O fim da História significa que se assume uma ordem
internacional hobbesiana. Volta-se, ao nível internacional, a um estado de
natureza, onde não existe qualquer árbitro acima das potências que possa
decidir os conflitos. Significa que se está numa guerra contínua – umas vezes,
através da política, outras vezes, das armas – de todos contra todos, em
conformidade com o poder de cada um. Significa que a ideia, de Thomas Hobbes,
de que o homem é o lobo do homem, se torna a regra directora do comportamento
das potências, e que pode ser reescrita: os países são os lobos dos países. O
caso do conflito entre Rússia e Ucrânia é não apenas um exemplo, mas o início
de um recomeço de uma ordem internacional, onde potências maiores tentarão
devorar potências menores, agindo em conformidade com os seus interesses. Também
esse é o caso da acção dos EUA na Venezuela, transformada em protectorado
americano.
O que é a História? Retome-se a interpretação que Walter Benjamin faz do quadro Angelus Novus, de Paul Klee. Do paraíso, sopra um vento tempestuoso em direcção ao futuro. O anjo é arrastado e o olha para o passado. E o que vê? Vê a História, isto é, uma catástrofe contínua que acumula ruína sobre ruína. As férias da História, de que falou Merz, foi o brevíssimo tempo em que se acreditou no avanço civilizacional, no aperfeiçoamento da humanidade, na melhoria contínua. Voltar à História é retornar ao ciclo de violência, destruição, opressão e sofrimento dos homens. A proclamação de Merz não nos trouxe nada de agradável. Lembrou-nos que a paz e o progresso humano são acontecimentos felizes, fruto da fortuna, mas não lei universal. A violência e a dor fazem parte da condição humana na Terra, a qual, em parte pela culpa do próprio homem, não é um paraíso, mas, demasiadas vezes, uma visão do inferno.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.