildade política e de moderação, a que se estende a necessidade de perceber o
tempo em que se vive. E ao Livre também não faria mal meditar sobre a humildade
política. Todos estes três partidos deviam olhar para o novo Presidente, com abertura
de espírito e desejo de aprender. A esquerda deve perguntar por que razão o
país que nas legislativas deu uma vitória retumbante à direita, não teve
dúvidas em votar em massa, de forma não menos retumbante, num socialista. Que
virtudes viu nele – e não viu, nas legislativas, nos partidos de esquerda –
para o eleger. Se forem cegos, pagarão nas urnas e no apoio popular.
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