quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Corrupção, decadência e ressentimento


Como se destrói uma democracia de sucesso? Há várias estratégias, mas foquemo-nos naquela que está a corroer a democracia portuguesa. 

Corrupção. No Público da passada segunda-feira, um artigo sobre o problema da corrupção, de Arlindo Oliveira, refere estudos sobre a percepção da corrupção por parte dos cidadãos e estudos que avaliam a experiência directa (real) da corrupção. Portugal é um país onde se acredita que existe muita corrupção, mas também um país em que há pouca experiência directa dessa corrupção. Isto é, os portugueses acreditam obsessivamente numa coisa que, pela sua própria experiência, é reduzida. Há muitas causas, como o artigo mostra, para essa percepção. Contudo, esta percepção falsa da realidade da corrupção é alimentada pelo populismo que pretende destruir o regime democrático. 

Decadência. Outra falsificação da realidade está a tornar-se crença de muitos portugueses. A democracia falhou, os políticos portugueses andam a falhar há cinquenta anos (o tempo da democracia). A verdade, porém, é outra. Qualquer comparação entre o modo como os portugueses vivem hoje e o modo como viviam há cinquenta anos mostra que hoje vivemos muito melhor do que vivíamos. A ideia de decadência do país é uma falsificação imoral, pois oculta as profundas dificuldade que os portugueses sentiam naqueles tempos. A democracia portuguesa é política e socialmente imperfeita, mas, objectivamente, um sucesso, tanto politicamente (cinquenta anos de paz, liberdade e segurança) e socialmente (vive-se incomparavelmente melhor). 

Ressentimento. Como explicar que as duas falsificações da realidade sejam aceites como verdades por parte da população? A palavra-chave é ressentimento. Michael J. Sandel expõe a sua raiz em A Tirania do Mérito. Defende que a coesão social e a democracia estão a ser corroídas pela crença de que o sucesso individual resulta apenas do talento e do esforço individuais, e que o fracasso é culpa pessoal. Esta crença esquece o papel da sorte, das circunstâncias sociais, da educação e das próprias instituições públicas. Gera a arrogância dos vencedores e a humilhação dos perdedores, que interiorizam o insucesso como falha moral. Isto origina o ressentimento e a abertura às mentiras do populismo. O que propõe Sandel? Reconhecer, para além do mérito individual, o papel da sorte na vida e, do ponto de vista político, renovar a dignidade do trabalho, valorizando as contribuições e o esforço dos que não têm diplomas universitários ou carreiras de sucesso. Fortalecer a ideia de bem comum e fomentar uma humildade cívica que reforce a coesão da comunidade. Isto é fundamental para defender a democracia.

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