No romance Pasenow ou o Romantismo, primeiro volume
da trilogia Os Sonâmbulos, do austríaco Hermann Broch, o oficial e
aristocrata rural Joachim von Pasenow utiliza o uniforme como uma protecção
contra a anarquia tanto do mundo exterior, como a do mundo interior, a do corpo.
Por que razão precisava ele dessa protecção? Porque os valores do mundo em que
foi educado, os valores da honra aristocrática, estavam em plena dissolução
perante o avanço de um novo mundo baseado no comércio global, uma realidade representada
pelo seu ex-camarada de armas Eduard von Bertrand. O uniforme militar, o
sentimento de honra e a própria devoção religiosa não correspondiam já a nada
de sólido naquele no ano de 1888, o ano dos acontecimentos ficcionais do
romance, numa Alemanha recém unificada. O uniforme de Joachim é a metáfora
perfeita para mostrar essa situação em que um conjunto de crenças, valores e
rituais não são mais do que a casca de um fruto vazio.
Para além da grande qualidade literária da obra de Hermann
Broch, ela merece ser lida, relida e profundamente meditada porque pode ser um
guia para o nosso tempo. Dito de outra maneira: é possível que muitos de nós
nos agarremos aos nossos valores sociais, estéticos, morais e políticos como
Joachim von Pasenow se agarrava ao uniforme. O modo como as novas gerações
concebem a realidade e a vida, as alterações no domínio da nova economia (mas
também da velha), as drásticas alterações geopolíticas, agora com mais uma
guerra no Médio-Oriente, e a perda contínua de fé nas instituições
democráticas, tudo isso constitui, para aqueles que viveram parte apreciável da
sua vida à sombra do triunfo aliado na Segunda Guerra Mundial, uma ameaça
anárquica idêntica à sentida pelo ficcional capitão Pasenow.
Assim como ele se agarrava aos valores que morriam, também nós
nos agarramos ao sistema de valores que fez a glória da Europa do pós-guerra.
Contudo, por muito que isso nos custe, esse sistema de valores parece já não
ter um conteúdo que lhe dê a potência necessária para ordenar o mundo.
Tornámo-nos, como aconteceu à velha aristocracia rural alemã, em sonâmbulos.
Caminhamos no mundo, conversamos, escrevemos artigos, ostentamos ainda um
arremedo de paixão política ou moral, mas, na verdade, não estamos em estado de
vigília. Dormimos, pensando que estamos acordados, enquanto esse mundo de
valores em que vivemos se desfaz perante os nossos olhos e sob o entusiasmo dos
novos Bertrand. Somos agora aqueles que, sonâmbulos, apertam o botão do
colarinho da farda com a esperança de que ela nos proteja do vazio e da
anarquia. Não protegerá.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.