Como se destrói uma democracia de sucesso? Há várias
estratégias, mas foquemo-nos naquela que está a corroer a democracia
portuguesa.
Corrupção. No Público da passada
segunda-feira, um artigo sobre o problema da corrupção, de Arlindo Oliveira, refere
estudos sobre a percepção da corrupção por parte dos cidadãos e estudos que
avaliam a experiência directa (real) da corrupção. Portugal é um país onde se
acredita que existe muita corrupção, mas também um país em que há pouca
experiência directa dessa corrupção. Isto é, os portugueses acreditam
obsessivamente numa coisa que, pela sua própria experiência, é reduzida. Há
muitas causas, como o artigo mostra, para essa percepção. Contudo, esta
percepção falsa da realidade da corrupção é alimentada pelo populismo que
pretende destruir o regime democrático.
Decadência. Outra falsificação da realidade
está a tornar-se crença de muitos portugueses. A democracia falhou, os
políticos portugueses andam a falhar há cinquenta anos (o tempo da democracia).
A verdade, porém, é outra. Qualquer comparação entre o modo como os portugueses
vivem hoje e o modo como viviam há cinquenta anos mostra que hoje vivemos muito
melhor do que vivíamos. A ideia de decadência do país é uma falsificação
imoral, pois oculta as profundas dificuldade que os portugueses sentiam
naqueles tempos. A democracia portuguesa é política e socialmente imperfeita,
mas, objectivamente, um sucesso, tanto politicamente (cinquenta anos de paz,
liberdade e segurança) e socialmente (vive-se incomparavelmente melhor).
Ressentimento. Como explicar que as duas falsificações
da realidade sejam aceites como verdades por parte da população? A
palavra-chave é ressentimento. Michael J. Sandel expõe a sua raiz em A
Tirania do Mérito. Defende que a coesão social e a democracia estão
a ser corroídas pela crença de que o sucesso individual resulta apenas do
talento e do esforço individuais, e que o fracasso é culpa pessoal. Esta crença
esquece o papel da sorte, das circunstâncias sociais, da educação e das
próprias instituições públicas. Gera a arrogância dos vencedores e a humilhação
dos perdedores, que interiorizam o insucesso como falha moral. Isto origina o
ressentimento e a abertura às mentiras do populismo. O que propõe Sandel? Reconhecer,
para além do mérito individual, o papel da sorte na vida e, do ponto de vista
político, renovar a dignidade do trabalho, valorizando as contribuições e o esforço
dos que não têm diplomas universitários ou carreiras de sucesso. Fortalecer a
ideia de bem comum e fomentar uma humildade cívica que reforce a coesão da
comunidade. Isto é fundamental para defender a democracia.
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