sábado, 7 de março de 2026

Sonâmbulos


No romance Pasenow ou o Romantismo, primeiro volume da trilogia Os Sonâmbulos, do austríaco Hermann Broch, o oficial e aristocrata rural Joachim von Pasenow utiliza o uniforme como uma protecção contra a anarquia tanto do mundo exterior, como a do mundo interior, a do corpo. Por que razão precisava ele dessa protecção? Porque os valores do mundo em que foi educado, os valores da honra aristocrática, estavam em plena dissolução perante o avanço de um novo mundo baseado no comércio global, uma realidade representada pelo seu ex-camarada de armas Eduard von Bertrand. O uniforme militar, o sentimento de honra e a própria devoção religiosa não correspondiam já a nada de sólido naquele no ano de 1888, o ano dos acontecimentos ficcionais do romance, numa Alemanha recém unificada. O uniforme de Joachim é a metáfora perfeita para mostrar essa situação em que um conjunto de crenças, valores e rituais não são mais do que a casca de um fruto vazio. 

Para além da grande qualidade literária da obra de Hermann Broch, ela merece ser lida, relida e profundamente meditada porque pode ser um guia para o nosso tempo. Dito de outra maneira: é possível que muitos de nós nos agarremos aos nossos valores sociais, estéticos, morais e políticos como Joachim von Pasenow se agarrava ao uniforme. O modo como as novas gerações concebem a realidade e a vida, as alterações no domínio da nova economia (mas também da velha), as drásticas alterações geopolíticas, agora com mais uma guerra no Médio-Oriente, e a perda contínua de fé nas instituições democráticas, tudo isso constitui, para aqueles que viveram parte apreciável da sua vida à sombra do triunfo aliado na Segunda Guerra Mundial, uma ameaça anárquica idêntica à sentida pelo ficcional capitão Pasenow. 

Assim como ele se agarrava aos valores que morriam, também nós nos agarramos ao sistema de valores que fez a glória da Europa do pós-guerra. Contudo, por muito que isso nos custe, esse sistema de valores parece já não ter um conteúdo que lhe dê a potência necessária para ordenar o mundo. Tornámo-nos, como aconteceu à velha aristocracia rural alemã, em sonâmbulos. Caminhamos no mundo, conversamos, escrevemos artigos, ostentamos ainda um arremedo de paixão política ou moral, mas, na verdade, não estamos em estado de vigília. Dormimos, pensando que estamos acordados, enquanto esse mundo de valores em que vivemos se desfaz perante os nossos olhos e sob o entusiasmo dos novos Bertrand. Somos agora aqueles que, sonâmbulos, apertam o botão do colarinho da farda com a esperança de que ela nos proteja do vazio e da anarquia. Não protegerá.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.