terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O amor à mentira


Nos últimos anos, a questão da verdade e da mentira no discurso político tornou-se um ponto central. No entanto, o problema é tão velho quanto a própria política, e todos aqueles que se interessam, ainda que de forma lateral, pelo fenómeno político sabem que a mentira sempre fez parte da luta pela conquista e manutenção do poder. Pensar-se-á, por outro lado, que o problema estará na rápida propagação da mentira através dos recursos que as tecnologias de informação e comunicação colocam ao dispor de quem mente. Isso esquece contudo que os mesmo dispositivos estão ao dispor da verdade e que esta, do ponto de vista tecnológico, pode propagar-se tão rapidamente quanto a mentira.

O problema encontrar-se-á noutro lugar. A mentira em política era usada, mas quem mentia corria um risco. Ser apanhado a mentir poderia ter consequências negativas na imagem e nas pretensões ao poder. Os políticos usavam a mentira, fazendo crer que as suas mensagens falsas eram verdadeiras, pois os cidadãos valorizavam a verdade. A mentira valia pela sua aparência de verdade. O que mudou foi a relação de parte substancial dos eleitorados com a verdade.

A verdade deixou de os interessar, pois tem o poder de os ferir nas suas convicções, de os pôr em causa, de lhes mostrar uma realidade hostil ou meramente difícil. Preferem a mentira e quem a usa para dizer o que eles sentem necessidade de ouvir. Assistimos à transição moral, do homem comum, do amor pela verdade para o amor pela mentira política. Esta conforta e confirma a identidade dos indivíduos, os quais se sentem ameaçados por uma realidade que, devido à sua complexidade, deixou de ser compreensível e manejável no âmbito da sua experiência e saber.

O que dá que pensar não é haver políticos mentirosos, mas a existência de eleitorados que preferem a mentira à verdade. A desvalorização do ser verdadeiro, como virtude exigida pelos cidadãos aos políticos, mostra-nos quanto esses cidadãos se sentem ameaçados pela realidade e como esta desencadeia neles um sentimento de fuga. A valorização moral da mentira pelos eleitores torna manifesto que os nossos dispositivos políticos estão desfasados do tempo em que vivemos. As nossas instituições democráticas estão fundadas no sentimento de que justiça e verdade são duas faces da mesma moeda. Ora Isso deixou de funcionar. O que significa que a democracia tal como a conhecemos está a colapsar, enredada no triunfo moral da mentira.

[A minha crónica em A Barca]

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